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24 novembro, 2011

A esquerda real e a internet

Do Poblet
Dica de Sergio Pecci
Texto de Carlos Martínez

Tradução de Denise Queiroz 
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Do blog arrobazona
























São muitas as pessoas de esquerda que, na América Latina, acompanham as notícias da 
Espanha através dos meios alternativos como Rebelión, Insurgente, Kaos, Tercera información. Tendo em vista a presença muito importante nestes sítios de organizações como Izquierda Anticapitalista, Equo e outras, esse leitores não entendem os parcos resultados eleitorais. Igualmente não entendem, observando o triunfalismo de muitos textos publicados nesses meios, como na Espanha não haja uma revolução ocorrendo ou tenha diminuído, em parte, o movimento 15-M. Ou como não aparecem novos sindicatos à margem dos tradicionais.

É verdade que as eleições servem para muito pouco, mas se podemos utilizá-las como uma radiografia da sociedade, é uma pesquisa que cobre 100% da população com direito a voto. Os resultados destas últimas eleições deram um banho de realidade nos que vivem a política através de sua conexão ADSL.

Antes da democratização da Internet, os que nos considerávamos vermelhos sofríamos a síndrome do cachorro verde. Nos sentíamos estranhos num meio social que nos parecia alheio, éramos ilhas num oceano de conservadorismo. Com a chegada da rede, surgiram os primeiros meios de comunicação alternativos. Depois, através do correio eletrônico, ou dos grupos de notícias, começaram a ser criadas as primeiras comunidades sociais entre pessoas de esquerda (igualmente as que se criaram com pessoas de outros interesses, desde a filatelia até o aeromodelismo).

Estas redes cresceram e se fortaleceram com o sucesso do Facebook primeiro e depois do Twitter, entre outras. O que nos transportou a outro extremo: submergimos em uma bolha junto com nossos “afins” e passamos a pensar que agora somos todos vermelhos, que somos uma legião e que temos muitos amigos e ou seguidores.

Em recente conversa com o jornalista Pascual Serrano, ele confessou que, apesar de receber montões de e-mails, de ser muito lido na Internet e de ter alcançado certo sucesso no campo editorial, sua transcendência social se limita a um círculo ideológico muito pequeno. A prova é que seus vizinhos ou família não conhecem praticamente nada de sua atividade ou pensamento. Imagino que essa experiência possa ser posta a praticamente todos os blogueiros, tuiteiros, etc.

Internet é um fabuloso meio, barato e sem fronteiras, onde podemos criar nossos meios de comunicação e difundir convocações. Mas, enquanto militantes de esquerda, devemos nos vacinar contra os efeitos colaterais que produz: isolamento da vida real, percepção de que somos maioria, e do ego inflado, nos casos mais agudos.

Façamos a seguinte prova: 24 horas depois de escrever um post em nosso blog, um artigo sério em nosso meio alternativo de referência ou um tuíte, imprimamos e oferecemos a nossa família, vizinhos, amigos do bairro ou companheiros de trabalho para que leiam. Comprovemos quantos deles formavam parte dessas centenas de leitores que tivemos na rede. Depois, escutemos suas opiniões que, quem sabe, sejam mais interessantes das que colhemos na Internet dos que pensam como nós.

Sem dúvida, é muito mais fácil apertar o botão curtir ou dar RT do que distribuir panfletos nas portas das fábricas. Mas este último é o trabalho militante que devemos valorizar. Como diz meu amigo Serrano, não podemos aceitar o termo ‘ciberativismo’ assim como não podemos ‘cibercomer’.

Também é preocupante o modo pelo qual se transmitem entre gerações os valores da esquerda. Somos muitos os que acreditamos que são transmitidos de maneira mais eficiente através do exemplo que das palavras. Quantas famílias tem que agüentar o discurso de esquerda de um de seus membros e depois suportar seu comportamento egoísta, machista ou autoritário?

Na web podemos ter tantas vidas quanto o tempo que estivermos dispostos a dedicar e manter diferentes perfis nas redes sociais. Mas a vida real é uma só, e algumas vezes curta, sem tempo para consertar. Nela devemos ser honrados, coerentes, combativos e solidários. Que as pessoas comprometidas com a superação do capitalismo sejam autênticas referências éticas é algo insubstituível pela comunicação escrita, e menos ainda a distribuída no mundo virtual.

Deve-se usar a internet para propagar nossas idéias, deve-se ter e participar ativamente de meios alternativos de comunicação. Também é especialmente importante a correta utilização das redes sociais para atrair jovens às nossas teses e organizações, mas nunca se deve abandonar a militância na vida real

Deveríamos fazer com nós mesmos o que fazemos com nossos filhos: impôr limites à Internet, dedicar as mesmas horas para expressar nossas opiniões em rede como fora dela ou falar com tantos amigos na rua ou no trabalho quanto na rede. De outra maneira, perderemos o contato com a realidade, e isto é a última coisa que nos podemos permitir. Se não somos capazes de militar na vida real, não deveríamos dar lições na rede aos que lutam por um mundo (real) melhor.

21 novembro, 2011

A democracia e a economia

Por Renato Janine Ribeiro 
Do Valor Econômico
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Em nosso tempo, nada rivaliza com a economia, em termos de poder. Menos de dois séculos atrás, Karl Marx chocava o mundo ao dizer que a política (estou simplificando) seguia a economia. Faz cinquenta anos, a direita usava argumentos religiosos, espirituais, morais para enfrentar o "materialismo ateu", que reduzia a riqueza do ser humano, criado à imagem de Deus, à vulgaridade econômica. Mas como bem disse, embora grosseiramente, James Carville, o marqueteiro de Bill Clinton que foi decisivo para elegê-lo presidente dos Estados Unidos: "O que conta é a economia, seu estúpido".

Grécia em 19 de Outubro, via ORA
Esse fato tem vários desdobramentos. O primeiro fortalece a democracia. Acabou, quase por completo, pelo menos nos países em que há comunicação de massas, a ideia de que os pobres acatariam sua condição porque Deus assim o quis. Uma notável peça de Pedro Calderón de la Barca, "O grande teatro do mundo", sustentava, na década de 1630, que cada um deveria contentar-se com sua condição social, do miserável até o monarca, e cumprir o seu papel (daí, a referência ao teatro) adequadamente. Hoje, nem pensar. Em nossa sociedade, todos querem viver melhor. Mesmo quem está no topo da escala social e poderia nada almejar a mais, continua desejando subir. Quanto aos mais pobres, nenhum argumento religioso os convencerá de que devem suportar sua situação, digamos, cristãmente. Um arcebispo de Diamantina, líder da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, disse certa vez que precisa haver pobres, e mesmo muito pobres - porque, se não houver, como os ricos conseguirão ir para o céu, não podendo exercer a virtude da caridade? Admirável essa preocupação de salvar os ricos no Além, ainda que às custas dos pobres aqui e agora. Mas acabou. Ninguém mais diria essa tolice, hoje. 

Portanto, os pobres querem, dos governos, que os ajudem a melhorar de vida e a deixar a pobreza. A classe média quer subir na vida e os ricos, pouco numerosos mas com bala na agulha, também. Isso faz que, em países como o nosso, a grande maioria de pobres tenha bem claro o que deseja da democracia: que ela seja social, isto é, que não fique só na política, mas mexa também na estratificação da sociedade, tornando-a mais justa. Esse fator, fortemente democrático, está ligado ao primado da economia em nossos tempos.

Mas há outro lado, que é pouco democrático. Porque quem entende da economia? Bem poucos. O sufrágio universal se impôs. Os eleitores têm cada vez mais consciência do que desejam e querem. Mas o instrumento para realizar essa prosperidade crescente, ou pelo menos para acabar com a miséria, reduzir a pobreza e baixar a desigualdade, é arcano - isto é, de difícil compreensão. Em outras palavras: está numa ciência (ainda que não exata), cujo domínio exige especialização e conhecimento profundo. Daí que as eleições tenham alcance limitado. Isso porque, entre o dia da eleição, que é quando se manifesta a democracia, isto é, a soberania popular, e os quatro anos de gestão dos negócios públicos, onde a economia prevalece, há uma distância - e mesmo um abismo.

Grécia, 19 de outubro, via ORA 






















Tudo isso, tanto o aspecto democrático que consiste num povo que não aceita mais a pobreza como natural ou santa, quanto o lado pouco democrático de uma gestão das coisas cuja compreensão escapa à esmagadora maioria, traz consequências para as democracias. Primeira e óbvia: nunca se promete uma recessão, um empobrecimento. O que se oferece é o contrário. Vejam a Califórnia, tema de reportagem de novembro na "Vanity Fair", acessível na Internet: o Estado quebrou, vários municípios ricos quebraram, sobretudo porque uma emenda constitucional de perfil conservador exige dois terços do Legislativo para aumentar qualquer imposto. Kaputt. É um caso extremo, mas que mostra que políticos, quando concorrem a uma eleição, têm de omitir o que vão fazer, ou mesmo mentir. De onde José Serra tiraria os aumentos que prometeu, no mês final antes da eleição de 2010, para o salário mínimo e a bolsa-família? Não o acuso; apenas digo que nenhum político pode agir de outro modo. Vão prometer. Então, a emancipação do povo, que consiste em ele não acatar mais a pobreza, vem junto com sua infantilização: ao povo, não se conta a verdade. 

Daí, outra consequência: o primeiro ano de governo é de cortes e talvez de recessão. Já o ano da eleição tem que ser próspero, custe o que custar. Os economistas ficam de cabelos em pé ao verem isso, claro. Mas, por outro lado, suas receitas só eles entendem. Pouca gente mais. Alguém acredita que FHC entenda profundamente de economia? Ele conhece finamente a sociedade, seus processos e sua política. Emprestou sua competência para viabilizar o Plano Real, e com ele ganhou dois mandatos presidenciais. Mas a economia tem segredos. Por isso, quem entende dela - ou quem convence os outros que entende dela - tem acesso direto aos governantes. 

E aqui vem nosso último problema. Quase todo o receituário dos economistas, salvo os keynesianos e os (poucos) marxistas, é conservador. Propõe corte de gastos públicos, redução de direitos sociais, até mini-recessões. Não há como defender isso junto ao povo, seja este grego, italiano ou brasileiro. Há alternativas? Claro que sim. A Argentina renasceu sem esse receituário. O Brasil superou 2008 sem essas receitas. A Islândia se recusou a cumpri-las. Claro que, em outros casos, o caminho será outro. Mas geralmente só se diz a receita quase única, aquela que nunca passaria numa eleição. Daí que, se a democracia exige uma economia em crescente prosperidade, a atuação dos economistas nem sempre seja muito democrática. 

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo.

07 novembro, 2011

Toda a natureza da sociedade está em jogo


Paul Krugman, no Correio do Brasil
Tradução: Márcio Larruscahim
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A desigualdade está de volta às notícias em parte graças ao movimento Ocuppy Wall Street, mas também com um pouco de ajuda do Escritório de Orçamento do Congresso (CBO). E sabemos o que isso significa: está na hora de trazer os ofuscadores! Do relatório CBO, estas são as mudanças, em pontos percentuais, da participação de renda de três grupos: o quinto mais alto, com exclusão do 1% mais alto – que é basicamente o lugar dos bem formados que não estão entre os mais sortudos – somente conseguiu manter o passo com o crescimento global de rendas. Praticamente toda redistribuição de renda aconteceu dos 80% mais baixos até os 1% mais altos (e sabemos que a maioria dela na verdade foi para os primeiros 0.1%).

Qualquer um que tenha lidado com essa questão sabe do que estou falando. Quando a crescente disparidade de rendas ameaça ficar em foco, um grupo de defensores tenta borrar a imagem novamente. Os think tanks produzem relatórios alegando que a desigualdade não está realmente aumentando, ou que ela não é importante. Especialistas tentam pintar um quadro mais ameno, alegando que na verdade não é uma questão de ricos contra os mais pobres, mas sim dos cultos contra os menos cultos.

Então o que você precisa saber é que essas alegações são basicamente tentativas de obscurecer a dura realidade: temos um sociedade na qual o dinheiro está cada vez mais concentrado nas mão de alguns poucos, e na qual essa concentração de renda e riquezas ameaça transformar-nos em uma democracia somente no nome, e não de fato.

O Escritório de Orçamento apresentou um pouco dessa dura realidade em um relatório recente, documentando um declínio acentuado na participação de toda a renda por parte dos americanos de baixa e média-renda. Gostamos de pensar que somos um país de classe média. Mas com 80% dos lares mais pobres agora recebendo menos do que metade da renda total, este é um modo de pensar que cada vez mais vai contra a realidade.

Como resposta, já apareceram algumas explicações bem conhecidas: os dados estão errados (não estão); os ricos são um grupo que muda constantemente (não é o caso); e assim por diante. No momento, a explicação mais popular parece ser aquela que diz que talvez não sejamos uma sociedade de classe média, na qual uma ampla classe de trabalhadores altamente bem qualificados, que possuem habilidades para competir no mundo moderno, está indo muito bem.

Essa é uma boa estória, e muito menos perturbadora do que aquela em que uma nação na qual um grupo muito menor de pessoas ricas está ficando cada vez mais dominante. Mas ela não é verdadeira.

Trabalhadores com curso superior têm realmente, em média, ganhado melhor do que aqueles que não têm, e a distância entre eles tem aumentado ao longo do tempo. Mas norte-americanos altamente qualificados não são imunes à estagnação da renda e da crescente insegurança econômica.


Os ganhos nos salários para a maioria dos trabalhadores com diploma universitário não tem sido grande (e não-existente desde 2000), enquanto que até mesmo os bem qualificados não tem mais garantias de conseguir empregos com benefícios. Em particular, nos dias de hoje, trabalhadores com diploma universitário, mas nenhum outro título, têm menos chances de conseguir planos de saúde pagos pelo trabalho do que trabalhadores que tinham somente o ensino médio completo em 1979.

Então, quem está tendo os grandes ganhos? Uma minoria muito rica e muito pequena.

O relatório do Escritório de Orçamento nos diz que praticamente toda redistribuição de renda para cima, que sai dos 80% mais pobres, tem ido para os norte-americanos que fazem parte dos 1% mais ricos. Isto é, os manifestantes que se apresentam como representantes dos 99% estão basicamente certos, e os especialistas que os asseguram que a questão é relativa à educação e não aos ganhos da pequena elite, estão completamente errados.

Se há algo que os manifestantes estão fazendo errado é colocar o ponto de corte muito em baixo. O relatório recente do escritório de orçamento não analisa os 1% de cima, mas um relatório anterior que ia até 2005, descobriu que quase dois terços da crescente participação do percentual de cima de renda na verdade foi para os primeiros 0.1% – Os 1/1000 americanos mais ricos, cujas rendas cresceram mais de 400% entre 1979 e 2005.

Quem são esses norte-americanos 0.1% mais ricos? São eles empresários heroicos criadores de empregos? Não, na sua maioria, são executivos de empresas. Uma pesquisa recente mostrou que cerca de 60% do topo 0.1% ou são executivos em companhias não-finaceiras ou eles ganham seu dinheiro em finanças, i.e., Wall Street colocado de modo amplo. Adicione advogados e pessoas que trabalham no mercado imobiliário, e estamos falando de mais de 70% dos 1/1000 sortudos.

Mas por que esta crescente concentração de rendas e riquezas em poucas mãos importa? Parte da resposta está no fato de que a crescente desigualdade aponta para uma nação em que a maioria das famílias não participa plenamente no crescimento econômico. A outra parte da resposta está no fato de que uma vez que vemos o quanto rico ficaram os ricos, se torna mais atraente o argumento de que impostos mais altos para os que ganham mais deveria ser parte de um orçamento a longo prazo.



A resposta mais ampla, no entanto, é a de que a concentração extrema de renda é incompatível com a democracia real. Podemos seriamente negar que nosso sistema político tem sido distorcido pela influência do dinheiro, e que essa distorção está ficando pior na medida em que a riqueza dos poucos cresce cada vez mais?

Alguns especialistas tentarão dissipar as preocupações sobre a crescente desigualdade como sendo bobagem. Mas a verdade é que toda a natureza de nossa sociedade está em jogo.
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Paul Krugman é professor de Economia e Assuntos Internacionais na Universidade de Princeton e um colaborador frequente do The New York Times. Krugmam recebeu em 2008 o Prêmio Nobel de Economia. Ele é autor de inúmeros livros, incluindo The Conscience of A Liberal, e o mais recente, The Return of Depression Economics.


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