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28 setembro, 2014

1989, 2014

por Denise Queiroz

Já escrevi aqui sobre 1989 e o que foi aquilo tudo de esperança de festa de democracia. Não escrevi sobre o horror da campanha suja, podre, nojenta e de baixo nível. Dias antes do segundo turno, Lula à frente nas pesquisas, frente de partidos de esquerda e centro aglutinados, aparece na propaganda de Collor a senhora Miriam Cordeiro, mãe de uma filha de Lula. Ela contava que Lula queria que ela abortasse e mais um sem fim de blás e blás. Verdade ou não, pouco importou. Foi a facada que terminou de sangrar a imagem de monstro que todos os dias vinham homeopaticamente pintando de Lula, do PT. O final todos sabem: quase tudo que Collor dizia que Lula - o analfabeto, o despreparado, o sem apoio no congresso, o pobre, o criminoso por ter proposto aborto à namorada - faria caso fosse eleito (confiscar a poupança e transformar o país num verdadeiro caos) ele o fez no dia da posse, em março de 1990.

Depois do impeachment de Collor em 1992 (ele renunciou horas antes da votação do impeachment que mesmo assim foi realizada, simbolicamente, pelo Congresso que havia encontrado um ‘verdadeiro mar de lama’ na CPI que apurou denúncias de caixa 2 na campanha) o país virou um pandemônio. Assumiu o vice, Itamar Franco que, em meio àquele caos e com as instituições em crise, conseguiu reunir um grupo de políticos de vários partidos para retomar alguma normalidade. Em junho de 1994 lança um plano econômico que anunciado e explicado, rejeitado e apoiado, conseguiu pôr fim a anos de economia descontrolada e inflação criminosa. Com isso credenciou o seu ministro da fazendo para ser o próximo presidente.

De lá até 2010, embora tenhamos vivido momentos de alguma crise e denúncias e mais denúncias de corrupção não tenham parado de aparecer, vivemos um período estável. O país cresceu, com o controle da inflação e políticas de inclusão econômica foram sendo implementadas pelos governos. Os gráficos e os critérios de medição da economia e das melhoras são vantajosos e Lula indica sua ministra da casa civil, a mãe do PAC, para sucedê-lo e continuar o trabalho que vinha desenvolvendo, só que sentando na cadeira que ele mesmo havia ocupado.

Para qualquer conhecedor e observador da política, parecia um despropósito que uma pessoa que nunca havia disputado qualquer cargo pudesse ser eleita presidente do país. Mesmo no círculo dos cartolas do PT a escolha de Lula não foi bem recebida. Mas a verdade é que o partido havia descuidado de formar novos quadros políticos e as chances de qualquer outro nome seriam mínimas. Campanha dura, mas que na verdade já havia sido iniciada com o lançamento do PAC em 2007, quando a ministra começa a aparecer mais e mais na mídia, em entrevistas etc.

Eleita, Dilma nomeia um gabinete que é recebido com narizes tortos. Com exceção de Fernando Haddad na Educação, e alguns outros nomes que trocam de pastas, como Paulo Bernardo e Miriam Melquior, muitos deles desconectados com os meandros técnicos dos ministérios que teriam de tocar.

As promessas de campanha, de continuidade e melhorias, vão sendo pouco a pouco abandonadas, notadamente na área de cultura, direitos humanos, reforma agrária. Áreas essas ‘questão de honra’ e mais que simbólicas para grande parte das pessoas que formaram o PT e elegeram a candidata do Lula. Denúncias pipocam, ministros são trocados. Denúncias pipocam, assessores são demitidos. Denúncias pipocam, novos ministros, mais desconhecidos e alheios às pastas, de partidos quase inexpressivos, vão aparecendo. Novos ministérios criados para acomodar a base aliada e garantir a 'governabilidade'.

Em abril de 2013, em Porto Alegre, movimentos sociais não alinhados aos partidos ‘da base’, de nenhuma base, tomam as ruas de Porto Alegre contra o aumento das passagens do ônibus municipais, motivados por uma ação movida no Ministério Pblico para que os cálculos das tarifas fossem públicos. O movimento se avoluma e,a cada manifestação, mais gente de aglutina. Em junho o Movimento Passe Livre toma as ruas de São Paulo, também apoiado por movimentos não alinhados aos partidos da base, a maioria não alinhada a partido nenhum, mas que viu ali a chance de reivindicar mudanças gerais. Afinal, desde o movimento pela Anistia e depois pelas Diretas, neste país só o povo em massa e nas ruas conseguiu pressionar a modificar minimente estruturas.

Esse movimento se amplifica. A brutal repressão da PM paulista, que fez nas ruas centrais das cidade, à frente das câmaras, o que faz nas periferias dia e noite, revolta movimentos, grupos, sozinhos, gente em rede ou que só fica sabendo mas sofre no dia-à-dia as conseqüências das péssimas políticas públicas, a ir também para a rua. Grandes jornadas passam a ocorrer nas principais capitais, mais concorridas e reprimidas nas que sediariam a copa das confederações.

Diante do aparente descontrole, gabinete de emergência é formado no Palácio do Planalto que não conseguia entender o que ocorria, ‘se somos tão bonzinhos’ e temos bolsa-família, pronatec, pronaf, fies, cies e não sei mais quantos programas aparentemente inclusivos. Pela primeira vez, desde que assumiu a presidência, a autoridade máxima do país se dignou a receber gente que ela nunca tinha ouvido  nem falar que existia, por não serem ‘representantes’ dos movimentos de sempre - os organizados na década de 80 e que depois foram alinhados ao governo - para dialogar. Em pronunciamento à nação, leu um discurso elaborado pelo marqueteiro João Santana, com medidas imediatas para resolver os problemas. Se eram factíveis de serem implementadas ou não, não importava. O que contava era acalmar a turba ensandecida e parar de aparecer na imprensa internacional como um país desigual, onde problemas estruturais não foram resolvidos depois de 10 anos e meio do mesmo partido presidindo.

Não deu muito certo. As ruas continuaram tendo manifestações. Na copa das confederações, os turistas que foram aos estádios construídos pelas empreiteiras que desde sempre financiam as campanhas políticas, puderam provar da melhor tecnologia nacional produzida por um dos braços da maior empreiteira do pais: o gás de pimenta.

Imagem arranhada, confiança quebrada. Os juros não baixaram. A conta de luz que havia sido reduzida voltou a subir, as creches prometidas em 2010 não foram construídas. Os projetos de mobilidade para a copa continuam, grande parte deles, sendo projetos. O maior campo testado de petróleo da camada do pré-sal foi leiloado, contrariando a lei de 2010 que previa leilões, mas de campos não testados. E mesmo assim as contas não fecharam.

Entre desastres discursivos, locais e internacionais, a balança comercial pendeu pro outro lado. A meta da inflação não foi cumprida e o crescimento do país se aproxima do zero. Embora os institutos, baseando-se em critérios internacionais de emprego e desemprego, mostrem dados a serem comemorados, eles brigam com a realidade da violência material e humana que todos vivenciamos.

E todos se perguntam o que está acontecendo? Se temos porcentagens de pleno emprego, desigualdade menor, porque tanta violência? Temos democracia...

Nos acostumamos tanto a repetir chavões de auto-engano que o enfrentamento da realidade diferente demais dos números nos assusta.

Sempre digo ao filho e amigos que a melhor maneira de avaliar um lugar é a leitura das páginas policiais. Se há furtos e brigas de vizinhos, estamos num local próximo ao paraíso. Mas se há assaltos violentos, roubos, mortes, algo está muito errado e há que prestar mais atenção.

Não é de hoje que horrores acontecem. O ser humano é horroroso, cheio de defeitos, ambições, descontroles. Assassinatos ocorrem ‘nas melhores famílias’. Mas se crimes violentos se sucedem e amontoam, é porque o estado das coisas anda mal. Não há números que sejam convincentes quando alguém querido é morto ou agredido por causa de um celular, um tênis, um carro que seja. Quando o sair a rua é arriscado.

Mas está tudo bem, na propaganda do governo que intercala mensagens edificantes e histórias de melhorias com acusações falaciosas aos adversários. Nos acostumamos a fugir da realidade aflitiva vendo novelas. A linguagem das propagandas políticas (aplausos para os marqueteiros?) captou esse gosto tão latino e transformou momento nobre da democracia em obras de ficção. Para produzi-las, os patrocinadores são os mesmos das novelas.

Dia 5 de outubro vamos lá. Votamos. Elegemos alguém para sentar na cadeira presidencial e no dia seguinte voltamos à rotina de transporte infernal, comida às pressas, trânsito na volta para casa, se conseguirmos chegar, e novela. Para esquecer!

14 fevereiro, 2014

Continua grave o estado da menina Democracia


por Denise Queiroz

Vítima de uma tentativa de assassinato bárbaro e com requintes de crueldade, a menina Democracia está internada desde novembro do ano passado. Respira por aparelhos, em estado grave, o que inspira cuidados constantes. Especialistas de alto-nível, cada vez mais escassos no tratamento de pacientes com esse grau de fragilidade, foram convocados para tentar mantê-la viva. Em esforço conjunto, investigadores tentam apurar os autores do crime, mas a grande quantidade de indícios de que são muitos os envolvidos dificulta a operação.

A menina foi encontrada, numa madrugada do final de novembro, agonizante, numa ruela que não consta nos mapas, por cidadãos que passavam, por volta das 4 da manhã, em direção ao trabalho. Depois de insistentes chamados aos serviços de emergência, por volta das 7:30 uma ambulância chegou. Um dos paramédicos sussurrou que não havia esperanças e que, sem equipamento adequado, as chances eram mínimas. Lembrou também que as emergências de todos os hospitais estavam lotadas e, até que a internação pudesse ser feita, o óbito ocorreria. Uma senhora de meia-idade que passava nesse momento reconheceu a menina, que havia visto sair de longo coma em 1979, e insistiu para que todos os recursos fossem empregados na tentativa de salvá-la.

Diante da identificação e insistência, os atendentes se comunicaram por rádio com um hospital de referência, local mais certo para atendimento desse tipo de figurões. Embora o descrédito inicial, quando a vítima deu entrada na emergência, imediatamente todos a reconheceram, as fichas do atendimento foram apagadas e o fato passou a ser tratado com sigilo. Boatos começaram a correr pelas redes sociais, mas até a última semana não havia confirmação oficial, o que só veio a ocorrer diante da definição de data limite para desligar os aparelhos, caso não houvesse reação.

As investigações prosseguem. Acusações sobre os autores e seus interesses pipocam tanto na internet quando nos meios tradicionais de informação. Com isso, cada dia surgem mais pistas de quem estaria por trás desse crime bárbaro. As informações oficiais continuam escassas. Segundo fontes, que preferem manter o anonimato, há tentativa de bloquear qualquer o acesso aos boletins e às equipes encarregadas, tanto do tratamento quanto das investigações. Devido à importância da paciente, vários membros da sociedade organizada e através da web estão se revezando em plantão permanente, e acreditam que, embora as dificuldades sejam evidentes, ela sobreviva mais uma vez.

26 janeiro, 2014

Nós, que amávamos tanto



Impossível esquecer aquele dia de 1989, ainda estagiária de jornal, saindo pro trampo e vendo a av. Princesa Isabel mais lotada que em dia de Grenal no Olímpico. O motivo: Brizola ia passar por ali. Levei uma boa meia hora pra chegar ao corredor de ônibus da João Pessoa, tentando abrir caminho entre as milhares de pessoas que, literalmente, entupiam a calçada. O primeiro turno passou, Brizola não venceu e toda aquela gente com esperança de algo melhor votou em Lula, imagino. Talvez alguns, apesar do Brizola ter apoiado Lula, tenham migrado seus votos para Collor, que personificava o populismo e, vendido pela propaganda política como o novo, ganhou alguns votos que, se a política e as emoções fossem lógicas, seriam de Lula.

1989, mais que em 1984, quando das diretas, foi um momento orgástico da democracia. Se tivesse internet há 25 anos, com certeza veríamos milhões de hashtags com os mais diversos desejos de um país melhor. No primeiro turno eram 22 candidatos, com viés ideológico claro, figuras que haviam apoiado, contrariado ou surgido no cenário surreal do, e pelo, golpe civil-militar de 1964. Embora convergente em análise rasa, era clara a diferença entre as propostas de Brizola (PDT), de Lula (PT), de Freire (PCB), de Covas (PSDB) e de Ulisses (PMDB), que estavam no que se poderia dizer de espectro à esquerda, naquele momento. E também se diferenciavam as de Collor (PRN), Maluf (PDS), Caiado (PSD), Chaves (PFL) e Afif (PL), do campo da direita. E todos eles tinham seus apoiadores, seguidores. Era um momento de namoro e o menino poder cortejava a menina democracia. A Constituinte tinha sido uma vitória, mas queríamos mais, precisávamos de mais.

Passados 25 anos, o que temos? Dos 200 milhões de brasileiros, mais de 106 milhões com direito a votar, eleger, a cada dois anos. Mas, deles, cerca de 20%, não comparecem às urnas na data determinada a eleger. Dos que comparecem, cerca de 8 por cento votam branco ou nulo. Então, de cara, temos, em média, 28% de cidadãos que simplesmente lavam as mãos para esse sistema político. É muito.

Quantos daqueles milhares que disputaram espaço na Av. Princesa Isabel para ver Brizola em 1989 ou dos milhões que lotaram as praças nos comícios que ainda tinham shows, hoje escrevem apressados sua insatisfação numa folha de cartolina e vão às ruas para mostrá-la? Ou, na falta de tempo ou ânimo para enfrentar transporte e uma polícia truculenta, usam redes sociais e hashtags?

Será tão difícil entender que aquela multidão que votou para presidente pela primeira vez em 1989, somada à que nasceu depois, está dizendo, "ok, mas ainda é pouco, muito pouco. Todos vocês disseram que iriam fazer, que teríamos um país justo e igualitário, nós acreditamos, fomos lá, ajudamos, votamos e as melhoras nestes 25 anos não são proporcionais ao esforço que fizemos. E não vamos mais muito às ruas, porque agora temos outros meios de dizer isso, mas ainda vamos às ruas e ainda precisamos de tudo aquilo”.

É patético, e revelador, ouvir de gente de governos, de qualquer um deles, que "foram pegos de surpresa pelas jornadas de junho”. É patético que não entendam que o “não vai ter copa” é um grito de desabafo pela exclusão – dos direitos, da participação, da decisão, do espetáculo - e não uma ameaça.

O país está mostrando a cara há anos, e não vê quem não quer. Só não tentem nos convencer de que vocês não sabem, pois nós sabemos muito bem o que é ter um amor, meu senhor, e depois encontrá-lo em um braço que nem um pedaço do meu pode ser.

02 novembro, 2013

A rua e o poder


“As manifestações de junho marcaram o despertar político de uma nova geração. Mas outro levante popular, ainda maior, não pode ser descartado neste momento.” O alerta é do historiador britânico Perry Anderson, professor da Universidade da Califórnia, ex-editor da New Left Review, ensaísta e autor de Espectro: Da Direita à Esquerda no Mundo das Ideias (Boitempo), entre outros.

Mais uma vez, a voz das ruas. Ecos talvez das jornadas de junho, manifestações vibrantes voltaram a ocupar São Paulo. Dessa vez, na estrada federal: com multidões furiosas, caminhões incendiados e barricadas nos arredores da Rodovia Fernão Dias, zona norte, onde o estudante Douglas Martins Rodrigues, de 17 anos, morreu com um tiro disparado por um policial militar no domingo passado.
Aos 75 anos, Perry Anderson vive entre Londres e Los Angeles, mas dedica um inspirado olhar à América Latina e ao Brasil. Cá esteve para participar do Fronteiras do Pensamento em outubro, em Porto Alegre. No primeiro encontro, a impressão: um gênio difícil, dir-se-ia. Um dos mais importantes teóricos marxistas contemporâneos, o intelectual não é fã de entrevistas, escolhe suas palavras meticulosamente, voz firme, óculos quadrados e anotações datilografadas a tiracolo.
O historiador também passou por Campinas e São Paulo, onde nos reencontramos para um café filosófico nos Jardins. “Não gosto de dar entrevistas, particularmente. Todo mundo dá entrevistas atualmente, é muito fácil. É a síndrome de Andy Warhol: todos serão famosos por 15 minutos. Por isso, penso que só se deve falar quando realmente tiver algo a dizer”, justifica. Nesta entrevista exclusiva ao Aliás, Perry Anderson comenta os rumos do Brasil e do mundo em tempos de explosivos protestos populares.
Domingo passado, um jovem foi morto por um PM na Vila Medeiros, zona norte de São Paulo, provocando protestos violentos que travaram a Fernão Dias. Dilma Rousseff criticou a violência contra jovens negros da periferia, ‘a manifestação mais forte da desigualdade no Brasil’, nas palavras da presidente. Como o sr. analisa o poder (ou a fragilidade) das manifestações nas ruas desde as jornadas de junho no País?
Três grandes conquistas vieram com os protestos de junho. Primeiro, as manifestações marcaram o despertar político de uma nova geração - principalmente, mas não exclusivamente, dos jovens, dos trabalhadores oprimidos. Segundo, ao forçar espetacularmente governantes a recuar no aumento das tarifas de transporte público em grandes cidades, eles fizeram surgir uma compreensão do empoderamento social (de dimensão potencialmente nacional) para setores até então passivos da população. Por último, e não menos importante, levantaram a questão da distribuição escandalosamente distorcida das despesas públicas no Brasil. O mérito para tudo isso vai para os movimentos de esquerda que alavancaram os protestos - o MPL principalmente -, cujo eco popular foi tão expressivo que mesmo forças de direita aderiram às manifestações, pautadas por seus próprios propósitos. Assim, a fragilidade dos protestos está nessa enorme disparidade: por um lado, o pequeno núcleo organizado que inspirou as revoltas de junho; por outro, a escala das multidões que tomaram parte nessas manifestações, sem liderança política ou infraestrutura duradoura. O futuro dependerá de até que ponto essa lacuna poderá ser fechada.
No artigo Lula’s Brazil, publicado na London Review of Books, o sr. destaca a especial ênfase do ex-presidente aos mais pobres. Além da inclusão com programas como o Bolsa Família, o Brasil viu uma forte onda de consumo com a ascensão de uma ‘nova classe média’. A questão toda é sobre poder aquisitivo? É possível proporcionar inclusão e justiça social de outras maneiras?
Certamente é possível - e milhões de brasileiros mostraram neste inverno que eles entendem totalmente como: através da criação de serviços públicos decentes e equitativos para os cidadãos comuns, sobretudo transporte urbano aceitável, assistência médica, habitação social e educação fundamental. A grande conquista do governo Lula foi a criação de empregos e a elevação do poder aquisitivo dos pobres. Esses foram ganhos dentro das relações do mercado. Mas sem avanços correspondentes nas esferas da vida em que as relações de commodities não deveriam ter lugar, o risco é realmente gerar uma sociedade de consumo em que, como nos Estados Unidos, aumentar a prosperidade não é, na verdade, empecilho para aumentar, ainda mais rapidamente, a desigualdade. No Brasil, que ainda continua perto do recorde mundial de má distribuição de renda, só uma reforma radical da estrutura tributária, da administração pública e do sistema político pode frear esse perigo. É necessário um Estado que esteja verdadeiramente sob o controle de seus cidadãos, que seja capaz de oferecer serviços honestos, justos e construtivos para eles.
Mas esse Estado é possível?
Estrategicamente, a chave para a reforma precisa ser uma transformação do sistema político, cuja involução para uma ordem decadente e ensimesmada, afastada da vida popular do país, é agora amplamente reconhecida. Os beneficiários desse sistema - principalmente no Congresso, mas também nos poderes das cidades e dos Estados - não vão aceitar, por vontade própria, nenhuma mudança séria nessa ordem. Só a pressão popular pode forçá-los a fazê-lo. A convocação para uma Assembleia Constituinte é absolutamente correta, mas não pode ser instituída por um apelo presidencial que dependa da aprovação de uma classe política para a qual uma reforma pareceria uma tentativa de suicídio. Em Brasília, o Congresso apenas se renderia à fúria das massas nas ruas e nas praças. Isso é aceitável? As manifestações de junho vieram como um choque para a ordem estabelecida. Outro levante popular, talvez ainda maior, não pode ser descartado neste momento. Mas, para render frutos, uma alternativa construtiva para o atual impasse deve se firmar na imaginação popular. Disso ainda há pouco sinal.
Se fosse escrever um novo artigo, talvez Dilma’s Brazil, como seria? Dilma difere muito de Lula?
Em estilo, naturalmente difere de Lula. Nesse quesito, o dom do ex-presidente é inimitável. Em substância, há poucas diferenças. O que mudou não é nem a natureza nem as ambições da administração, mas as condições em que os dois operam. O crescimento no governo Lula foi impulsionado pelos altos preços de commodities na primeira década do século, que deram ao Brasil um considerável aumento do lucro das exportações. Esse momento passou - e o crescimento caiu. O novo governo tentou contrariar a conjuntura menos favorável ao reduzir as taxas de juros e introduzir modestas medidas protecionistas para estimular a economia. Mas o investimento - baixo há décadas no Brasil, segundo os padrões internacionais - falhou e os preços dos serviços começaram a subir. Isso estreitou o espaço econômico para manobra do governo justamente no momento em que as demandas sociais começaram a explodir, especialmente entre setores jovens da população. Encurralado entre essas duas pressões, o projeto do PT, como moldado no governo Lula, periga se esgotar. É necessário um novo modelo. Se o projeto encontrará um segundo fôlego ainda é uma questão aberta.
Após décadas de neoliberalismo, vimos a ascensão de ‘novos’ governos na América Latina, ao mesmo tempo - Chávez na Venezuela, Kirchner na Argentina, Lula no Brasil. Nomes da esquerda também foram eleitos na Bolívia, Equador e Uruguai. Olhando para trás, as expectativas sobre esses ‘novos’ governos eram muito altas?
Não tenho certeza se concordo com esse retrato. Minha impressão é que a euforia exagerada sobre o grau de uma ruptura com o neoliberalismo no novo século não era tão comum - mesmo porque ficou claro para todos que as experiências sul-americanas que você mencionou estavam se movendo no contrafluxo, quer dizer, contra a tendência do mundo, pois América do Norte, Ásia e Europa estavam ainda alinhados ao neoliberalismo. Na América Latina, é justamente o movimento contrário - não à mais privatização, nem à maior desregulamentação, lidando ainda com uma desigualdade acentuada, mas com medidas de proteção nacional, preocupação com os pobres, defesa da esfera pública - que moldou o horizonte político do continente que, apesar de todas suas irregularidades, tornou-se um farol de esperança para os povos de outros lugares.
Na época, vimos o nascimento do Fórum Social Mundial, após os fortes protestos de Seattle. Nos últimos tempos, vimos o Occupy Wall Street, os indignados espanhóis e outros movimentos contra o capitalismo. A mensagem é similar: outro mundo é possível. Por que esses movimentos explodem, expõem as contradições do sistema capitalista e depois desaparecem?
Aliás, desaparecem? Explicações sobre os padrões dessas repentinas e imponentes explosões de protestos populares - que se iniciam e desaparecem rapidamente, ainda sem provocar muitas mudanças - precisam incluir três fatores principais. Obviamente, o primeiro é a ruptura da continuidade na cultura de esquerda com a vitória do capitalismo ocidental na Guerra Fria. O segundo é o declínio, no mundo inteiro, dos partidos como forma clássica de organização política, agravando essa ruptura de continuidade. E, certamente, o terceiro é o advento da internet, que permite uma comunicação e uma mobilização muito rápidas de muitos indivíduos de outra forma dispersos. Entretanto, precisamente por permitir esse sucesso tão rápido e relativamente tão fácil, nos momentos de crise, a internet acaba desencorajando o trabalho mais lento e mais difícil de criar movimentos políticos com estrutura e organização mais duradouras.
Como o sr. analisa a resposta do Brasil ao escândalo de espionagem americana?
O Brasil certamente se saiu melhor - e mais firmemente - que qualquer país europeu. Ao cancelar a visita oficial a Washington e criticar a espionagem americana no discurso nas Nações Unidas, Dilma Rousseff mostrou gestos de dignidade que nenhum outro líder foi capaz de mostrar. Mas esses gestos permanecem limitados. O grau contínuo de submissão do Brasil ao império americano pode ser visto, por exemplo, no fracasso do país ao (não) oferecer asilo a Edward Snowden, que revelou o esquema de espionagem e desde então está sendo perseguido pela índole vingativa característica de Barack Obama, cujo registro de punições domésticas ultrapassa o de George W. Bush. Podemos ter certeza de que Snowden teria encontrado um refúgio mais feliz no Brasil democrático que na Rússia autocrática. Não ter oferecido isso a Snowden é um motivo para desonra nacional.
Ainda assim, o governo do PT mostra mais independência na política internacional?
Certamente mais que os governos de José Sarney ou de Fernando Henrique Cardoso. Mas se formos justos, precisamos lembrar que nenhuma ação de Lula ou de Dilma, apesar de muitas terem sido positivas, foi tão destemida quanto a de um oligarca da República Velha, Artur Bernardes, que, em 1926, retirou o Brasil da Liga das Nações porque eles se recusaram a dar a qualquer país não europeu um assento permanente no conselho. Essa foi uma decisão de honra.
O sr. publicou um livro sobre a Índia - The Indian Ideology. A experiência desse país seria relevante para o Brasil?
Sim. Acredito que um estudo comparativo entre essas duas democracias - grandes países, mas ainda subdesenvolvidos em certa medida - seria de grande interesse. Deveria haver mais intercâmbio intelectual e político entre Brasil e Índia. Inclusive onde suas reformas sociais oferecem paralelos. É uma pena, pensei muitas vezes, que nunca tenha havido (até onde sei) uma troca de experiências entre seus respectivos programas para redução da pobreza: o Bolsa Família, no Brasil, e a Lei Nacional de Garantia de Emprego Rural, na Índia. Um, referente a uma transferência de dinheiro; outro, à disposição de trabalho. São os dois programas mais importantes nessa linha no mundo.
O sr. é considerado um especialista em história intelectual. Tem conselhos para estudantes nesse campo?
Nunca confunda julgamentos políticos e julgamentos intelectuais. A qualidade dos pensadores sérios nunca é uma simples função de seus pontos de vista ideológicos. Pensamentos - à direita, ao centro e à esquerda - devem ser tratados com cuidado analítico e respeito crítico iguais.
E atualmente qual é o papel dos intelectuais na sociedade?
Há uma ideia generalizada de que para ser um intelectual é preciso ser crítico da ordem estabelecida. Não é verdade. Desde o nascimento moderno do termo, possivelmente mais intelectuais têm sustentado os sistemas dominantes em suas sociedades. Assim, não há uma resposta única a sua questão. O papel dos intelectuais de direita é defender e ilustrar a ordem estabelecida. O papel dos intelectuais de centro é dar eufemismos e conformidade à ordem. O papel dos intelectuais da esquerda é atacá-la radicalmente. E nós precisamos de mais intelectuais assim. 

18 agosto, 2013

Estado precário de direito

por Denise Queiroz

Imagem do blog Eu e meu chapéu

Os centavos que levam milhões de brasileiros às ruas desde abril são apenas a ponta perceptível do quanto estamos distantes de um ideal de Estado Democrático de Direito. A maneira como a tarifa dos transportes coletivos é reajustada é só uma mostra. Por imediatamente influírem nas contas do fim do mês das famílias com renda baixa e que vivem nas periferias de metrópoles mal administradas, catalisaram a insatisfação que se estende a muitas outras áreas públicas.

A forma nada transparente com que são definidos os reajustes, evidenciam o quanto as manobras jurídicas são usadas, cotidianamente, em palácios suntuosos que abrigam servidores públicos muito bem pagos pelo Estado (nós). Reflete a podridão de um sistema que raramente serve à maioria e sempre aos que, desde muito antes de sermos um Estado, o usam em seu benefício.

Um somatório de fatos e injustiças praticadas pelos poderes que deveriam zelar pela inclusão, justiça e mínima qualidade de vida a todos que, involuntariamente, sustentam a máquina estatal – os impostos são recolhidos por uma bala ou um carro de luxo –, transforma-se facilmente em revolta ‘contra tudo que está aí’. E não há argumentos racionais capazes de explicar que não é bem assim, pois a cada dia fica mais evidente que só os 'elegidos' usufruem de benefícios que deveriam ser de todos. E isso acaba pondo em xeque o que a maioria dos que tem mais de 40 anos viveram: a reconstrução da democracia. 

Embora o sistema eleitoral funcione e elejamos a cada dois anos representantes, o que nos autorizaria a dizer que estamos num sistema democrático e vivemos plena cidadania ainda está longe de ser conquistado. O Estado ainda é um ente inatingível e os serviços mais básicos não são prestados ou, o são com falhas tais que comprometem seu bom desempenho. A democracia e cidadania restritas a poucos momentos passam a ser conceitos abstratos, lindos nos discursos marqueteiros das campanhas, pouco palpáveis na prática.
  
Embora as exceções, quantos dos inquéritos minuciosamente investigados e preparados por servidores bem intencionados chegam a um julgamento em que a Justiça é realmente aplicada?

Desde a caixa preta das planilhas de reajuste das tarifas de transporte, passando pelas indecentes emendas parlamentares - que na prática servem como financiamento de campanhas para que os mesmos de sempre, quase todos péssimos representantes eleitos, continuem usufruindo de um Estado privatizado - até a pena para o roubo de uma galinha ser aplicada com rigor em contraste aos habeas-corpus para os grandes contraventores, expedidos em trajes íntimos durante a noite, a sensação de injustiça é o que se sente.

Esse é nosso Estado de Direito. E não importa o partido de plantão. A estrutura está podre na base. Estamos mais próximos de um estado bárbaro do que de um democrático de direito, uma vez que o acesso ao que as leis deveriam garantir, se restringe a uns poucos, os mesmos de sempre, aos que fazem o mesmo jogo, ao podre. Aos que se negam ou tentam outra forma, a velha desqualificação fulanizada se encarrega de jogar no lixo.

Tem horas que a vontade é ir morar no meio do mato, sem rádio e sem notícia das terras ‘civilizadas’. Não mudaria nada, mas certamente viveria mais feliz,  pois é muito triste constatar que o que levamos anos para tentar construir está sendo destruído, minuto a minuto, por acordos espúrios e pela falta total de um mínimo de ética de quem exerce o poder nas várias áreas desta república. E ainda regiamente pagos com o pouco dinheiro da maioria.  

08 julho, 2013

Cenários para o Futuro da Íbero-América (ao vivo)



Watch live streaming video from fcg1 at livestream.com


Programação

Hora local de Lisboa (4 a menos que a hora de Brasília).

08/07

09h30 às 10h15

Sessão de abertura

Presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, Artur Santos Silva

Governador do Estado do Rio Grande do Sul, Tarso Genro

Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa

Coordenador do Observatório sobre Crises e Alternativas do Centro de Estudos Socais da Univ. Coimbra, Manuel Carvalho da Silva


10h15 às 12h30

Relações ibero-americanas no contexto da crise da União Europeia

Governador Tarso Genro | Mário Soares | Professor Boaventura de Sousa Santos | Nicolás Sartorius (Fundação Alternativas)

Moderadora: Pilar del Rio (Fundação Saramago)

14h30 às 16h00

Integração económica e cooperação
José Silva Peneda (Presidente do Conselho Económico Social, Portugal) Rogério Sobreira (Fundação Getúlio Vargas) | Luís Bento dos Santos (Vice-presidente da Casa da América Latina/ Santander, Portugal)

Moderador: José Manuel Pureza (CES-UC)

09/07

9h30 às 12h30

Novas relações entre Estado e Sociedade: participação e cidadania

Professor Ronaldo Lemos (MIT/Media Lab, Brasil) | Governador Tarso Genro | Vicente Palacio (Fundação Alternativas) | Tiago Peixoto (Banco Mundial) | Nelson Dias (Associação In-Loco) | Marco Aurelio Ruediger (Fundação Getúlio Vargas, Brasil) | José Manuel Mendes (CES-UC) | Maria Paula Meneses (CES-UC)

Moderador: Vinicius Wu (Secretário-Geral de Governo do RS)
14h30 às 17h00

Trabalho, emprego e rendimento no contexto da crise

Miguel Angel Malo (Instituto para os Estudos Laborais da OIT) | Manuel Carvalho da Silva (Observatório sobre Crises e Alternativas/ CES-UC) | Giuseppe Cocco (Universidade Federal do Rio de Janeiro) | Rodolfo Benito (CCOO)

Moderador: Francisco Louçã (ISEG)


17h00

Encerramento

Governador Tarso Genro


01 julho, 2013

Alternativa

Imagem

Luis Fernando Veríssimo

Envelhecer é chato, mas consolemo-nos: a alternativa é pior. Ninguém que eu conheça morreu e voltou para contar como é estar morto, mas o consenso geral é que existir é muito melhor do que não existir. Há dúvidas, claro.

Muitos acreditam que com a morte se vai desta vida para outra melhor, inclusive mais barata, além de eterna. Só descobriremos quando chegarmos lá. Enquanto isto vamos envelhecendo com a dignidade possível, sem nenhuma vontade de experimentar a alternativa.

Mas há casos em que a alternativa para as coisas como estão é conhecida. Já passamos pela alternativa e sabemos muito bem como ela é. Por exemplo: a alternativa de um país sem políticos, ou com políticos cerceados por um poder mais alto e armado.

Tivemos vinte anos desta alternativa e quem tem saudade dela precisa ser constantemente lembrado de como foi. Não havia corrupção? Havia, sim, não havia era investigação para valer. Havia prepotência, havia censura à imprensa, havia a Presidência passando de general para general sem consulta popular, repressão criminosa à divergência, uma política econômica subserviente e um “milagre” econômico enganador.

Quem viveu naquele tempo lembra que as ordens do dia nos quartéis eram lidas e divulgadas como éditos papais para orientar os fiéis sobre o “pensamento militar”, que decidia nossas vidas.

Ao contrario da morte, de uma ditadura se volta, preferencialmente com uma lição aprendida. E, se para garantir que a alternativa não se repita, é preciso cuidar para não desmoralizar demais a política e os políticos, que seja.

Melhor uma democracia imperfeita do que uma ordem falsa, mas incontestável. Da próxima vez que desesperar dos nossos políticos, portanto, e que alguma notícia de Brasília lhe enojar, ou você concluir que o país estaria melhor sem esses dirigentes e representantes que só representam seus interesses, e seus bolsos, respire fundo e pense na alternativa.

Sequer pensar que a alternativa seria preferível — como tem gente pensando — equivale a um suicídio cívico. Para mudar isso aí, prefira a vida — e o voto.

27 junho, 2013

Um sistema vencido e que não ousa inovar-se

Imagem: Inovadores


por Tarso Genro*
do IHU (original publicado na FSP)

A abertura de um processo constituinte para promover uma reforma política é o caminho republicano para repactuar a sociedade brasileira no presente ciclo histórico.

Só assim será possível evitar o caminho da violência, recompor o espaço democrático para resolução dos conflitos de interesse e valorizar os novos movimentos sociais, que exigem novas formas de escuta e de diálogo.

Sustento que a anomia e a violência, que podem ser hoje desatadas por qualquer fagulha, em qualquer país do mundo, são absolutamente nocivas por razões ético-morais e por razões políticas.

A sua síntese só poderá ser uma: mais fechamento do Estado aos clamores da cidadania e não mais liberdades e mais direitos.

A sociedade brasileira não é a mesma de dez anos atrás, não só pelos novos protagonistas em "rede" - com o seu desejo de participação e sua irreverência em relação às instituições clássicas da democracia (aliás, mais ou menos falidas). Mas também porque a inclusão de milhões de famílias no consumo suscitou novas demandas, especialmente nas grandes regiões metropolitanas, cujos serviços públicos de baixa qualidade devem ser completamente remodelados.

É óbvio que momentos como o atual incendeiam avaliações românticas, tanto do esquerdismo como do fascismo, de novas marchas "pós-modernas" sobre Roma ou de tomadas de Palácios de Inverno.

Mas o poder não está mais lá. Nem se tem mais ideia, hoje, do que seria (nas condições da atual estrutura de classes e das novas tecnologias infodigitais) uma revolução dos trabalhadores (quais deles?) ou um "grande irmão" fascista (ou um comitê de "grandes irmãos"?), este que colocaria tudo em ordem para a classe média alta não se incomodar.

De outra parte, não só aqui no Brasil, o partido moderno surgido da experiência das grandes revoluções está totalmente superado e não tem saída.

Não se trata de uma crise por "falta de ética na política", mas pelo fato de que as "redes" promoveram o salto do cidadão anônimo para a esfera pública. Ele agora se exprime na sua pura singularidade, sem a necessidade de compartilhar publicamente para tornar-se influente.

Um processo constituinte atípico para promover uma profunda reforma política, precedido de um plebiscito convocado segundo a Constituição, é uma oportunidade extraordinária para fazer avançar o sistema por dentro da democracia.

Esse processo poderia incorporar a contribuição, por meio das novas tecnologias à disposição do colegiado de representantes constituintes, de milhões de jovens das redes, cujas linguagens, desafios e desejos não foram compreendidos por nenhum partido até o presente.

Todas as agremiações, sem exceção, foram pegas de surpresa e ou tentaram se unir aos movimentos ou tentaram direcioná-los segundo os seus interesses políticos imediatos.

Teríamos daí, no Brasil, uma experiência democrática de vanguarda. A eleição daria origem a uma assembleia de representantes, que incluiria pessoas eleitas sem partido. Combinado a isso, contaríamos com a participação e a colaboração direta de milhões, não só por meio das mobilizações sociais tradicionais, mas igualmente pelos meios virtuais, tanto para receber contribuições como aferir opiniões.

Resta saber se o Congresso Nacional terá a ousadia de vencer sua paralisia burocrática para responder à crise nacional. A questão do país não é uma corrupção em abstrato. A questão do país é a corrupção concreta de um sistema político vencido e é um cansaço da democracia, que não ousa inovar-se.
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*Tarso Genro foi prefeito de Porto Alegre, Ministro da Educação e da Justiça e é governador do Rio Grande do Sul.

20 junho, 2013

O preço do progresso (em política não há vazio)




por Boaventura Souza Santos*
do Carta Maior

Com a eleição da Presidente Dilma Rousseff, o Brasil quis acelerar o passo para se tornar uma potência global. Muitas das iniciativas nesse sentido vinham de trás mas tiveram um novo impulso: Conferência da ONU sobre o Meio Ambiente, Rio +20, em 2012, Campeonato do Mundo de Futebol em 2014, Jogos Olímpicos em 2016, luta por lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU, papel ativo no crescente protagonismo das "economias emergentes", os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), nomeação de José Graziano da Silva para Diretor-Geral da Organização da Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), em 2012, e de Roberto Azevedo para Diretor-Geral Organização Mundial de Comércio, a partir de 2013, uma política agressiva de exploração dos recursos naturais, tanto no Brasil como em África, nomeadamente em Moçambique, favorecimento da grande agricultura industrial sobretudo para a produção de soja, agro-combustíveis e a criação de gado.

Beneficiando-se de uma boa imagem pública internacional granjeada pelo Presidente Lula e as suas políticas de inclusão social, este Brasil desenvolvimentista impôs-se ao mundo como uma potência de tipo novo, benévola e inclusiva. Não podia, pois, ser maior a surpresa internacional perante as manifestações que na última semana levaram para a rua centenas de milhares de pessoas nas principais cidades do país. Enquanto perante as recentes manifestações na Turquia foi imediata a leitura sobre as "duas Turquias", no caso do Brasil foi mais difícil reconhecer a existência de "dois Brasis". Mas ela aí está aos olhos de todos. A dificuldade em reconhecê-la reside na própria natureza do "outro Brasil", um Brasil furtivo a análises simplistas. Esse Brasil é feito de três narrativas e temporalidades.

A primeira é a narrativa da exclusão social (um dos países mais desiguais do mundo), das oligarquias latifundiárias, do caciquismo violento, de elites politicas restritas e racistas, uma narrativa que remonta à colónia e se tem reproduzido sobre formas sempre mutantes até hoje. A segunda narrativa é a da reivindicação da democracia participativa que remonta aos últimos 25 anos e teve os seus pontos mais altos no processo constituinte que conduziu à Constituição de 1988, nos orçamentos participativos sobre políticas urbanas em centenas de municípios, no impeachment do Presidente Collor de Mello em 1992, na criação de conselhos de cidadãos nas principais áreas de políticas públicas especialmente na saúde e educação aos diferentes níveis da ação estatal (municipal, estadual e federal).

A terceira narrativa tem apenas dez anos de idade e diz respeito às vastas políticas de inclusão social adotadas pelo Presidente Lula da Silva a partir de 2003 e que levaram a uma significativa redução da pobreza, à criação de uma classe média com elevado pendor consumista, ao reconhecimento da discriminação racial contra a população afrodescendente e indígena e às políticas de ação afirmativa e à ampliação do reconhecimento de territórios e quilombolas e indígenas.

O que aconteceu desde que a Presidente Dilma assumiu funções foi a desaceleração ou mesmo estancamento das duas últimas narrativas. E como em política não há vazio, o espaço que elas foram deixando de baldio foi sendo aproveitado pela primeira e mais antiga narrativa que ganhou novo vigor sob as novas roupagens do desenvolvimento capitalista todo o custo, e as novas (e velhas) formas de corrupção. As formas de democracia participativa foram cooptadas, neutralizadas no domínio das grandes infraestruturas e megaprojetos e deixaram de motivar as gerações mais novas, orfãs de vida familiar e comunitária integradora, deslumbradas pelo novo consumismo ou obcecadas pelo desejo dele.

As políticas de inclusão social esgotaram-se e deixaram de corresponder às expectativas de quem se sentia merecedor de mais e melhor. A qualidade de vida urbana piorou em nome dos eventos de prestígio internacional que absorveram os investimentos que deviam melhorar transportes, educação e serviços públicos em geral . O racismo mostrou a sua persistência no tecido social e nas forças policiais. Aumentou o assassinato de líderes indígenas e camponeses, demonizados pelo poder político como "obstáculos ao desenvolvimento" apenas por lutarem pelas suas terras e modos de vida, contra o agronegócio e os megaprojetos de mineração e hidrelétricos (como a barragem de Belo Monte, destinada a fornecer energia barata à indústria extrativa).

A Presidente Dilma foi o termómetro desta mudança insidiosa. Assumiu uma atitude de indisfarçável hostilidade aos movimentos sociais e aos povos indígenas, uma mudança drástica em relação ao seu antecessor. Lutou contra a corrupção mas deixou para os parceiros políticos mais conservadores as agendas que considerou menos importantes. Foi assim que a Comissão de Direitos Humanos, historicamente comprometida com os direitos das minorias, foi entregue a um pastor evangélico homofóbico e promove uma proposta legislativa conhecida como “cura gay”. As manifestações revelam que, longe de ter sido o país que acordou, foi a Presidente quem acordou.

Com os olhos postos na experiência internacional e também nas eleições presidenciais de 2014, a Presidente Dilma tornou claro que as respostas repressivas só agudizam os conflitos e isolam os governos. No mesmo sentido, os presidentes de câmara de nove cidades capitais já decidiram baixar o preço dos transportes. É apenas um começo. Para ele ser consistente é necessário que as duas narrativas (democracia participativa e inclusão social intercultural) retomem o dinamismo que já tiveram. Se assim for, o Brasil estará a mostrar ao mundo que só merece a pena pagar o preço do progresso, aprofundando a democracia, redistribuindo a riqueza criada e reconhecendo a diferença cultural e política daqueles para quem progresso sem dignidade é retrocesso.

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Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).

19 junho, 2013

Precisamos de mais democracia, participação e transparência


Talvez uma das expressões que o governador Tarso Genro mais use seja 'temos obsessão pela transparência'. E sempre que a usa, explica que a transparência, junto com a participação, é o que fortalece a democracia. Na última quinta-feira (13), no lançamento do aplicativo "De olho nas Obras", do Gabinete Digital, essa foi mais uma vez tônica do discurso, uma vez que o aplicativo é uma importante 'chave de fenda' para a democracia. 

A ferramenta interativa permite que todos acompanhem, via web, as etapas das obras em execução no Estado. Desde os dados financeiros, licitação, prazos - dados antes restritos aos gabinetes do governador, dos secretários e administradores - a fotos e videos, podem ser consultados e comentados no aplicativo, de funcionamento semelhante ao facebook. Um avanço extraordinário em relação aos sites de dados abertos usados (quando usados) por prefeituras, pelos outros estados e mesmo pelo governo federal e outros poderes. Um passo também na absoluta e necessária inclusão da web como meio de comunicação direta dos governantes com os cidadãos. 

Nestes tempos em que as redes sociais mobilizam multidões que se sentem à margem dos processos decisórios, esse tipo de comunicação facilita, tanto por parte dos governantes quanto da população, o monitoramento das ações e demandas sócio-culturais, seu entendimento e, óbvio, com vontade política, o diálogo para estabelecimento de prioridades. 

Nesse dia o governador comentou sobre as manifestações, nesse momento ainda restritas a algumas cidades. Ele analisa como sinal de que há avanços e democracia e onde os há, há demandas. Ressaltou que onde há diálogo e transparência, o povo na rua não assusta os governantes. Abaixo da foto, post do Marco Weissheimer com entrevista coletiva que Tarso concedeu ontem (18) sobre as manifestações que se intensificaram em todo o país e onde mais uma vez usa o bordão: "precisamos de mais democracia, participação e transparência".
  
Lançamento do aplicativo de Olho nas Obras, do Gabinete Digital Foto: Denise Queiroz

por Marco Weissheimer
no Sul21
O governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, promoveu uma conversa com jornalistas de vários meios de comunicação de Porto Alegre, na tarde desta terça-feira (18), no Palácio Piratini, sobre os protestos de rua que estão sacudindo diversas cidades do país nos últimos dias. Na abertura do encontro, o chefe do Executivo gaúcho disse que pediu a conversa mais para trocar ideias do que propriamente para fazer uma entrevista. “Eu também gostaria de fazer algumas perguntas para saber o que vocês estão pensando sobre o que está acontecendo”, disse Tarso. E foi o que aconteceu, de fato. Durante aproximadamente 45 minutos, o governador apresentou sua avaliação preliminar sobre os protestos, respondeu perguntas e fez questionamentos aos jornalistas.

Tarso voltou a defender a legitimidade das manifestações e disse que a juventude que está nas ruas está dando uma grande contribuição para o país. Assinalou, por outro lado, que os governos estaduais enfrentam uma conjuntura particularmente difícil neste processo. “Por um lado, não temos mecanismos e instrumentos financeiros para incidir sobre a questão do transporte coletivo nas cidades e tampouco lidamos com as planilhas que definem o preço das passagens. Por outro, temos o dever de manter a ordem pública, uma tarefa que tem duas dimensões: garantir o direito à manifestação e a integridade física dos manifestantes; e proteger a população de excessos cometidos por minorias ou por infiltrados no movimento”. A atuação da Brigada Militar foi um dos principais temas de questionamento por parte dos jornalistas que participaram da conversa. Vários deles, cobraram mais rigor na ação da Brigada, especialmente na defesa do patrimônio.

Conversa com Dilma

O governador relatou que conversou longamente com a presidenta Dilma Rousseff na manhã desta terça. Ela ligou pedindo um relato sobre os acontecimentos no Rio Grande do Sul. “O governo federal ainda está em processo de avaliação sobre o que está acontecendo”, assinalou. “Uma das novidades que estamos presenciando”, disse ainda Tarso, “é que estamos diante de um movimento social atípico, composto em sua maioria por estudantes e profissionais liberais, sem lideranças visíveis e com uma pauta diversificada”. “Precisamos pensar esse fenômeno de maneira global, estabelecendo uma rede de solidariedade entre todos os entes federados”. Ele reconheceu que o transporte coletivo brasileiro é caro e de má qualidade e está submetido a cálculos de tarifa muito opacos, sem transparência. Além disso, acrescentou, a frota não aumentou nos últimos anos, ao contrário do número de usuários.

Tarso admitiu a possibilidade de o Estado contribuir com medidas para a redução do preço da tarifa do transporte coletivo nos municípios. “Podemos reduzir o ICMS do diesel, por exemplo. Isso pode ser negociado. O prefeito Fortunati disse hoje pela manhã que vai me enviar um documento sobre esse tema. Assim que eu receber esse documento vou ligar para ele e marcar uma conversa”.

Atuação da Brigada Militar

A atuação da Brigada Militar nas manifestações de rua foi um dos principais temas da conversa de Tarso com os jornalistas. Vários deles manifestaram preocupação com a destruição de patrimônio e com a possibilidade de uma demasiada tolerância da BM com esse tipo de prática. “A orientação que eu dei está sendo cumprida”, respondeu o governador. “Segundo essa orientação, se houver dúvida que uma intervenção numa determinada situação possa gerar uma repressão indiscriminada entre os manifestantes, a orientação é não intervir. Não vamos proteger uma vitrine se o custo disso for ferir cinco ou seis pessoas. A responsabilidade pela destruição de patrimônios é dos promotores da manifestação”.

Questionado pelo jornalista Tulio Milman, da RBS, sobre a possibilidade dessa orientação deixar prédios e outras instalações sem proteção, Tarso respondeu que a Brigada está, sim, fazendo essa proteção. “A Brigada não deixou ontem que o prédio da RBS fosse atingido, vocês sabem disso. Eram vocês da RBS que seriam atacados, tem alguma dúvida disso? Não vamos deixar que isso ocorra, seja no prédio da RBS, do Correio do Povo ou na sede do PSOL. A orientação que está sendo observada é, fundamentalmente, no sentido de proteger a integridade das pessoas”.

O impacto da Copa

Tarso Genro também falou sobre o tema dos custos da Copa do Mundo de 2014 e seu impacto nos protestos. “A Copa do Mundo se transformou em um grande conglomerado de negócios globais. As pessoas não conseguem mais entrar nos estádios, pois os preços estão se tornando proibitivos. O que está impactando é o custo de novos estádios novos como este construído em Brasília e o deslocamento de populações em virtude de obras da Copa. Pela primeira vez na história do país, há uma insatisfação com o futebol e essa insatisfação tem um núcleo muito claro: estádios muito caros onde a população não pode entrar”.

O governador identificou ainda outros elementos como potenciais catalisadores dos movimentos de protesto: as obras de Belo Monte, a eleição de Marcos Feliciano para a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. “Há um movimento de inconformidade anti-sistema. A saída para isso é mais democracia, mais participação, mais transparência e mais combate à corrupção. A evolução desse movimento vai depender da resposta que a nossa democracia for capaz de dar a ele. Diante desse quadro, os partidos políticos deveriam ter a dignidade de fazer uma ampla e profunda Reforma Política. Os partidos estão muito envelhecidos, com métodos arcaicos”.

Tarso reconheceu, por outro, uma dificuldade para conversar com os jovens que estão protestando. Se não há lideranças, se não há representantes, com quem conversar e negociar mudanças na situação atual? Antes de se reunir com os jornalistas, Tarso recebeu lideranças de movimentos sociais e sindicatos do Rio Grande do Sul para discutir essa situação. O governador anunciou que, neste momento, todas as autoridades públicas estão em busca de interlocutores junto aos manifestantes para conversar.

“Modelo lulo-desenvolvimentista bateu no teto”

Ainda na avaliação do governador gaúcho, os protestos dos últimos dias estão mostrando que o “modelo lulo-desenvolvimentista” bateu no teto. “Isso está ocorrendo não porque esse modelo fracassou, mas porque ele deu certo. Mas ele chegou ao seu limite e é preciso avançar”.

Tarso também foi questionado sobre o quanto o tema da corrupção estaria influenciando os manifestantes. E respondeu: “A indignação com a corrupção é justa. O problema é a indiferenciação dos políticos e da política. Se você retira a mediação da política, o que resta? O que resta é uma tecnocracia e a depredação”.

01 junho, 2013

É preciso estar atento e forte


"Cría cuervos y te sacarán los ojos"  

por T.G. Meirelles

Lendo o artigo do Prof. Wanderley Guilherme dos Santos no "O Cafezinho" (http://bit.ly/10NVtPj), temo que tenha que constatar não haver nada de revolucionário no governo Dilma. Pelo menos não até agora, e que seja originariamente seu. Se avanços e revoluções se fazem notar é por pura força da inércia, resultado do espetacular embalo oriundo do governo Lula após 8 anos de “pé no acelerador”. Ali, a revolução!

Diferentemente do artigo do prof. Wanderley, o que se revela com o passar do tempo é um retrocesso do atual governo em relação a políticas caras ao PT e ao povo, tais como o tratamento com a mídia, a questão do petróleo, a política de juros, a reforma agrária, dentre outros.

Pode soar conspiratório, mas pense comigo: e se a solução da oposição não estiver nas eleições? (o que, aliás, já sabemos TODOS, não será possível que ganhem no voto). E se a solução para os ideais da oposição for simplesmente ir se infiltrando no governo, ampliando a base aliada, ocupando ministérios, ir comendo pelas beiradas, impondo a pauta da direita e, aos poucos, ficar do jeito que o PIG - ou o diabo, tanto faz - gosta? Um governo possuído, feito um médium incorporado: o corpo e o vestido vermelho da Dilma estão lá, mas a alma é do Ali Kamel! Por que diabos, enfim, ACM neto iria pousar no PDT, aquele de onde veio Dilma?! Um triller, não é?

Enquanto isso, grande parte da chamada “militância nas redes sociais" age feito um cartório, simplesmente carimbando de acertada toda e qualquer atitude do governo, por mais descabida que possa parecer, sem exercer um mínimo de crítica. A militância, na verdade, deveria estar atenta e forte para exigir eventuais correções de rumo, como deixou claro Maurício Caleiro, em imperdível post no Cinema & Outras Artes (http://migre.me/eNyyj).

Com exceção dos “fanáticos da seita” muita gente já está “atenta e forte”, mas muita gente ainda não entendeu o enredo desse samba, confundindo, talvez inocentemente, o alerta à militância com terceiras e ocultas intenções de partidos emergentes por trás dessa visão crítica. Muitos acabam perguntando: "sim, mas e 2014?" Ora, não tem pra onde correr. É Dilma de novo e quanto a isso não se discute. E nem é esse o ponto! (pelo menos, não até aqui…) Não se trata de mudar de partido nem de candidato e sim de postura. Parar de só justificar o governo e passar a exercer o direito à crítica ao governo, coisa que os chamados “fanáticos da seita” nem sequer permitem que se sonhe.

No texto do Caleiro, que mencionei acima, existe a remissão ao post do Matheus Machado (http://bit.ly/136JCis) que começa assim: “Conta uma anedota da política norte-americana que o ex-presidente Franklin Delano Roosevelt certa vez recebeu o sindicalista e ativista negro A. Philip Randolph, ouviu a todas as suas demandas e, por fim, respondeu: ‘eu concordo com tudo que você disse. Agora, obrigue-me a fazê-lo.’”

É isso! É possível (e provável) que Dilma concorde com todas as criticas, mas a militância, o PT, o povo enfim, têm que "obrigá-la"! É o que se vê do final da anedota americana, segundo o mesmo Matheus. O resultado do encontro teria sido uma longa campanha por direitos civis, que culminaria com a organização de uma marcha que, segundo os organizadores, colocaria cem mil negros nas ruas de Washington em 1941. Esse é o recado, principalmente à militância: nós somos povo, estamos com Lula e todos os ideais de liberdade, solidariedade, crescimento e bem-estar para todos, mas estamos atentos e fortes para apontar falhas no processo e exigir correção de rumo, quando necessário. Ignorando eventuais diversionismos, é disso que se trata: a revolução no governo Dilma ainda poderá acontecer, mas não dependerá somente dela.


15 março, 2013

Quem te representa?

por Denise Queiroz

Assistimos revoltados à conturbada eleição do pastor Marco Feliciano, do PSC, para a Comissão de Direitos Humanos e Minorias na Câmara. Em poucos minutos centenas de vídeos e matérias mostrando que tal sujeito é absolutamente incompatível com a função pipocavam no tuiter, no face, em blogs e nas denúncias de representantes legítimos de minorias, que juntas são maioria neste país. 

A campanha #ForaFeliciano segue viva na internet, mais e mais pessoas se juntam aos que dispararam o rechaço da população às posturas afrontosas ao bom senso, aos Direitos Humanos e à Constituição, do pastor e seus pares. Ainda causa espanto que alguém com tais feitos e ditos possa ser eleito para qualquer cargo público, num retrato surreal e fidedigno da triste realidade das eleições no país (quantos dos que o elegeram sabiam, por exemplo, de seu ódio contra negros e homossexuais?).

Como se não bastasse essa afronta do parlamento (e sim, todos os que permitiram que um partido com prática e membros pública e claramente favorável a preceitos nada igualitários ficasse com a liderança da Comissão, tem culpa nisso) ontem fomos informados através de um post-denúncia no excelente Viomundo, que foi aprovado um projeto de lei (PL 6.167/09)
, do deputado paranaense Andre Vargas, que dá o nome do maior latifundiário do país a um trecho de uma estrada federal. Esse deputado é do PT, partido que, não custa lembrar, foi fundado por trabalhadores, movimentos sociais e intelectuais de esquerda e do qual alguns ainda carregam a bandeira da reforma agrária e justiça social junto aos sem-terra.  

Qual a diferença, então, entre os dois parlamentares? Um, o pastor, é assumidamente de direita. O outro, que agora é líder da bancada do PT na Câmara, até onde se sabe, se diz de esquerda.

Com isso só constatamos que o que define uma pessoa (física - o deputado - ou jurídica - o partido) são suas ações, não suas palavras.

Mas também evidencia a bipolaridade de um partido que pilota o governo há dez anos mas, ao mesmo tempo em que implementa programas sociais aplaudidos e copiados em todo o mundo, não contente em manter, propõe e aprova homenagem aos piores representantes do que sempre condenou. 
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Links inseridos no texto: 

Deputado do PT homenageia o “maior grileiro do mundo”

Campanha em repúdio ao pastor Feliciano

11 março, 2013

A elite sabe que pelas urnas é difícil chegar ao poder

Entrevista de Samuel Pinheiro GuimarãesDario Pignotti, do Página12, traduzida por Marco Aurélio Weissheimer e publicada pelo Carta Maior

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Brasília – Hugo Chávez citava frequentemente Samuel Pinheiro Guimarães para defender a aliança vital com o Brasil ou repudiar as tentativas de anexação por parte dos Estados Unidos sob o manto da Alca.

Chávez conhecia os bastidores do Itamaraty e quando citava Samuel talvez procurasse fortalecê-lo frente aqueles que tentavam afastá-lo da secretaria geral da Chancelaria para restabelecer a diplomacia do Consenso de Washington. O diplomata também foi mencionado pela embaixada dos EUA para quem ele é um “antiamericano virulento”, segundo documento divulgado pelo Wikileaks.

A morte de Chávez, mas sobretudo a tensão estratégica entre Venezuela e Estados Unidos, e o “muro” que Dilma e Cristina Kirchner estariam formando para abortar tentativas golpistas contra Nicolás Maduro foram os temas tratados pelo diplomata nesta enciclopédica entrevista.

Cerimônia de incorporação da Venezuela ao Mercosul em Julho de 2012

Carta MaiorWashington considerou absurda a suspeita de que Chávez tenha morrido vítima de uma enfermidade inoculada. Certamente a hipótese soa algo exagerada, mas você a descartaria por completo?

Samuel Pinheiro Guimarães – Não estou em condições de falar sobre o que ocorreu concretamente, mas o presidente Maduro falou do tema, segundo ouvi, e prometeu investigar. Ele deve saber porque disse isso e se houver alguma desconfiança por parte do governo venezuelano este pode adotar a decisão que lhe pareça mais conveniente. Os estados têm soberania para decidir o que fazer. Não afirmou nada, estou especulando.
Os que colocaram em dúvida o que causou a morte de Arafat (suposto assassinato com substâncias radioativas) foram desqualificados em 2004, quando ele morreu. Passados alguns anos, isso que parecia um absurdo hoje não é mais e os que foram ridicularizados não estavam tão equivocados. O passar do tempo às vezes acaba revelando algumas coisas. Que se investigue.

CM – Maduro falou de um plano sedicioso com participação estadunidense... O jornalista Kennedy Alencar informou que Dilma e Cristina se articulam para frear eventuais golpistas...

SPG – Não tenho informação, mas imagino que haja uma grande preocupação por parte das presidentas para que não haja um golpe de estado. Isso sempre pode ocorrer, como em 2002. De repente veio o golpe. Um golpe se articula discretamente. Estão corretas em se preocupar se têm informações. Mas creio que isso seja difícil no curto prazo. No médio ou longo prazo, aí já não sei. É importante que Brasil e Argentina estejam vigilantes.Desestimular eventuais movimentos golpistas é importante. Juntas, elas podem influir poderosamente. O apoio delas ao governo democrático é necessário. Igualmente acredito que a transição para as eleições está assegurada. Haverá estabilidade no curto prazo, o problema é o longo prazo.

CM – Se tiveram coragem de tentar um golpe contra Chávez, porque não tentariam de novo agora, sem ele?

SPG – Claro, isso é lógico. É preciso levar em conta que a sociedade venezuelana está fraturada, os programas sociais levaram à conscientização das massas e, ao mesmo tempo, provocaram uma reação das classes altas e médias altas. As minorias sabem que pelas urnas é difícil chegar ao poder e aparece aí a tentação permanente de fazê-lo por fora das urnas.
Não sei com certeza se há setores militares fortes com planos golpistas, mas se há militares que não gostam do chavismo isso não me surpreenderia. Isso ocorre com todas as elites. Por isso, considero importante que existam milícias populares dispostas a defender o governo para compensar o poder dos militares.

CM – O novo secretário de Estado, John Kerry, se veste de pomba. Será ele menos hostil do que Hillary?

SPG – Parece-me quase impossível ser mais hostil que Hillary, mas a política externa dos EUA transcende a característica pessoal de seus funcionários. Há um princípio permanente que é castigar, ainda que muitos anos depois, os países que não se enquadram nos desígnios de Washington. Quando algum país não obedece a esse enquadramento, e a Venezuela fez isso, será vítima de uma política que eu chamaria de vingativa. Lembro quando Bush invadiu o Iraque por muitas coisas. Para ele, havia um sentimento pessoal. Bush chegou a dizer que Saddam quis matar seu pai. O mesmo ocorre com o Irã, porque eles invadiram a embaixada e, pior, os iranianos tiveram a audácia de dar os nomes dos informantes iranianos que trabalhavam com a CIA. Isso, Washington nunca perdoou. O mesmo se aplica a Venezuela. Creio que Washington nunca perdoará as atitudes de Chávez.

CM – Soberania equivale e irreverência...

SPG – A Venezuela foi uma província petroleira dos EUA durante décadas. Na II Guerra foi maior fornecedora de petróleo dos aliados. Tudo isso deu origem a uma classe dominante muito ligada ao negócio petroleiro e a Washington. Colômbia e Venezuela são fundamentais para o sistema norteamericano, no Mediterrâneo americano. Chávez acabou com tudo isso. Deu às costas aos Estados Unidos e se voltou ao Brasil, ingressou no Mercosul e rechaçou a ALCA. Isso, para os EUA, é imperdoável.

CM – Para a direita, o chavismo morrerá com ele.

SPG – A dimensão de Chávez foi imensa, mas não considero adequado dizer que tudo era fruto do carisma dele. Um autor alemão que viveu nos EUA dizia que as pessoas não chegavam ao poder porque tem carisma, o poder é que lhes dá carisma. Quando Chávez chegou ao poder em 1999, não tinha a grande dimensão internacional que chegou a ter, na medida em que foi desenvolvendo seu projeto. Agora, é preciso ver com Maduro amadurece (risos).

CM – O cesarismo, talvez inevitável, do modelo bolivariano agrava o vazio causado pela morte do líder?

SPG – Os meios de comunicação dão muito valor à atuação do presidente ou do primeiro ministro, supervalorizam a pessoa, como se ela fosse imprescindível. É falso, Ninguém governa sozinho, governa-se porque se representa um conjunto de setores. Isso ocorre nas democracias liberais e nas ditaduras. Por tanto, é um equívoco achar que o chavismo é só a presença de Chávez e não ver que esse fenômeno teve um respaldo enorme dos setores populares.
Dizer que Chávez era tudo foi mentira desses meios, que também inventaram que a revolução não é democrática. Na Venezuela de Chávez houve mais eleições que aqui no Brasil, como Lula observou. Não há notícias de jornalistas ou opositores presos. Se houvesse, seria notícia permanente. Essa imprensa criou a fantasia de que a revolução é um sistema baseado numa pessoa e isso é falso.

CM – A longa agonia de Chávez permitiu que Maduro se afiançasse como seu sucessor?

SPG – Espero que sim. Não é fácil saber qual será sua habilidade para manter dentro do projeto os setores populares, partidos e forças armadas.

CM – Sendo Alto Representante do Mercosul (até julho de 2012), você pode conversar em profundidade com Chávez?

SPG – Com Chávez falei poucas vezes. Ele citava constantemente um livro meu que ele considerava muito importante.

CM – Parece estar em marcha um ataque preventivo contra Maduro quando os conservadores anunciam que deverá haver um “inevitável” ajuste do gasto público.

SPG – A mídia internacional e os organismos financeiros internacionais repetem em coro que é preciso fazer um ajuste, controlar a inflação ou então virá uma catástrofe. Tudo isso é falso. Basta olhar para os EUA onde nunca se fala disso e onde há déficits comerciais e fiscais absurdos. Lá não se pede isso, aqui sim. É uma religião disfarçada de discurso econômico global onde toda a política social é chamada de populismo. No Brasil falam do lulopetismo.

CM – As políticas sociais destes 14 anos de Chávez são conquistas irreversíveis?

SPG – Não creio. No Chile havia um processo avançado e, com o golpe de 73, se retrocedeu até na reforma agrária. Na Argentina ocorreu o mesmo com o golpe de 1976. Se a direita volta é para retomar o poder e terminar com as políticas públicas, com a redistribuição de renda. Tudo começa com as campanhas nos meios de comunicação, dizendo que chegou a modernidade, que está tudo melhor, que o populismo está dizendo adeus.Na Venezuela esse discurso pode começar a ser utilizado com a volta das classes abastadas, para desqualificar os programas de saúde, os gastos do Estado com alfabetização, para retirar recursos da Universidade das Forças Armadas, das missões (programas sociais do governo).
Capriles (principal opositor nas eleições de outubro de 2012) teve mais de 40% dos votos. Esses votos não são só das elites. Há pessoas pobres beneficiadas pelos programas sociais que são ideologicamente conservadoras. Eu creio que essas conquistas não possam ser entendidas como irreversíveis. Por isso as classes dominantes querem voltar ao governo, para reverter esses avanços.
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