Mostrando postagens com marcador Religião. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Religião. Mostrar todas as postagens

06 junho, 2013

Não é a economia, estúpido



 por Denise Queiroz

A depender da sensação de bem estar, parecem favas contadas que não haverá nenhuma chapa capaz de costurar tanto, a torto e à direita, quanto a que está governando. E, portanto, deverá seguir até pelo menos 2018. Mas e o custo dessa costura?

No momento em que finalmente o Estado chega nos confins do país e se verifica que faltam médicos para a assistência mais básica, haverá psiquiatras para tratar os distúrbios que alguns projetos de lei, como esse estatuto do nascituro, vão gerar?

A subida de um pastor com passado nada ilibado à direção da Comissão de Direitos Humanos, aliada aos recuos sistemáticos do Ministério da Saúde em veicular campanhas que visam conscientização, e a proposta de que o governo arque com as despesas de filhos nascidos de estupro, forma um quadro mais surreal que o genial Dali pôde imaginar. De que tipo de cabeças extremamente doentes e mínimas saem este tipo de propostas? Quem as apóia? 

É certo que nossa formação cultural, atravessada no DNA por fundamentos criados há séculos suporta e - sempre sob o ponto de vista do conhecimento dos ambientes históricos onde alguns fundamentos foram criados - entende que algumas práticas tenham se perpetuado. Mas também por esse entendimento, nos vemos na obrigação evolutiva de esclarecer que alguns desses fundamentos estão e sempre foram equivocados. A violência, sob qualquer forma, é uma das práticas que qualquer ser humano deveria rechaçar de maneira veemente.  

A violência da miséria e da fome aos poucos está diminuindo, mas o ambiente que a fez prosperar, a desigualdade, ainda é muito real. E outra vez, não se trata de economia. Trata-se da desigualdade de acesso ao mais básico conhecimento, para que o entendimento de mundo seja humanizado.

Ao mesmo tempo em que há mais crianças na escola, há mais adultos nas igrejas. Que fique claro que absolutamente não penso que isso seja um problema, pois fé, se faz bem, boa é. Mas e se faz mal? Como tolerar a intolerância pregada aos gritos nos púlpitos, onde a “palavra de Jesus” é distorcida ao ponto de um dos mais conhecidos ensinamentos cristãos, “amarás ao próximo como a ti mesmo” é dito com um “mas os homossexuais não, mas as prostitutas são seres do demo, mas a vida no útero vale mais que a vida já desenvolvida". Estes mas encerram os significados mais desprezíveis, comparáveis ao fascismo.

As raízes do mal

Em 2010, durante a campanha à presidência, o poder das novas seitas ficou evidente. Na tentativa de abocanhar essa fatia crescente de eleitores, os candidatos melhor colocados nas pesquisas, Dilma Rousseff, José Serra e Marina Silva evitavam, em entrevistas, declarações ou debates, defender suas posições (e as partidárias) sobre os direitos individuais, como o direito ao aborto. 

Numa sordidez sem precedentes, facções da Igreja católica chegaram ao cúmulo de mandar imprimir panfletos apócrifos ‘acusando’ a candidata governamental de ser ‘favorável ao aborto’. Por essa visão, aborto deixa de ser direito para ser o pior dos pecados, sujeito ao inferno ainda em terra, pior que ser ‘comunista’ ou ‘terrorista’. Com essa atitude aloprada, os fundamentalistas católicos acabaram por unir-se às piores facções do novo fundamentalismo, o evangélico, que já desde 2002 fazia parte da base aliada do então presidente Lula.

Naquele momento eleitoral, foi costurada às pressas uma reunião de Dilma com representantes e líderes das maiores igrejas. Nela, a então candidata, firmou carta-compromisso de que preceitos caros aos líderes ‘espirituais’ não seriam modificados. Não haveria, por parte do governo, proposta de legislação sobre o tema tabu (tabu construído por interesse do capital nos meados do século XIX) o aborto, nem sobre direitos de casais homoafetivos, nem qualquer outra igualdade que a esses líderes pudesse cheirar a afronta.

O resultado é que também graças a esse compromisso, a presidenta foi eleita e, pelo que se sabe, não descumpriu nenhum ponto da carta.

Aí entra a outra questão: vários líderes partidários apregoam que não se deve confundir governo com partido. Ainda não encontrei fórmula para entender essa equação, mas se eles dizem, devem tê-la, guardada como no medievo, em algum castelo com fosso de jacarés que impedem mortais de chegarem aos livros. Ok, suponhamos que eles saibam o que dizem. Então por que raios até agora nenhum partido apresentou proposta de legislação sobre o aborto? E como raios passa numa das comissões da Câmara uma proposta que vitimiza o estuprador e condena a vítima - de uma das mais hediondas violências -  a gestar, parir e criar um filho que porventura tenha sido gerado nesse ato hediondo?

Num momento em que tribos indígenas estão mais do que nunca ameaçadas de extingui-se, e com elas grande parte de nossa cultura, pretende-se criar um banco de reserva de DNA de criminosos? Quem vai pagar essa conta? Haverá mágica na economia que supere tanto retrocesso?

22 março, 2012

Territórios livres (por L.F. Veríssimo)
























por Luis Fernando Veríssimo 


Imagine que você é o Galileu e está sendo processado pela Santa Inquisição por defender a ideia herética de que é a Terra que gira em torno do Sol, e não o contrário. Ao mesmo tempo, você está tendo problemas de família, filhos ilegítimos que infernizam a sua vida e dívidas que acabam levando você a outro tribunal, ao qual você comparece até com uma certa alegria. No tribunal civil, será você contra credores ou filhos ingratos, não você contra a Igreja e seus dogmas pétreos.

Você receberá uma multa ou uma reprimenda, ou talvez, com um bom advogado, até consiga derrotar seus acusadores, o que é impensável quando quem acusa é a Igreja.

Se tiver que ser preso, será por pouco tempo, e a ameaça de ir para a fogueira nem será cogitada. No tribunal laico, pelo menos por um tempo, você estará livre do poder da Igreja. É com esta sensação de alívio, de estar num espaço neutro onde sua defesa será ouvida, e talvez até prevaleça, que você entra no tribunal. E então você vê um enorme crucifixo na parede atrás do juiz. Não adianta, suspiraria você, desanimado, se fosse Galileu.

O poder dela está por toda parte. Por onde você andar, estará no território da Igreja. Por onde seu pensamento andar, estará sob escrutínio da Igreja. Não há espaços neutros. Um crucifixo na parede não é um objeto de decoração, é uma declaração. Na parede de espaços públicos de um país em que a separação de igreja e estado está explícita na Constituição, é uma desobediência, mitigada pelo hábito. Na parede dos espaços jurídicos deste País, onde a neutralidade, mesmo que não exista, deve ao menos ser presumida, é um contrassenso – como seria qualquer outro símbolo religioso pendurado. É inimaginável que um Galileu moderno se sinta acuado pela simples visão do símbolo cristão na parede atrás do juiz, mesmo porque a Igreja demorou, mas aceitou a teoria heliocêntrica de Copérnico e ninguém mais é queimado por heresia. Mas a questão não é esta, a questão é o nosso hipotético e escaldado Galileu poder encontrar, de preferência no Poder Judiciário, um território livre de qualquer religião, ou lembrança de religião.

Fala-se que a discussão sobre crucifixos em lugares públicos ameaça a liberdade de religião. É o contrário, o que no fundo se discute é como ser religioso sem impor sua religião aos outros, ou como preservar a liberdade de quem não acredita na prepotência religiosa. Com o crescimento político das igrejas neopentecostais, esta preocupação com a capacidade de discordar de valores atrasados impostos pelos religiosos a toda a sociedade, como nas questões do aborto e dos preservativos, tornou-se primordial. A retirada dos crucifixos das paredes também é uma declaração, no caso, de liberdade.


Web Analytics