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11 março, 2012

A 'Miséria' da Privataria




Descontada a personalidade tucana do filósofo, vale a leitura crítica do texto de José Arthur Giannotti publicado no Estadão de domingo.


"Privataria e Ideologia"  


Existe, sim, importante diferença ideológica entre a privatização tucana e a concessão petista, por conseguinte, entre a assim chamada privataria tucana e a privataria petista.

Sabe-se que a todo projeto político corresponde uma forma de corrupção. Já se tornou consenso que o Estado não possui meios para enfrentar a renovação de nossa infraestrutura; daí a urgente necessidade de parceria entre fundos públicos e capital privado. Quais são, porém, os riscos e os lados sombrios dessa associação?

Não tem sido inócua a pregação petista de que o governo Dilma não privatiza, não transfere estatais para o capital privado, apenas as cede por prazos determinados. Depois de seu decurso, as empresas voltariam para as mãos do Estado e, por assim dizer, para as mãos do povo brasileiro. É essa última ilação que aqui pretendo discutir, porquanto entre o Estado e o povo se infiltra a burocracia. Um Estado proprietário não é aquele que mais convém a esse intermediário?

Burocracia e capital, sempre ligados, assumem hoje configurações especiais. A agregação do valor, por conseguinte a criação do valor, passam a depender da tecnociência. Se para Ricardo ou Marx o desenvolvimento tecnológico indicava capacidade produtiva do trabalho, hoje em dia essa capacidade depende sobretudo da inovação, isto é, do desenvolvimento da ciência e tecnologia. Em geral são os recursos públicos que, direta ou indiretamente, financiam a pesquisa básica, e os recursos privados transformam essa ciência em tecnologia e produtos para o mercado. Mas a aplicação ela mesma se tornou tão refinada que sempre coloca questões científicas.

O capital moderno depende desse círculo. Se a tecnociência se entranha no público e no privado, esse também é o caso da tecnoburocracia. Hoje em dia, o burocrata paradigmático é o grupo dirigente de uma multinacional, seja um banco, seja uma indústria petroleira. Se esse grupo não estiver de olho na invenção, ele morre.

Portanto, nada mais natural, e necessário, que o poder público se associe à tecnoburocracia e queira controlá-la politicamente. Como, porém, efetuar esse controle de um ponto de vista verdadeiramente democrático, correspondendo à vontade do povo? Se a chave da burocracia é o segredo, importa tornar transparentes as instituições, o que somente se torna possível se elas sistematicamente prestarem contas a seu público e abrirem seus arquivos para a mídia. Isso depende de instituições de controle que possam se vigiar mutuamente.

Desse ponto de vista, fica clara a opção petista: juntar a tecnocracia privada com sua própria burocracia, sem passar pelo debate público. No máximo passa pelo ritual das eleições, o grande espetáculo da democracia contemporânea onde os problemas, em vez de discutidos, são apenas fantasiados. O PT é um partido extremamente eficaz. Como todos os partidos atuais, está sempre se socorrendo dos fundos públicos, mas sua eficácia depende de sua capacidade de sugar aparelhos de Estado e se associar às empresas amigas. Aparelha o Estado e as multinacionais companheiras, assim como as empresas "concedidas". A recente concessão dos aeroportos o comprova. Três empresas vão carregar no colo 49% do patrimônio pertencente à Infraero que, se fosse competente e financeiramente sadia, dispensaria participação do capital privado. Aqui importa salientar a associação das duas tecnocracias, formando um tecnopoder incrustado no Estado burocratizado, controlando fundos públicos e colocando limites ao capital privado.

Nada mais ingênuo imaginar que essa tecnocracia público-privada, embora implique considerável reforço do Estado, seja efetivamente democrática. Ela tende a se subordinar aos interesses de poder do grupo dirigente. A maneira como os governos Lula e Dilma tratam a Petrobrás o comprova. Nela o governo manda, como lembrou J. S. Gabrielli, logo ao se afastar da presidência da empresa. Pouco importa se essa política ameace um projeto de energia alternativa como o Proálcool. Apenas interessa o poder pelo poder, sem que a oposição tenha tido ciência ou coragem para denunciar o jogo. Tudo isso não enerva as instituições democráticas?

O PSDB nunca possuiu a unidade ideológica e burocrática do PT. Sobretudo hoje em dia, quando se mostra um arremedo de partido aglutinando caciques regionais. Do ponto de vista ideológico, tanto incorpora neoliberais como social-democratas adeptos de políticas keynesianas. Esse grupo, mais à esquerda, aposta num Estado pequeno, porém forte, capaz de intervir intensamente no mercado e na vida social, não através do monopólio de propriedades, mas reforçando instituições reguladoras. Aqui está o nervo da questão. Apesar de a instituição reguladora também correr o risco de se burocratizar e confundir necessidades públicas com necessidades particulares, ela tende a se mover num campo onde as decisões apresentam melhores possibilidades de serem verdadeiramente transparentes e democráticas. Isso se estiver aberta a ponto de discutir livremente suas decisões políticas. Ora, não há discussão proficiente se as divergências forem carimbadas como luta entre amigos do povo, defensores do Estado proprietário e seus inimigos, entreguistas deslavados.

Também uma política verdadeiramente social-democrata não está livre da corrupção. Os operadores do governo, ou aqueles que acabam de deixá-lo, sempre podem usar privadamente informações privilegiadas. E essa tendência só pode ser combatida pela vigilância pública, além de um Poder Judiciário eficaz e protegido do espetáculo.
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11 outubro, 2011

#OccupyWallStreet: A regra está quebrada

Original do Huffingtonpost
Versão de Sergio Pecci
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Manifestante presa dia 1/10/2011 na Ponte do Brooklyn


Além de Michael Moore e Naomi Klein, o filósofo marxista esloveno Slavoj Zizek juntou-se ao #OccupyWallStreet no último domingo quando falou, usando microfone humano, por cerca de uma hora aos manifestantes sobre a importância do movimento e, como sempre, provocando.

Afirmou sermos testemunhas oculares de um processo de auto-destruição do sistema que, nos moldes em que se desenvolveu, oprimiu a capacidade humana de sonhar.

Zizek provocou os manifestantes a encararem o Tea Party como um movimento irmão: "eles podem ser estúpidos, mas não olhe para eles como um inimigo"; sugerindo assim que a extrema-direita pode ser o principal parceiro na destruição do capitalismo.

Alertou a todos para que não sucumbam à excitação do imediatismo, e sim que mantenham os olhos voltados para a possibilidade de uma verdadeira mudança social. Disse também que não quer que, daqui há uns anos se olhe para este movimento e se pense nele apenas como um movimento festivo e alentado por jovens sonhadores, e sim nas reais mudanças que ele pode catalisar.

O filósofo salientou que "não vivemos da melhor maneira possível", criticando o modo de vida americano e lembrando, dessa forma, que existe um longo caminho a ser trilhado para encontrarmos as alternativas possíveis de outra realidade. "Nós sabemos o que não queremos, mas sabemos realmente o que queremos ? " 



Assista 


Parte 1


Parte 2



Parte 3



O pronunciamento traduzido foi postado na Carta Maior 


Aqui a versão do Viceland


O filósofo esloveno Slavoj Zizek é a última de uma longa lista de celebridades a manifestar-se publicamente a favor do movimento Occupy Wall Street. Conhecido pelas suas opiniões políticas ácidas e originais, Zizek discursou brevemente sobre a relação condenada entre o capitalismo e a democracia, bem como sobre a ligação particular entre ciência e justiça social.

“Por um lado, na tecnologia e na sexualidade, tudo parece possível”, disse Zizek através de um megafone cedido pelos manifestantes, “mas quando olhamos para a realidade social e económica quase tudo está preso numa retórica de impossibilidades”. E continuou dizendo que temos os dildos mais sofisticados de sempre e estamos, para o bem e para o mal, a caminhar para a imortalidade, mas, ao mesmo tempo, aqueles que detêm o poder dizem-nos que taxar os ricos, criar emprego e manter o sistema nacional de saúde é impossível porque isso seria comunista e o comunismo é mau.

Zizek defende que os comunistas mais implacáveis na China são, na verdade, os capitalistas mais implacáveis. A única diferença entre nós e eles, diz Zizek, é que os chineses perceberam, para que o capitalismo pudesse triunfar, que as ideias democráticas de liberdade e igualdade teriam que ser, pura e simplesmente, retiradas da equação — é para aí que parecemos caminhar. “Só somos comunistas no sentido em que nos preocupamos pelo bem comum”, diz Zizek em referência aos membros do movimento de justiça social que está agora a expandir-se para outras cidades por todos os EUA. “O comunismo falhou rotundamente, mas os problemas das pessoas ainda existem”, rematou.


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