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25 janeiro, 2012

Nicolelis fala de religião e ciência

A Ascenção - Ilustração de Gustavo Doré

Do Paulolopes
Por Maria da Paz Trefaut
Dica @Be_neviani

O mais renomado cientista brasileiro da atualidade, Miguel Nicolelis, vive entre Brasil, Estados Unidos e Suíça. Às vezes completa essa triangulação em uma semana e nem sabe em que fuso horário está. Mas isso não o incomoda. Com projetos nos três países, o neurocientista paulista, fanático pelo Palmeiras, tem a ambição de fazer um adolescente brasileiro tetraplégico dar o pontapé inicial na abertura da Copa do Mundo de Futebol de 2014. Para isso, usará uma veste robótica controlada pela força do pensamento.

Desvendar a possível interação cérebro- máquina é um dos grandes desafios de Nicolelis, referência na pesquisa com próteses neurais, cujo trabalho integra a lista das "Dez Tecnologias que Vão Mudar o Mundo", do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

Professor de neuroengenharia da Universidade Duke (EUA), tem projetos educacionais igualmente ambiciosos no Brasil. Um deles é em Macaíba, no Rio Grande do Norte. Ali deverá ser inaugurado, no início de 2012, o "Campus do Cérebro", uma escola em período integral que beneficiará 5 mil crianças, do berçário ao ensino médio. Já o "Educação para Toda a Vida", que começa na barriga da mãe, vai prestar assistência gratuita para 15 mil gestantes na periferia de Natal.

Ele concedeu à Planeta a entrevista que segue.

Se um tetraplégico der um pontapé na bola, na abertura da Copa de 2014, será uma revolução na ciência. O que ela tem de essencial?

É uma nova forma de abordar a questão da reabilitação e uma nova forma de entender o cérebro. Sem uma nova teoria do cérebro a gente não teria conseguido chegar a essa tentativa de fazer uma aplicação clínica. É também uma revolução tecnológica, porque essas aplicações não vão se restringir à medicina. As interfaces cérebro-máquina envolvem interações com nossos computadores e com as ferramentas que usamos diariamente.

Esses tratamentos devem ajudar a romper o estigma das doenças?

Essa é uma das razões pelas quais escrevi este último livro [Muito Além do Nosso Eu, recém-lançado pela Companhia das Letras,]. ara mostrar que o que a gente chama de normal e anormal é separado por uma fronteira muito tênue. É muito rápido um cérebro dito normal evoluir para um dito patológico. Para um de nós ficar esquizofrênico não é preciso muito.

É um processo químico?

Entre outras coisas. No frigir dos ovos, tudo se resume a uma mudança de balanço de neurotransmissor e de atividade elétrica do cérebro. A gente percebe que são pequenas variações que levam você a ouvir vozes, ter delírios. Nos dias de hoje, aliás, a humanidade curiosamente é dominada por três esquizofrênicos que ouviam vozes, olhavam para o céu e achavam que alguém estava falando com eles.

Quem são?

Jesus Cristo, Maomé e Abraão. Muito provavelmente os três precisavam de haldol (medicamento para esquizofrenia). É arbitrária qualquer classificação que defina as bordas da normalidade. Cada vez mais a intolerância e o preconceito esculpem essa borda com seus interesses próprios ideológicos e políticos. Quando você vê o cérebro por dentro e começa a entender o que acontece, percebe como é fácil ir de um lado para outro.

Você falou de três símbolos religiosos. Você é ateu?

Sim, mas acho que a religião faz parte do sistema nervoso. Como o cérebro é um simulador da realidade, ele cria um modelo e uma ilusão de realidade para cada um de nós. Ele precisa de uma história: de onde viemos? Como começou o universo?

Materialista ou religiosa?

Exatamente. Os pigmeus africanos acham que a gente saiu do céu, que havia uma corda e eles foram descendo. Toda cultura tem uma história. O problema é que algumas são excludentes e prejudiciais ao bom convívio da espécie, na medida em que elegem os eleitos e os não eleitos.

A questão dos comandos cerebrais envolve telepatia?

Não, porque a telepatia pressupõe que a energia espontânea do cérebro é capaz de transmitir pensamentos.

Há energia no cérebro?

Ele tem um campo elétrico e magnético, mas muito pequeno. Não tem como um sinal sair do cérebro, passar pelo crânio e ir da minha cabeça para a sua. É impossível! Mas você pode registrar esses sinais, transmiti-los artificialmente - como a gente já faz - e mandá-los para uma máquina ou, em teoria, para outro cérebro. É nisso que estamos trabalhando.

Esse é o objetivo da brainnet?

Estamos trabalhando na ideia original, brain to brain interface. Trata-se de pegar o sinal de um cérebro e mandar para outro e ver se ele entende. Se for possível com um par de cérebros, será possível em qualquer combinação. Claro que tecnologicamente isso tem dificuldades enormes: não basta registrar o sinal, mas entregá-lo para outro cérebro. Em teoria, a ideia é factível.

Como você vê o futuro...

Bem diferente do atual. A gente tem a tendência de ter medo, porque todos os sinais do futuro são dramáticos.

... ... da máquina humanizada...

Isso é uma barbaridade científica. Não há nenhum computador que tenha a chance de reproduzir atributos humanos. Isso é pura balela, propaganda ideológica. É uma visão capitalista, de que você não vale nada e pode ser substituído por um robô. A máquina consegue executar movimentos repetitivos. Não consegue escrever poesia, pintar como Picasso, tomar decisões baseadas na natureza humana. Todas as características que fazem a gente ser como é resultam de processos extremamente complexos no cérebro e são fenômenos não computáveis.

Isso define o limite da tecnologia?

Claro, ela é uma expressão da nossa capacidade criativa. Por isso são tão interessantes esses achados neurofisiológicos recentes, que mostram que todas as ferramentas que criamos são assimiladas pelo cérebro como uma extensão do nosso corpo: mouse, caneta, raquete de tênis, bola, carro, bicicleta. O cérebro cria a ilusão do que o nosso corpo é. E tudo o que a gente experimenta é uma ilusão; é um modelo do mundo.

Tudo é ilusão?

Sim. Se seu cérebro fosse diferente, você ia ver o mundo diferente. A sua história de vida foi diferente da minha; nós dois olhamos uma rosa vermelha e ela evoca memórias peculiares em cada um. Até recentemente a gente achava que a sua experiência e a minha, ao olhar uma coisa assim, era a mesma. Hoje a gente sabe que não é: o cérebro tem uma opinião. Esse ponto de vista foi construído ao longo da sua vida e da minha e ao longo da nossa espécie do ponto de vista evolutivo. Nosso cérebro vai ter um papel cada vez mais relevante na ampliação do nosso alcance como espécie. O nosso corpo vai perder relevância.

Mas vivemos o culto do corpo.


Pois é, até hoje o culto do corpo dominou nossa espécie. Então, quem aproveitou, aproveitou. A partir daqui, quem vai ganhar o embate é a mente. A seleção natural de quem vai sobreviver privilegiará aqueles capazes de usar a mente para agir com uma cornucópia de equipamentos, ferramentas e tecnologias que serão controláveis apenas por pensamentos. Antes, sobrevivia quem caçava bem. Amanhã será a vez de quem conseguir usar a mente para controlar 200 equipamentos ao mesmo tempo.

Diz-se que usamos uma porcentagem ínfima da nossa capacidade.

Mentira. Na verdade, a gente usa tudo o que tem. Se tivesse mais, usava também. A gente perde neurônios a partir dos 18 anos, mas é uma perda muito pequena. Num certo ponto da vida essa perda passa a ser relevante: você vai esquecendo coisas e não tem mais a mesma agilidade mental.

Como você cuida dos neurônios?

Pensando. Desafiando a mente a pensar em coisas a que não estou habituado. É como um exercício físico.

Não cansa?

Demais. Tem dias que o esforço é tanto que eu capoto e acordo no outro. Estou ligado o tempo inteiro. Para mim isso não é trabalho, é prazer.

Vinte anos fora do Brasil modificaram a sua visão?

Ah, o exílio é o maior elixir do patriotismo. Você vê as coisas que não são boas, mas isso não abate as maravilhas que existem aqui. Temos muito potencial, que agora começa a aflorar de forma caótica. Mas temos um grande desafio pela frente. Nossa classe polícortica é muito fraca, muito pobre, dissociada da realidade. É uma classe que só pensa no espólio, em como extrair para si o que for possível. A situação da população melhorou bastante nos últimos anos, mas ainda falta muito para se construir uma cidadania plena. A educação é o único caminho.

Você se considera ousado?

Sim, desde o futebol na rua. Sempre me meti onde não era chamado.

E só encontrou espaço para se desenvolver fora?

Não havia muito espaço para minhas ideias quando deixei o Brasil. Ao pensar em voltar, fui desencorajado.

Por quem?

Pelo chefe do departamento que, claramente, tinha seus protegidos e sabia que minha volta ia causar problemas. Era 1991 e a situação brasileira era muito complicada, com o confisco do governo Collor. Perdi toda a poupança que tinha e nunca mais recuperei. Mas minha grande crítica é que acho que grande parte da ciência brasileira é humilde. As pessoas têm medo de ousar, têm complexo de que não se pode fazer coisa grande, ambiciosa. Têm medo.

Isso prejudica o Brasil?

A ciência brasileira é muito provinciana. A academia de ciências também, e a maneira de financiar é cartorial. Nosso modelo é um dos mais perniciosos para um jovem cientista penetrar. Os sujeitos mais seniores dominam tudo e se você não tem um padrinho não consegue nada, porque é clube fechado. Nos Estados Unidos é o contrário: as possibilidades de financiamento para os jovens são garantidas de forma a assegurar uma renovação contínua de talentos. Aqui, o negócio é manter o status quo.


Este texto foi publicado originalmente na edição 467, agosto de 2011, da Planeta.

Leia também: 
Quebrando neuroparadigmas
Monkey brains 'feel' virtual objects
Miguel Nicolelis : Muito além do nosso eu
The Walk-Again Project

24 janeiro, 2012

Sobre a ironia (por @joaonildo51)

São Paulo


Era uma vez um tempo e lugar onde ainda se podia brilhar com um bocadinho de ironia, que compensava todas as lacunas, favorecia alguém com honrarias e dava a reputação de ser culto, de compreender a vida, além de de proporcionar aos iniciados um passaporte para uma vasta Franco-Maçonaria espiritual.

Ainda nos deparamos, vez em quando, com algum representante dessa confraria que conserva este fino sorriso significativo, ambiguamente revelador, sobre o qual se construiu reputações.

Conceituar essa dialética aprendida secularmente com o tempo e com os grandes mestres da figura de linguagem irônica,o que caracteriza o conceito de ironia,ou como a ironia supera imediatamente a si mesma, na medida que o orador pressupõe que os ouvintes o entendem, e deste modo, através da negação do fenômeno imediato, a essência acaba identificando-se com o fenômeno , tem sido objeto de inúmeras considerações.

A ironia, como discurso literário ou filosófico apresenta duas vertentes: Uma grega, “eironeia” significa interrogação, é fator auxiliar de conhecimento, daí a ironia Socrática.

Outra latina significa dissimulação,está posta no intervalo entre o que se diz e o que se quer significar e é sobretudo um jogo de palavras.

Não se encontra para o que seja ironia, uma definição plenamente satisfatória, por seu caráter fluido e nebulosos construiu-se diferentes perspectivas teóricas e em muitas delas faz-se a junção de ironia com ceticismo,chiste, paradoxo, sátira, impostura, troça, sarcasmo, paródia, perífrase, pastiche, mentira e considerando-se ainda que pode-se falar de vários tipos de ironia Socrática, filosófica, romântica, trágica, cômica, ingênua, auto-ironia, ironia retórica ou humor.

Outro problema no seu estudo ocorre na perspectiva da nomeação, cuja referência pode ser o meio, o objeto, o efeito , a técnica, o praticante a atitude ou o tom e ainda como se não bastasse, é fato que cada autor utiliza a ironia a seu modo estabelecendo as marcas de seu estilo pessoal e intransferível.

Enquanto figura de linguagem a ironia, no seu sentido mais corrente postula significar o contrário do que se diz, tanto no contexto como no texto, dizer o contrário do que se pensa ou do que se quer seja pensado, mesmo dizendo o contrário do que afirma, diz sobretudo mais do que fica expresso.

O desacordo entre enunciado e enunciação constitui o terreno da imprevisibilidade, da incerteza, da estranheza da contraditoriedade, características da ironia. Revela seu caráter revolucionário, questionador e contestatório. Sendo assim a aptidão do homem para a ironia pode ser proporcional a sua capacidade de questionar o discurso ideológico do contexto em que está inserido. Em última análise a ironia revela sobretudo uma visão crítica da vida.

Se ocorre, eventualmente, que um tal discurso irônico, no que diz respeito aos efeitos e consequências da ironia retórica, venha a ser mal compreendido, não é culpa do orador, a não ser na medida em que foi se meter com um patrão tão malicioso como a ironia, que tanto pode pregar peças em amigos quanto inimigos.

A ironia assim considerada como própria dos conspiradores e do ponto de vista daqueles a quem ela se dirige, pode ocorrer de duas maneiras: Ou o irônico se identifica com a desordem que ele quer combater, ou ele assume frente a essa uma relação de oposição.

Em todos estes casos a ironia se mostra como aquela que compreende o mundo, que procura mistificar o mundo circundante, não tanto para ocultar-se quanto para fazer os outros se revelarem.

É curioso todavia, ressaltar que a figura de linguagem irônica aparece principalmente nas classes elevadas como uma prerrogativa do chamado bom-tom , o qual exige que se sorria da inocência e se considere a virtude algo de bitolado, ainda que se acredite nela, até um certo ponto.

Na medida que os círculos elevados falam assim de maneira irônica, tal como oligarquia e a burguesia brasileira abastada falava francês, para não ser compreendida pelo povo leigo e pelo comum dos mortais, a ironia corre o risco de por definição procurar o isolamento e tornar-se apenas uma forma subordinada de vaidade.

Esse outro sentido revela a percepção sobre como a ironia foi historicamente usada para contornar exames mais aprofundados e assim esconder ignorâncias e fragilidades.

Este tipo de ironia supõe um distanciamento com o leitor ou ouvinte que lhe possibilite perceber as incongruências as ambiguidades presentes no discurso, pois não é possível estabelecer com clareza o significado pretendido pelo emissor.

Enquanto a ironia retórica serve a monologismo ao poder estabelecido, à ideologia, busca salvaguardar valores e apega-se a um sentido já existente, a ironia literária postula o diálogo, brinca os valores pois sabe que eles são mutáveis conforme o contexto e a circunstância.

Trago aqui, sem qualquer pretensão de haver esgotado a riqueza de ângulos, texturas e pontos de vista que o tema possibilita, a homenagem aos que fizeram do uso da figura de linguagem irônica uma arte e instrumento de busca do verdadeiro saber (Maiêutica) e aos que delas abusam, (Sofistas), a advertência nos excertos da correspondência de Rainer Maria Rilke,( “Cartas a um jovem poeta”) nascido em Praga e um dos autores de língua alemã mais conhecidos no Brasil , traduzido por alguns dos maiores nomes da poesia brasileira como Manuel Bandeira ou Cecília Meireles ou ainda Augusto de Campos.


Rilke

Cartas a Frans Xavek Kappus

Viareggio perto de Pisa (Itália)

5 de Abril de 1903

”É preciso que me perdoe caro e prezado senhor, por só agora lembrar com gratidão, de sua carta de 24 de fevereiro (…) Hoje eu queria dizer duas coisas ao senhor . Primeiro quanto a IRONIA.

Não se deixe dominar por ela, principalmente em momentos sem criatividade, nos momentos criativos, procure fazer uso dela como mais um meio para abarcar a vida. Usada com pureza ela também é pura, e não é preciso envergonhar-se dela.

Caso a intimidade seja excessiva, caso o senhor tema essa excessiva intimidade com a ironia, volte-se para os assuntos grandes e sérios , diante dos quais ela se torna pequena e desamparada. Procure o fundo das coisas: Ali a ironia nunca chega.

Assim, se o senhor seguir seu caminho à beira do que é grandioso, pergunte-se também se esse modo de entender o mundo corresponde a uma necessidade do seu ser. Pois , sob a influência de coisas sérias, ou a ironia o abandonará (se ela for algo ocasional), ou então ela ganhará força ( se lhe pertencer como algo inato) e se converterá em uma ferramente séria, assumindo seu lugar no encadeamento dos recursos com os quais o senhor terá de constituir sua arte. (…)”

Rainer Maria Rilke 


16 janeiro, 2012

Chuva, estética e ensaio: Oswald de Andrade, Soidão

Foto do G1: São Paulo




Do Cocept
Por  @EduardoCBraga

A catarse eleva a consciência do particular para o geral 

Considero Oswald de Andrade um dos maiores poetas do mundo. Não só poeta, mas um pensador da cultura e da arte, ímpar e exemplar. Tanto em seu manifesto “Pau-Brasil”, como no “Antropófago”, Oswald elabora uma das mais conscientes estratégias de superação dialética do conflito local versus global, ou nacional versus internacional. Trata-se de absorver a cultura internacional não de forma acrítica e passiva, mas processá-la no atávico local, como afirma o início do manifesto “Pau-Brasil”:


A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos (…) O Carnaval no Rio é o acontecimento religioso da raça. Pau-Brasil. Wagner submerge ante os cordões de Botafogo. Bárbaro e nosso. A formação étnica rica. Riqueza vegetal. O minério. A cozinha. O vatapá, o ouro e a dança. (…)“”

A metáfora do antropófago é perfeita. Devora o inimigo e, com sua ingestão, um acréscimo de força surge na síntese entre o outro e o eu.

Estratégia semelhante foi usada por Kafka em sua literatura, a qual guarda a preocupação com uma literatura de minoria. Em vez de exaltar a língua local, Kafka submete a um tratamento local a língua maior do colonizador. O alemão de Kafka balbucia, gagueja. A força discursiva e autoritária do império, torna-se vacilante, provocando um estranhamento e uma transformação pela síntese realizado em seu uso local.

A Forma e Estrutura dos poemas de Oswald de Andrade desvelam as estratégias modernistas. São colagens. Procedimento compositivo de influência cubista e da narrativa e linguagem cinematográfica. Não o cinema de Hollywood, mas a vanguarda européia (surrealismo, expressionismo, etc.) e, especialmente, o cinema soviético. Um exemplo significativo é o poema: “O Capoeira”:


- Qué apanhá sordado?
- O quê?
- Qué apanhá?
Pernas e cabeças na calçada.“”

O poema é perfeitamente uma cena de linguagem cinematográfica. Uma câmera registrando diversas perspectivas como o olhar cubista.

Em sua Forma os poemas de Oswald de Andrade são como aqueles de Maiakovski. Desvelam o mundo fragmentado do contemporâneo numa luta caótica em busca de sua realização: a síntese representada e expressa pelo poema.


SOIDÃO | oswald de andrade

Chove chuva choverando
que a cidade de meu bem
está-se toda se lavando

Senhor
que eu não fique nunca
como esse velho inglês
aí ao lado
que dorme numa cadeira
à espera de visitas que não vêm

Chove chuva choverando
que o jardim de meu bem
está-se todo se enfeitando
A chuva cai
cai de bruços

A magnólia abre o pára-chuva
pára-sol da cidade
de Mário de Andrade
A chuva cai
escorre das goteiras do domingo

Chove chuva choverando
que a cidade de meu bem
está-se toda se molhando

Anoitece sobre os jardins
Jardim da Luz
Jardim da Praça da República
Jardim das platibandas

Noite
Noite de hotel
Chove chuva choverando“”

Chove, chuva choverando… Todos nós já dormimos gostosamente graças ao embalo do ritmo de uma leve chuva. Chuva é gostosa para dormir. Isso é o normal. Mas, para o poeta o normal torna-se extraordinário. Motivo de um espanto diante do banal. Desbanalizar o banal é uma das principais funções do sentimento estético.

O poema “Soidão” de Oswald de Andrade guarda uma estranha e estimulante ambigüidade. Fiel ao manifesto “Pau-Brasil”, a poesia se nos apresenta de forma “ágil e cândida”. “Como uma criança.” É o que poderíamos chamar de seu conteúdo manifesto. Porém, existe um outro conteúdo, o latente, o qual já se apresente em seu título referindo-se à solidão.

Essa sensação de solidão, motivada pelas circunstâncias temporais, se aguça no meio do poema pela observação:


Senhor
que eu não fique nunca
como esse velho inglês
aí ao lado
que dorme numa cadeira
à espera de visitas que não vêm“”

Ao fim do poema, em seus versos finais, o desvelar do sentimento se dá na tensão da linguagem minimalista com a profundidade da experiência:


Noite
Noite de hotel
Chove chuva choverando“”

O que é uma Noite de hotel, de que fala o poema? Quem já dormiu em hotéis, sabe o que significa. Estranhamento. Algo que não é exatamente seu, mas você está lá, todo, plenamente. Sentimentos ambíguos. Bons e maus. Às vezes, é difícil dormir… Estou escrevendo esse post num domingo no qual ” A chuva cai / escorre das goteiras do domingo”, como expressa o poema. Estou na cidade de São Paulo, a mesma cidade de Oswald, que foi invadida por uma frente fria que faz chover num janeiro deserto. Meus sentimentos são parecidos com os de Oswald, uma certa melancolia atravessada por uma solidão. Entretanto, a leitura do poema transforma minha pequena subjetividade em uma consciência de algo maior. Todos os solitários se reúnem para constatar, e não mais simplesmente choramingar, a condição humana da solidão moderna. Nessa universalização a consciência atinge a dimensão do humano, daquilo que Aristóteles chamou de “zoon politikon” e Lukács “Ser-Social”. Essa experiência é a catarse que o velho Aristóteles dizia ser o objetivo da Tragédia Grega. A Tragédia tinha por função despertar esse sentimento de elevação da consciência, cujo movimento seria do particular para o universal, do indivíduo para a humanidade, do ser biológico para a Terra Gaia. Os solitários se irmanam e, de simples choramingas limitados, tornam-se expressões da Condição Humana. Tornam-se heróis trágicos. Obrigado Oswald de Andrade.
Referências


ANDRADE, Oswald. “Manifesto da poesia Pau-Brasil”. In: Correio da Manhã,18 de março de 1924.
ANDRADE, Oswald. “Manifesto antropófago”. In: Revista de Antropofagia, Ano I, No. I, maio de 1928.
ARISTÓTELES. Poética. Porto Alegre: Globo, 1966.
DELEUZE, Gilles. Crítica e clínica. Tradução Peter Pál Pelbart. São Paulo: Editora 34, 1997.
LUKÁCS, Georg. A teoria do romance: um ensaio histórico-filosófico sobre as formas da grande épica. Tradução José Marcos Mariani de Macedo. São Paulo: Duas Cidades/Ed. 34, 2000.
TROTSKY, Leon. Literatura e revolução. Rio de Janeiro: Zahar, 1969.

São Paulo, 15 de Janeiro de 2012
Prof. Dr. Eduardo Cardoso Braga

09 janeiro, 2012

Angústia, Arquitetura e Filosofia

http://pt.db-city.com/It%C3%A1lia/Basilicata/Matera/Matera


Depois que escrevi o texto anterior, O que tem 2011 a ver com angústia?, dois textos me foram indicados: "Contra o estrago do liberalismo, recuperar o Max filosófico", uma entrevista de Eduardo Febbro para o portal Carta Maior com o filósofo francês Dany-Robert Dufour e "Ambiente, Arquitetura, Arte e Cotidianidade", do professor Eduardo Cardoso Braga.

Ambos, de certa forma e ao meu ver, entrelaçam seus temas com a angústia. Um tanto quanto e forma desordenada, vou pinçar alguns desses entrelaçamentos. Por evidente, as linhas de um simples observador do mundo não se equiparam às de filósofos.

Quando escrevi que "Ninguém, mas ninguém mesmo, foi capaz de fazer o necessário: ruptura! Uma ruptura real com a "modernidade" e com todos os sistemas criados nela e por ela", creio que pensava o que escreveu Dufour: "Refundar nossa civilização após os três caminhos sem saída que forma o nazismo, o estalinistmo e o liberalismo requer uma refundação sobre bases sólidas. Por isso realizei o inventário, para ver o que podíamos recuperar e o que não, quanto do passado podia nos servir e quanto não.". Braga completa a ideia ao perceber ser "urgente, hoje, a criação e o projeto de espaços e ambientes que favoreçam a expressão do comum, nos quais as pessoas se reconheçam como seres humanos, capazes de controlar seus destinos, e não simplesmente subjetividades em conflito com o outro e o ambiente. O sentimento de humanidade engendra a dignidade e um sentido de respeito para consigo e seu semelhante, bem como para toda espécie de vida."

Incrível como as peças vão se juntando. Dufour fala do "homem simpático", aquele que entende que precisa ver o outro em si, que "para viver com o próximo, é preciso contar com ele". "Necessito da presença do outro em mim e o outro presisa de minha presença nele para que possamos construir um espaço onde cada um seja um indivíduo aberto ao outro. Eu cuido do outro como o outro cuida de mim."

Tarefa difícil, mais ainda quando lembramos Braga: "É comum vermos as pessoas reclamando do seus vizinhos com suas "músicas altas" de gosto duviduso. Ou conflito de toda espécie pelos desrespeitos às regras que deveriam presidir o espaço comum." O espaço comum perdeu sentido quando "as relações entre indivíduos" passaram ao segundo plano, trocadas pela relação com o objeto (Dufour).

Nosso espaço comum foi alienado e juntamente com essa alienação, nos tornamos objetos de nós mesmos. Se mal conseguimos nos relacionar com as "caixas de fósforos" (Braga), onde fomos colocados pelo liberalismo, como fazer para recuperar a humanidade, que é, essencialmente, relação com o próximo? A pergunta que me faço é: como vencer, na prática, algo tão poderosamente instalado em todos os capos de atuação da vida? Será que querer "uma casa no campo, do tamanho ideal, pau-a-pique e sapê, onde possa plantar meus amigos, meus discos e livros, e nada mais..."? resolve? Se até uma casa no campo custa uma fortuna?

Tenho que pensar muito ainda na frase final do texto do Eduardo Braga: "Quando a própria vida está despida de toda humanidade e se desnaturaliza, o homem, como parte desse ambiente, também se comporta de forma antinatural e inumana" e na frase do Dufour "O liberalismo nos deixa a liberdade de alienarmos a nós mesmos"....

11 outubro, 2011

#OccupyWallStreet: A regra está quebrada

Original do Huffingtonpost
Versão de Sergio Pecci
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Manifestante presa dia 1/10/2011 na Ponte do Brooklyn


Além de Michael Moore e Naomi Klein, o filósofo marxista esloveno Slavoj Zizek juntou-se ao #OccupyWallStreet no último domingo quando falou, usando microfone humano, por cerca de uma hora aos manifestantes sobre a importância do movimento e, como sempre, provocando.

Afirmou sermos testemunhas oculares de um processo de auto-destruição do sistema que, nos moldes em que se desenvolveu, oprimiu a capacidade humana de sonhar.

Zizek provocou os manifestantes a encararem o Tea Party como um movimento irmão: "eles podem ser estúpidos, mas não olhe para eles como um inimigo"; sugerindo assim que a extrema-direita pode ser o principal parceiro na destruição do capitalismo.

Alertou a todos para que não sucumbam à excitação do imediatismo, e sim que mantenham os olhos voltados para a possibilidade de uma verdadeira mudança social. Disse também que não quer que, daqui há uns anos se olhe para este movimento e se pense nele apenas como um movimento festivo e alentado por jovens sonhadores, e sim nas reais mudanças que ele pode catalisar.

O filósofo salientou que "não vivemos da melhor maneira possível", criticando o modo de vida americano e lembrando, dessa forma, que existe um longo caminho a ser trilhado para encontrarmos as alternativas possíveis de outra realidade. "Nós sabemos o que não queremos, mas sabemos realmente o que queremos ? " 



Assista 


Parte 1


Parte 2



Parte 3



O pronunciamento traduzido foi postado na Carta Maior 


Aqui a versão do Viceland


O filósofo esloveno Slavoj Zizek é a última de uma longa lista de celebridades a manifestar-se publicamente a favor do movimento Occupy Wall Street. Conhecido pelas suas opiniões políticas ácidas e originais, Zizek discursou brevemente sobre a relação condenada entre o capitalismo e a democracia, bem como sobre a ligação particular entre ciência e justiça social.

“Por um lado, na tecnologia e na sexualidade, tudo parece possível”, disse Zizek através de um megafone cedido pelos manifestantes, “mas quando olhamos para a realidade social e económica quase tudo está preso numa retórica de impossibilidades”. E continuou dizendo que temos os dildos mais sofisticados de sempre e estamos, para o bem e para o mal, a caminhar para a imortalidade, mas, ao mesmo tempo, aqueles que detêm o poder dizem-nos que taxar os ricos, criar emprego e manter o sistema nacional de saúde é impossível porque isso seria comunista e o comunismo é mau.

Zizek defende que os comunistas mais implacáveis na China são, na verdade, os capitalistas mais implacáveis. A única diferença entre nós e eles, diz Zizek, é que os chineses perceberam, para que o capitalismo pudesse triunfar, que as ideias democráticas de liberdade e igualdade teriam que ser, pura e simplesmente, retiradas da equação — é para aí que parecemos caminhar. “Só somos comunistas no sentido em que nos preocupamos pelo bem comum”, diz Zizek em referência aos membros do movimento de justiça social que está agora a expandir-se para outras cidades por todos os EUA. “O comunismo falhou rotundamente, mas os problemas das pessoas ainda existem”, rematou.


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