22 outubro, 2011

Dividir é natural na infância

Na semana em que representantes da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) e do Programa Alimentar Mundial (PAM) advertiram  a comunidade internacional sobre a situação da fome no mundo, considerada alarmante e dramática, a Organização Acción contra el hambre iniciou a campanha "compartilha", lembrando que, na infância, o gesto de dividir é natural. 







Veja também o excelente trabalho de James Molisson no post "Onde dormem as crianças" e este, sobre o Reino Unido, em que 2,8 milhões de crianças passam fome



Espanha: Igreja roubou 300.000 crianças em 30 anos


Roda dos Expostos


Não é novidade que pelos hospitais passam adoções ilegais, aquelas não registradas nos cartórios como tal. Tampouco  é novo o fato da igreja católica 'aconselhar' famílias com poucas condições econômicas a dar seus filhos para outras criarem e fazer a intermediação. Durante mais de 300 anos nos conventos brasileiros a "roda dos expostos" - onde famílias ou mães colocavam crianças recém nascidas para que a igreja 'encaminhasse' - eram corriqueiras.

Pode-se discutir a legislação, a falta de pessoal no judiciário para encaminhamento e outra série de meandros que fazem com que o mecanismo da adoção 'direta' seja usado desde sempre, aqui e acolá. De um lado orfanatos lotados e, de outro, filas imensas de famílias que querem adotar crianças e não conseguem, por que não passam na avaliação legal e por outras razões que só o imenso preconceito cultural que carregamos pode explicar. 


O que sim é novidade, é a comprovação de que a Igreja espanhola (afinal lá é 'primeiro mundo'), em "caridade",  durante recentes 30 anos , intermediou o roubo de aproximadamente 300.000 crianças de pessoas de baixa renda e as deu a famílias com 'mais condições', dizendo aos pais legítimos que seus filhos estavam mortos e impedindo a mãe de ver a criança supostamente natimorta. Enterros foram forjados e, anos depois as tumbas abertas revelaram animais, adultos, ou mesmo o nada. 
      
Assunto um tanto pesado para um sábado, mas uma boa reflexão para quem ainda acha que os países lá de cima são melhores ou - argh - 'civilizados'.
              
Além dos links da legenda e roda dos expostos, sugiro também a leitura do "O abandono de crianças ou a negação do óbvio"
______________________________________
Post do DiariodePorteras.blogspot
Dica de @marlasinger1979
______________________________________




Hasta 300.000 bebés españoles fueron arrebatados de sus padres y vendidos para su adopción durante un período de cinco décadas, según ha revelado una nueva investigación. Los niños fueron víctimas de una red secreta de médicos, enfermeras, sacerdotes y monjas en una práctica muy extendida que comenzó durante la dictadura del general Franco, y continuó hasta principios de los noventa.

Cientos de familias que habían tenido a sus hijos en los hospitales españoles ahora están exigiendo una investigación oficial del gobierno sobre el escándalo. Varias madres cuentan que las engañaron fingiendo la muerte sus primeros hijos poco después de dar a luz.

Las mujeres, a menudo jóvenes solteras, a las cuales se les decía que no podían ver el cuerpo de su bebé ni asistir a su entierro. En realidad, los bebés eran vendidos a parejas sin hijos cuyas devotas creencias y posición financiera los hacían ser vistos como los progenitores más apropiados.

Los documentos oficiales eran falsificados para que los padres adoptivos aparecieran en los certificados de nacimiento de los bebés robados. En muchos casos se cree que eran conscientes de que el niño recibido había sido robado, aunque por lo general les dijeran que la madre biológica lo había abandonado.

           
Katya Adler periodista, que ha investigado el escándalo, dice: La situación es muy triste para miles de personas. Hay hombres y mujeres de toda España, cuyas vidas se han puesto patas arriba al descubrir que la gente que pensaba que eran sus padres realmente los compraron. También hay muchas madres que han mantenido durante años que sus bebés no murieron y fueron etiquetadas de "histéricas". Pero ahora se está descubriendo que sus hijos probablemente están vivos y han sido criados por otra persona durante todo este tiempo.
               
Los expertos creen que los casos pueden representar hasta el 15 por ciento del total de las adopciones que tuvieron lugar en España entre 1960 y 1989. Todo comenzó como un sistema para llevar a los niños lejos de las familias consideradas políticamente peligrosas para el régimen del general Franco, en 1939.


El sistema continuó, después de la muerte del dictador en 1975, dado que Iglesia Católica siguió manteniendo una gran influencia en la vida pública y especialmente en los servicios sociales. No fue sino hasta 1987 que el gobierno español, comenzó a regular las adopciones, en lugar de los hospitales.




El escándalo salió a la luz después de que dos hombres, Antonio Barroso y Juan Luis Moreno, descubrieran que habían sido robados cuando eran bebés. El padre adoptivo de Juan Luis confesó en su lecho de muerte que le compró cuando era un bebé a un sacerdote de Zaragoza en el norte de España. Le contó a su hijo que le había acompañado en el viaje otro señor, que compró Antonio en el mismo momento por la cantidad de 200.000 pesetas (una suma enorme en ese momento).
"Ese era el precio de un apartamento en ese entonces", dijo el señor Barroso. "Mis padres lo pagaban en cuotas durante el transcurso de diez años porque no tenía suficiente dinero."
Las pruebas de ADN han demostrado que la pareja que crió el Sr. Barroso no eran sus padres biológicos y la monja que le vendió ha admitido a hacerlo. Cuando la pareja hizo público su caso, solicitó a las madres de todo el país que contaran sus propias experiencias.
En algunos casos, las tumbas de los bebés han sido exhumadas, dejando al descubierto huesos que pertenecen a adultos o animales. Algunas de las tumbas no contenían nada en absoluto. Un documental de la BBC ofrece una entrevista con una mujer de 89 años llamada Inés Pérez, quien admitió que un sacerdote la animó a simular un embarazo para que ella pudiera tener una niña nacida en San Ramón clínica de Madrid en 1969.
"El sacerdote me dio el relleno para simular mi barriga", asegura Inés. 


Se afirma que la clínica San Ramón fue uno de los principales centros en esta práctica. Muchas madres que dieron a luz allí afirman que cuando pidieron ver a sus hijos, después de que les dijeran que había muerto, se les mostró el cadáver de un bebé que parecía estar frío. El programa de la BBC muestra las fotografías tomadas en los años ochenta de un bebé muerto mantenido en un congelador, supuestamente para mostrarlo a las madres.

Muchas de las familias de los bebés robados se han sometido a pruebas de ADN con la esperanza de eventualmente encontrar a sus hijos. Algunas familias ya han logrado reunirse, pero será un proceso muy difícil lograrlo a nivel nacional.

Fuentes: dailymailelmundoelpais 
____________________________________

Occupy pela The New Yorker

Dica e tradução de Sergio Pecci 
______________________________

O que 1%  pensa sobre o #OccupyWallStreet?
A capa da última edição da 'The New Yorker' dá algumas pistas:


Found on NewYorker.com. Originally submitted by Brandon W.


21 outubro, 2011

Occupy visto por Simch








O petróleo e o sangue

Mauro Santayana
No Carta Maior
____________________



Iraque

Ao que parece, a Terra cobra, em sangue, o petróleo que é retirado de suas entranhas. Mas tem cobrado mal: não são os que consomem o óleo alucinadamente os que pagam a dívida para com o planeta, mas sim os que tiveram a maldição de o ter em abundância, como os paises árabes e muçulmanos. Todas as teorias – a defesa dos direitos humanos, da democracia, da civilização ocidental, e, até mesmo, do cristianismo – são ociosas para explicar a sangueira dos tempos modernos. No caso do Oriente Médio, a cobiça pelo petróleo, desde o início do século passado, tem sido a causa de todos os males.

As imagens divulgadas ontem, da prisão, da tortura e da morte do coronel Kadafi são semelhantes às da prisão, da farsa do julgamento, e da execução de Saddam Hussein. Da execução de Osama bin Laden ainda não conhecemos todas as imagens, mas é provável que um dia sejam divulgadas.

A biografia desses três homens é semelhante. Todos eles tiveram, em um tempo ou outro, as melhores relações com os países ocidentais, democráticos e cristãos. Em livro que será publicado nos próximos dias, a Sra. Condoleeza Rice confessou um certo fascínio por Kadafi, que a ela se referia como “minha princesa africana”. Hillary Clinton reagiu com interjeição de alegre surpresa, ao ver as imagens do trucidamento do coronel. Terça-feira, em Trípoli, ela disse claramente que Kadafi devia ser preso ou morto, imediatamente.





Osama bin Laden, como é sabido, foi sócio de Bush pai em negócios de petróleo. No Afeganistão se uniu à CIA e ao Pentágono, no trabalho político junto aos combatentes anti-soviéticos. Essas ligações devem ter influído no ódio de pai e filho ao combatente muçulmano.





O caso de Saddam é ainda mais significativo. O Iraque não podia ser considerado um país obscurantista. Ainda que não fosse democrático – e, segundo os indignados norte-americanos, tampouco há democracia nos Estados Unidos – era um regime tolerante, que dava relativa liberdade às mulheres, autorizadas a freqüentar as universidades e a usar trajes ocidentais, e não exercia perseguição aos não islamitas, tanto assim que o segundo homem do governo, Tariq Aziz, era cristão católico do rito caldeu.

Nessa cruzada disfarçada de conflito de civilizações, as mentiras foram as mais importantes armas dos Estados Unidos. Suspeita-se que todas elas decorram de uma mentira ainda maior: a de que o ataque às Torres Gêmeas de Nova Iorque tenha sido uma operação determinada por bin Laden. Que Saddam Hussein nada tinha a ver com isso, é hoje fora de dúvida.

Para justificar a invasão ao Iraque, os Estados Unidos apresentaram “provas” forjadas, como fotografias de caminhões e de galpões, como sendo de instalações nucleares. Afirmaram ao mundo, por Collin Powell e outros, que Saddam, além de desenvolver seu arsenal atômico, dispunha de outras armas de destruição em massa, como produtos químicos letais. O embaixador brasileiro José Maurício Bustani, então diretor da Organização das Nações Unidas para a Proibição de Armas Químicas, e conhecia a realidade iraquiana, sabia que se tratava de uma mentira, e tentava obter a adesão de Saddam ao tratado internacional contra as armas químicas – o que desmentiria as acusações americanas - foi destituído de seu cargo pelas pressões do governo Bush. Hoje, é o embaixador do Brasil em Paris. 




A terceira peça do tabuleiro, a ser eliminada, foi o governante líbio. Ele fora declarado “limpo” pelos governos ocidentais, e privava da intimidade dos líderes norte-americanos e europeus. Caiu na esparrela de acreditar nisso, e enfrentou, ao mesmo tempo, os que o consideravam um renegado e os sedentos de seu petróleo e, por isso mesmo, sedentos de sangue.

Esses três casos são uma forte advertência aos países árabes que têm sido vassalos fiéis de Washington. Os príncipes da Arábia Saudita que se cuidem. O Paquistão, ao que parece, já está com suas barbas no molho.

E as mentiras continuam. Muhamad Jibril, que é o primeiro ministro interino e terá que vencer facções que lhe são contrárias, mentiu descaradamente, ao afirmar que Kadafi fora morto em “fogo cruzado” dos rebeldes com as tropas leais ao dirigente líbio. As imagens, divulgadas no mundo inteiro, mostram Kadafi ainda vivo, caminhando, levantando o braço, até ser derrubado a socos e pontapés, para ser, finalmente, assassinado.

        

Mauro Santayana é colunista político do Jornal do Brasil, diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte.



Código Florestal: grave afronta à inteligência nacional




Do Portal do MST
Por José Eli da Veiga

A maioria dos 410 deputados que aprovaram o projeto de lei sobre a proteção da vegetação nativa (PLC-30) nem teve chance de perceber o tamanho dos disparates nele introduzidos. Certamente devido à balbúrdia em que transcorreu o processo de votação, favorecendo os míopes interesses de um subsetor econômico muito específico: o da pecuária de corte de expansão horizontal, concentrada na franja impropriamente chamada de "fronteira agrícola".


Com certeza o Senado honrará sua missão revisora, colocando em primeiro lugar os interesses estratégicos da nação, ao contrário do que ocorreu com a Câmara na lastimável noite de 24 de maio. Muitas das distorções do PLC-30 foram bem enfatizadas em recentes audiências públicas de juristas e pesquisadores científicos, inspirando as 174 emendas apresentadas à CCJ e à CCT por 16 senadores, quase todas com o intuito de evitar inúmeros perigos de tão insensata marcha reversa. Provavelmente outras ainda serão propostas em mais duas comissões que vão anteceder o plenário: a de agricultura e a de meio ambiente.


Lista circunstanciada dos absurdos do PLC-30 está nas 28 páginas de "Propostas e considerações" das duas maiores sociedades científicas brasileiras (SBPC e ABC), divulgadas há uma semana. Confirma que são quatro as principais aberrações que demandam minucioso exame do Senado:


a) drástica redução das áreas de preservação permanente (APP);
b) inviabilização da imprescindível flexibilidade das reservas legais (RL);
c) contrabando de milhões de imóveis rurais sob o manto de pretensa solidariedade aos "pequenos produtores";
d) inepta escolha de julho de 2008 como data para o perdão de infrações.


A balbúrdia da votação não permitiu que a maioria dos deputados se desse conta dos disparates da PLC-30


Pela legislação em vigor, o conjunto das áreas de preservação permanente (APP) deveria corresponder a 15% do território nacional, totalizando 135 milhões de hectares (Mha). Todavia, existe um déficit de 55 Mha - quase todo invadido por indecentes pastagens - que será mais do que "consolidado" pelas brutais reduções das exigências de conservação de matas ciliares, ripárias, de encostas, de topos de morro e de nascentes. Algo inteiramente desnecessário, pois a bovinocultura poderá ser incomparavelmente mais eficiente e produtiva com muito menos do que os exageradíssimos 211 Mha que atualmente ocupa (78% da área da agropecuária). Bastará um pouco de profissionalismo e bem menos especulação fundiária.


O surgimento de mercados estaduais de compensações de reservas legais (RL) seria um grande passo à frente, principalmente para os produtores cujas fazendas não dispõem de terras de baixa aptidão. É completamente irracional destinar solos de boa qualidade à recuperação de vegetação nativa, ou mesmo reflorestamento com exóticas. Nada melhor, portanto, do que remunerar detentores de terras marginais para que eles constituam condomínios de reservas. Com a imensa vantagem de que elas não estariam dispersas em pequenos fragmentos isolados, alternativa infinitamente superior para a conservação da biodiversidade. É trágico, portanto, que o PLC-30 tenha feito uma opção preferencial por forte redução dessas áreas, em vez de viabilizar o surgimento desses mercados estaduais de compensações.


Tão ou mais escandalosa é a tentativa de desobrigar todos os imóveis rurais com áreas inferiores a quatro módulos fiscais sob o pretexto de ajudar "pequenos produtores". A maior parte dos imóveis desse tamanho são chácaras e sítios de recreio de famílias urbanas de camadas sociais privilegiadas. Nesse ponto, os deputados inadvertidamente legislaram em benefício próprio, já que muitos deles, assim como seus parentes e amigos, têm propriedades desse tipo.


Se o objetivo fosse realmente favorecer produtores rurais de pequeno porte, bastaria que o PLC-30 não fizesse letra morta da lei 11.326, promulgada pelo presidente Lula em julho de 2006, após um decênio de experiência acumulada pelo tardio Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), criado em julho de 1996 por decreto do presidente FHC.


Para delimitar essa categoria sem contrabandear casas de campo de urbanos do andar de cima, ou de quaisquer proprietários com vários imóveis, a lei considera agricultores e empreendedores familiares apenas os que praticam atividades no meio rural atendendo simultaneamente a quatro requisitos:



a) não detenham a qualquer título área maior do que quatro módulos fiscais;
b) utilizem predominantemente mão de obra da própria família nas atividades econômicas do seu estabelecimento ou empreendimento;
c) tenham renda familiar predominantemente originada de atividades econômicas vinculadas ao próprio estabelecimento ou empreendimento; d) dirijam seu estabelecimento ou empreendimento com sua família.



Finalmente, mas não menos relevante, é lembrar que a Constituição não reconhece direito adquirido em matéria ambiental, desautorizando qualquer data para perdões por desmatamentos ilegais que seja posterior ao primeiro ato regulamentador da Lei de Crimes Ambientais de 21 de setembro de 1999.

MST e #OccupyWallStreet por um novo mundo

Por Janaina Stronzake
De Nova York/Estados Unidos

____________________________


Em setembro de 2011, alguns jovens tiveram a idéia de acampar em Wall Street, uma rua de Nova York, famosa por abrigar as maiores corporações financeiras do mundo, para exigir que os financistas devolvam o que haviam roubado.

Eles não receberam muita atenção. E uns dias depois, a polícia tentou despejá-los. Foi quando os holofotes se voltaram ao grupo e então já era uma multidão de caras e vozes ocupando a praça.

Com a convocatória mundial para ocupações no dia 15 de outubro, vem um novo fôlego, com sindicatos e grupos organizados se juntando à ocupação. Talvez o “Occuppy Wall Street” não seja a maior ocupação do mundo, não tenha mais pessoas, talvez não seja a mais organizada. Mas é a que está no coração financeiro do capitalismo. 



Arquivo do MST

Na praça está proibido o uso de microfones. Quando alguém fala à assembleia, as palavras vão sendo repetidas pela multidão.

Quando o MST levou sua solidariedade ao povo mobilizado em Wall Street, centenas de vozes repetiram, com os punhos levantados: “ocupar, resistir e produzir”.

De certa forma, é esse o compromisso do MST e de todos os que ocupam Nova York: ocupar o mundo, resistir coletivamente e produzir outra cultura e um outro mundo.

Ali na praça, a voz é aberta. De um lado, um grupo de asiáticos e asiáticas batem tambores e parecem rezar. Do outro, tambores africanos ressoam durante todo o dia. À esquerda, dois homens distribuem panfletos enquanto entoam sem parar “ajuda para as pequenas empresas”. Mímicos, jornalistas, hippies, estudantes, desempregadas... Alguns descansam, outros fazem reuniões. E a cozinha coletiva no meio de tudo.

Há quem está ali porque deseja mais empregos. Há quem queira parar a onda neoliberal. Todas e todos querem o fim do capitalismo, por meio da quebra do mercado financeiro. Ouvimos um homem de mais ou menos 40 anos dizer “estou aqui porque não posso olhar meus filhos e dizer que não lutei”.

Ainda não se sabe exatamente o rumo que as ocupações, que se multiplicam por outras cidades nos Estados Unidos e no mundo, vão tomar. Uma assembleia soberana decidirá em algum momento esse rumo. Por enquanto, expressões diversas vão galvanizando desejos de um outro mundo.


19 outubro, 2011

Patrulhas


Ontem de manhã, quando recém abri o tuíter vi um RT da folha. O título dizia que o PT treina “patrulha virtual para atuar em redes sociais”. Só isso já me fez gargalhar, pois afinal boa parte dos simpatizantes da esquerda fazemos isso, virtual ou presencialmente há séculos... Pois, abro a matéria e vejo que quem havia falado à folha tinha sido o Fito (Adolfo Fernandez, o mesmo que, pra quem nao sabe, foi o responsável pela descoberta da gráfica que imprimia os panfletos apócrifos da diocese de Guarulhos, durante a campanha contra o coiso e pela denúncia e vigília que se sucederam). Nem me dei ao trabalho de ler o resto... E dei RT do RT...





Algum tempo depois entro de novo na TL e vejo vários tuítes de militantes comentando a entrevista, matéria...


Outros, bem humorados, já elaborando procedimentos como treinamento de alvos de bolinhas de papel etc.






O que me causou bastante surpresa foi a reação de parte dos conhecidos nicks e avatares que criticavam o fato do PT estar criando núcleos de militância virtual... E essas críticas vindas de pessoas que sempre criticaram o fato dos partidos terem pouca comunicação com a militância... Pensei num alou, coerência, mas as atividades do dia não me deixavam tempo para discussões. Que foram respondidas por representantes mais que legítimos do PT.







Mais tarde, novos questionamentos... Então tá. Concordo que o representante do núcleo poderia ter se precavido e gravado a entrevista para provar que suas palavras foram distorcidas. Contou, acho, com a inteligência das pessoas que a estas alturas já deveriam saber que em alguns dos jornalões até os pontos são falsos...

Mas não concordo com a crítica feita a ele por ter falado com a Folha, ou qualquer outro jornalão, informado assim dos núcleos que estão sendo criados e quais seus objetivos (alguns já em funcionamentos desde o início do ano, outros sendo organizados agora). A prova de que não foi um equívoco está no fato de que muitos dos que aqui atuam, de ambos lados, ativamente, só souberam da existência disso graças à visibilidade que o título enviesado da Folha deu à matéria.





E aqui cabe colocar o estranhamento ao fato de que, alguns dos que criticavam, são os mesmos que pregam diuturnamente na TL e em outros meios, democratização da política, diálogo, informação, horizontalidade. E que com a mesma intensidade criticam a imprensalona, pig, velha mídia, como queiram. Oras, então porque dar mais credito à distorção do que ao fato? Estamos tão carregados ainda dos preceitos ditatoriais que só 'autoridades' tidas e reconhecidas podem ter voz e com ela o direito de ter suas vidas e palavras distorcidas pela grande mídia?


Outro alou, coerência!!!!! 

Núcleos são agrupações de pessoas com afinidades temática, geográfica, profissional. Participei de alguns, como pitaqueira. Mas se você quiser criar um núcleo dos torcedores do clube aliança para fazer militância, pode,  desde que o partido abra essa possibilidade. Adere quem quer, participa quem quer.

O congresso do PT em setembro decidiu pela criação de setoriais que teriam participação ativa nas redes sociais. Ou seja, a experiência dos Mavs, (núcleo de Militância em Ambientes Virtuais) criados no início do ano, será ampliada, e o partido, instituição vai promover, dizer que existe MAIS essa possibilidade para a militância. E sim, buscar pessoas para passar a experiência, mostrar alternativas e formas de militância não presencial.

Alguma novidade? Sim! Finalmente o partido está reconhecendo a importância das redes sociais – já comprovada na campanha presidencial do ano passado – e criando mecanismos de atuação mais eficiente.

Sabendo de tudo isso, continuo perguntando: qual o problema?
O que queremos afinal? Seguir patrulhando e patrulhando e ficar horas na TL criticando a nós mesmos e às sabidas e mastigadas escorregadas que a imprensa dá? Ou queremos usar estes meios para a difusão de fatos que de outra forma não seriam sabidos?  Porque rechaçar de maneira tão rápida e veemente esse novo canal do partido?

Agradecimento ao Sergio Pecci pela ajuda na edição e nos prints

18 outubro, 2011

“Mudamos a bússola para a periferia”


Do Blog Coletivo Outras Palavras





Ao abrir a 4ª Mostra de Arte da Cooperifa, em São Paulo, Sérgio Vaz afirma: “Classe média teve seu momento mágico nos anos 60. Agora, é o nosso”. Apresentações vão até 23 de outubro

Uma série de shows artísticos e uma fala emocionada de Sérgio Vaz, um dos grandes articuladores do que se chama hoje “cultura das periferias”, abriram na última sexta-feira (14/10) a 4° Mostra de Cultural da Cooperifa. A atividade estende-se até 23 de outubro, domingo. Desdobra-se em uma vasta sequência de apresentações literárias, musicais, teatrais, de dança, cinema e outras expressões artísticas. Articula debates e festas (veja programação completa). Tem como palcos escolas da Zona Sul de São Paulo, CEU’s e a Casa de Cultura de M’Boi Mirim. Celebra os dez anos de ação ininterrupta da Cooperifa. “As pessoas já estão nesses ambientes, só levamos o artista até eles” destaca Sérgio Vaz, curador da mostra e um dos idealizadores da Cooaperifa.

O CEU Casa Blanca foi escolhido para a abertura da Mostra e nele também acontecerão diversos debates e atrações culturais. Quem adentrava o anfiteatro era recepcionado por um lanterninha, vestido a caráter. Ele é uma das atrações do projeto Cinema na Laje, que acontece quinzenalmente na laje do bar do Zé Batidão, sede da Cooperifa. Quinze minutos antes de iniciar a festa, as Mcs Rose e Vivi ensaiavam as palavras que seriam dirigidas ao público. Percebia-se o nervosismo delas, diante dos 10 anos da Cooperifa. Enquanto isso a equipe e Sérgio Vaz faziam ajustes finais.

A proposta da noite era apresentar um panorama dos 10 anos de atividades culturais da Cooperifa. A primeira destacada foi o Ajoelhaço, um evento que acontece há quatro anos. Na sessão do Sarau da Cooperifa que coincide com a quarta-feira de cinzas, todos os homens presentes ajoelham-se e pedem perdão às mulheres. Em seguida, falou-se sobre os projetos Cinema na Laje, Chuva de Livros e Poesia no ar.

Às 19h50, as portas se abriram e atrás das cortinas ouviam-se gritos empolgados: “HU COOPERIFA, HU COOPERIFA”. Já com o teatro cheio, foi feita uma roda por toda equipe e começaram assovios e gritos emocionantes. O momento chegara: “HU COOPERIFA, HU COOPERIFA, HU COOPERIFA, HU COOPERIFA”.

As Mcs narraram a história do projeto e, em seguida, contaram como será a mostra. Em seguida subiu ao palco Dona Edith. Figura poética maternal da Cooperifa, ela recitou um poema energeticamente vibrante. Enquanto falava suas mãos balançavam de cima para baixo, como se tivesse acalentando um filho.

Diferente do que alguns esperavam, quando Sérgio Vaz subiu ao palco não declamou poesia. Chamou a equipe, abraçaram-se e ele começou a discorrer retrospectivamente sobre os 10 anos. O discurso foi tocante. Vaz falou sobre as dificuldades: “as pessoas sabem como é difícil completar 10 anos da vida, dez anos de poesia é um marco”; sobre o protagonismo periférico “mudamos a bússola para periferia, nada contra o centro, pois na Cooperifa todos são bem vindos, mas hoje a periferia é o centro.” Abordou com ênfase a “arrogância” da periferia: “somos arrogantes, sim, pois quando éramos humildes tiraram de nós a universidade, o trabalho digno, a boa educação e a cultura. Agora queremos tudo. A classe média teve um momento mágico na década de 60. Usufruíram de arte, cultura e educação. Agora o momento é da periferia”. Para finalizar, com palavras engasgadas perante muitas emoções, ele ressaltou: “a Cooperifa não é um lugar: é um sentimento”.

Apresentações culturais

A primeira apresentação artística da noite ficou por conta do grupo Ballet Afro Kuteban. Tambores soavam em ritmo poético. A escuridão do teatro transportava todos para uma noite tribal. O ritmo frenético do som fazia a plateia fixar os olhos, corpo, pensamento e a alma nas mãos dos tocadores e nos pés coreografados das bailarinas. Não era necessário fazer o exercício de fechar os olhos para se sentir diante de uma tribo, numa noite na África. Todos estavam perante uma. O desempenho do grupo foi recebido por olhos concentrados e ouvidos freneticamente atentos. Não tinha como ser diferente: gritos, assovios e a plateia aplaudiu de pé.

Na performance do grupo UMOJA, que também trabalha com música afro, a plateia foi chamada para o palco e participou intensamente, no ritmo do maracatu. Era só uma prévia do que eles vão fazer nos shows no decorrer da mostra.

O grupo Rap Versão Popular fechou as apresentações. Cantou enquanto o público se dispersava, contaminado pela poesia.

Confira a programação da 4ª MOSTRA CULTURAL DA COOPERIFA , de 14 a 23 de outubro




17 outubro, 2011

Você ouviu: Não pare #OccupyWallStreet

Do Front.Moveon.org
Versão de Sergio Pecci
_________________________


Peter King, congressista republicano de Nova York  se referiu ao movimento #occupywallstreet desta forma: 
"Nós temos que tomar cuidado para que o movimento não ganhe legitimidade. Estou levando isso a sério, porque sou velho o suficiente para lembrar o que aconteceu nos anos 60, quando a esquerda tomou as ruas e a mídia pôs isso em evidência, o que acabou por influenciar as políticas sociais. Nós não podemos permitir que isso aconteça outra vez". 


 Você ouviu: Não pare!!!   





Leia também no Huffingtonpost

Inclusão de deficientes visuais pelo I-pad

Dica do @joaonildo51
Original do Dexblog
_____________________


O vídeo, da Universidade de Stanford, exibe um protótipo de um aplicativo para tablet que promete auxiliar as pessoas com deficiência na visão, onde um teclado com 8 botões permite que qualquer pessoa digite uma letra em braile. O app ainda faz o reconhecimento de caracteres para transformar páginas em braile em texto legível. Confiram:







16 outubro, 2011

Terrorismo é coisa de gente inculta


Guerra do Vietnã 

O presidente Mahmud Ahmadinejad, ao falar no parlamento sobre as acusações feitas ao Irã, de apoiar uma rede terrorista nos Estados Unidos, disse que “o terrorismo é coisa de gente inculta”.
         
“A culta nação iraniana não necessita embarcar em planos de assassinato. Os assassinatos são coisas de vocês”, acrescentou Ahmadinejad, assegurando que os Estados Unidos querem “criar uma nova crise a cada dia com o Irã, acusando o país de terrorismo”. As declarações foram difundidas pela agencia oficial IRNA. Para Ahmadinejad “as acusações norte-americanas tem como objetivo frear o desenvolvimento do Irã".
    
A acusação de que o Irã estaria por trás de um suposto complô que estaria preparando atentados contra as embaixadas da Arábia Saudita e Israel em Washington, e que tinham também o objetivo de assassinar o embaixador saudita, Adel Al Jubeir foi feita terça-feira passada pelos Estados Unidos.

            
O Ministério das Relações Exteriores do Irã, em comunicado, assinala que as acusações dos Estados Unidos “não tem fundamento jurídico” e objetivam “exacerbar a tensão na região” do Oriente Médio e “debilitar a segurança internacional”.
   
“Anunciar unilateralmente acusações contra um residente (iraniano) nos Estados Unidos, sem apresentar documentos, e criar uma campanha midiática contra o Irã não tem nenhum fundamento jurídico”, acrescenta a nota.


Fonte: LaRepública.pe
Dica @Rodofob

15 outubro, 2011

Farsa prestes a virar guerra

Texto de Vicente Queiroz Silva Telles
Dica da fonte: @midiacrucis 
Tradução do Aporrea de Denise Queiroz
____________________________________

Farsa 
A história a seguir, é uma que os nossos descendentes provavelmente vão ler num livro de histórias e rir. Trata-se de uma farsa. 

Autoridades dos EUA como Hilary Clinton e John Kerry alegam que o governo iraniano está apoiando uma tentativa de assassinato do embaixador da Arábia Saudita nos EUA. A administração Obama insiste que Arbabsiar tentou contratar assassinos de uma gang mexicana para assassinar o Embaixador Adel al-Jubeur durante uma visita aos EUA.

O chefe da gang, no entanto, era um agente da DEA (Drug Enforcement Administration - Ministério de Aplicação de Leis das Drogas) fingindo ser um gangster de Los Zetas. A história tem todas as tintas de um caso clássico de armadilha do FBI, que têm caracterizado quase todos os maiores surtos de terror em tempos recentes. 


Manssor Arbabisar
Acontece que o grande gênio do crime, um cidadão americano de 56 anos nascido no Irã, é descrito como "uma piada" por quem o conhece. Aparentemente, Manssor Arbabsiar é "um tolo, um alcoólatra e vivia andando com prostitutas". A mulher se separou dele, pois ele vivia perdendo pequenos objetos como chaves e celulares. Ele também, em vários momentos de sua vida tentou abrir um restaurante, uma loja de conveniências e vender carros usados. Falhou em tudo. 

Contatos de dentro do FBI foram procurar provas de que o tal plano de assassinato existia, e encontraram nada. Ou seja, ou é tudo fruto de hipóteses e imaginação humana, ou talvez o governo americano queira começar uma guerra com o Irã baseado em mentiras. Não sei por que, mas isso me lembrou o Iraque.

A revista TIME publicou uma matéria falando exatamente sobre isso, que o objetivo dos EUA não é somente isolar o Irã, mas que o isolamento é somente um pretexto de guerra. Se uma guerra começar entre EUA e Irã, os grandes Estados Unidos da América vão provavelmente cair. Pense bem: #occupywallstreet, crise financeira, população insatisfeita e uma farsa já descoberta. 

Apesar disso, todos, de Hillary Clinton a John Kerry, têm pulado para alegações sugerindo que há uma conspiração maior e que sansões deveriam ser impostas ao Irã, e que até ações mais drásticas não deveriam ser postas de lado.

Tem como um país sobreviver a tudo isso e, ao mesmo tempo, sustentar uma guerra que provavelmente custará bilhões e bilhões de dólares no Oriente Médio? O Tea-Party acha que sim. Nós teremos que pagar para ver... 

                                            
Se seu inglês está bom, assista esta entrevista e ouça com seus próprios ouvidos o ridículo que os Estados Unidos estão prestes a passar.



A posição brasileira

Antonio Patriota
Segundo o Aporrea, a posição brasileira é de cautela. Em notícia divulgada ontem (não vi quais e se os portais da imprensalona daqui deram), o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Antonio Patriota, pôs em dúvida a denúncia do suposto complô terrorista, assegurando que se observam o que denominou de ‘lacunas’ na acusação.

O ministro contou que conversou com o embaixador Adel AL Jubeir, e este disse que tem “muitas perguntas sem resposta e lacunas, e que “há elementos preocupantes”.

Assim como há evidência de que estavam planejando um atentado, não está clara qual é a lógica (dos responsáveis pelo complô) nem que tipo de conhecimento as autoridades tinham, comentou Patriota em relação ao que conversou com o diplomata iraniano.

O ministro indicou que suas dúvidas também se baseiam no informe sobre o complô que recebeu do embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Thomas Shannon.

Os diplomatas norte-americanos já “fizeram uma apresentação sobre a situação diante do Conselho de segurança e eles mesmos reconhecem que ainda existem ‘vácuos’ na informação”, comentou Patriota.



Veja no Midia Crucis Blog vídeo onde o ex-Ray McGovern, ex-analista top da CIA e atualmente ativista político, revela que suas fontes lhe confirmaram que já foi dada “Luz Verde” para Israel atacar o Irã.

A transição dependerá das escolhas de agora


Dica do @Cidoli
_________________



O tempo em que podemos mudar o mundo

Immanuel Wallerstein, provocador: capitalismo está condenado: resta saber quê irá substituí-lo. Transição não será apocalíptica: dependerá das escolhas que fizermos agora

Entrevista a Sophie Shevardnadze | Tradução: Daniela Frabasile

A entrevista durou pouco mais de onze minutos, mas alimentará horas de debates em todo o mundo e certamente ajudará a enxergar melhor o período tormentoso que vivemos. Aos 81 anos, o sociólogo estadunidense Immanuel Wallerstein, acredita que o capitalismo chegou ao fim da linha: já não pode mais sobreviver como sistema. Mas – e aqui começam as provocações – o que surgirá em seu lugar pode ser melhor (mais igualitário e democrático) ou pior (mais polarizado e explorador) do que temos hoje em dia.

Estamos, pensa este professor da Universidade de Yale e personagem assíduo dos Fóruns Sociais Mundiais, em meio a uma bifurcação, um momento histórico único nos últimos 500 anos. Ao contrário do que pensava Karl Marx, o sistema não sucumbirá num ato heróico. Desabará sobre suas próprias contradições. Mas atenção: diferente de certos críticos do filósofo alemão, Wallerstein não está sugerindo que as ações humanas são irrelevantes.

Ao contrário: para ele, vivemos o momento preciso em que as ações coletivas, e mesmo individuais, podem causar impactos decisivos sobre o destino comum da humanidade e do planeta. Ou seja, nossas escolhas realmente importam. “Quando o sistema está estável, é relativamente determinista. Mas, quando passa por crise estrutural, o livre-arbítrio torna-se importante.”


Maio de 68
É no emblemático 1968, referência e inspiração de tantas iniciativas contemporâneas, que Wallerstein situa o início da bifurcação. Lá teria se quebrado “a ilusão liberal que governava o sistema-mundo”. Abertura de um período em que o sistema hegemônico começa a declinar e o futuro abre-se a rumos muito distintos, as revoltas daquele ano seriam, na opinião do sociólogo, o fato mais potente do século passado – superiores, por exemplo, à revolução soviética de 1917 ou a 1945, quando os EUA emergiram com grande poder mundial. 

As declarações foram colhidas no dia 4 de outubro pela jornalista Sophie Shevardnadze, que conduz o programa Interview na emissora de televisão russa RT.  
A transcrição e a tradução para o português são iniciativas de Outras Palavras 






Há exatamente dois anos, você disse ao RT que o colapso real da economia ainda demoraria alguns anos. Esse colapso está acontecendo agora? 

Não, ainda vai demorar um ano ou dois, mas está claro que essa quebra está chegando.

Quem está em maiores apuros: Os Estados Unidos, a União Europeia ou o mundo todo?

Na verdade, o mundo todo vive problemas. Os Estados Unidos e União Europeia, claramente. Mas também acredito que os chamados países emergentes, ou em desenvolvimento – Brasil, Índia, China – também enfrentarão dificuldades. Não vejo ninguém em situação tranquila.

Você está dizendo que o sistema financeiro está claramente quebrado. O que há de errado com o capitalismo contemporâneo?

Essa é uma história muito longa. Na minha visão, o capitalismo chegou ao fim da linha e já não pode sobreviver como sistema. A crise estrutural que atravessamos começou há bastante tempo. Segundo meu ponto de vista, por volta dos anos 1970 – e ainda vai durar mais uns vinte, trinta ou quarenta anos. Não é uma crise de um ano, ou de curta duração: é o grande desabamento de um sistema. Estamos num momento de transição. Na verdade, na luta política que acontece no mundo — que a maioria das pessoas se recusa a reconhecer — não está em questão se o capitalismo sobreviverá ou não, mas o que irá sucedê-lo. E é claro: podem existir dois pontos de vista extremamente diferentes sobre o que deve tomar o lugar do capitalismo.

Qual a sua visão?

Eu gostaria de um sistema relativamente mais democrático, mais relativamente igualitário e moral. Essa é uma visão, nós nunca tivemos isso na história do mundo – mas é possível. A outra visão é de um sistema desigual, polarizado e explorador. O capitalismo já é assim, mas pode advir um sistema muito pior que ele. É como vejo a luta política que vivemos. Tecnicamente, significa é uma bifurcação de um sistema.


Desconstrução

Então, a bifurcação do sistema capitalista está diretamente ligada aos caos econômico?



Sim, as raízes da crise são, de muitas maneiras, a incapacidade de reproduzir o princípio básico do capitalismo, que é a acumulação sistemática de capital. Esse é o ponto central do capitalismo como um sistema, e funcionou perfeitamente bem por 500 anos. Foi um sistema muito bem sucedido no que se propõe a fazer. Mas se desfez, como acontece com todos os sistemas.

Esses tremores econômicos, políticos e sociais são perigosos? Quais são os prós e contras?

Se você pergunta se os tremores são perigosos para você e para mim, então a resposta é sim, eles são extremamente perigosos para nós. Na verdade, num dos livros que escrevi, chamei-os de “inferno na terra”. É um período no qual quase tudo é relativamente imprevisível a curto prazo – e as pessoas não podem conviver com o imprevisível a curto prazo. Podemos nos ajustar ao imprevisível no longo prazo, mas não com a incerteza sobre o que vai acontecer no dia seguinte ou no ano seguinte. Você não sabe o que fazer, e é basicamente o que estamos vendo no mundo da economia hoje. É uma paralisia, pois ninguém está investindo, já que ninguém sabe se daqui a um ano ou dois vai ter esse dinheiro de volta. Quem não tem certeza de que em três anos vai receber seu dinheiro, não investe – mas não investir torna a situação ainda pior. As pessoas não sentem que têm muitas opções, e estão certas, as opções são escassas.

Então, estamos nesse processo de abalos, e não existem prós ou contras, não temos opção, a não ser estar nesse processo. Você vê uma saída?

Sim! O que acontece numa bifurcação é que, em algum momento, pendemos para um dos lados, e voltamos a uma situação relativamente estável. Quando a crise acabar, estaremos em um novo sistema, que não sabemos qual será. É uma situação muito otimista no sentido de que, na situação em que nos encontramos, o que eu e você fizermos realmente importa. Isso não acontece quando vivemos num sistema que funciona perfeitamente bem. Nesse caso, investimos uma quantidade imensa de energia e, no fim, tudo volta a ser o que era antes. Um pequeno exemplo. Estamos na Rússia. Aqui aconteceu uma coisa chamada Revolução Russa, em 1917. Foi um enorme esforço social, um número incrível de pessoas colocou muita energia nisso. Fizeram coisas incríveis, mas no final, onde está a Rússia, em relação ao lugar que ocupava em 1917? Em muitos aspectos, está de volta ao mesmo lugar, ou mudou muito pouco. A mesma coisa poderia ser dita sobre a Revolução Francesa. 

O que isso diz sobre a importância das escolhas pessoais?

A situação muda quando você está em uma crise estrutural. Se, normalmente, muito esforço se traduz em pouca mudança, nessas situações raras um pequeno esforço traz um conjunto enorme de mudanças – porque o sistema, agora, está muito instável e volátil. Qualquer esforço leva a uma ou outra direção. Às vezes, digo que essa é a “historização” da velha distinção filosófica entre determinismo e livre-arbítrio. Quando o sistema está relativamente estável, é relativamente determinista, com pouco espaço para o livre-arbítrio. Mas, quando está instável, passando por uma crise estrutural, o livre-arbítrio torna-se importante. As ações de cada um realmente importam, de uma maneira que não se viu nos últimos 500 anos. Esse é meu argumento básico.



Karl Marx
Você sempre apontou Karl Marx como uma de suas maiores influências. Você acredita que ele ainda seja tão relevante no século 21?

Bem, Karl Marx foi um grande pensador no século 19. Ele teve todas as virtudes, com suas ideias e percepções, e todas as limitações, por ser um homem do século 19. Uma de suas grandes limitações é que ele era um economista clássico demais, e era determinista demais. Ele viu que os sistemas tinham um fim, mas achou que esse fim se dava como resultado de um processo de revolução. Eu estou sugerindo que o fim é reflexo de contradições internas. Todos somos prisioneiros de nosso tempo, disso não há dúvidas. Marx foi um prisioneiro do fato de ter sido um pensador do século 19; eu sou prisioneiro do fato de ser um pensador do século 20.

Do século 21, agora.


É, mas eu nasci em 1930, eu vivi 70 anos no século 20, eu sinto que sou um produto do século 20. Isso provavelmente se revela como limitação no meu próprio pensamento.

Quanto – e de que maneiras – esses dois séculos se diferem? Eles são realmente tão diferentes?

Eu acredito que sim. Acredito que o ponto de virada deu-se por volta de 1970. Primeiro, pela revolução mundial de 1968, que não foi um evento sem importância. Na verdade, eu o considero o evento mais significantes do século 20. Mais importante que a Revolução Russa e mais importante que os Estados Unidos terem se tornado o poder hegemônico, em 1945. Porque 1968 quebrou a ilusão liberal que governava o sistema mundial e anunciou a bifurcação que viria. Vivemos, desde então, na esteira de 1968, em todo o mundo.

Você disse que vivemos a retomada de 68 desde que a revolução aconteceu. As pessoas às vezes dizem que o mundo ficou mais valente nas últimas duas décadas. O mundo ficou mais violento?

Eu acho que as pessoas sentem um desconforto, embora ele talvez não corresponda à realidade. Não há dúvidas de que as pessoas estavam relativamente tranquilas quanto à violência em 1950 ou 1960. Hoje, elas têm medo e, em muitos sentidos, têm o direito de sentir medo.

Você acredita que, com todo o progresso tecnológico, e com o fato de gostarmos de pensar que somos mais civilizados, não haverá mais guerras? O que isso diz sobre a natureza humana?

Significa que as pessoas estão prontas para serem violentas em muitas circunstâncias. Somos mais civilizados? Eu não sei. Esse é um conceito dúbio, primeiro porque o civilizado causa mais problemas que o não civilizado; os civilizados tentam destruir os bárbaros, não são os bárbaros que tentam destruir os civilizados. Os civilizados definem os bárbaros: os outros são bárbaros; nós, os civilizados.

É isso que vemos hoje? O Ocidente tentando ensinar os bárbaros de todo o mundo? 

É o que vemos há 500 anos.


Web Analytics