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16 junho, 2012

Com o povo grego contra a troika

Do Esquerda.Net 


Portugal- A Casa do Alentejo  encheu para a conferência/debate "Com o povo grego contra a troika", realizada pelo Bloco de Esquerda que convidou representantes de outros partidos europeus para partilharem a realidade social e económica vivida nos seus países.
Veja o vídeo!






Leia também: “Na Grécia, vamos enfrentar uma batalha brutal”

A sessão “Com o povo grego, contra a troika” foi dirigida pela eurodeputada Marisa Matias e encheu o salão da Casa do Alentejo nesta sexta feira à noite.

Na sessão, intervieram Younos Omarjee da Front de Gauche de França, Jürgen Klute do Die Linke da Alemanha, Trevor Ó Clochartaigh do Sinn Féin da Irlanda, além de Loudovikos Kotsonopoulos da Syriza, de Manuel Carvalho da Silva e de Luís Fazenda.

Younos Omarjee da Front de Gauche falou do balanço “catastrófico” das intervenções das políticas da União Europeia (UE) e do FMI, elogiou a luta do povo grego e a sua “resistência sem igual” e condenou as intervenções dos governantes europeus, destacando que o novo presidente francês, François Hollande, “teve ontem um discurso [sobre a Grécia] assente na chantagem”.

Jürgen Klute denunciou os discursos dos governantes do norte da Europa e da Alemanha, afirmando que “não há transferência nenhuma [de riqueza] do Norte para o Sul da Europa, mas sim em sentido contrário”. Recordou que as dívidas não começaram por ser dos Estados, mas foram em primeiro lugar dos bancos, que “a dívida começou por ser do setor privado” e que é necessário “exigir à banca que contribua para resolver a crise”. O representante do Die Linke denunciou também que a Grécia é o maior consumidor da indústria militar alemã e o segundo da indústria francesa do armamento e que “Merkel e Sarkozy exigiram que Papandreou cumprisse os contratos [de armamento] com a Alemanha e a França”.

Trevor Ó Clochartaigh relatou as difíceis condições que o povo irlandês está a viver e referiu que os resultados do referendo ao pacto orçamental na Irlanda, em que o “sim” ganhou com 60% contra 40% do “não”, foi uma vitória do medo, perante a chantagem de que “deixará de haver dinheiro nos bancos”, “deixarão de haver postos de trabalho”. O representante do Sinn Féin frisou que, no entanto, as forças que apoiavam o “não” tiveram no máximo 20% nas últimas eleições e o “não obteve 40%, considerando que “quem não votou é quem mais sofre” e formulou o desejo que os “cidadãos gregos não sejam atingidos pelo mesmo problema do medo” no próximo domingo.

Loudovikos Kotsonopoulos da Syriza começou por afirmar que “é muito confortável saber que não estamos sós”. Questionou como pôde a Syriza estar no centro dos resultados eleitorais em pouco tempo, considerando que a “crise económica se transformou numa crise política”. Sobre esta evolução apontou cinco fases: 1 – erupção da crise económica, 2 – “crise da gestão pela troika”, 3 – “o processo de gestão que se traduziu num fracasso”, 4 – o fracasso da “coligação técnica” como “escudo político” dos dois partidos dominantes, 5 - “as pessoas tentaram uma representação política alternativa”. Referindo que todas as forças dominantes, externas e internas, estão focalizadas na Syriza, considerou que “estamos perante uma grande batalha”, uma “luta em defesa dos valores da justiça, da liberdade, da igualdade e da dignidade humana” e que espera que “a estrela vermelha do socialismo democrático possa iluminar o nosso continente mais uma vez”.

Carvalho da Silva denunciou que “mais uma vez de forma ignóbil o direito do trabalho é posto no banco dos réus”, que a “revisão da legislação de trabalho que está em curso visa também matar a esperança de salários dignos e de estabilidade laboral para os mais jovens”, destacando que o “direito do trabalho sustentado em regras de mercado e em relações de trabalho individualizadas é uma fraude”.

“Há um fantasma que percorre toda a Europa é o de uma alternativa de esquerda". Foto Esquerda.net

O ex-secretário geral da CGTP considerou que “os resgates das periferias mais não são do que um saque organizado dos acionistas dos bancos alemães e outros, isto é dos verdadeiros irresponsáveis que não se cansam de apontar o dedo para a irresponsabilidade alheia”. Sublinhando que “o roubo organizado e o caminho para o abismo prosseguem e que é preciso agirmos”, frisou que “o projeto para que os trabalhadores e os povos foram mobilizados está definitivamente posto em causa”. “A coesão económica e social, a evolução social no progresso, o respeito pela soberania e a cultura dos povos, a dimensão social do mercado interno tornaram-se expressões carentes de sentido”, disse.

Carvalho da Silva afirmou ainda que “seguramente não teremos saídas dos atuais bloqueios com caminhos traçados por aqueles que nos conduziram e nos conduzem para o desastre quer na União Europeia quer nos diversos países e em concreto em Portugal”. “Acho que estamos todos conscientes que no plano nacional não serão Passos Coelho, Relvas e Gaspar com os orientadores Borges e companhia que nos vão apontar soluções para os problemas com que nos deparamos”, disse, acrescentando que “também não haverá saídas pelas mãos daqueles membros do Partido Socialista que já só pensam na alternância que o desgaste calmo do Governo lhes há-de propiciar”. E, explicando que aceitou o convite do Bloco de Esquerda para participar nesta sessão porque “o povo português está a sofrer” e “é preciso agir”, frisou que “há muita luta social e política” a travar e que “temos que forçar a construção de denominadores comuns que sejam uma resposta para este sofrimento” do povo.

Por fim, Luís Fazenda começou por afirmar que “somos todos gregos” e salientou: “Há um fantasma que percorre toda a Europa é o de uma alternativa de esquerda, que não quer abandonar o euro mas que quer o predomínio de uma política progressiva sem austeridade, quer rejeitar os memorandos, as troikas, as imposições, as amputações da democracia.”.

Luís Fazenda lembrou que “há um ano havia um país resgatado e outro a ser resgatado agora há cinco”, que antes “era a crise dos PIGS, agora é a crise do euro”, considerou que “é necessária uma resposta fiscal, mas não chega devido aos off-shores”, que “não basta tentarmos encontrar medidas de mera regulação do capitalismo financeiro”, mas que é preciso “um polo público financeiro, a nacionalização do essencial da banca privada”. “Se não houver essa nacionalização haverá jogo do gato e do rato, meter o leão na jaula é a nacionalização do essencial da banca privada”, disse, acrescentando que “a direita quer liquidar o Estado Social, a nossa perspetiva é a inversa, o que exige controlar o poder económico e meios para o Estado Social”.

A concluir, o líder parlamentar do Bloco de Esquerda, considerando que “é necessário não ter posições sectárias” e que “é necessário encontrar as mais vastas alianças para derrotar um inimigo poderoso”, declarou que “é preciso também neste momento que os vários setores à esquerda discutam os programas e as alternativas políticas”, frisando que “não nos podemos iludir novamente com terceiras vias que não resolvem coisa alguma e apenas mantêm o stato quo cada vez mais degradado, mais deteriorado”. Luís Fazenda sublinhou ainda que “uma esquerda europeia, pese ainda as suas insuficiências e dificuldades, é hoje uma realidade” e que “este é um ponto a favor da alternativa, que não é do isolamento nacional mas uma alternativa que tem de medrar na Europa”.

07 maio, 2012

A histeria em torno de Hollande (por Paul Krugman)

Paris um pouco mais rosada


por Paul Krugman 
do Estadão

Em cada um de seus artigos, o FT de hoje só fala de Hollande. Alguns dos textos são razoáveis; outros, no entanto, são mais parecidos com este artigo de Josef Joffe, no qual ele declara que a provável vitória de Hollande representa “uma perspectiva desanimadora para todos, a não ser os novos keynesianos e os velhos socialistas”.

Talvez eu devesse me sentir lisonjeado pelo fato de Joffe considerar que o grande debate seja travado entre os falcões da austeridade e… eu. Mas ele diz que se trata de um debate “cansado” – porque debater as formas de combater o desemprego em massa torna-se simplesmente maçante, sabem?

Ainda assim, Joffe tem sua utilidade enquanto indicador da opinião alemã, que diz, basicamente, `conseguimos nos tornar competitivos e restaurar o crescimento; o que impede os demais de seguir o mesmo rumo?’ Ele consegue omitir o fato de que a recuperação alemã na década de 2000 foi impulsionada por uma expressiva guinada no sentido de um superávit comercial; será que todos devem fazer o mesmo, ao mesmo tempo? Como se diz “argumentação fraudulenta” em alemão?

Philip Stephens apresenta uma ótima reação contra a histeria em torno de Hollande:


“Na sua capa, a influente revista The Economist declarou que o sr. Hollande é `perigoso’ – embora, sendo britânica, tenha acrescentado a este epíteto pouco elogioso a locução `um pouco’. A revista observou que o candidato à presidência `acredita genuinamente (grifo meu) na necessidade de se criar uma sociedade mais justa’. Ora, o que poderia ser mais perigoso do que isto?”

“Este tipo de alarmismo toma como base premissas curiosas: a de que o passado nos ensina que os governos não devem jamais interferir nos mercados; e a de que a atual estratégia econômica da Europa tem sido um estrondoso sucesso tanto na reconstrução das finanças públicas quanto na restauração do crescimento econômico.”


E Wolfgang Munchau se mostra cautelosamente esperançoso, como eu.


04 março, 2012

Uma hora carregada de perigos (Mauro Santayana)

















por Mauro Santayana

Em um de seus inquietantes paradoxos, Chesterton compara dois grandes santos da Igreja, para mostrar que o temperamento antagônico de ambos conduzia a um resultado comum. “São Francisco – dizia o autor de Ortodoxia – era a montanha, e São Domingos de Gusmão, o vale, mas, o que é o vale, senão a montanha ao contrário?”

Em termos lógicos, e nisso o pensador católico foi mestre, o côncavo e o convexo se completam, como as duas partes de uma esfera oca. Seguindo o mesmo raciocínio, a ascensão e a queda, das pessoas, das empresas e – com mais propriedade – das nações, são duas categorias que se integram, no todo histórico. É preciso administrar a ascensão pensando na queda e ver, na queda, a oportunidade de repensar os métodos a fim de recuperar a ascensão.

Tudo indica que o Brasil se encontra em ascensão, mas é preciso ver esse momento com as necessárias cautelas. O mundo passa por um desses espasmos históricos bem conhecidos no passado. A Europa está atônita, daí a sua tentativa de, na demonização dos paises muçulmanos, de cujo petróleo depende, criar um inimigo externo que una os seus países, historicamente adversários. Mas, ainda assim, a crise econômica promovida pela licença de caça que seus governos deram aos bancos, continua a dividi-los.

Ainda que 25 países tenham concordado com a política de arrocho fiscal determinada pela Alemanha, com o apoio da França, a Inglaterra e a Tchecoslováquia negaram sua assinatura. Os países que engoliram a pílula, começam a cuspi-la de volta, conforme a reação de Rajoy, da Espanha, solicitando flexibilidade na adoção das medidas recessivas, qualquer sinal de solidariedade do grupo. O primeiro ministro anunciou em Bruxelas que só pode prometer a redução do déficit público a 5,8 do PIB. E já surgem divergências entre a Alemanha e o Banco Central Europeu.

A Segunda Guerra Mundial foi um excelente negócio para os Estados Unidos, que dela emergiram como a grande potência hegemônica. Agora, no entanto, alguns dos paises que dela participaram e que contribuíram para a vitória com sangue, começam a sair do círculo de giz, e a constituir uma nova realidade planetária. Muitos desses países, como a Índia e a China, foram impiedosamente colonizados pela Europa, até meados do século 20. O Brasil, a Rússia, a Índia, a China e a África do Sul constituem novo pólo de poder, que está atraindo outras nações africanas e asiáticas.

Não se trata, ainda, de uma aliança política. São países bem diferentes, com visões de mundo claramente distintas, mas conscientes de que, se souberem interagir de forma pragmática – no respeito mútuo aos mandamentos de autodeterminação – serão capazes de se defenderem dos projetos de novo domínio anglo-saxão sobre a humanidade.

Durante a Guerra Fria, o pretexto para a intervenção dos Estados Unidos e da Grã Bretanha nos países periféricos era o do combate ao comunismo. Qualquer ação desses países, em sua política interna, que significasse a adoção de medidas de desenvolvimento autônomo, como a reforma agrária, a encampação de empresas estrangeiras que ofereciam serviço público de péssima qualidade, e relações comerciais com os paises socialistas, significava uma traição ao sistema ocidental, “democrático” e “cristão”. Assim, os princípios de autodeterminação dos povos e de não intervenção nos assuntos internos dos Estados foram abandonados, embora a retórica das Nações Unidas continuasse a proclamá-los.

Sendo assim, a América Latina – considerado território de caça de Washington – foi invadida por tropas americana ou por mercenários armados pelos Estados Unidos diversas vezes, isso sem falar na ação ostensiva e clandestina de seus agentes, na preparação dos golpes militares violentos, como ocorreu no Brasil, no Chile, na Argentina, entre outros países.

O Brasil vem sendo elogiado pelos seus êxitos na criação de um grande mercado interno, como resultado da política social e do incentivo às atividades econômicas de Lula e Dilma. Ao mesmo tempo, a partir de 1985, conseguimos manter o sistema democrático, com a realização das eleições conforme o calendário, e a alternância no governo de partidos e de pessoas. É uma hora carregada de perigos. Os Estados Unidos, que se encontram em crise, podem cair na velha sedução de usar dos recursos de que ainda dispõem, a fim de cortar o nosso caminho, como fizeram em 1954, no governo Vargas, e em 1964, com Jango. Não podemos permitir que a luta partidária, legítima e necessária, se deixe influir pelos interesses externos.

Sendo assim, o manifesto dos militares contra o governo tem o efeito danoso de estimular os nossos adversários externos, que nele começam a ver o retorno aos confrontos entre civis e militares do passado, dos quais eles souberam aproveitar-se. O documento já está sendo usado em São Paulo contra a candidatura do PT.

Qualquer movimento que nos divida, como brasileiros, diante das ameaças estrangeiras, deve ser repudiado pelo nosso sentimento de pátria, comum aos civis e militares.

02 março, 2012

Oriente Médio: Ecos de antigos erros















Por S. Hesam Houryaband*

Há mais de ano e meio a região do Oriente Médio vem passando por tumultos e reformas maciças, enquanto revoltas e revoluções sociopolíticas batem às portas de muitos países árabes da região, do Bahrein a Arábia Saudita e Egito. A maioria dessas rebeliões visa os regimes ditatoriais, na maioria despóticos, que reprimem e sufocam suas respectivas populações. Mais importante, quase todos esses regimes e seus governantes são aliados do Ocidente. Portanto, não surpreende ver como a situação nesses países pode ser embaraçosa para as capitais ocidentais. Portanto, de vez em quando ouvimos um pedido abafado por mudanças ou críticas, na maioria devidas a pressões internas de eleitorados de líderes e políticos ocidentais.

Enquanto as coisas se aquecem do outro lado do globo, seja esmagando os manifestantes na Praça Tahrir no Cairo, Egito, ou atirando contra manifestantes na Praça da Pérola em Manama, Bahrein, os pedidos ocos por respeito aos direitos humanos e provas de contenção se ampliam, mais para abafar as críticas de inércia do que para realmente criar resultados reais no local. Pois, como diz a famosa frase, as ações falam mais alto que as palavras.

Portanto, não seria apenas chocante, mas também meramente contraditório e hipócrita, saber que não apenas não se aplica pressão aos governantes desses países como na verdade eles são “recompensados” com enormes negócios de armas. A lista de países fornecedores e receptores e os negócios de armas individuais são numerosos, para dizer o mínimo. Mas, para dar ao leitor uma visão da ponta do iceberg, os seguintes elefantes se destacam:

- Ao longo do ano passado o governo britânico vendeu mais de 1 milhão de libras em armas para o governo de Bahrein. Um acordo recém-divulgado incluía, mas não se limitava a, silenciadores de armas, rifles, artilharia e aviões militares.

- No mesmo período, o Reino Unido também forneceu à Arábia Saudita e ao Egito mais de 1 milhão de libras em armas, respectivamente.

- No último verão houve rumores de um negócio entre a Alemanha e a Arábia Saudita para a aquisição de 200 tanques alemães.

- O governo dos EUA anunciou em meados de fevereiro de 2012 que seguirá com a venda de US$ 53 milhões em armas para Bahrein, que fora suspensa por motivos políticos em Manama.

- Os EUA também fornecerão à Arábia Saudita US$ 30 bilhões em armas, em um acordo que foi anunciado nos últimos dias de 2011, parte de um pacote de US$ 60 bilhões em dez anos aprovado pelo Congresso americano.

- Finalmente, os EUA também fornecerão aos Emirados Árabes Unidos armas em um acordo anunciado no final do ano passado no valor de US$ 3,5 bilhões.

O problema das notícias acima é complexo. Primeiro, o que não está na mente dos atuais líderes ocidentais em sua corrida para vender armas para esses aliados despóticos é história, uma que lembra os atos de seus antecessores. Cerca de 30 anos atrás, em meados e no final dos anos 1970, o xá do Irã, que coincidentemente era um firme aliado do Ocidente, recebeu bilhões de dólares em armas, em um momento em que internamente a sociedade iraniana passava por forte turbilhão e mudanças, como as que ocorrem hoje nos países árabes da região. E, assim como hoje, apesar da violenta opressão e repressão do xá a sua população o Ocidente continuou lhe fornecendo cada vez mais armas, porque achava que ele poderia finalmente controlar o turbilhão doméstico e conter os soviéticos e os atores rebeldes na região, como Iraque e Egito. No entanto, como mostrou o tempo, o xá caiu e depois da revolução de 1979 a população iraniana e seus novos líderes lembraram todos os negócios de armas do Ocidente com o exército do xá, que ironicamente acabou se voltando contra os EUA e os interesses ocidentais.

Hoje também o Ocidente ignora as mesmas lições e erros históricos, e está fornecendo bilhões de dólares em armas e equipamentos para um bando de nações instáveis e antidemocráticas da região, fazendo ouvidos moucos para as revoltas populares nesses países e com o pensamento otimista de que os governantes dos mesmos passarão pela tempestade e conseguirão manter o Irã sob controle. Mas a realidade é que o Ocidente deverá estar preparado quando todos esses regimes caírem, um a um, e suas populações lembrarem que o Ocidente deu palavras vazias de apoio ao povo e armas cheias de balas para seus governantes.

E essas armas afinal se voltarão contra os interesses ocidentais. Dois exemplos recentes se destacam, Egito e Líbia, onde os fundamentalistas que não são tão amistosos com o Ocidente estão subindo os degraus políticos e criando dores de cabeça para os governos ocidentais. O colapso de regimes em lugares como Arábia Saudita e Bahrein também significará problemas para o Ocidente. Na Arábia Saudita, uma guerra civil ocorrerá entre xiitas e sunitas e o Ocidente não estará a salvo de um governo xiita alinhado com o Irã, nem de um governo sunita radical alinhado com a Al Qaeda e os terroristas. Em Bahrein o cenário não será muito diferente do Iraque, onde a maioria oprimida conseguirá o controle e se revoltará contra a minoria governante anterior e seus amigos estrangeiros.

Em segundo lugar, é evidente que os atos do Ocidente, personificados nos acordos de armas mencionados, juntamente com um plano recém revelado pelo governo Obama de fornecer a vários outros países árabes — como Kuwait, Jordânia e Marrocos — um acordo de armas de US$ 10 bilhões, estão criando uma corrida armamentista na região, a qual não beneficiará ninguém. Ao fornecer bilhões de dólares em armas para os países árabes, o Ocidente, e especificamente os EUA, pensam erroneamente que poderão gerar um equilíbrio e um contrapeso para a ameaça percebida do Irã. Isto por sua vez vai motivar os iranianos a adquirir mais armas e reforçar suas capacidades defensivas e ofensivas apenas para poder continuar à altura de seus vizinhos. E não devemos esquecer Israel, que já está recebendo cerca de US$ 2,4 bilhões em ajuda militar dos EUA.

Os atos do Ocidente ajudarão a criar e alimentar um ciclo vicioso e interminável. E no caso de uma calamidade imprevista todas as armas colocadas nesses países, no quintal dos fundos de Israel, serão muito mais perigosas do que qualquer ameaça antes representada pelo Irã. E mais uma vez, como a história mostrou na guerra do golfo Pérsico em 1991, os mísseis iraquianos que Saddam havia adquirido da Europa e dos EUA acabaram caindo sobre Israel.

Uma coisa que o Ocidente precisa entender e aprender com os casos da Líbia e do Egito é que, diferentemente do Irã, onde o governo fundamentalista se opõe ao Ocidente, a maioria da população é favorável e amigável ao Ocidente, enquanto em muitos dos mesmos países árabes aliados da região a situação é inversa, onde a elite dominante governante se alinha com o Ocidente, mas a população, mais fundamentalista, considera seu governo corrupto e próximo demais do Ocidente. Portanto, qualquer venda de armas, especialmente nesta junção da vida política no Oriente Médio, deveria ser seriamente reconsiderada nas capitais ocidentais.

S. Hesam Houryaband é analista político

28 fevereiro, 2012

O que aflige a Europa? (Paul Krugman)



Do Estadão
por Paul Krugman

As coisas vão muito mal por aqui, com o desemprego ultrapassando a marca dos 13%. A situação é ainda pior na Grécia, na Irlanda e também na Espanha, e a Europa como um todo parece estar escorregando de volta à recessão.

Por que a Europa se converteu no paciente doente da economia mundial? Todos sabem a resposta. Infelizmente, aquilo que a maioria das pessoas sabe a respeito do problema não é verdadeiro – e histórias falsas a respeito dos problemas europeus estão distorcendo nosso discurso econômico.

Basta lermos um artigo opinativo sobre a Europa – ou, com frequência, uma reportagem supostamente factual – para nos depararmos com uma de duas histórias, um par que eu descreveria como a narrativa republicana e a narrativa alemã. Nenhuma destas histórias corresponde aos fatos.

A versão republicana – ela consiste num dos temas centrais da campanha de Mitt Romney – diz que a Europa está em má situação porque fez demais para ajudar aos pobres e desafortunados, e que estaríamos testemunhando os últimos estertores do Estado de bem estar social. Esta versão é, por sinal, uma eterna favorita entre os políticos de direita: em 1991, quando a Suécia enfrentou uma crise bancária decorrente da desregulamentação (soa familiar?), o Cato Institute publicou um relatório triunfante mostrando como o episódio comprovava o fracasso de todo o modelo do Estado de bem estar.

Cheguei a mencionar que a Suécia, país que ainda conta com um generosíssimo Estado de bem estar, é atualmente um mercado altamente próspero, apresentando um crescimento econômico mais acelerado que o de qualquer outro país rico? Mas é melhor adotar uma abordagem sistemática. Vamos analisar os 15 países europeus que atualmente usam o euro (excluindo Malta e Chipre), e organizá-los de acordo com a proporção do seu PIB que era investida em programas sociais antes da crise. Será que os principais países problemáticos (Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália) se destacam por contarem com Estados de bem estar desproporcionalmente grandes? Não, este não era o caso deles; somente a Itália figurava entre as cinco posições mais altas deste ranking e, ainda assim, seu Estado de bem estar era menor do que o alemão.

Assim, o problema não foi provocado por Estados de bem estar excessivamente grandes.

A seguir, a versão alemã, segundo a qual tudo não passa de uma questão de irresponsabilidade fiscal. Esta história parece se encaixar no caso grego, e só. A Itália apresentou déficits nos anos anteriores à crise, mas estes foram apenas um pouco maiores do que os apresentados pela Alemanha (a imensa dívida da Itália é um legado de políticas irresponsáveis de muitos anos atrás). Os déficits de Portugal eram significativamente menores, enquanto Espanha e Irlanda chegavam a registrar superávits.

Ah, e os países que não usam o euro parecem poder arcar com grandes déficits e grandes dívidas sem passar por crises. Grã-Bretanha e Estados Unidos conseguem empréstimos de longo prazo a juros de aproximadamente 2%; o Japão, muito mais endividado do que qualquer país europeu, incluindo a Grécia, paga juros de apenas 1%.

Em outras palavras, a helenização do nosso discurso econômico, de acordo com a qual bastaria a todos nós um ou dois anos de déficits para nos tornarmos outra Grécia, é completamente infundada.

Questão monetária. Assim sendo, o que aflige a Europa? A verdade é que se trata principalmente de uma questão monetária. Ao introduzir uma moeda única desprovida das instituições necessárias para garantir o funcionamento desta moeda, a Europa reinventou na prática os defeitos do padrão ouro – defeitos que desempenharam um papel importante ao precipitar e perpetuar a Grande Depressão.

Mais especificamente, a criação do euro fomentou uma falsa sensação de segurança entre os investidores privados, desencadeando imensos e insustentáveis fluxos de capital destinados aos países de toda a periferia europeia. Como consequência da entrada destes fluxos, os custos e os preços aumentaram, a manufatura perdeu a competitividade, e países que apresentavam uma balança comercial relativamente equilibrada em 1999 começaram, em vez disso, a acumular imensos déficits comerciais. Foi então que a música parou.

Se os países periféricos ainda tivessem suas próprias moedas, eles poderiam usar a desvalorização para restaurar rapidamente a competitividade – coisa que certamente fariam. Mas eles não podem mais contar com esta alternativa, o que significa que têm diante de si um prolongado período de desemprego maciço e deflação lenta e arrastada.

Suas crises de endividamento são principalmente um produto desta triste perspectiva, pois economias deprimidas levam a déficits orçamentários e a deflação amplia o fardo do endividamento.

Ora, compreender a natureza dos problemas que afetam a Europa é algo que proporciona um benefício limitado para os próprios europeus. Os países em pior situação, em especial, só têm opções ruins diante de si: terão de sofrer as dores da deflação ou tomar a drástica decisão de deixar o euro, algo que não será politicamente viável a não ser que (ou até que) tudo o mais fracasse – um ponto do qual a Grécia está se aproximado. A Alemanha poderia ajudar ao reverter suas próprias políticas de austeridade e ao aceitar uma inflação mais alta, mais o país se recusa a fazê-lo.

Mas, para o restante de nós, entender corretamente o problema europeu é algo que faz uma imensa diferença, pois falsas histórias a respeito da Europa estão sendo usadas para fazer avançar políticas que seriam cruéis, destrutivas, ou ambas as coisas. Da próxima vez que aparecer algum especialista evocando o exemplo europeu para exigir que os americanos destruam sua rede de assistência social ou cortem os gastos em face de uma economia profundamente deprimida, eis o que precisamos saber: tais especialistas não têm ideia do que estão dizendo.

03 novembro, 2011

Relações delicadas

Do Terra
Dica de @VannaMonna
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A eventual ajuda de países emergentes, sobretudo da China, à Europa está sendo vista com reticência por alguns setores no continente, que veem a iniciativa como uma ingerência que pode afetar a soberania europeia. Na França, a oposição teme as contrapartidas que a China poderia exigir para ajudar a Europa e qualifica de "chocante" o apelo feito "a uma ditadura comunista".

Ditadura comunista???? 


"A ajuda da China significa uma perda de independência para a Europa. Sermos obrigados a proclamar ao mundo que vamos recorrer à China para nos reequilibrarmos significa que teremos menos armas para negociar assuntos cruciais com esse país", diz François Bayrou, presidente do partido centrista MoDem.
Ele cita, entre as negociações cruciais, a questão da desvalorização da moeda chinesa para estimular as exportações do país. A "guerra cambial" é um dos temas da pauta da reunião de líderes do G20 que começa nesta quinta-feira em Cannes, na França.
"Decidimos nos entregar com os pés e as mãos amarradas aos emergentes. Os europeus não podem discutir uma proteção contra os efeitos sociais e ambientais da globalização e pedir, ao mesmo tempo, a quem você vai negociar isso, para pagar a conta da sua crise financeira", diz o deputado do partido verde europeu Daniel Cohn-Bendit.

Soberania

Por todo continente, a possível ajuda dos emergentes à Europa em crise é alvo de críticas. Em fóruns na internet, cidadãos europeus também manifestam reticências. "Após os indignados, os humilhados. Pedir ajuda à China é uma humilhação", diz um internauta. Mesmo na Itália, país visto como um dos possíveis próximos a serem afetados com o agravamento da crise, a ajuda provoca divisões.
O ministro das Finanças da Itália, Giulio Tremonti, havia alertado, em um livro publicado há três anos, sobre os riscos de "uma colonização invertida da China na Europa". Mas recentemente, o mesmo Tremonti não viu com maus olhos a possibilidade de a China comprar títulos da dívida italiana em um momento em que a Itália teve de captar recursos no mercado com juros bem mais altos do que os habituais.
"Se a zona do euro precisa recorrer aos credores estrangeiros, ela vai depender necessariamente da vontade deles para assegurar seu autofinanciamento", diz Harry Wolhandler, diretor da corretora Amilton Asset Management. "Se a China conseguir impor seus pontos de vista diplomáticos e comerciais graças a uma eventual forte participação no Fundo Europeu de Estabilização Financeira, podemos considerar a possibilidade de perda de soberania", afirma.
"A China busca garantias políticas para acesso aos mercados europeus e para manter sua moeda desvalorizada. E pode ter uma posição fortalecida para negociar outros pontos de conflito com os europeus, como o estatuto de economia de mercado que ela espera obter", afirma a economista Françoise Lemoine, economista do Centro de Estudos e Pesquisas sobre Economia Internacional. O presidente francês, Nicolas Sarkozy, que negociou o plano europeu de ajuda à Grécia e preside atualmente o G20, assegurou que a independência da Europa não estaria ameaçada com a ajuda da China à crise na zona do euro.

Instabilidade

A cúpula do G20 em Cannes, que deveria aprofundar a discussão sobre ajuda dos emergentes à Europa, acabou sendo cvolocada em um cenário de incertezas por causa do anúncio surpresa da Grécia de convocar um referendo sobre o pacote de socorro europeu. A ajuda prevê o corte de 50% da dívida grega em poder dos bancos e o reforço do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FESF). Segundo alternativas em discussão, a China poderia injetar recursos justamente nesse fundo, estimados entre 50 bilhões e 100 bilhões de euros.
Em entrevista ao jornal francês Le Figaro na segunda-feira, o presidente chinês, Hu Jin Tao, não deixou claro se seu país pretende socorrer financeiramente a Europa. Mas afirmou que o "G20 deve emitir um sinal claro de solidariedade". A China possui reservas internacionais colossais, da ordem de US$ 3,2 trilhões. O país já teria, segundo estimativas de economistas, US$ 500 bilhões em títulos da dívida de países europeus, como Grécia, Portugal, Irlanda e Espanha.
Antes de chegar a França, para a reunião do G20, Jin disse esperar "convencer a União Europeia a reconhecer a China como uma economia de mercado", disse o líder chinês na Áustria.
Se a China obtiver esse estatuto junto à Organização Mundial do Comércio, poderá exportar mais facilmente. A União Européia é o principal importador de produtos chineses e representa 20% do total das vendas externas do país. A China poderia exigir em contrapartida que a Europa pare de criticar o país por manter sua moeda, o yuan, desvalorizada artificialmente, o que favorece suas exportações.
A ajuda da China à Grécia no ano passado já havia provocado críticas em países europeus, que não viram com bons olhos os chineses comprando ativos a preços baixos e se apropriando de setores de infra-estrutura do país, como o contrato de concessão de 3,3 bilhões de euros para explorar o porto de Pireu. A estratégia da China seria criar uma rede de portos, ferrovias e centros logísticos para distribuir seus produtos em todo o continente.
"Não há uma agenda escondida e o desejo de colonizar a Europa. Antes de tudo, a China vai agir em função de seus próprios interesses", diz a economista Mary-Françoise Renard, do Instituto de Pesquisas sobre a Economia Chinesa (Idrec, na sigla em francês). Analistas afirmam que há um interesse mútuo entre europeus e chineses para que a zona do euro não desmorone. A indústria chinesa seria afetada pela redução drástica da demanda europeia e isso teria repercussões sobre o crescimento da China, que já está sofrendo desaceleração, dizem os especialistas.

29 setembro, 2011

Para Obama, crise na Europa assusta o mundo


Qual crise preocupa mais: a da Europa ou a dos Estados Unidos? Obama acha que é a da Europa. Não seria um pouquinho mais maduro procurar soluções do que apontar o dedo para o nariz alheio? 
As palavras não foram muito bem recebidas, nem no velho continente, nem pela "insuspeita" imprensa americana. 


Nesta terça-feira (27/09), Obama disse que a União Europeia passa por uma crise que está “assustando o mundo”. Segundo o presidente norte-americano, as decisões das autoridades européias não estão sendo tomadas com a rapidez que deveriam ser. O principal foco de preocupações no momento são as contas públicas da Grécia, que recebeu um auxílio bilionário da União Européia, mas ainda corre o risco de decretar moratória.
As declarações de Obama também repercutiram mal na imprensa da Europa. Na Alemanha, o jornal Bildqualificou a leitura do presidente norte-americano sobre a crise como “prepotente, arrogante e absurda”. “Em poucas palavras, ele está afirmando que a culpa pela atual crise financeira que está ‘assustando o mundo’ é da Europa. Excuse me?", protestou o jornal.
O Bild disse ainda que Obama “parece ter esquecido” que a crise financeira e econômica global foi iniciada nos EUA, com a desregulamentação do sistema bancário e o estouro da bolha no mercado imobiliário. A fala de Obama lhe rendeu críticas também dentro dos EUA. O comentarista John Caffrerty, da CNN, lembrou que o democrata critica a situação fiscal na Grécia enquanto comanda um país cuja dívida passa dos US$ 14 trilhões.
Há pouco mais de dois meses, foram os EUA que “preocuparam”o mundo, quando um impasse entre democratas e republicanos sobre o aumento do limite de endividamento público deixou o governo norte-americano à beira do calote.
Obama também enfrenta problemas para reaquecer a economia de seu país. Neste mês, ele propôs um pacote de incentivo de US$ 447 bilhões, com corte de impostos e investimentos em obras. A taxa oficial de desemprego nos EUA se mantém acima de 9% há mais de um ano. É o pior cenário desde a Grande Depressão. Mas a realidade pode ser ainda pior, já que analistas apontam que a metodologia do governo subestima o número de pessoas desempregadas, que pode estar acima de 20% da população economicamente ativa.
O governo de Israel confiscou 80 hectares da aldeia palestina de Beit Umar, na Cisjordânia, para construir uma estrada para uma de suas colônias, informou nesta quarta-feira a agência de notícias palestina "WAFA". 
Segundo o porta-voz do Comitê Nacional contra o Muro e os Assentamentos, Mohammed Awad, as autoridades israelenses comunicaram a decisão à prefeitura da aldeia, situada ao sul de Hebron. Parte das terras confiscadas pertencem à escola agrícola de Beit Umar. 
Com oito quilômetros de comprimento e um e meio de largura, a nova estrada partirá do assentamento de Etzion, atravessando a aldeia palestina. Sua construção está prevista para a próxima semana. 
Essa decisão acontece um dia depois de a Comissão de Planejamento do Distrito de Jerusalém ter anunciado a aprovação da construção de 1.100 imóveis na colônia judia de Gilo, em Jerusalém Oriental.
A aprovação da expansão do assentamento foi condenada pela comunidade internacional e pelos palestinos, que se negam a retornar à mesa de negociação com os israelenses enquanto estes continuarem a colonizar seus territórios.


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