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02 março, 2012

Oriente Médio: Ecos de antigos erros















Por S. Hesam Houryaband*

Há mais de ano e meio a região do Oriente Médio vem passando por tumultos e reformas maciças, enquanto revoltas e revoluções sociopolíticas batem às portas de muitos países árabes da região, do Bahrein a Arábia Saudita e Egito. A maioria dessas rebeliões visa os regimes ditatoriais, na maioria despóticos, que reprimem e sufocam suas respectivas populações. Mais importante, quase todos esses regimes e seus governantes são aliados do Ocidente. Portanto, não surpreende ver como a situação nesses países pode ser embaraçosa para as capitais ocidentais. Portanto, de vez em quando ouvimos um pedido abafado por mudanças ou críticas, na maioria devidas a pressões internas de eleitorados de líderes e políticos ocidentais.

Enquanto as coisas se aquecem do outro lado do globo, seja esmagando os manifestantes na Praça Tahrir no Cairo, Egito, ou atirando contra manifestantes na Praça da Pérola em Manama, Bahrein, os pedidos ocos por respeito aos direitos humanos e provas de contenção se ampliam, mais para abafar as críticas de inércia do que para realmente criar resultados reais no local. Pois, como diz a famosa frase, as ações falam mais alto que as palavras.

Portanto, não seria apenas chocante, mas também meramente contraditório e hipócrita, saber que não apenas não se aplica pressão aos governantes desses países como na verdade eles são “recompensados” com enormes negócios de armas. A lista de países fornecedores e receptores e os negócios de armas individuais são numerosos, para dizer o mínimo. Mas, para dar ao leitor uma visão da ponta do iceberg, os seguintes elefantes se destacam:

- Ao longo do ano passado o governo britânico vendeu mais de 1 milhão de libras em armas para o governo de Bahrein. Um acordo recém-divulgado incluía, mas não se limitava a, silenciadores de armas, rifles, artilharia e aviões militares.

- No mesmo período, o Reino Unido também forneceu à Arábia Saudita e ao Egito mais de 1 milhão de libras em armas, respectivamente.

- No último verão houve rumores de um negócio entre a Alemanha e a Arábia Saudita para a aquisição de 200 tanques alemães.

- O governo dos EUA anunciou em meados de fevereiro de 2012 que seguirá com a venda de US$ 53 milhões em armas para Bahrein, que fora suspensa por motivos políticos em Manama.

- Os EUA também fornecerão à Arábia Saudita US$ 30 bilhões em armas, em um acordo que foi anunciado nos últimos dias de 2011, parte de um pacote de US$ 60 bilhões em dez anos aprovado pelo Congresso americano.

- Finalmente, os EUA também fornecerão aos Emirados Árabes Unidos armas em um acordo anunciado no final do ano passado no valor de US$ 3,5 bilhões.

O problema das notícias acima é complexo. Primeiro, o que não está na mente dos atuais líderes ocidentais em sua corrida para vender armas para esses aliados despóticos é história, uma que lembra os atos de seus antecessores. Cerca de 30 anos atrás, em meados e no final dos anos 1970, o xá do Irã, que coincidentemente era um firme aliado do Ocidente, recebeu bilhões de dólares em armas, em um momento em que internamente a sociedade iraniana passava por forte turbilhão e mudanças, como as que ocorrem hoje nos países árabes da região. E, assim como hoje, apesar da violenta opressão e repressão do xá a sua população o Ocidente continuou lhe fornecendo cada vez mais armas, porque achava que ele poderia finalmente controlar o turbilhão doméstico e conter os soviéticos e os atores rebeldes na região, como Iraque e Egito. No entanto, como mostrou o tempo, o xá caiu e depois da revolução de 1979 a população iraniana e seus novos líderes lembraram todos os negócios de armas do Ocidente com o exército do xá, que ironicamente acabou se voltando contra os EUA e os interesses ocidentais.

Hoje também o Ocidente ignora as mesmas lições e erros históricos, e está fornecendo bilhões de dólares em armas e equipamentos para um bando de nações instáveis e antidemocráticas da região, fazendo ouvidos moucos para as revoltas populares nesses países e com o pensamento otimista de que os governantes dos mesmos passarão pela tempestade e conseguirão manter o Irã sob controle. Mas a realidade é que o Ocidente deverá estar preparado quando todos esses regimes caírem, um a um, e suas populações lembrarem que o Ocidente deu palavras vazias de apoio ao povo e armas cheias de balas para seus governantes.

E essas armas afinal se voltarão contra os interesses ocidentais. Dois exemplos recentes se destacam, Egito e Líbia, onde os fundamentalistas que não são tão amistosos com o Ocidente estão subindo os degraus políticos e criando dores de cabeça para os governos ocidentais. O colapso de regimes em lugares como Arábia Saudita e Bahrein também significará problemas para o Ocidente. Na Arábia Saudita, uma guerra civil ocorrerá entre xiitas e sunitas e o Ocidente não estará a salvo de um governo xiita alinhado com o Irã, nem de um governo sunita radical alinhado com a Al Qaeda e os terroristas. Em Bahrein o cenário não será muito diferente do Iraque, onde a maioria oprimida conseguirá o controle e se revoltará contra a minoria governante anterior e seus amigos estrangeiros.

Em segundo lugar, é evidente que os atos do Ocidente, personificados nos acordos de armas mencionados, juntamente com um plano recém revelado pelo governo Obama de fornecer a vários outros países árabes — como Kuwait, Jordânia e Marrocos — um acordo de armas de US$ 10 bilhões, estão criando uma corrida armamentista na região, a qual não beneficiará ninguém. Ao fornecer bilhões de dólares em armas para os países árabes, o Ocidente, e especificamente os EUA, pensam erroneamente que poderão gerar um equilíbrio e um contrapeso para a ameaça percebida do Irã. Isto por sua vez vai motivar os iranianos a adquirir mais armas e reforçar suas capacidades defensivas e ofensivas apenas para poder continuar à altura de seus vizinhos. E não devemos esquecer Israel, que já está recebendo cerca de US$ 2,4 bilhões em ajuda militar dos EUA.

Os atos do Ocidente ajudarão a criar e alimentar um ciclo vicioso e interminável. E no caso de uma calamidade imprevista todas as armas colocadas nesses países, no quintal dos fundos de Israel, serão muito mais perigosas do que qualquer ameaça antes representada pelo Irã. E mais uma vez, como a história mostrou na guerra do golfo Pérsico em 1991, os mísseis iraquianos que Saddam havia adquirido da Europa e dos EUA acabaram caindo sobre Israel.

Uma coisa que o Ocidente precisa entender e aprender com os casos da Líbia e do Egito é que, diferentemente do Irã, onde o governo fundamentalista se opõe ao Ocidente, a maioria da população é favorável e amigável ao Ocidente, enquanto em muitos dos mesmos países árabes aliados da região a situação é inversa, onde a elite dominante governante se alinha com o Ocidente, mas a população, mais fundamentalista, considera seu governo corrupto e próximo demais do Ocidente. Portanto, qualquer venda de armas, especialmente nesta junção da vida política no Oriente Médio, deveria ser seriamente reconsiderada nas capitais ocidentais.

S. Hesam Houryaband é analista político

26 novembro, 2011

BRICS bloqueiam os EUA no Oriente Médio [1]

Do redecastorphoto
25/11/2011, *MK Bhadrakumar, Indian Punchline
BRICS blocks he USA on Middle East
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
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A reunião dos vice-ministros de Relações Exteriores dos países BRICS em Moscou, ontem, sobre a situação no Oriente Médio e Norte da África é evento de grande importância, como se vê pelo Comunicado Conjunto. Os principais elementos do Comunicado são:

a) Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (BRICS) assumiram posição comum sobre o que hoje se conhece como “Primavera Árabe”. Identificaram-se os princípios básicos dessa posição: o foco deve ser diálogo nacional pacífico; nada justifica qualquer tipo de intervenção estrangeira; o papel central nas decisões compete ao Conselho de Segurança da ONU.

b) Os BRICS adotaram posição comum sobre a Síria. A frase chave do Comunicado é “Fica excluída qualquer tipo de interferência externa nos assuntos da Síria, que não esteja conforme o que determina a Carta das Nações Unidas.”

c) Os BRICS exigiram “revisão completa” para avaliar a adequação [orig. appropriateness] da intervenção da OTAN na Líbia; e sugeriram que se crie missão especial da ONU em Trípoli para conduzir o processo de transição em curso; dessa comissão deve participar, especificadamente, a União Africana.

d) Os BRICS rejeitaram a ameaça de força contra o Irã e exigiram negociações e diálogo continuados. Muito importante, os BRICS criticaram as ações de EUA e União Europeia de impor novas sanções ao Irã, chamando-as de medidas “contraproducentes” que só “exacerbarão” a situação.

e) Os BRICS saudaram a iniciativa do Conselho de Cooperação do Golfo, que encontrou saída negociada para o Iêmen, como exemplo a ser seguido.

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21 outubro, 2011

O petróleo e o sangue

Mauro Santayana
No Carta Maior
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Iraque

Ao que parece, a Terra cobra, em sangue, o petróleo que é retirado de suas entranhas. Mas tem cobrado mal: não são os que consomem o óleo alucinadamente os que pagam a dívida para com o planeta, mas sim os que tiveram a maldição de o ter em abundância, como os paises árabes e muçulmanos. Todas as teorias – a defesa dos direitos humanos, da democracia, da civilização ocidental, e, até mesmo, do cristianismo – são ociosas para explicar a sangueira dos tempos modernos. No caso do Oriente Médio, a cobiça pelo petróleo, desde o início do século passado, tem sido a causa de todos os males.

As imagens divulgadas ontem, da prisão, da tortura e da morte do coronel Kadafi são semelhantes às da prisão, da farsa do julgamento, e da execução de Saddam Hussein. Da execução de Osama bin Laden ainda não conhecemos todas as imagens, mas é provável que um dia sejam divulgadas.

A biografia desses três homens é semelhante. Todos eles tiveram, em um tempo ou outro, as melhores relações com os países ocidentais, democráticos e cristãos. Em livro que será publicado nos próximos dias, a Sra. Condoleeza Rice confessou um certo fascínio por Kadafi, que a ela se referia como “minha princesa africana”. Hillary Clinton reagiu com interjeição de alegre surpresa, ao ver as imagens do trucidamento do coronel. Terça-feira, em Trípoli, ela disse claramente que Kadafi devia ser preso ou morto, imediatamente.





Osama bin Laden, como é sabido, foi sócio de Bush pai em negócios de petróleo. No Afeganistão se uniu à CIA e ao Pentágono, no trabalho político junto aos combatentes anti-soviéticos. Essas ligações devem ter influído no ódio de pai e filho ao combatente muçulmano.





O caso de Saddam é ainda mais significativo. O Iraque não podia ser considerado um país obscurantista. Ainda que não fosse democrático – e, segundo os indignados norte-americanos, tampouco há democracia nos Estados Unidos – era um regime tolerante, que dava relativa liberdade às mulheres, autorizadas a freqüentar as universidades e a usar trajes ocidentais, e não exercia perseguição aos não islamitas, tanto assim que o segundo homem do governo, Tariq Aziz, era cristão católico do rito caldeu.

Nessa cruzada disfarçada de conflito de civilizações, as mentiras foram as mais importantes armas dos Estados Unidos. Suspeita-se que todas elas decorram de uma mentira ainda maior: a de que o ataque às Torres Gêmeas de Nova Iorque tenha sido uma operação determinada por bin Laden. Que Saddam Hussein nada tinha a ver com isso, é hoje fora de dúvida.

Para justificar a invasão ao Iraque, os Estados Unidos apresentaram “provas” forjadas, como fotografias de caminhões e de galpões, como sendo de instalações nucleares. Afirmaram ao mundo, por Collin Powell e outros, que Saddam, além de desenvolver seu arsenal atômico, dispunha de outras armas de destruição em massa, como produtos químicos letais. O embaixador brasileiro José Maurício Bustani, então diretor da Organização das Nações Unidas para a Proibição de Armas Químicas, e conhecia a realidade iraquiana, sabia que se tratava de uma mentira, e tentava obter a adesão de Saddam ao tratado internacional contra as armas químicas – o que desmentiria as acusações americanas - foi destituído de seu cargo pelas pressões do governo Bush. Hoje, é o embaixador do Brasil em Paris. 




A terceira peça do tabuleiro, a ser eliminada, foi o governante líbio. Ele fora declarado “limpo” pelos governos ocidentais, e privava da intimidade dos líderes norte-americanos e europeus. Caiu na esparrela de acreditar nisso, e enfrentou, ao mesmo tempo, os que o consideravam um renegado e os sedentos de seu petróleo e, por isso mesmo, sedentos de sangue.

Esses três casos são uma forte advertência aos países árabes que têm sido vassalos fiéis de Washington. Os príncipes da Arábia Saudita que se cuidem. O Paquistão, ao que parece, já está com suas barbas no molho.

E as mentiras continuam. Muhamad Jibril, que é o primeiro ministro interino e terá que vencer facções que lhe são contrárias, mentiu descaradamente, ao afirmar que Kadafi fora morto em “fogo cruzado” dos rebeldes com as tropas leais ao dirigente líbio. As imagens, divulgadas no mundo inteiro, mostram Kadafi ainda vivo, caminhando, levantando o braço, até ser derrubado a socos e pontapés, para ser, finalmente, assassinado.

        

Mauro Santayana é colunista político do Jornal do Brasil, diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte.



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