por Denise Queiroz
A depender da sensação de bem estar,
parecem favas contadas que não haverá nenhuma chapa capaz de costurar tanto, a
torto e à direita, quanto a que está governando. E, portanto, deverá seguir até
pelo menos 2018. Mas e o custo dessa costura?
No momento em que finalmente o Estado
chega nos confins do país e se verifica que faltam médicos para a assistência
mais básica, haverá psiquiatras para tratar os distúrbios que alguns projetos
de lei, como esse estatuto do nascituro, vão gerar?
A subida de um pastor com passado nada ilibado à direção da Comissão de Direitos Humanos, aliada aos recuos sistemáticos do Ministério da Saúde em veicular campanhas que visam conscientização, e a proposta
de que o governo arque com as despesas de filhos nascidos de estupro, forma um
quadro mais surreal que o genial Dali pôde imaginar. De que tipo de cabeças
extremamente doentes e mínimas saem este tipo de propostas? Quem as apóia?
É certo que nossa formação cultural,
atravessada no DNA por fundamentos criados há séculos suporta e - sempre sob o
ponto de vista do conhecimento dos ambientes históricos onde alguns fundamentos
foram criados - entende que algumas práticas tenham se perpetuado. Mas também
por esse entendimento, nos vemos na obrigação evolutiva de esclarecer que alguns desses
fundamentos estão e sempre foram equivocados. A violência, sob qualquer forma,
é uma das práticas que qualquer ser humano deveria rechaçar de maneira
veemente.
A violência da miséria e da fome aos
poucos está diminuindo, mas o ambiente que a fez prosperar, a
desigualdade, ainda é muito real. E outra vez, não se trata de
economia. Trata-se da desigualdade de acesso ao mais básico conhecimento,
para que o entendimento de mundo seja humanizado.
Ao mesmo tempo em que há mais
crianças na escola, há mais adultos nas igrejas. Que fique claro que
absolutamente não penso que isso seja um problema, pois fé, se faz bem, boa é.
Mas e se faz mal? Como tolerar a intolerância pregada aos gritos nos púlpitos,
onde a “palavra de Jesus” é distorcida ao ponto de um dos mais conhecidos
ensinamentos cristãos, “amarás ao próximo como a ti mesmo” é dito com um “mas os homossexuais não, mas as prostitutas são seres do demo, mas a vida no útero vale mais que a vida já desenvolvida". Estes mas encerram os significados mais desprezíveis, comparáveis ao fascismo.
As raízes do mal
Em 2010, durante a campanha à
presidência, o poder das novas seitas ficou evidente. Na tentativa de abocanhar
essa fatia crescente de eleitores, os candidatos melhor colocados nas
pesquisas, Dilma Rousseff, José Serra e Marina Silva evitavam, em entrevistas, declarações ou debates, defender suas posições (e as partidárias) sobre os
direitos individuais, como o direito ao aborto.
Numa sordidez sem precedentes,
facções da Igreja católica chegaram ao cúmulo de mandar imprimir panfletos
apócrifos ‘acusando’ a candidata governamental de ser ‘favorável ao aborto’. Por essa visão, aborto deixa de ser direito para ser o pior dos pecados, sujeito ao
inferno ainda em terra, pior que ser ‘comunista’ ou ‘terrorista’. Com essa atitude aloprada, os
fundamentalistas católicos acabaram por unir-se às piores facções do novo
fundamentalismo, o evangélico, que já desde 2002 fazia parte da base aliada do
então presidente Lula.
Naquele momento eleitoral, foi costurada às pressas uma reunião de Dilma com representantes e
líderes das maiores igrejas. Nela, a então candidata, firmou carta-compromisso
de que preceitos caros aos líderes ‘espirituais’ não seriam modificados. Não
haveria, por parte do governo, proposta de legislação sobre o tema tabu (tabu construído por interesse do capital nos meados do século XIX) o aborto, nem
sobre direitos de casais homoafetivos, nem qualquer outra igualdade que a esses
líderes pudesse cheirar a afronta.
O resultado é que também graças a esse compromisso, a presidenta
foi eleita e, pelo que se sabe, não descumpriu nenhum ponto da carta.
Aí entra a outra questão: vários
líderes partidários apregoam que não se deve confundir governo com partido. Ainda não encontrei fórmula para entender essa equação, mas se eles dizem,
devem tê-la, guardada como no medievo, em algum castelo com fosso de jacarés
que impedem mortais de chegarem aos livros. Ok, suponhamos que eles
saibam o que dizem. Então por que raios até agora nenhum partido apresentou
proposta de legislação sobre o aborto? E como raios passa numa das comissões
da Câmara uma proposta que vitimiza o estuprador e condena a vítima - de uma
das mais hediondas violências - a gestar, parir e criar um filho que
porventura tenha sido gerado nesse ato hediondo?

