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09 janeiro, 2012

Aluno da USP é agredido pela PM #Tucana de SP

Por Igor Carvalho

Um vídeo produzido por alunos flagra o exato momento em que um policial agride e saca uma arma para um estudante, dentro do campus, durante mais uma operação policial dentro da USP



Hoje pela manhã, por volta das 11h, a Polícia Militar, sob o comando de um policial identificado apenas como André, cuja patente não foi revelada, iniciou a remoção dos alunos que estavam acampados no local e soldou a porta de entrada da sede do DCE (Diretório Central dos Estudantes), da USP. “Vieram aqui nos remover sem um mandato, sem qualquer amparo judicial, de forma bruta e agressiva”, alega Rafael Alves, estudante de Letras, que estava presente durante a ação. Durante a remoção dos alunos, o policial André agrediu o aluno de Licenciatura em Ciências da Natureza, Nicolas Menezes, e chegou a sacar uma arma para o estudante, que não reagiu. Pode-se observar no vídeo abaixo que os alunos durante todo o tempo tentam dialogar com o policial que os ignora durante seu ato de fúria.

Fechada em 2005 sob a alegação de que haveria uma reforma, que nunca houve, a sede do DCE foi retomada pelos estudantes em 2009. Desde então, tem funcionado normalmente, para assembleias, festas, eventos culturais e como ponto de encontro dos alunos. Na última sexta (06), a sede do DCE recebeu uma visita do reitor João Grandino Rodas, que alegava estar “apenas vistoriando o espaço”, e, em seguida, foi invadida pela Guarda Universitária e pela Polícia Militar. Durante a ação, diversos itens foram retirados do local, de acordo com os estudantes. “Eles levaram nosso freezer, equipamentos de som e luz, que usávamos para realizar eventos culturais e uma série de outras coisas”, afirma Rafael Alves. Os agentes alegaram que estavam agindo a mando do reitor. Após a operação de sexta, os alunos acamparam na frente da sede.

Desocupação e “monitoramento”

Alves, que participa do movimento estudantil da USP, é citado na matéria da edição de janeiro da revista Fórum, que já está nas bancas e que denuncia o esquema de arapongagem dentro da universidade e a política adotada pela reitoria de “monitoramento” de alunos, sindicalistas e professores. Para Alves, que é visto no vídeo (de barba, dialogando com o policial no começo da filmagem) “essa ação não é novidade nenhuma pra gente. Estamos acostumados, a diferença é que desta vez conseguimos registrar. A PM não está aqui para dar segurança”, afirma.

Assista agora à segunda parte do vídeo. Após a agressão, o policial André começa a ordenar a imediata retirada dos objetos de dentro da sede. Ele passa a ser alvo dos protestos dos alunos que o chamam de “racista” e perguntam se “essa é a aula de democracia”, prometida pelo governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, aos estudantes da USP. No final do vídeo, começa o diálogo ríspido entre o aluno Nicolas (agredido) e o policial.


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06 novembro, 2011

De quem é a República?


Um ano depois da proclamção da República em 1890, RJ 
Volta, gigante
                                 
Por Marcelo Rubens Paiva no Estadão
Num Estado autoritário, o grupo que toma o poder considera seus opositores inimigos. A matemática é simples: utiliza todos os meios de repressão para manter a ordem interna. A polícia passa a agir não a favor do cidadão, mas contra.
Durante a ditadura brasileira, a ausência da PM nos campi universitários foi a munição que precisávamos para acabar com ela. Neles, iniciamos os movimentos pela Anistia e Liberdades Democráticas.
As primeiras passeatas e manifestações saíram dos campi. A sociedade civil, inclusive a Igreja, rompeu com o regime depois do movimento estudantil reorganizado.
Num Estado democrático, deveríamos dar boas-vindas à presença da PM na USP, para combater a epidêmica violência urbana e dar segurança aos alunos.
No entanto, herança de tempos atrás, as rondas passaram a dar batidas em estudantes à procura de entorpecentes. E flagrou três deles com maconha. A prisão causou protestos, quebra-quebra e a ocupação de prédios da administração.
Não é de hoje que a polícia passa muito tempo revistando a juventude em busca de uma ponta de maconha, para um achaque. A prática existe desde que sou jovem. Nas ruas e estradas. Nos postos policiais rodoviários, em que dão uma geral em nossos carros, enquanto passam carros e cargas roubadas, armas e contrabando. Quem já não foi parado nos postos de Paraty e Penedo e não levou uma geral?
No Rio, basta ver uma placa de São Paulo que a PM faz uma revista dura. E se acha algo, extorsão na certa. A sociedade brasileira quer que parte da força policial continue "perdendo tempo" com usuários comuns?
Os três estudantes da USP foram levados para a delegacia e liberados horas depois. Alguns defenderam a ação da polícia. Afinal, fumar maconha é crime, e uspianos não deveriam se sentir acima da lei.
Errado. A Lei 11.343/06, que entrou em vigor em 2006, revogou a n.° 6.368/76 e instituiu novas normas reguladoras quanto à posse de tóxicos (artigo 28).
O crime de porte de substância entorpecente para uso próprio não impõe mais pena de detenção ou reclusão. As sanções previstas são de cunho socioeducativo, como prestação de serviços e admoestação verbal.
Se o artigo 28 não prevê pena de detenção ou reclusão, está descriminalizada a conduta do porte de entorpecentes para uso próprio.
O jurista Luiz Flávio Gomes escreveu: "Se legalmente, no Brasil, crime é a infração penal punida com reclusão ou detenção, não há dúvida que a posse de droga para consumo pessoal com a nova lei deixou de ser crime, porque as sanções impostas para essa conduta, advertência, prestação de serviços à comunidade e comparecimento a programas educativos, não conduzem a nenhum tipo de prisão. Aliás, justamente por isso, tampouco essa conduta passou a ser contravenção penal, que se caracteriza pela imposição de prisão simples ou multa."
"Em outras palavras: a nova lei de tóxicos, no art. 28, descriminalizou a conduta da posse de droga para consumo pessoal. Retirou-lhe a etiqueta de infração penal, porque de modo algum permite a pena de prisão. E sem pena de prisão não se pode admitir a existência de infração penal no nosso país", completou. Sua tese está disponível no site www.jusnavegandi.com.br.
Não é melhor avisar a PM? Não prestaria um serviço melhor se estivesse atrás dos verdadeiros criminosos?
+++
Foi a reitoria da USP que pediu que a Linha Amarela do metrô, ainda na prancheta, não passasse pelo campus, alegando questões de segurança.
No projeto original, as estações seriam na Praça do Relógio e no HU (Hospital Universitário). Construíram no Butantã.
Os milhares de alunos, professores, funcionários e visitantes que circulam diariamente pela maior universidade da América Latina são obrigados a caminhar mais de um quilômetro até a portaria da instituição.
No ano passado, moradores de Higienópolis assinaram um manifesto para que o metrô não construísse uma estação no coração do bairro. "Não queremos uma gente diferenciada", disse uma moradora, o que gerou protestos carregados de ironias.
Agora, senhoras de Ipanema abraçaram a tombada Praça Nossa Senhora da Paz e pediram um não à construção de uma estação do metrô. As do Leblon também pedem que a linha siga subterrânea até a Gávea.
Síndicos de prédios de Pinheiros pediram que a Prefeitura não leve para o bairro um albergue de moradores de rua. Na semana passada, um banco da Avenida Paulista cercou com grades as muretas da sua agência, que serviam de ponto de encontro, lazer e paquera nos fins de semana. Imitou a agência da Caixa Econômica, também na Paulista, que colocou gradis de proteção para impedir a circulação de pedestres na praça interna.
Não se encontra em outros países a divisão de circulação entre proprietários e serviçais. Difícil entender por que há elevadores sociais e de serviço em quase todos os condomínios. E mesmo com o aviso afixado, obrigado por lei, de que é proibida a discriminação, empregados, diaristas, faxineiros são compelidos a não usar o social.
Nossa República, proclamada por generais, substituída pela elite do café com leite, recomposta pelo populismo, que a transformou numa ditadura de inspiração fascista, retomada por forças democráticas que viviam em conflito com trabalhistas, que detonou uma ditadura violenta que durou 21 anos, demora para se cristalizar.
A violência urbana, prova da fraqueza das instituições públicas, da falência do Estado, da ausência de justiça social, serve de álibi para que se levantem grades, portarias e sistemas de segurança que "protejam" uma classe da outra.
A tensão social vitima. A corrupção na Justiça e no Executivo atravancam o desenvolvimento e impedem a distribuição da riqueza pública.
A Previdência separa cidadãos em duas castas: os comuns e os servidores públicos. No mês em que se comemora a Proclamação da República, cujo sentido etimológico é "bem comum", deveríamos nos perguntar se ela foi de fato proclamada.
O viral da Red Label que emociona, em que as pedras do Pão de Açúcar se transformam num gigante que se levanta e sai andando, sob slogan "o gigante adormeceu", é simbólico.
Pois ele se levanta e vai embora. Vai dar um rolê no mar, enquanto nos dizem "keep walking, Brasil". Deveria ficar no continente para ajudar a nossa República. Volte, gigante. Não dê as costas para nós.

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