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04 abril, 2012

'Jornalismo econômico': o país merece desculpas



















por Saul Leblon 

Durante décadas, o discernimento histórico da sociedade brasileira foi entorpecido por um barbitúrico de alta toxicidade chamado 'jornalismo econômico'. Entre outras, sua especialidade era convencer o país de que o assim chamado 'custo Brasil' interpunha-se como um Everest no acesso dos nativos aos bens da civilização. Somente a entrega dos destinos nacionais à eficiência emanada dos livres mercados destravaria a catraca de acesso ao futuro virtuoso.

Desregulação era a palavra-chave. Dois obstáculos se superpunham: os direitos trabalhistas resumidos no pejorativo bordão da 'herança getulista' e os direitos cidadãos, consagrados na Constituição de 1988, que universalizou 'coisas' como licença maternidade, direito à saúde, aposentadoria rural, entre outras temeridades e precipitações. Os especialistas em suas colunas diárias e emissões intermitentes não poupavam os incrédulos e/ou jurássicos: o país não cresceria, os capitais não ingressariam, o mel não jorraria nos rios tropicais enquanto a arquitetura de proteção do trabalhador e a cidadania precoce não fossem erradicadas do leito pátrio.

Em 2002, nas eleições presidenciais, a sociedade arriscou um palpite diferente. O resto é história. Mesmo sem uma ruptura linear com o receituário ortodoxo, o governo deslocou a ênfase das 'reformas' para o resgate do excluídos e a retomada da agenda do desenvolvimento, banida das prioridades nacionais.

Nesta 3ª feira, a Presidenta Dilma reduziu o custo das folhas salariais das empresas sem remover direitos constitucionais, nem afanar trabalhadores. Como? A retomada do crescimento criou mais de 15 milhões de novos empregos nos dois governos de Lula. Um mercado de consumo popular formado por 103 milhões de brasileiros redefiniu as bases do crescimento. A economia em ritmo de pleno emprego (hoje a taxa de desemprego oscila em torno de 5,5%, contra 9,5% em 2002) promoveu saudável formalização do trabalho precário.

Entre 2003 e 2010 o número de contribuintes da Previdência aumentou 16,8%. A arrecadação previdenciária e o aumento das contribuições sobre o lucro líquido das empresas elevaram a receita fiscal sem aumentar imposto. Foi isso que permitiu ao governo trocar a contribuição previdenciária das empresas dos atuais 20% da folha para um alíquota de 1% do faturamento - que implica redução de 0,5 ponto no custo previdenciário efetivo.

Inverteu-se assim a prescrição martelada durante 30 anos pelos canarinhos dos livres mercados na imprensa: em vez de sucatear a sociedade extraiu-se do crescimento e da disseminação de direitos as energias para cortar os custos e ampliar a competitividade. Há um leque de desafios ainda a vencer na construção de um novo ciclo de desenvolvimento. Mas nada afasta a percepção de que os dogmas embutidos na narrativa 'jornalística' dos anos 80/90 - entre eles o credo anti-estatal, o câmbio livre, a furiosa defesa da livre circulação de capitais e a panacéia dos juros altos associados às metas de inflação - incluem em sua composição doses variáveis de fraude ideológica, interesses endinheirados e genuflexão obsequiosa de profissionais da imprensa, repartidos entre a má fé, a soberba e a ignorância.

Trata-se de um antepasto incompatível com a renovação do cardápio de desenvolvimento brasileiro. É hora de uma autocrítica de profissionais e associações de classe. Pouca dúvida pode haver , cedo ou tarde, um escândalo vai desvelar a rede de 'Cachoeiras e Desmóstenes' nesse braço da desfaçatez midiática. 

22 março, 2012

Cultura: Opção preferencial pelo mercado




















Polêmicas no MinC não são briga por cargos, como quer a Folha de S. Paulo
Blog do Dennis de Oliveira

São Paulo está sediando um evento importante para a discussão dos rumos da política cultural: o I Fórum Internacional de Gestão Cultural. O evento começou na quarta, dia 21 e vai até sexta, dia 23, na Livraria Cultura. O evento é promovido pelo Centro de Estudos Latino Americanos sobre Cultura e Comunicação, núcleo da USP, em parceria com a livraria que sedia o fórum. Por um acaso, o fórum coincidiu com um aumento da discussão sobre a atual gestão do Ministério da Cultura, expresso principalmente com os manifestos defendendo mudanças no ministério (ver post no blog do Rovai).

O caderno Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo publicou, nesta quinta, uma entrevista com o ex-ministro Juca Ferreira, em que o mesmo faz críticas à atual gestão do MinC. A matéria foi pautada no sentido de explorar um racha entre a atual e a anterior gestão do ministério, apesar de, em diversas vezes, Juca Ferreira insistir que não queria fazer uma avaliação da atual gestão. Também houve insistência do jornal em transformar o ex-ministro em candidato à sucessão de Ana de Hollanda. O que salta aos olhos desta matéria do “jornal a serviço do país” é transformar uma discussão de fundo que aborda concepções de políticas de Estado para a cultura em uma briga por cargos ou um racha na aliança governista por cargos. No portal UOL, onde está a íntegra da entrevista, percebe-se que todas as perguntas e respostas que tratam das questões mais de fundo (inclusive o tema do fórum, uma gestão para além do mercado) foram cortadas em prol de enfatizar uma técnica preconcebida do jornal de se tratar de mais uma briga por cargos.

A abertura do Fórum contou com as conferências de Juca Ferreira e Alfredo Manevy, ex-secretário executivo da pasta. As discussões apresentadas por Juca e Manevy foram na direção dos contrapontos conceituais do q ue é cultura, gestão cultural e papel do Estado na formulação de políticas públicas de cultura. Enfim, os motivos pelos quais ambos criticam a atual gestão do MinC.
Assim, a discussão existente atualmente referente ao atual ministério da Cultura se dá não por um desejo de ocupação de cargos mas sim por uma questão de conteúdo e concepção que tangencia, necessariamente, uma reflexão sobre qual é o papel do Estado neste campo. Manevy, em sua fala na abertura como as do Fórum, defendeu que a “cultura e o tema ambiental são os novos espaços de repolitização da sociedade”. Isto porque a emergência da visibilidade da diversidade cultural e os problemas ambientais mais graves forçam uma discussão política global sobre como o Estado deve atuar nestes campos, uma vez que está claro que o mercado, por si, não só não tem capacidade de resolver mas tende a agravar os problemas que se verificam, como as intolerâncias, o racismo e a destruição do ambiente.

Evidente que os jornalistas da FSP não se preocuparam em ficar para ver pelo menos uma parte das falas de Juca e Manevy. Tinham mais o que fazer, produzir mais um simulacro de matéria que desinforma o leitor

Territórios livres (por L.F. Veríssimo)
























por Luis Fernando Veríssimo 


Imagine que você é o Galileu e está sendo processado pela Santa Inquisição por defender a ideia herética de que é a Terra que gira em torno do Sol, e não o contrário. Ao mesmo tempo, você está tendo problemas de família, filhos ilegítimos que infernizam a sua vida e dívidas que acabam levando você a outro tribunal, ao qual você comparece até com uma certa alegria. No tribunal civil, será você contra credores ou filhos ingratos, não você contra a Igreja e seus dogmas pétreos.

Você receberá uma multa ou uma reprimenda, ou talvez, com um bom advogado, até consiga derrotar seus acusadores, o que é impensável quando quem acusa é a Igreja.

Se tiver que ser preso, será por pouco tempo, e a ameaça de ir para a fogueira nem será cogitada. No tribunal laico, pelo menos por um tempo, você estará livre do poder da Igreja. É com esta sensação de alívio, de estar num espaço neutro onde sua defesa será ouvida, e talvez até prevaleça, que você entra no tribunal. E então você vê um enorme crucifixo na parede atrás do juiz. Não adianta, suspiraria você, desanimado, se fosse Galileu.

O poder dela está por toda parte. Por onde você andar, estará no território da Igreja. Por onde seu pensamento andar, estará sob escrutínio da Igreja. Não há espaços neutros. Um crucifixo na parede não é um objeto de decoração, é uma declaração. Na parede de espaços públicos de um país em que a separação de igreja e estado está explícita na Constituição, é uma desobediência, mitigada pelo hábito. Na parede dos espaços jurídicos deste País, onde a neutralidade, mesmo que não exista, deve ao menos ser presumida, é um contrassenso – como seria qualquer outro símbolo religioso pendurado. É inimaginável que um Galileu moderno se sinta acuado pela simples visão do símbolo cristão na parede atrás do juiz, mesmo porque a Igreja demorou, mas aceitou a teoria heliocêntrica de Copérnico e ninguém mais é queimado por heresia. Mas a questão não é esta, a questão é o nosso hipotético e escaldado Galileu poder encontrar, de preferência no Poder Judiciário, um território livre de qualquer religião, ou lembrança de religião.

Fala-se que a discussão sobre crucifixos em lugares públicos ameaça a liberdade de religião. É o contrário, o que no fundo se discute é como ser religioso sem impor sua religião aos outros, ou como preservar a liberdade de quem não acredita na prepotência religiosa. Com o crescimento político das igrejas neopentecostais, esta preocupação com a capacidade de discordar de valores atrasados impostos pelos religiosos a toda a sociedade, como nas questões do aborto e dos preservativos, tornou-se primordial. A retirada dos crucifixos das paredes também é uma declaração, no caso, de liberdade.


18 março, 2012

O governo tem obrigação de prestar contas!


















Por Emir Sader 

O governo leva adiante uma política econômica e social correta, no essencial. Principalmente quando se consolida a tendência a diminuir a taxa de juros, corrigindo seu aumento no começo do governo, e avançando para a taxa média mundial, o que levaria a baixar os incentivos a trazer para aqui o pior capital do mundo, o especulativo, que não gera nem bens, nem empregos, e produz desequilíbrios que colocam em risco o desenvolvimento e as políticas sociais.

Onde o governo deixa a desejar é no plano político. O país não ouve a palavra da presidenta, do governo, explicando, prestando contas, socializando preocupações, buscando mobilização da cidadania e dos movimentos populares, que o apoiam.

O governo tem, antes de tudo, obrigação de prestar contas periodicamente à população que o elegeu, a partir das suas propostas para o Brasil. Para isto, o governo não pode confiar na mídia privada, que funciona muito mais como censura e como filtro, que faz chegar o que quer e da forma que quer, selecionando, recortando, retalhando, deformando mesmo as falas do governo. A população não pode ficar à mercê do monopólio privado da mídia que, como bem disse a Presidenta, diante das importantes políticas do governo, prefere definir outra pauta, de partido opositor, como foi assumido explicitamente por ela durante a campanha eleitoral.

Se fôssemos tomar o primeiro ano do governo Dilma pelo que a mídia faz chegar aos leitores, ouvintes e telespectadores, teria sido um ano marcado pelos escândalos, periodizado pelos casos de cada ministro alvo de denúncias até sua substituição. É preciso dizer que o governo foi pautado pela mídia na sua ânsia denuncista, sem que suas versões tenham chegado à população, salvo através do filtro desse mesma mídia opositora.

Os eixos centrais do governo não chegaram à população sob forma de discurso, de exposição, de propostas, mais além da implementação concreta das políticas. Mas a política não se faz apenas com fatos, ela precisa, de argumentos, de convencimento, de persuasão, mais ainda se queremos que avance – e avance muito – a consciência social dessa imensa massa de gente que está, pela primeira vez, tendo acesso a direitos elementares, que por tanto tempo lhe foram negados.

O governo precisa assumir suas responsabilidades nesse processo de conscientização da massa da cidadania, explicando suas políticas, dizendo as razões pelas quais a situação do povo tem melhorado substancialmente, quais os obstáculos para que siga avançando de forma ainda mais rápida, qual a estratégia do governo, etc. , etc. Não se trata simplesmente de que essa fala faz falta, é que esse espaço é ocupado pelo discurso opositor, que se opõe frontalmente aos argumentos que orientam as politicas do governo. Para eles, quanto menos Estado melhor, todo o caudal de denúncias não é feito para melhorar a ação do governo e do Estado, mas para enfraquecê-los em favor dos mecanismos de mercado, em que se assentam as posições opositoras.

Pregam menos gastos sociais, prioridade do ajuste fiscal, política externa de alinhamento subordinado aos EUA. Como desfrutam do monopólio dos espaços de formação de opinião pública – a que resistimos na imprensa alternativa, mas em um combate de forças muito desiguais, especialmente se consideramos o peso da televisão -, difundem um discurso na contramão do que faz e pensa o governo.

E quem representa, nesse espaço fundamental de disputa das corações e mentes, a maioria da população, que elegeu e reelegeu a Lula e elegeu a Dilma, confirmando que são a maioria no Brasil? O governo teria que assumir suas responsabilidades, garantindo que sua fala chegue a todos os brasileiros. Tem que encontrar os meios, nos espaços públicos atualmente existentes, ou criando formas que derivem da democratização dos meios de comunicação. Mas não pode se ausentar desses espaços, sob o risco de seguir sendo pautado pela oposição e, pior, de que a consciência das pessoas não acompanhe a ação do governo, não por discordância, mas por desconhecimento dos argumentos.

A política e o poder são a combinação da força e da persuasão, conforme as análises insuperáveis de Gramsci. O governo tem o poder das ações e da escolha de cargos, mas tem que fazer acompanhar essa ação da persuasão, do convencimento, do consenso. Se algo eu me atreveria a dizer à Presidenta neste momento, seria simplesmente: Fala, Dilma! Fala, muito, fala sempre, encontrando os meios de que suas falas cheguem às pessoas, se queremos consolidar a nova maioria social e política com uma consciência majoritária baseada em valores solidários e nao nos mecanismos da competição selvagem de todos contra todos que propõem o mercado e difunde a oposição midiática.

O exercício da política democrática é essencialmente o exercício do convencimento, da argumentação, do compartilhamento dos problemas e da convocação da mobilização popular para o protagonismo conjunto do governo e do povo na construção de um Brasil justo e solidário.

15 março, 2012

Os desafios de Pepe Vargas



Por Saulo Bartini

Quem circulou nos últimos meses em Brasília tem uma certeza: a maior bancada do Congresso Nacional nos dias de hoje é a dos parlamentares que querem impingir uma séria derrota à Presidenta. Num quadro como este a nomeação de Pepe Vargas para o MDA não deixa de ser um alento. Resta saber se o novo Ministro vai contar com a paciência e a parceria de Dilma e se – em pouco tempo – conseguirá constituir um time à altura dos desafios colocados para o MDA.

O clima político em Brasília está pesado. Muitos parlamentares se sentem desprestigiados. Outros tantos se sentem traídos e há ainda aqueles que foram derrotados em questões pontuais por ordens expressas da Presidenta. Além disso já é do conhecimento de toda a máquina burocrática de que o “espancamento de projetos” levado a cabo por Dilma inclui também espancar publicamente assessores, ministros e outros subordinados. Com isto instalou-se um clima de medo e paralisia. Ninguém fala, decide ou sugere nada que possa desagradar a Presidenta. E, com isto, muitas decisões fáceis, passam por um critério decisório centralizado e excessivamente demorado. No campo político propriamente dito o quadro também não é bom: Dilma não tem paciência para as costuras, para os acordos menores, para a liberação de emendas paroquiais. E, aos poucos, o que são virtudes poderão se transformar em graves entraves para a nossa Presidenta.

É neste contexto que Pepe Vargas assume o MDA. E, com certeza, assume numa situação privilegiada. Com condições jamais havidas para implementar políticas públicas mas também para incidir politicamente no governo como um todo. Quem conhece Pepe sabe: é habilidoso, trabalhador, e conhece muito do meio político. Resta saber com que velocidade deixará de ser um político conhecido e respeitado no Rio Grande do Sul para se tornar um protagonista da política em âmbito nacional. Mas não há dúvidas: o sentido da escolha de Dilma e do sim de Pepe passa por esta legítima pretensão maior: compor o cenário político nacional e ser – talvez, por que não? – uma alternativa a sucessão do Governador Tarso após um provável segundo mandato deste.

Porém antes que este futuro promissor se abra Pepe vai ter que encarar alguns desafios: como lidar com o tema da Reforma Agrária? Como ampliar e fortalecer a Agricultura Familiar? Como incidir decisivamente no Programa Brasil Sem Miséria? Porque – verdade seja dita – seria injusto cobrar metas de assentamento do ex-ministro Afonso Florence a quem não foram dados os recursos nem os instrumentos para viabilizar assentamentos. E aqui aparece um grande desafio de Pepe: recompor por inteiro o Incra. Em termos de recursos humanos e orçamentários. Pois o ex-ministro pagou um preço enorme por ter aceitado passivamente o controle quase absoluto do Ministro Gilberto Carvalho sobre aquele órgão. Outro desafio de Pepe e que também foi motivo de desgaste de Afonso Florence foi a pouca capacidade de iniciativa em políticas públicas quanto ao Programa Brasil sem Miséria. Mas como viabilizar inserção social produtiva, assistência técnica e crédito onde não há água para beber, quanto mais para plantar como é o caso do semi-árido nordestino? Por fim o tema que mais conquistas trouxe ao MDA: a Agricultura Familiar. Quais são os desafios a serem vencidos para ampliar e massificar um setor médio produtivo, feliz, integrado e moderno que possa sustentar a crescente necessidade de alimentos bons e baratos em nosso país?

A pauta de políticas públicas é grande e desafiadora. A afirmação política do governo Dilma exige também a superação de enormes obstáculos. É nesta hora que Pepe passa a integrar o governo. Que ele possa usar todo o seu talento para consolidar uma gestão que seja motivo de orgulho para todos nós.

11 março, 2012

A 'Miséria' da Privataria




Descontada a personalidade tucana do filósofo, vale a leitura crítica do texto de José Arthur Giannotti publicado no Estadão de domingo.


"Privataria e Ideologia"  


Existe, sim, importante diferença ideológica entre a privatização tucana e a concessão petista, por conseguinte, entre a assim chamada privataria tucana e a privataria petista.

Sabe-se que a todo projeto político corresponde uma forma de corrupção. Já se tornou consenso que o Estado não possui meios para enfrentar a renovação de nossa infraestrutura; daí a urgente necessidade de parceria entre fundos públicos e capital privado. Quais são, porém, os riscos e os lados sombrios dessa associação?

Não tem sido inócua a pregação petista de que o governo Dilma não privatiza, não transfere estatais para o capital privado, apenas as cede por prazos determinados. Depois de seu decurso, as empresas voltariam para as mãos do Estado e, por assim dizer, para as mãos do povo brasileiro. É essa última ilação que aqui pretendo discutir, porquanto entre o Estado e o povo se infiltra a burocracia. Um Estado proprietário não é aquele que mais convém a esse intermediário?

Burocracia e capital, sempre ligados, assumem hoje configurações especiais. A agregação do valor, por conseguinte a criação do valor, passam a depender da tecnociência. Se para Ricardo ou Marx o desenvolvimento tecnológico indicava capacidade produtiva do trabalho, hoje em dia essa capacidade depende sobretudo da inovação, isto é, do desenvolvimento da ciência e tecnologia. Em geral são os recursos públicos que, direta ou indiretamente, financiam a pesquisa básica, e os recursos privados transformam essa ciência em tecnologia e produtos para o mercado. Mas a aplicação ela mesma se tornou tão refinada que sempre coloca questões científicas.

O capital moderno depende desse círculo. Se a tecnociência se entranha no público e no privado, esse também é o caso da tecnoburocracia. Hoje em dia, o burocrata paradigmático é o grupo dirigente de uma multinacional, seja um banco, seja uma indústria petroleira. Se esse grupo não estiver de olho na invenção, ele morre.

Portanto, nada mais natural, e necessário, que o poder público se associe à tecnoburocracia e queira controlá-la politicamente. Como, porém, efetuar esse controle de um ponto de vista verdadeiramente democrático, correspondendo à vontade do povo? Se a chave da burocracia é o segredo, importa tornar transparentes as instituições, o que somente se torna possível se elas sistematicamente prestarem contas a seu público e abrirem seus arquivos para a mídia. Isso depende de instituições de controle que possam se vigiar mutuamente.

Desse ponto de vista, fica clara a opção petista: juntar a tecnocracia privada com sua própria burocracia, sem passar pelo debate público. No máximo passa pelo ritual das eleições, o grande espetáculo da democracia contemporânea onde os problemas, em vez de discutidos, são apenas fantasiados. O PT é um partido extremamente eficaz. Como todos os partidos atuais, está sempre se socorrendo dos fundos públicos, mas sua eficácia depende de sua capacidade de sugar aparelhos de Estado e se associar às empresas amigas. Aparelha o Estado e as multinacionais companheiras, assim como as empresas "concedidas". A recente concessão dos aeroportos o comprova. Três empresas vão carregar no colo 49% do patrimônio pertencente à Infraero que, se fosse competente e financeiramente sadia, dispensaria participação do capital privado. Aqui importa salientar a associação das duas tecnocracias, formando um tecnopoder incrustado no Estado burocratizado, controlando fundos públicos e colocando limites ao capital privado.

Nada mais ingênuo imaginar que essa tecnocracia público-privada, embora implique considerável reforço do Estado, seja efetivamente democrática. Ela tende a se subordinar aos interesses de poder do grupo dirigente. A maneira como os governos Lula e Dilma tratam a Petrobrás o comprova. Nela o governo manda, como lembrou J. S. Gabrielli, logo ao se afastar da presidência da empresa. Pouco importa se essa política ameace um projeto de energia alternativa como o Proálcool. Apenas interessa o poder pelo poder, sem que a oposição tenha tido ciência ou coragem para denunciar o jogo. Tudo isso não enerva as instituições democráticas?

O PSDB nunca possuiu a unidade ideológica e burocrática do PT. Sobretudo hoje em dia, quando se mostra um arremedo de partido aglutinando caciques regionais. Do ponto de vista ideológico, tanto incorpora neoliberais como social-democratas adeptos de políticas keynesianas. Esse grupo, mais à esquerda, aposta num Estado pequeno, porém forte, capaz de intervir intensamente no mercado e na vida social, não através do monopólio de propriedades, mas reforçando instituições reguladoras. Aqui está o nervo da questão. Apesar de a instituição reguladora também correr o risco de se burocratizar e confundir necessidades públicas com necessidades particulares, ela tende a se mover num campo onde as decisões apresentam melhores possibilidades de serem verdadeiramente transparentes e democráticas. Isso se estiver aberta a ponto de discutir livremente suas decisões políticas. Ora, não há discussão proficiente se as divergências forem carimbadas como luta entre amigos do povo, defensores do Estado proprietário e seus inimigos, entreguistas deslavados.

Também uma política verdadeiramente social-democrata não está livre da corrupção. Os operadores do governo, ou aqueles que acabam de deixá-lo, sempre podem usar privadamente informações privilegiadas. E essa tendência só pode ser combatida pela vigilância pública, além de um Poder Judiciário eficaz e protegido do espetáculo.
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04 março, 2012

Uma hora carregada de perigos (Mauro Santayana)

















por Mauro Santayana

Em um de seus inquietantes paradoxos, Chesterton compara dois grandes santos da Igreja, para mostrar que o temperamento antagônico de ambos conduzia a um resultado comum. “São Francisco – dizia o autor de Ortodoxia – era a montanha, e São Domingos de Gusmão, o vale, mas, o que é o vale, senão a montanha ao contrário?”

Em termos lógicos, e nisso o pensador católico foi mestre, o côncavo e o convexo se completam, como as duas partes de uma esfera oca. Seguindo o mesmo raciocínio, a ascensão e a queda, das pessoas, das empresas e – com mais propriedade – das nações, são duas categorias que se integram, no todo histórico. É preciso administrar a ascensão pensando na queda e ver, na queda, a oportunidade de repensar os métodos a fim de recuperar a ascensão.

Tudo indica que o Brasil se encontra em ascensão, mas é preciso ver esse momento com as necessárias cautelas. O mundo passa por um desses espasmos históricos bem conhecidos no passado. A Europa está atônita, daí a sua tentativa de, na demonização dos paises muçulmanos, de cujo petróleo depende, criar um inimigo externo que una os seus países, historicamente adversários. Mas, ainda assim, a crise econômica promovida pela licença de caça que seus governos deram aos bancos, continua a dividi-los.

Ainda que 25 países tenham concordado com a política de arrocho fiscal determinada pela Alemanha, com o apoio da França, a Inglaterra e a Tchecoslováquia negaram sua assinatura. Os países que engoliram a pílula, começam a cuspi-la de volta, conforme a reação de Rajoy, da Espanha, solicitando flexibilidade na adoção das medidas recessivas, qualquer sinal de solidariedade do grupo. O primeiro ministro anunciou em Bruxelas que só pode prometer a redução do déficit público a 5,8 do PIB. E já surgem divergências entre a Alemanha e o Banco Central Europeu.

A Segunda Guerra Mundial foi um excelente negócio para os Estados Unidos, que dela emergiram como a grande potência hegemônica. Agora, no entanto, alguns dos paises que dela participaram e que contribuíram para a vitória com sangue, começam a sair do círculo de giz, e a constituir uma nova realidade planetária. Muitos desses países, como a Índia e a China, foram impiedosamente colonizados pela Europa, até meados do século 20. O Brasil, a Rússia, a Índia, a China e a África do Sul constituem novo pólo de poder, que está atraindo outras nações africanas e asiáticas.

Não se trata, ainda, de uma aliança política. São países bem diferentes, com visões de mundo claramente distintas, mas conscientes de que, se souberem interagir de forma pragmática – no respeito mútuo aos mandamentos de autodeterminação – serão capazes de se defenderem dos projetos de novo domínio anglo-saxão sobre a humanidade.

Durante a Guerra Fria, o pretexto para a intervenção dos Estados Unidos e da Grã Bretanha nos países periféricos era o do combate ao comunismo. Qualquer ação desses países, em sua política interna, que significasse a adoção de medidas de desenvolvimento autônomo, como a reforma agrária, a encampação de empresas estrangeiras que ofereciam serviço público de péssima qualidade, e relações comerciais com os paises socialistas, significava uma traição ao sistema ocidental, “democrático” e “cristão”. Assim, os princípios de autodeterminação dos povos e de não intervenção nos assuntos internos dos Estados foram abandonados, embora a retórica das Nações Unidas continuasse a proclamá-los.

Sendo assim, a América Latina – considerado território de caça de Washington – foi invadida por tropas americana ou por mercenários armados pelos Estados Unidos diversas vezes, isso sem falar na ação ostensiva e clandestina de seus agentes, na preparação dos golpes militares violentos, como ocorreu no Brasil, no Chile, na Argentina, entre outros países.

O Brasil vem sendo elogiado pelos seus êxitos na criação de um grande mercado interno, como resultado da política social e do incentivo às atividades econômicas de Lula e Dilma. Ao mesmo tempo, a partir de 1985, conseguimos manter o sistema democrático, com a realização das eleições conforme o calendário, e a alternância no governo de partidos e de pessoas. É uma hora carregada de perigos. Os Estados Unidos, que se encontram em crise, podem cair na velha sedução de usar dos recursos de que ainda dispõem, a fim de cortar o nosso caminho, como fizeram em 1954, no governo Vargas, e em 1964, com Jango. Não podemos permitir que a luta partidária, legítima e necessária, se deixe influir pelos interesses externos.

Sendo assim, o manifesto dos militares contra o governo tem o efeito danoso de estimular os nossos adversários externos, que nele começam a ver o retorno aos confrontos entre civis e militares do passado, dos quais eles souberam aproveitar-se. O documento já está sendo usado em São Paulo contra a candidatura do PT.

Qualquer movimento que nos divida, como brasileiros, diante das ameaças estrangeiras, deve ser repudiado pelo nosso sentimento de pátria, comum aos civis e militares.

02 março, 2012

O 'desenvolvimentismo de esquerda'

Imagem: Sul 21
















por José Luís Fiori*


No Brasil, a relação entre a esquerda e o desenvolvimentismo nunca foi simples nem linear. Sobretudo, depois do golpe militar de 1937, e do Estado Novo de Getulio Vargas, que foi autoritário e anti-comunista, mas foi também responsável pelos primeiros passos do “desenvolvimentismo militar e conservador”, que se manteve dominante, dentro do estado brasileiro, até 1985. Neste contexto, não é de estranhar que a esquerda em geral, e os comunistas em particular, só tenham mudado sua posição crítica com relação ao desenvolvimentismo, depois da morte de Vargas.

Não é fácil classificar idéias e hierarquizar instituições. Mas mesmo assim, é possível identificar pelo menos três instituições que tiveram um papel central, nos anos 50, na formulação das principais idéias e teses do chamado “desenvolvimentismo de esquerda”.

Em primeiro lugar, o Partido Comunista Brasileiro (PCB), que apoiou a eleição de JK, em 1955, mas só no seu V Congresso de 1958, conseguiu abandonar oficialmente a sua estratégia revolucionária, e assumir uma nova estratégia democrática de aliança de classes, a favor da “revolução burguesa” e da industrialização brasileira, que passam a ser classificadas como condição prévia e indispensável de uma futura revolução socialista.

Em segundo lugar, o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), que foi criado em 1955, pelo Governo Café Filho, e que reuniu um numero expressivo e heterogêneo de intelectuais de esquerda que foram capazes de liderar uma ampla mobilização da intelectualidade, da juventude, e de amplos setores profissionais e tecnocráticos, em torno do seu projeto nacional- desenvolvimentista, para o Brasil.

Por fim, desde 1949, a Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), produziu idéias, informações e projetos que influenciaram decisivamente o pensamento da esquerda desenvolvimentista brasileira. Mas apesar de sua importância para a esquerda, a CEPAL nunca foi uma instituição de esquerda.

Do ponto de vista político prático, no início da década de 60, a “esquerda desenvolvimentista” ocupou um lugar importante na luta pelas “reformas de base”, mas, ao mesmo tempo, se dividiu inteiramente, na discussão pública do Plano Trienal proposto pelo Ministro Celso Furtado, em 1963. Mas logo depois do golpe militar de 1964, a esquerda e o desenvolvimentismo voltaram a se divorciar, e sua distância aumentou depois que o regime militar retomou e aprofundou a estratégia desenvolvimentista do Estado Novo. Três dias depois do golpe, o ISEB foi fechado; o PCB voltou à ilegalidade e a própria CEPAL fez uma profunda auto-crítica de suas antigas teses desenvolvimentistas.

Mesmo assim, apesar destas condições políticas e intelectuais adversas, formou-se na Universidade de Campinas, no final dos anos 60, um centro de estudos econômicos que foi capaz de renovar as idéias e as interpretações clássicas – marxistas e nacionalistas -do desenvolvimento capitalista brasileiro.

A “escola campineira” partiu da crítica da economia política da CEPAL, e de uma releitura da teoria marxista da revolução burguesa, para postular a existência de várias trajetórias possíveis de desenvolvimento para um mesmo capitalismo nacional. Por isso, a escola campineira fez sua própria leitura e reinterpretação do caminho específico e tardio do capitalismo brasileiro e dos seus ciclos econômicos E, se posicionou favoravelmente à uma política desenvolvimentista capaz de levar a cabo os processos inacabados de centralização financeira e industrialização pesada, da economia brasileira.

Hoje, parece claro que a “época de ouro” da Escola de Campinas foi da década de 70, até a sua participação decisiva na formulação do Plano Cruzado, que fracassa em 1987. É verdade que logo depois do Cruzado, e durante a década de 90, a crise socialista e a avalanche neoliberal arquivaram todo e qualquer tipo de debate desenvolvimentista, independente do que passou em Campinas. Mas parece claro que a própria escola recuou, neste período. E dedicou-se cada vez mais ao estudo de políticas setoriais e específicas, e para a à formação cada vez mais rigorosa de economistas heterodoxos, e de quadros de governo.

Seja como for, a verdade é que – com raras exceções - depois do Plano Cruzado, a “escola campineira” perdeu sua capacidade de criação e inovação dos anos 70, e a maioria de suas idéias e intuições originárias acabaram se transformando em fórmulas escolásticas. Por isto, não é de estranhar que neste início do século XXI, quando o desenvolvimentismo e a escola campineira voltaram a ocupar um lugar de destaque no debate nacional, a sensação que fica da sua leitura, é que o “desenvolvimentismo de esquerda” estreitou tanto o seu “horizonte utópico”, que acabou se transformando numa ideologia tecnocrática, sem mais nenhuma capacidade de mobilização social. Como se a esquerda tivesse aprendido a navegar, mas ao mesmo tempo tivesse perdido a sua própria bússola.


*José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

01 março, 2012

Responsabilização (por Luis Fernando Veríssimo)














Do Estadão
por Luis Fernando Veríssimo

O Christopher Hitchens disse certa vez que se fizera uma promessa: não leria mais nada escrito pelo Henry Kissinger até que fossem publicadas suas cartas da prisão. O Hitchens já morreu, o Kissinger continua escrevendo (seu último livro é sobre a China) e são poucas as probabilidades de que venha a ser julgado, o que dirá preso, pelo que aprontou - no Chile e no Vietnã, por exemplo. Sua posteridade como estrategista geopolítico e conselheiro de presidentes está assegurada, ele morrerá sem ser responsabilizado por nada e não serão seus inimigos que escreverão seu epitáfio.

O juiz espanhol Garzón, aquele que mandou prender o Pinochet, estava mexendo com o passado franquista da Espanha, também atrás de responsabilização, e bateu de frente com a reação. Recorreram a um tecnicismo de legalidade duvidosa para barrá-lo. Lá também se invoca uma Lei da Anistia para impedir uma investigação dos crimes da ditadura. Anistia não anula responsabilização. A partir do tribunal de Nuremberg que julgou a cúpula nazista no fim da Segunda Guerra Mundial, passando pelos julgamentos de tiranos em cortes internacionais desde então, o objetivo buscado é a responsabilização, que não tem nada a ver com retribuição, vingança ou mesmo justiça. Até hoje se discute a legalidade formal, de um ponto de vista estritamente jurídico, dos processos em Nuremberg, mas era impensável, diante da enormidade do que tinha acontecido, e sob o impacto das primeiras imagens dos corpos empilhados nos campos de concentração nazistas recém-liberados, que eles não se realizassem. Alguma forma de responsabilização era uma necessidade histórica. Com alguma grandiloquência se poderia dizer que a consciência humana a exigia.

A tal Comissão da Verdade que se pretende no Brasil responderia à mesma exigência histórica, além da necessidade de completar a história individual de tantos cujo destino ainda é desconhecido. A julgar pela rapidez com que, aos primeiros protestos de evangélicos e bispos católicos, o Gilberto Carvalho correu para lhes dizer que a posição do governo em relação ao aborto continuaria retrógrada como a deles, pode-se duvidar da disposição do governo para enfrentar a reação que virá, como na Espanha do Garzón, ao exame do nosso passado e a responsabilização dos seus desmandos. Vamos torcer para que, neste caso, a espinha do governo seja mais firme.

Pois sem responsabilização as histórias ficam sem fim, soltas no espaço como fiapos elétricos, e o passado nunca vai embora.


Combate à desigualdade exige mudanças estruturais

A planilha inconsistente à qual o Brasil se curvou 
























Via Viomundo

Oxalá em 2012 haja maior participação popular nas mobilizações e no debate sobre os verdadeiros desafios que estão postos para a sociedade brasileira

Terminando o carnaval e as medíocres noticias propagadas pela grande imprensa, sempre em torno de algum acidente, das artimanhas dos carnavalescos etc, a pauta política volta a ter importância na sociedade. Ou seja, passada a fase do circo, é hora da realidade tomar conta do Brasil.

Superávit e a política econômica

O governo anunciou o corte de 55 bilhões de reais do orçamento que havia sido aprovado pelo Congresso algumas semanas antes. Segundo o que a grande imprensa noticiou muitos cortes se referem a emendas parlamentares, que se destinam a municípios, mas também a verbas de saúde, educação… Por outro lado, na época da aprovação do orçamento, os parlamentares renovaram a medida que autoriza a Presidência a destinar a seu juízo, nada menos do que 20% de todo orçamento da União. Ou seja, o governo, se quiser, tem um poderoso instrumento com total liberdade para aplicar os recursos públicos orçamentários, nas políticas que possam resolver de fato os problemas prioritários do povo. Mas infelizmente os sinais que vêm do Planalto não são esses, e o governo mantém uma visão estreita, vesga, preocupado apenas com as contas públicas, com a inflação, tal qual outros governos.

A questão fundamental não é o valor do orçamento nem seus cortes. A questão fundamental é que o governo precisa abandonar a política de juros altos (os maiores do mundo) e a transferência de renda de todos os brasileiros via superávit primário para os bancos.

Nenhum país do hemisfério norte pratica a política de superávit. E todos eles têm déficit nos seus orçamentos. Por que o Brasil insiste com essa política burra, que beneficia apenas 5 mil famílias de ricos brasileiros e estrangeiros que especulam seu capital financeiro aplicando em títulos do governo federal, que têm maior segurança do mundo, e as mais alta taxas de juros?

Combate à desigualdade social

A presidenta Dilma disse no Fórum Social Temático em Porto Alegre — e com frequência volta a repetir em espaços públicos — que a meta prioritária de seu governo é o combate a desigualdade social. Todos concordam. Aliás, será a única forma de dar um passo mais a frente do que já foram as políticas de assistência social do governo Lula.

Os movimentos sociais estão convencidos de que se o governo está mesmo interessado em perseguir o combate à desigualdade social, é necessário mudar a atual política econômica. Começando pelo superávit primário e pela taxa de juros. E, junto com a mudança dos atuais critérios de superávit primário, será necessário implementar uma reforma tributaria, que deixe de penalizar os mais pobres e penalize os mais ricos. Como bem explicou, em entrevista ao Brasil de Fato da semana passada, o assessor especial do Sindicato Nacional dos Analistas Tributários da Receita Federal do Brasil (Sindireceita), Rodrigo Thompson.

Não é possível pensar em combater a desigualdade social, sem aplicar mais recursos para educação, como pedem os movimentos para que seja de no mínimo 10% do PIB (Venezuela aplica 9%, Cuba e Coreia do Sul cerca de 16% do PIB).

Não é possível combater a desigualdade social no meio rural, sem promover a democratização da propriedade da terra com uma vigorosa reforma agrária.

Não será possível combater a desigualdade social nas grandes cidades, sem um programa virtuoso de geração de empregos industriais, de maiores salários, e de uma reforma urbana, que combata a especulação imobiliária, que inviabiliza o acesso a moradia digna pelos mais pobres.

As vozes conservadoras do governo já têm a frase pronta. Mas não há correlação de forças políticas para fazer essas mudanças. Pois então promova-se a reforma política, que vai democratizar o processo eleitoral brasileiro e criar condições de maior democracia, de maior participação popular. Assim como é necessário que o governo tome em conta que somente a mobilização popular pode ajudá-lo a fazer reformas estruturais. E o que se vê dentro do governo é um medo das mobilizações, como se elas não fossem parte do processo democrático. As massas têm nas mobilizações sua única forma de exercer pressão e poder político.

Oxalá em 2012 haja maior participação popular, nas mobilizações, no debate sobre os verdadeiros desafios que estão postos para a sociedade brasileira, se quisermos caminhar para uma democracia verdadeira e combater a desigualdade social.

Muitos movimentos sociais têm anunciado mobilizações para as próximas semanas, que devem começar com atos unitários em torno do dia da mulher trabalhadora (8 de março). Depois haverá mobilizações unitárias de professores em todo o país, além de mobilizações no meio rural, com o Movimento de Atingidos por Barragens, o MST, os povos indígenas, etc.

Se o povo sair às ruas, 2012 será muito mais quente e conturbado do que se pode imaginar.

PS do Viomundo: Nem a vitória eleitoral, nem a imensa maioria governista, nem a fortalecida bancada do PT foram suficientes para que o governo avançasse. O governo Dilma toca de lado, quando não recua a bola perigosamente. E os conservadores, supostamente derrotados em 2010, avançam livremente no campo do adversário.

29 fevereiro, 2012

O Brasil entre a ruptura e a inércia

Foto: Sebastião Salgado

por Saul Leblon

O Brasil precisa fazer na educação (e na saúde) o mesmo que Lula fez com o salário mínimo: uma ruptura em relação à inércia conservadora. Num intervalo de oito anos o presidente petista elevou o poder aquisitivo do mínimo em mais de 53% em termos reais. Rejeitou a lógica incremental. Entendeu que mudar apenas na margem seria manter à margem os que sempre viveram na soleira do país.

Deu-se então a mudança estrutural. Um novo degrau de acesso à renda passou a ordenar a vida de milhões de brasileiros beneficiando a economia e toda a sociedade. O poder de compra popular, associado às políticas de combate à fome e à miséria, revelou-se um contrapeso decisivo de demanda interna na crise mundial.

Criticado pela ortodoxia, Lula desabafou: 'foi preciso uma crise igual ou pior que a de 1929 para a elite brasileira entender o acerto histórico dessa decisão'. Os avanços registrados na educação desde 2002 não são desprezíveis. O Fundeb pavimentou o caminho a melhora do ensino básico; o Prouni alargou o acesso à educação superior; a rede de escolas técnicas dobrou. Os resultados só não são melhores porque o gargalo do ensino médio, sob guarda-chuva estadual, ainda desabona a ficha escolar da juventude pobre.

A guerra pela qualidade é uma guerra por orçamento. Os recursos fiscais destinados à educação são da ordem de R$ 85 bi; os da saúde giram em torno de R$ 90 bi. Somados, ficam muito aquém do saco sem fundo da dívida pública que consome mais de 1/3 da receita tributária federal entre juros, refinanciamentos e amortizações. A inércia se propõe a elevar a fatia da educação do equivalente a menos de 5% do PIB para 7% dele. Até 2020.

Mesmo com o aumento substantivo de 22,2%, o novo piso do professorado brasileiro não vai além de R$ 1.451,00, por 40 horas semanais, em classes com média de 30 alunos. Quem se habilita? Pesquisas indicam que a carreira do magistério tornou-se uma espécie de lotação da meia-noite: a escolha dos que não tem mais escolha, por conta das piores notas no ENEM.

Os dados do Enad confirmam: predominantemente, a opção pelo magistério é feita pelos que tem renda mais baixa (até três mínimos) e são obrigados a conciliar o trabalho e estudo. Entidades representativas dos municípios brasileiros alegam que nem isso podem pagar: precisariam de um subsídio federal de R$ 7 bi/ano para viabilizar a nova folha do professorado. Compare-se esse 'déficit' com o supergasto na ponta dos juros: fica claro que o salto na educação passa por um corte graúdo no apetite rentista, caso contrário, como atrair os melhores talentos que uma revolução educacional requer?

Na Finlândia, o extremo oposto que ocupa a 3ª posição no ranking do Pisa, entre 65 países, o magistério é a opção preferencial de um em cada cinco estudantes. Cursos de pedagogia são disputados em uma seleção rigorosa: 10 candidatos por vaga; o ensino é 99% público, não há 'incentivos' de desempenho para escamotear arrocho, classes são pequenas e o salário médio se equipara ao das carreiras mais valorizadas. Um dia a Finlândia decidiu que não podia desperdiçar nenhum jovem. E o Brasil?

27 fevereiro, 2012

PIG é parceiro de empresa de inteligência?



















Por @StanleyBurburin

Veja o e-mail vazado pelo WikiLeaks que mostra que existe um grande jornal brasileiro que é parceiro de uma empresa que fornece serviços de inteligência confidenciais para grandes corporações dos EUA e também para e agências governamentais, incluindo o Departamento de Segurança Interna dos EUA , os fuzileiros navais dos EUA e Agência de Inteligência de Defesa dos EUA.

Do WikiLeaks

The Global Intelligence Files

Na segunda-feira, 27 fevereiro de 2012, o WikiLeaks começou a publicar “Os Arquivos Globais de Inteligência”, mais de cinco milhões de e-mails do Texas sede da empresa de "inteligência global" Stratfor. Os e-mails datam entre julho de 2004 e final de dezembro de 2011. Eles revelam o funcionamento interno de uma empresa que atua como uma editora de inteligência, mas fornece serviços de inteligência confidenciais para grandes corporações, como a Dow Chemical Co. de Bhopal, a Lockheed Martin, Northrop Grumman, Raytheon e agências governamentais, incluindo o Departamento de Segurança Interna dos EUA , os fuzileiros navais dos EUA e Agência de Inteligência de Defesa dos EUA. Os e-mails mostram a teia de informantes da Stratfor, estrutura de pagamento, técnicas de lavagem de pagamento e métodos psicológicos.

LEMBRETE da Confederação - Lista de Anseios do Brasil E-mail ID-5502132
Data: 2011/12/05 15:33:37
De: allison.fedirka @ stratfor.com
Para: econ@stratfor.com, latam@stratfor.com
Lista de nomes-econ@stratfor.com

Estarei enviando a lista de orientações para o nosso parceiro Confederação amanhã. Obrigado a todos aqueles que responderam. Incluí e exemplifiquei uma lista de itens no final deste e-mail. Por favor, sintam-se livres para fazer alterações ou adicionar qualquer coisa ao e-mail.
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Oi a todos,


Ontem me encontrei com um parceiro da confederação brasileira, um grande jornal daqui. Ontem me encontrei com o POC (POC (Militar) = Point Of Contact: Ponto de Contato - http://wikileaks.org/wiki/POC_(military)) [ponto de contato] principal, bem como o cabeça do jornal para discutir como poderíamos tornar a nossa parceria mais produtiva.


Uma das coisas que o jornal solicitou de nós foi uma lista de itens específicos de nosso interesse. Nosso POC (ponto de contato) está disposto a nos colocar em contato com vários repórteres que são especialistas em nossas áreas de interesse. Essas pessoas estarão disponíveis para bate-papos em geral e também questões específicas.

Então, o que eu preciso é de uma lista de itens que nos interessam. É necessário que tenha um bom equilíbrio entre específico versus geral.

Depois de pronto, eles terão uma idéia melhor de quem colocarão em contato com a gente. Então, poderemos enviar perguntas específicas, por exemplo: como é que o derramamento de petróleo pela Chevron afeta os regras do petróleo?

Ontem eu conheci pessoas que podem ajudar com a macroeconomia / política, infra-estrutura e política brasileiras. Então, essas seriam boas áreas para se obter alguns itens de nosso interesse. Esta lista será útil tanto para a cooperação e para atualização da nossa orientação. Gostaria de obter essa lista para o nosso POC na segunda-feira da próxima semana ou terça-feira no mais tardar.

Obrigado,
Allison

ECONOMIA
- A decisão política sobre crescimento, inflação
- Disputas comerciais com a Argentina
- Relação com a China; investimentos em energia, dumping de mercadorias, concorrência no setor

INFRA-ESTRUTURA
- Modernização dos projetos portuários
- Medida a ser implementada para se certificar de que os projetos da Copa do Mundo serão concluídos dentro do prazo

DEFESA
- Os exercícios militares na fronteira
- 13 tratados com os países fronteiriços para coordenar os esforços na luta anti-droga
- Qualquer pressão sobre os orçamentos militares em face de restrições financeiras

Política brasileira
- Remodelação do gabinete em Janeiro[2012, acredito – posse de Dilma]
- Resultados e conseqüências da votação para divisão do estado do Pará.




24 fevereiro, 2012

O enigmático Dragão Vermelho e o Brasil

por Milton Pomar

Uma das causas para a rápida ascensão do Brasil no ranking das economias mundiais é a relação comercial com a China, que evoluiu de US$ 2,3 bilhões em 2001, para US$77 bilhões no ano passado. Cresceu tanto o ingresso de capitais chineses no Brasil, que além de maior parceiro comercial e maior comprador de produtos agropecuários, a China tornou-se também o maior investidor no setor produtivo brasileiro. No curto prazo, as compras e investimentos chineses são bem-vindos, mas será que eles resistem a uma análise de caráter estratégico? 

Existe Plano B?

Dentro de mais alguns anos, o Brasil deverá entrar para o clube das cinco maiores economias do mundo, do qual fazem parte hoje os Estados Unidos, China, Alemanha, Japão e França. Seremos então o país com o 5º maior PIB. Provavelmente na época já não teremos a maior taxa de juros do mundo, nem estaremos mais na companhia dos quatro países com a pior concentração de renda, mas o Brasil continuará sendo o maior em exportações de soja, açúcar, carnes, celulose, café, suco de laranja, etanol de cana-de-açúcar, minério de ferro etc. Como o único critério para ser aceito nesse clube é a grandeza do PIB, o Brasil fará parte dele, mesmo distante dos demais sócios em aspectos decisivos: nível educacional da população; dimensão do mercado consumidor; participação na indústria mundial; transporte de cargas por ferrovia e hidrovia; taxa de investimento em relação ao PIB; participação do comércio exterior na formação do PIB; e investimento em Ciência, Tecnologia e Inovação.

Uma das causas para essa rápida ascensão do Brasil no ranking das economias mundiais (era a 12ª maior, há apenas dez anos), é a relação comercial com a China, que evoluiu de US$ 2,3 bilhões em 2001, para US$77 bilhões no ano passado. As exportações brasileiras para a China batem recordes, ano após ano: US$ 44,3 bilhões em 2011, quase o dobro das vendas para os EUA (US$ 25,9 bilhões). Mantido esse ritmo de crescimento, superior a 40% anuais, o comércio com a China deverá atingir US$300 bilhões em 2015. E há os investimentos no Brasil, cada vez maiores, em indústrias de diversos setores, de vários estados. Cresceu tanto o ingresso de capitais chineses no Brasil, que além de maior parceiro comercial e maior comprador de produtos agropecuários, a China tornou-se também o maior investidor no setor produtivo brasileiro.

A sociedade brasileira assiste atônita a essa ofensiva comercial chinesa. As quantias crescentes tendem a ofuscar a análise qualitativa do que é comprado e do que é vendido pela China, e se diz assim porque a iniciativa é muito mais dela. Diversas lideranças industriais têm protestado, alertando sobre os riscos da desindustrialização que já estaria ocorrendo no Brasil. Alguns intelectuais, em geral economistas, escrevem com freqüência sobre os possíveis impactos dessa relação desigual – o Brasil comprando manufaturados da China e ela comprando commodities, ambos em quantidades crescentes. Até agora, o resultado das trocas comerciais com a China tem sido positivo para o Brasil, tendo inclusive mais do que dobrado em 2011, em relação a 2010, a ponto de responder por quase 40% do superávit total da balança comercial brasileira. No curto prazo, as compras e investimentos chineses são bem-vindos, mas será que eles resistem a uma análise de caráter estratégico?

O movimento de lá para cá segue claramente uma estratégia, perceptível nos discursos e ações dos dirigentes políticos e das empresas chinesas – apesar de serem de setores diferentes, revelam sintonia entre si, como se cada qual soubesse a sua parte no jogo. Enquanto isso, do lado de cá, há divergências em relação ao que fazer com a China nos governos, legislativos, universidades, entidades empresariais e sindicais, mídia etc. O meio empresarial brasileiro está visivelmente “rachado” no tema China, entre os setores que estão ganhando muito dinheiro – agronegócio, mineração e comércio –, e os segmentos do setor industrial que estão perdendo. Sindicalistas, intelectuais, empresários e integrantes dos governos falam da possibilidade do ressurgimento do desemprego, caso as importações de manufaturados da China continuem crescendo, e muitos temem, em relação a empresas chinesas, a concessão de áreas de exploração de petróleo e a venda de terras agrícolas e minas, entre outros perigos para a economia e a soberania nacionais.

Quem analisa a situação do ponto de vista estratégico para o Brasil, leva em consideração o que ocorreu com os Estados Unidos na relação com a China, desde que esta iniciou seu programa de reformas e abertura, em 1980, após o fim do bloqueio norte-americano (que durou de 1949 a 1979). Naquele ano, a China não estava entre as dez maiores economias do mundo; até 2020, será a maior economia mundial. Durante as décadas de 1980 e 90, a China realizou uma proeza impensável: conseguiu a transferência de milhares de indústrias dos EUA para o território chinês, onde elas respondem hoje por mais de 60% das exportações “made in China”. Esse fenômeno resultou na redução significativa da participação dos EUA na indústria mundial, no período 1980/2010, e na multiplicação por dez da participação da China (de 1,5% para 15%). Outro indicador impressionante dessa inversão do peso dos dois países no mundo é revelado pela Organização Mundial do Comércio (OMC): no período 1948/2010, a China saiu de 0,9% de participação nas exportações mundiais para 10,6%, e os EUA caíram de 21,7% para 13,2%. No mesmo período, os EUA mantiveram a sua fatia nas importações mundiais em 13%, enquanto a China saltou de 0,6% para 9,3%.

Perdendo parte considerável da sua importância na indústria e comércio mundiais para a China, restou aos EUA fincar pé nas exportações agrícolas e cortar fundo nas despesas militares, reduzindo centenas de bilhões de dólares do orçamento do Pentágono, diminuindo os efetivos das bases que ainda mantêm em quase todo o mundo e retirando-se do Iraque. A prioridade militar dos EUA agora é o Pacífico, onde precisam manter presença ostensiva por causa justamente da China. Registre-se que o encolhimento militar dos EUA é inversamente proporcional à modernização das forças armadas chinesas, que tem realizado expressivos investimentos em equipamentos bélicos, treinamentos etc. Mas nada é mais simbólico da transformação radical promovida pela China na relação com os EUA, do que o fato dela ser hoje a sua maior credora, com quase um trilhão e meio de dólares em títulos do Tesouro norte-americano.

Como tudo isso ocorreu muito rápido, e a situação chinesa de hoje é infinitamente superior à de 1980, causa arrepio na espinha pensar no que pode acontecer com o Brasil na relação com a China, se deixarmos o barco correr para ver aonde a correnteza vai nos levar. Daí o medo (quase pânico) de muitos que acompanham o assunto, de que as coisas cheguem a um ponto sem volta, que se traduziria, em termos práticos, no Brasil tão-somente grande exportador de commodities para o mundo, particularmente para a China, e dependente da importação de manufaturados, em especial chineses, com perdas econômicas gigantescas, resultando em desemprego, queda da arrecadação e tudo o mais que os EUA enfrentam hoje. Situação agravada pelo peso chinês em setores estratégicos da economia nacional, como mineração e energia.

Diferenças importantes a considerar

Ainda que esse quadro assustador baseie-se no exemplo norte-americano, há aspectos diferenciais no caso brasileiro que devem ser considerados, para que se possa estabelecer a relação com a China em outras bases, de maneira a assegurar ao Brasil os recursos necessários ao desenvolvimento do país e melhor participação no maior mercado consumidor do mundo.


Sabemos da realidade brasileira, do potencial e das debilidades estruturais das diferentes regiões. Mas o que se sabe realmente sobre a China no Brasil – nas universidades, entidades empresariais e sindicais, governos federal, estaduais e das maiores cidades, empresas internacionalizadas e na mídia? Mesmo onde os ganhos são mais expressivos, sob todos os aspectos, como é o caso do agronegócio (ainda que o lucro das mineradoras esteja nas alturas), pouco se investe para conhecer as características do mercado, as tendências das demandas alimentares chinesas e as possíveis iniciativas do governo e empresários do país para lucrarem com o setor, sem abrirem mão da soberania alimentar, algo vital para a China.

Chega a ser perturbador constatar a leviandade com que o país é tratado por gente importante, expressa na utilização de informações erradas e em uma dose considerável de preconceitos. É inegável que estamos despreparados para lidar em pé de igualdade política e comercial com a segunda maior economia do mundo. Felizmente, essa situação está mudando para melhor, há mais pessoas no Brasil se preocupando em aprofundar o conhecimento e as relações com a China, buscando oportunidades não apenas comerciais, mas também de intercâmbios em áreas diversas.

A soja é um bom exemplo dos benefícios da entrada decisiva da China no mercado mundial. O Brasil atingiu a produção de 1 milhão de toneladas em 1969; dez anos depois, chegou a 15 milhões de toneladas. Foram necessários mais 20 anos para a produção dobrar. Com a China comprando, em dez anos a produção brasileira dobrou novamente, atingindo 70 milhões de toneladas. Significa que não apenas houve aumento da produção, mas também da produtividade – resultado de ciência e tecnologia e da utilização de insumos industriais. Essa mesma lógica serve para a celulose; etanol de cana-de-açúcar; carnes suína, bovina e de frango; fumo; suco de laranja; algodão; e outros produtos agrícolas.

Maior compradora de produtos agropecuários do Brasil, tudo indica que a China seguirá importando em velocidade muito superior ao do crescimento da sua economia: tem 20% da população mundial e há cada vez mais pessoas com maior poder aquisitivo; dispõe de pouca água (6% da existente no mundo), mal distribuída e com risco de contaminação; seu estoque de terras disponíveis para agricultura está no “limite vermelho”; o esforço permanente para aumentar a produtividade agrícola tem um custo muito alto, que requer subsídios cada vez maiores; e a produção de grãos tem se mantido em 550 milhões de toneladas. O detalhe aparentemente contraditório é que a China não só exporta produtos agrícolas, como tende a transformar-se rapidamente em um grande pólo agroindustrial, utilizando matérias-primas próprias e importadas para a industrialização em larga escala de alimentos e outros produtos.

Passar de maior importadora agrícola, para maior exportadora de alimentos industrializados, papel, tecidos de algodão e outras fibras naturais, móveis de madeira etc para a Ásia (2,5 bilhões de pessoas), será o grande “pulo do gato” do dragão chinês. Vendedora por natureza, altamente capitalizada, com 800 milhões de pessoas economicamente ativas, localização central, fronteiras terrestres e ligação ferroviária atual ou futura com 15 países, a China revolucionará a logística de transporte mundial de uma maneira fantástica, porque construirá ferrovias entre países da Ásia Central, na sua região oeste, e o Oceano Pacífico, onde possui os maiores portos do mundo e gigantesca frota mercante. Esse plano foi anunciado por autoridades do governo central chinês em 2008, na cidade de Chengdu, capital de Sichuan, durante evento reunindo 12 províncias e regiões autônomas e representantes dos países vizinhos. Quando estiver concretizada essa “Rota da Seda sobre trilhos”, as trocas comerciais da Ásia com o restante do mundo atingirão volumes impensáveis hoje.

A capacidade de transporte por ferrovia é uma das razões da competitividade imbatível chinesa: mais de 80 mil km, ligação entre todas as municipalidades, capitais de províncias e de regiões autônomas, velocidade média de 80 km/h para carga (os trens de passageiros vão de 100 km/h a 350 km/h), com um movimento tão grande que só perde para o dos Estados Unidos. Após construir a ligação ferroviária entre Qinghai e Lhasa (capital do Tibet), a última entre capitais que faltava, e as ferrovias de alta velocidade, entre Beijing e Shanghai, o próximo objetivo é aumentar a malha para 100 mil km.

Uma ferrovia ligando o Oeste brasileiro ao Pacífico aumentará a competitividade da exportação de soja para a Ásia, tornando o preço do produto brasileiro imbatível. Essa possibilidade, mais o potencial agrícola, florestal e mineral da região, tornam o investimento na construção muito atraente para empresas chinesas, que também se interessarão em vender locomotivas, vagões e trilhos. Considerando os cenários possíveis do setor agropecuário mundial para os próximos dez anos, essa ferrovia adquire uma importância extraordinária para o agronegócio brasileiro, cujo crescimento internacional (exportou US$94,6 bilhões ano passado, 24% a mais em relação a 2010) incomoda muito a concorrência, principalmente a norte-americana, que será a mais afetada por essa ferrovia na disputa pelo mercado asiático. Apesar disso, até aonde se sabe, não há nenhum trabalho da região ou do governo federal sendo desenvolvido com o objetivo de atrair investimentos do país com a maior liquidez do mundo.

As oportunidades do crescimento chinês

Crescer tanto, com dezenas de milhões de pessoas migrando o tempo todo das áreas rurais e demandando infra-estruturas e empregos nas cidades, gera várias contradições e desigualdades. Trata-se de construir, nos próximos 30 anos, o equivalente a dois “brasis”. Calcular as quantidades necessárias de energia, cimento, aço, alumínio, vidro, madeira, plástico, e tudo o mais, para tantos edifícios residenciais e comerciais, indústrias, escolas, hospitais etc, chega a ser surreal. Além disso, durante o processo contínuo de migração e construção, deverá continuar ocorrendo aumento da renda, e por conseqüência, aumento do consumo, como tem sido desde 1980, efetivando um ingresso na classe média chinesa de mais 300 milhões, ou 400 milhões, elevando o seu mercado consumidor para inacreditáveis 700 ou até 800 milhões de pessoas.


Ainda que muitos analistas não acreditem que o fenômeno chinês vá continuar por muito tempo mais, é bom considerar essa possibilidade, e se preparar para aproveitar as oportunidades em todas as áreas, porque a China precisará importar mais, seu parque industrial não dá conta de atender a demanda doméstica, muito menos o crescimento dela decorrente da decisão governamental de continuar o crescimento via consumo interno. Mas de onde ela vai importar mais, se os custos de produção europeus, norte-americanos, japoneses e brasileiros são muito maiores dos que os seus? Por isso, a China precisará investir muito, na própria China e no restante do mundo, para aumentar a capacidade de produção e reduzir custos. Ano passado, ela recebeu 103 bilhões de dólares em investimentos estrangeiros, e teria investido no exterior pouco mais de US$60 bilhões.

Esse movimento simultâneo (atrair investimentos e investir em outros países) continuará em grande escala, porque ao mesmo tempo em que é “obrigada” a investir em ativos em outros países, precisa obter capital alheio, porque o seu superávit na balança comercial está caindo (ano passado foi US$28 bilhões menor, em relação a 2010), e a tendência é continuar assim, conforme aumentem as suas importações. Prova da sua disposição de continuar atraindo capital estrangeiro é a decisão do governo, anunciada dia 30 de dezembro de 2011, e em vigor a partir de 30 de janeiro de 2012, de abrir mais setores da economia ao investimento estrangeiro. O objetivo declarado pela Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma da China e o Ministério do Comércio é atrair investimentos em “indústrias emergentes estratégicas”: economia de energia, energias alternativas, veículos de combustíveis alternativos, despoluição, tecnologias de informação de nova geração, biotecnologia, produção de equipamentos modernos e materiais avançados.

Ao mesmo tempo, permitirá aumento do capital estrangeiro em alguns setores, velha reivindicação dos investidores, que se recusavam a ficar minoritários nas sociedades. O comunicado conjunto dá conta ainda que o governo “continuará dando as boas-vindas aos investidores estrangeiros em indústrias de ponta e de serviços modernos”, e também os incentivará a investir nas indústrias de reciclados.

As novas diretrizes do governo chinês reforçam a atração de investimentos e indicam por onde caminhará a política industrial do país nos próximos anos: o governo retirará o apoio ao capital estrangeiro na produção de automóveis, devido à necessidade de obter “um saudável desenvolvimento da produção nacional nesse setor” e tampouco apoiará o investimento estrangeiro nos setores de silício poli-cristalino e química de hulha, devido ao receio de excesso de oferta industrial e excesso de capacidade instalada. Por fim, o governo chinês anunciou que produzirá “uma política detalhada para as regiões central e oeste do país, levando em consideração as diferenças de desenvolvimento regional”.

Atrair investimentos da China para o Brasil

A Agência de Promoção de Exportações e Investimentos (APEX), conta com escritório na China, em Beijing. Sua congênere chinesa, a Ccpit, com a qual possui acordo de cooperação, está estruturada a nível central, setorial, provincial e municipal. Enquanto o Brasil possui uma APEX, a China possui 700 Ccpit. Quando o Brasil se dispuser a atrair investimentos chineses, precisará de escritórios e equipes da APEX também em Shanghai, Guangzhou e outras grandes cidades chinesas. Tem que estar perto, tem que conviver, conhecer, estabelecer relações. Essa lógica vale também para a representação diplomática brasileira na China. Além da embaixada e consulado em Beijing, há consulados também em Shanghai, Guangzhou e Hong Kong. A equipe brasileira é hoje bem maior do que era há dez anos, mas ainda assim, não chega a 10% do efetivo norte-americano e é menos de um terço da representação do Canadá. Com um agravante: muda a cada quatro anos. Ou seja, quando o diplomata começa a conhecer a China, ele vai embora.

O Banco do Brasil tem um escritório em Shanghai, onde está a maioria das empresas brasileiras na China. Mas falta Banco do Brasil em Guangzhou, no sul da China, e em Beijing, no norte. Aumentar a presença institucional do Brasil na China é fundamental para todos que queiram se relacionar com o país: estudantes, empresários, governos, artistas, esportistas. Enquanto o programa do governo federal de envio de estudantes para o exterior quer “exportar” 75 mil jovens para o mundo, o governo Obama anunciou sua disposição de mandar 100 mil estudantes somente para a China (contrapondo-se assim aos 130 mil estudantes chineses nos EUA), para aprenderem a língua e conhecerem a cultura do principal adversário dos EUA.

Competição e competitividade

O panorama mundial é deveras preocupante, mas para muitos no Brasil a relação comercial com a China é mais preocupante ainda pelos riscos que implica, até porque algumas das empresas que querem vir para o Brasil são estatais. Ainda está vivo na memória o ocorrido na segunda metade do século passado, quando o Brasil foi “invadido” e “dominado” por empresas norte-americanas, alemãs, japonesas, francesas, italianas etc, que tornaram-se donas de minas, fazendas e indústrias. De mais a mais, competir com as empresas chinesas parece ser impossível, elas trabalham com juro de 5%, quase metade da carga tributária brasileira, custos de produção e de transportes muito menores e margens de lucro inferiores às praticadas no Brasil.


Competindo com todos os países, o Brasil comprou e vendeu um total de US$482 bilhões em 2011, quase o mesmo, em termos populacionais, que os US$3,6 trilhões obtidos pela China. Mais do que a competitividade das chinesas, a maior dificuldade comercial das empresas brasileiras naquele mercado é a competição com empresas do mundo inteiro, que já estão lá há vários anos. Existem algumas dezenas de empresas do Brasil na China, e dezenas de milhares dos outros países. Enquanto uma empresa do setor lácteo nacional reluta em investir no mercado chinês, empresas da China importam anualmente 100 mil vacas leiteiras do Uruguai, Nova Zelândia e Austrália, com o objetivo de formar um rebanho leiteiro de alta qualidade. Hoje a China já produz mais leite de vaca do que o Brasil, e importa leite em pó a preços inferiores aos praticados por nossas empresas no mercado internacional.

O aumento da entrada de produtos chineses no Brasil é resultado exclusivo da ação de empresas brasileiras, dos setores industrial e do agronegócio, que vão até lá comprar, visando obter redução de custos e a elevação das margens do que produzem, e do setor comercial, que busca preços que permitam margens elevadas na revenda. Entidades empresariais desses setores organizam e levam comitivas para comprar na China, e esse movimento cresceu demais nos últimos cinco anos, resultando em aumento da quantidade de empresas que importam da China e em US$33 bilhões de compras em 2011.

Esse quadro complexo, contraditório e volátil, requer da sociedade e do governo brasileiros definições de como lidar com a China, de maneira a permitir realizar uma ofensiva articulada, visando estreitar relações nas áreas cultural, esportiva, educacional e de ciência e tecnologia; aumentar a presença institucional do Brasil no país; e estimular ações dos governos e das empresas, de atração de investimentos e de penetração no mercado chinês, inclusive através de instalação de indústrias lá. Temos necessidade e condições de fazer tudo isso, nós só não temos um “Plano B”.


(*) Milton Pomar é empresário, editor da revista em chinês “Negócios com o Brasil”

Artigo publicado originalmente na revista Amanhã (edição de Fevereiro/2012).

23 fevereiro, 2012

A obra em que Darcy Ribeiro desafia o Brasil






















Do OutrasPalavras
por Arlindenor Pedro*

No ano de 1995, o professor Darcy Ribeiro conseguiu concluir e publicar a obra que mais desejava mostrar ao mundo: o livro O Povo Brasileiro: a Formação e o Sentido do Brasil.

Na verdade, Darcy passou a maior parte de sua vida almejando escrevê-lo. Por duas vezes na sua conturbada vida de antropólogo, indigenista, filósofo, educador, escritor e político, tentou concluí-lo, sendo sempre afastado do epílogo pelas batalhas em que sempre se envolveu. Só o fez, quando sentiu que tinha pela frente um inimigo que não podia vencer – a morte, que o rondava desde muito, mas que sempre adiava sua cartada final, pois ele a convencia de que ainda não era hora. Parece que houve um acordo final, nesse jogo de xadrez bergmaniano. Tomou a forma de uma pequena trégua. Após escapar do CTI de um hospital, de quase ninguém acreditava que saísse vivo, Darcy encontrou forças do fundo do seu ser, exilou-se em Maricá e legou à posteridade essa obra – talvez a mais magistral de todas, da robusta lista de criações originais que fez sobre o nosso Brasil. 


Em 2005, um documentário em linguagem televisiva procurou popularizar as ideias contidas no livro. Produzido pela Fundação Darcy Ribeiro, TV Cultura e GNT, dirigido por Isa Ferraz e materializado (em 2 DVDs), sugere estabelecer contato com o Brasil fantástico de Darcy e com o que significamos, segundo ele, como participantes da grande história universal.






Darcy parte de uma pergunta que o atormentou por toda a vida. Por que, a despeito de todas as condições favoráveis, o Brasil ainda não deu certo? Para superarmos o que nos amarrava, ele acreditava, era imperioso saber quem somos, qual a gênese de nossa formação e no que ela resultou. Nesse sentido, a idéia de lançar o conteúdo do livro em linguagem televisiva foi perfeita.

Sabemos que a sociedade contemporânea é da televisão. Ela está presente em todos os lugares e influencia fortemente o comportamento do cidadão no seu dia-a-dia. Acompanha-o quando acorda; nos ônibus e carros com que se desloca ao trabalho; nos restaurantes onde come e na sala de espera de seu médico ou dentista; no celular e na Internet; em casa, à noite, dividindo tempo precioso com a família. Ao empregá-la, as classes dominantes procuram manter os cidadãos amorfos, sem uma concepção de mundo própria. Na disputa pelo poder de Estado, ela constrói vitórias e derrotas eleitorais. Tornou-se um clássica, por exemplo, a manipulação promovida pelo Jornal Nacional nas eleições presidenciais de 1989, após o debate entre Collor e Lula, distorcendo a imagem do último a ponto de evitar sua provável vitória nas urnas.

Mas o uso apropriado de veículos como a TV também pode produzir resultados excepcionais, difundindo vastamente certas ideias, como já nos dizia Rossellini, com seu cinema pedagógico. Mostrar ao brasileiro a sua cara, através de um documentário baseado na obra de Darcy Ribeiro, é a estratégia mais correta para despertar as ideias contidas em seu livro, libertando-as do campo meramente acadêmico, em que poucos irão entendê-lo e lançando-as à população. Muito de acordo, aliás, com as concepções do próprio autor.

Embora doutor honoris causa pela Sorbonne, plenamente reconhecido em grandes universidades; criador, ele próprio da Universidade de Brasília, ministro da Educação no governo João Goulart e autor de livros ediados em vários idiomas, Darcy não foi uma unanimidade (se é que isto existe realmente) na academia. Sua história de “fazedor” desenvolve-se plenamente no campo, na ação da prática de vida-vivida, segundo o axioma marxista de que “os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo de diversas maneiras, mas o que importa é transformá-lo” (Karl Marx, in Teses sobre Feuerbach). Por suas atitudes, colecionou muitos seguidores, mas também muitos opositores.

Darcy faz parte da galeria de grandes intelectuais, que pensaram o Brasil e desenvolveram, no pós-II Guerra Mundial, teses para nossa consolidação como uma das grandes nações do mundo. O grupo inclui Florestan Fernandes e a chamada Escola Paulista de Sociologia; intelectuais oriundos dos partidos de esquerda – comunistas, socialistas, e outros; economistas da escola cepalina, que influenciaram governos como os de Vargas, Juscelino, Jânio e João Goulart.

Profundo conhecedor do interior Brasil, principalmente pela estreita ligação com o Serviço de Proteção ao Índio (SPI), do Marechal Rondon, e com os indigenistas da época, como os irmãos Villas Boas, Darcy destacou-se pelos seus valiosos estudos sobre etnias indígenas brasileiras. Passou a ter dimensão nacional quando se aproximou do professor Anízio Teixeira e os educadores da “Nova Escola”, incorporando aos seus estudos a questão educacional no Brasil.

Suas formulações teóricas sempre estiveram ligadas a uma prática política com um conteúdo ideológico definido: ele partia da concepção de que na raiz de um pensamento existem sempre interesses de classes, que determinam a sua essência. Darcy escolheu um lado, e este foi sempre o dos despossuídos, tendo grande capacidade de se colocar na posição do outro e de fazer do interesse do outro o seu problema.

Por suas ideias e ações políticas – exerceu, por exemplo, importante influência no governo João Goulart – granjeou muitos inimigos. Por isso, foi obrigado ao exílio, após o golpe de Estado de 1964.

Mas jamais deixou de produzir. Em 1968, lançou O Processo Civilizatório, em que se atreve a uma revisão crítica dos esquemas conceituais propostos pelos estudos clássicos de antropologia. Esboça uma nova visão acerca do desenvolvimento humano que gera forte impacto, haja vista não estar enquadrada nos esquemas teóricos tradicionais.

Darcy se queixa: “… nos faltava uma teoria geral, cuja luz nos tornasse explicáveis em seus próprios termos, fundada em nossa experiência histórica. As teorizações oriundas de outros contextos eram todas elas eurocêntricas demais e, por isso mesmo, impotentes para nos fazer inteligíveis. Nosso passado, não tendo sido o alheio, nosso presente não era necessariamente o passado deles, nem nosso futuro um futuro comum. (…) O processo civilizatório é minha voz nesse debate. Ouvida, quero crer, porque foi traduzida para as línguas de nosso círculo ocidental, editada e reeditada muitas vezes é objeto de debates internacionais nos Estados Unidos e na Alemanha. A ousadia de escrever um livro tão ambicioso me custou algum despeito dos enfermos de sentimentos de inferioridade, que não admitem a um intelectual brasileiro o direito de entrar nesses debates, tratando de matérias tão complexas. Sofreu restrições, também, dos comunistas, porque não era um livro marxista, e dos acadêmicos da direita, porque era um livro marxista. Isso não fez dano, porque ele acabou sendo editado e mais lido do que qualquer outro livro recente sobre o mesmo tema” (Darcy Ribeiro, in O Povo Brasileiro).

Seguindo a esteira de grandes pensadores da sociedade brasileira, desde a Semana de Arte Moderna de 1922, Darcy nos via na construção de uma civilização original: tropical, mestiça e humanista. Dos índios, segundo ele, herdamos a capacidade e o talento para o convívio; dos negros, a espiritualidade e a ação sobre o invisível e o não dito; dos europeus a tecnologia e racionalidade. Estaríamos prontos, pois, para ser uma das civilizações do mundo. Seriamos o novo, capaz, na medida em que tomássemos conhecimento de nós mesmos, de contribuir para o avanço histórico da humanidade.

“Nessa confluência, que se dá sob regência dos portugueses, matrizes raciais dispares, tradições culturais distintas, formações sociais defasadas se enfrentam e se fundem para dar lugar a um povo novo, num novo modelo de estruturação societária. Novo porque surge como uma etnia nacional, diferenciada culturalmente de suas matrizes formadoras, fortemente mestiçada, dinamizada por uma cultura sincrética e singularizada pela redefinição de traços culturais delas oriundos. Também novo, ainda, porque é um novo modelo de estruturação societária, fundada num tipo renovado de escravismo e numa servidão continuada ao mercado mundial. Novo, inclusive, pela inverossímil alegria e espantosa vontade de felicidade, num povo tão sacrificado, que alenta e comove a todos os brasileiros.” (Darcy Ribeiro, in O Povo Brasileiro).

O documentário desenvolve as teses darcinianas seguindo o roteiro do livro. Ao longo de sete capítulos, ele nos fala sobre nossas matrizes: tupi, lusa e afro. Aborda o encontro dessas matrizes e a estruturação do modo de vida, costumes e tradições: cabocla, caipira, crioula, sertaneja, e sulina. Por fim, discute os caminhos para o Brasil atual, ressaltando principalmente nossas homogeneidades (tais como a língua, comportamentos, etc.), e ao mesmo tempo, nossas diversidades. Mais do que uma junção de etnias formando uma outra, e única (a brasileira), o Brasil é um povo-nação, ajustado a um território próprio para nele, juntos, viver o seu destino. Suas gentes teriam se amalgamado, a princípio, pelo peculiar instituto do cunhadismo, originário da cultura indígena. Formaram um ser, “um ninguém” – o brasileiro primitivo, que teve de procurar o sentido de sua existência como ser diverso das culturas matrizes.

Para Darcy Ribeiro formamos a maior presença neolatina no mundo, uma “Nova Roma”. Melhor do que a anterior, porque radicalmente lavada em sangue índio e negro. Esta singularidade nos condena a nos inventarmos a nós mesmos. Também nos desafia a construir uma nova sociedade, inspirada nas nossas gêneses, despontando no cenário mundial com nossas próprias particularidades

Darcy acreditava que o Brasil estava diante de uma encruzilhada, a partir da reordenação do mundo globalizado, provocada pela terceira revolução industrial. Impaciente, via que poderiamos perder essa oportunidade, a exemplo do que aconteceu no século XIX – quando não nos industrializamos e permanecemos como exportador de matérias primas. Vem dai sua insistência na pauta prioritária da educação como mola motriz do nosso desenvolvimento, em uma época na qual dominar o conhecimento tornou-se o elemento decisivo no processo de emancipação de um povo.

Utópico no melhor da sua essência – movido por aquela utopia de que nos fala Karl Mannheim que é a incongruência perante a realidade – Darcy é uma das figuras mais fascinantes do século XX. Viveu plenamente suas utopias, não se importando se elas não se realizavam. Sua contribuição ao Brasil, até hoje pouco compreendida, pode nos dotar de uma proposta original. Abre caminho para participar de fato do novo cenário internacional. Exige que venham à tona do fundo de nossas humanidades, e num quadro de declínio de civilizações, novas formas de viver. Pacíficas, alegres e sábias, capazes de recompor a aliança do ser humano com a natureza e a criatividade. Darcy achava que, por nossa peculiar formação, nós seriamos seus arautos.

Serra da Mantiqueira, fevereiro de 2012.

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* Arlindenor Pedro é professor de história e especialista em projetos educacionais. Anistiado por sua oposição ao regime militar dedica-se na atualidade a produção de flores tropicais na região das Agulhas Negras.

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