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24 maio, 2012

A escolha do dr. Márcio

Por Carlos Motta
Do Crônicas do Motta


Cachoeira e o dr. Márcio: o advogado fez sua escolha (José Cruz/ABr)

A foto do bicheiro Carlinhos Cachoeira na CPMI que investiga as suas relações com meia República mostra ao seu lado o seu advogado, Márcio Thomaz Bastos. É emblemática: um dos maiores contraventores do país sendo defendido pelo ex-ministro de Justiça do governo Lula. Água e óleo, sombra e luz, yin e yang, duas pessoas que representam lados opostos da sociedade, juntas num mesmo propósito.


Ao mesmo tempo, a foto revela o contraditório da democracia, que nivela os desiguais e, idealmente, dá a todos as mesmas oportunidades, sejam ricos ou pobres, baixos ou altos, gordos ou magros, brancos ou pretos, e possibilita o amplo direito de defesa para os acusados dos piores crimes.


É nesse ponto que o dr. Márcio entra na história. Um dos mais renomados advogados do país, ele deve ser procurado diariamente pelos mais variados tipos de clientes, desde aqueles que se meteram inocentemente numa encrenca até os mais cínicos delinquentes. Cabe a ele fazer a triagem dos casos que vai pegar, usando para isso critérios particulares, que não cabe a nenhuma pessoa julgar.


O dr. Márcio, leio na Wikipédia, já esteve, em sua longa carreira, ao lado de anjos e demônios: ajudou a acusar os assassino de Chico Mendes e defendeu os assassinos de um índio pataxó, por exemplo. A sua biografia conta que trabalhou em mais de mil julgamentos perante o Tribunal de Júri, muitos deles gratuitamente. Foi ainda um dos fundadores do Instituto de Defesa do Direito de Defesa, entidade cuja missão, explicitada em seu site, "é fomentar na sociedade e em instituições do Estado a idéia de que todos têm direito a ter uma defesa de qualidade, de ter ao seu lado o princípio da presunção da inocência, de ter pleno acesso à Justiça, de ter um processo justo e de cumprir a pena de forma digna. Tudo isso independentemente da classe social, de ser culpado ou inocente, ou do crime de que está sendo acusado. O que buscamos é criar um espírito de maior tolerância na sociedade".


As convicções do dr. Márcio na democracia talvez expliquem por que está ao lado do bicheiro Carlinhos Cachoeira na foto do seu "depoimento" à CPMI - duas horas e meia de um silêncio comprometedor.


Para muitas pessoas, porém, vê-lo ajudando um dos mais notórios contraventores do país, cuja atuação vai muito além de comandar uma quadrilha de jogos ilegais e se amplia no perigoso terreno da manipulação do poder institucional e da própria ordem pública, é estranho, para dizer o mínimo.


Quando deixou de lado o seu escritório de advocacia para se tornar ministro da República do primeiro governo trabalhista depois da ditadura militar, o dr. Márcio claramente assumiu um risco: o governo Lula, desde o início até o fim incomodou muita gente poderosa no país. O dr. Márcio foi um importante aliado na resistência às forças que tentaram, de todos os modos, defenestrar do Palácio do Planalto o ex-metalúrgico, além de ter aprofundado o trabalho de formar no país uma Polícia Federal realmente republicana.
Essa sua atuação, por si só, já o credenciava a se tornar uma figura de relevância na história recente do Brasil. Mas o dr. Márcio parece não se importar com isso, parece dar mais valor ao seu trabalho como advogado criminal, parece que tem prazer em exercer de forma radical o seu ofício, de cultivar a polêmica, de provocar a discussão sobre os limites éticos e morais do profissional do direito.


Se foi essa a sua escolha, nada contra. É uma pena, porém, que uma pessoa com tanto conhecimento e tanta experiência de vida abandone a causa pública e opte por ser feliz ao lado dos vários Carlinhos Cachoeiras que existem por aí e têm condições de pagar os seus honorários.



19 maio, 2012

Expectativa da verdade

Criar expectativas é sempre perigoso. Não temos controle sobre o que virá com o rolar do tempo e mesmo uma opção simples, como andar deste ou daquele lado da rua, pode alterar o que vem. A verdade, apesar de tão subjetiva quanto o decidir andar aqui ou ali, perde a subjetividade diante de um fato incontestável. Um documento, lavrado, assinado, notariado é um fato incontestável. Fotografias e cópias dele também. Gravações e filmes, sem edição, igualmente.

Já a ética anda mais pelo meio da rua, indefinida entre este lado ou aquele, dependendo do tamanho da árvore que acumulou a última chuva, ou das folhas amareladas do outono.

Esta semana tivemos o encontro dessas três, a expectativa, a verdade e a ética.

As gravações feitas pela PF são fatos, portanto verdades incontestáveis, uma vez que documentadas à luz da lei que regula mais ou menos o viver em sociedade. Um dos resultados da divulgação dessas gravações, é uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, CPMI, criada para aprofundar ainda mais as apurações feitas pela Polícia Federal que mostram políticos ligados, bem mais do que se supunha, com o esquema do bicheiro, além da imprensa, que publicava ou não de acordo com seus interesses (os dos políticos e os do bicheiro e toda sua teia de negócios nada lícitos) e algum judiciário.

A investigação da PF mostrou que o bicheiro também controlava a Delta Engenharia, grande empreiteira brasileira, responsável por muitas, das muitas, obras públicas país afora. Em alguns estados, como o Rio de Janeiro, boa parte - das muitas grandes obras - estavam sendo tocadas pela Delta.

A expectativa é que a CPMI investigue e ouça todas as pessoas envolvidas em todos os esquemas e a partir disso se criem mecanismos de controle para que tamanha falcatrua não volte a ocorrer tão cedo, e a conseqüente punição de todos os que, ao usarem esse esquema, feriram a ética dos quatro sustentáculos da democracia : parlamento, executivo, judiciário e imprensa.

Mas, no dia em que se definia quem seria ouvido, um dos principais líderes de um dos partidos signatários do pedido da CPMI, foi flagrado pela imprensa enviando uma mensagem de texto pelo celular a um governador. Esse governador, ao contrário de alguns de seus pares, até onde se sabe, não teve nenhuma conversa gravada com o bicheiro, mas esteve jantando em Paris com um dos diretores da empresa que toca a maioria das obras do estado que ele governa, e que é o braço empreiteiro do senhor dos bichos.

E com a SMS, a ética, que já andava de muletas e enfaixada no meio da rua, foi atropelada por um caminhão sucateiro.

Supõe-se que as pessoas envolvidas no esquema serão processadas a partir da investigação da Polícia Federal. Politicamente, cabe ao congresso. Certo? A partir da visibilidade da tal SMS, podemos confiar que todas as relações serão apuradas? Ou as que interessam eleitoralmente a este ou aquele partido serão ‘esquecidas’, protegidas?

O que esperamos é que a verdade não tenha o mesmo destino da ética, que neste momento, em coma, tenta se recuperar numa UTI mal aparelhada.

Mas é sempre perigoso criar expectativas!

06 maio, 2012

O bandido e a revista

Quem já trabalhou em jornal (tv ou rádio) sabe que vez por outra nos chegam às mãos denúncias. Nem sempre quem as faz é exemplo de ética, mas essas informações, não raro, servem como pontapé inicial para sair atrás e algumas vezes aquela conversa, ou papel, vira uma boa matéria, que traz a público o que muita gente nem gostaria ... Acontece e é ético. Mas saber do mau caráter de alguém, e dos interesses que essa pessoa tem com a publicação de algo,  e usar essa pessoa como fonte de capas e capas de um dos maiores - e até poucos anos atrás respeitado - veículo de comunicação do país, é o quê?

Assista reportagem apresentada pela Record, com gravações feitas pela PF, mostrando a relação promíscua entre o bandido e a revista.
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Do R7




O jornalístico da Record teve acesso às gravações de telefonemas entre o bicheiro Carlinhos Cachoeira, preso acusado por 15 crimes de contravenção, o diretor da revistaVeja em Brasília, Policarpo Júnior, e mostra o esquema em que o contraventor controlava o que seria publicado na principal revista da editora Abril.

Os documentos a que o Domingo Espetacular teve acesso com exclusividade trazem provas de que as informações trocadas entre Cachoeira e o diretor da Veja resultaram ao menos em cinco capas da revista de maior circulação do país.

As gravações registram ainda que a influência esbarra em outras esferas do poder, como na pressão para demissão da cúpula do Ministério dos Transportes, que havia se desentendido com um dos aliados do contraventor, a construtota Delta. Por meio do que Cachoeira passava para ser publicado na Veja, vários funcionários do ministério foram afastados.

Cachoeira se orgulha de “plantar” notícias na Veja em benefício próprio e sabe até quando determinadas matérias sairão.  

A revista ainda não se manifestou com clareza em relação ao caso. O diretor de redação da Veja, Eurípedes Alcântara, publicou na Internet artigo sem citar nomes em que afirma que “ter um corrupto como informante não nos corrompe”.

A reportagem do Domingo Espetacular ouviu especialistas, que registraram grave problema ético no tipo de jornalismo praticado pela Veja diante de tantas ligações criminosas.
O professor Laurindo Leal Filho, da USP, avalia que o controle da publicação não pode ser da fonte.
— O jornalista pode e deve falar com qualquer tipo de fonte desde que tenha o controle sobre a publicação e a matéria que ele está fazendo. Quando ele oferece à fonte o controle (...), ele rompe os limites éticos.
O presidente da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), Celso Schroder, critica o envolvimento da Veja no escândalo do Cachoeira.
— Nesse caso, houve uma relação promíscua muito intensa, unilateral.
O deputado federal Fernando Ferro (PT-PE) acredita que a CPI do Cachoeira, que começou os trabalhos na semana passada em Brasília, deve convocar não apenas o jornalista Policarpo Júnior, mas também o responsável pela editora que publica Veja, Roberto Civita.
— Na minha opinião, ele é o principal responsável. Ele é o dono dessa revista, e ele operou com vontade.


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