05 novembro, 2011

O avanço da rivalidade religiosa

Da Istoé
Dica @iavelar
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Seguidores da umbanda e do candomblé são vítimas de preconceito, sobretudo dos evangélicos, e a Justiça e a polícia não estão preparadas para lidar com o crime
Juliana Dal Piva e Michel Alecrim
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LISTA
Terreiro em São Gonçalo (RJ): um dos 847 mapeados somente na região metropolitana da capital
Uma característica atribuída ao povo brasileiro é a tolerância religiosa. O caldeirão de culturas que formou o País teria propiciado a convivência harmônica entre os diferentes credos, ao contrário de outras nações onde violentas disputas derramam sangue inocente. Na prática, porém, a realidade é outra. Seguidores das religiões afro-brasileiras sempre conviveram com a desconfiança alheia. Nos últimos tempos, há indícios de que a situação se agravou. Somente no Rio de Janeiro, são contabilizados, por ano, quase 100 casos de agressões morais ou físicas envolvendo intolerância religiosa em relação aos praticantes de umbanda e candomblé. “Em sua maioria esmagadora, os ofensores são membros das igrejas neopentecostais”, afirmou à ISTOÉ Henrique Pêssoa, delegado da 4a DP, no centro da cidade, que há três anos recebeu uma designação especial e pioneira no Brasil para cuidar de casos que envolvem crimes de viés religioso.

“Cada neopentecostal tem a missão de ganhar adeptos, é uma obrigação religiosa, daí o proselitismo. A missão é clara: divulgar e converter”, explica a antropóloga da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro Sonia Giacomini, que pesquisa o tema há 20 anos. Ela diz que o intuito de arrebanhar mais e mais fiéis é bastante organizado. “Existe uma certa logística. Por exemplo, uma igreja é instalada onde havia um cinema pornô, pois ali seria uma área especial para fazer uma conversão, cheia de pessoas vulneráveis”, apontou.
             
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PRECONCEITO
Chamada de “macumbeira safada”, Elisângela Queiroz
não conseguiu registrar a ocorrência numa delegacia
O problema é que a busca por fiéis transforma-se, às vezes, em perseguição. Na Ilha do Governador, na zona norte, há denúncias na 4ª DP de representantes de religiões afrobrasileiras contando que terreiros (os locais onde são realizadas as cerimônias de umbanda e candomblé) estavam sendo destruídos e seus líderes escorraçados da Ilha por traficantes evangélicos neopentecostais. “Ali, criamos a Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR) porque era extremamente necessário”, diz Ivanir dos Santos, membro da comissão. Este e outros 39 casos em todo o País foram denunciados em um relatório produzido pelo grupo que reúne 12 religiões e entregue ao presidente do Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas, Martin I. Uhomoibai.
Entre as denúncias, está a da Associação da Resistência Cultural Afro-Brasileira Jacutá de Iansã, que não conseguiu abrir conta-corrente na agência Abílio Machado da Caixa Econômica Federal, em Belo Horizonte (MG). Os diretores contam que esperaram quatro meses para receber a seguinte resposta: o banco é livre para abrir conta de quem quiser, e não queria a associação como correntista. Em São Paulo, a Associação Beneficente de Oyá e Ogun acusa a prefeitura de discriminação por ter lacrado sua sede no bairro de Santa Mariana, sob a alegação de desrespeitar o zoneamento. Segundo eles, o desrespeito se deve unicamente ao fato de eles estarem no local. Até na considerada sincrética Salvador (BA), a prefeitura foi denunciada por ter destruído parcialmente o terreiro Oyá Onipo Neto no bairro de Imbuí. No processo, diz que o terreiro era vizinho à propriedade de um funcionário da prefeitura que não gostava da proximidade com o templo. Os três casos ocorreram em 2008 e ainda estão sendo investigados.

No Rio, um dos terreiros mais antigos do País, de 1908, foi derrubado recentemente. Funcionava no município de São Gonçalo, não muito longe da capital, em uma pequenina casa, que foi posta abaixo para a construção de um galpão. A iniciativa da demolição foi do dono do imóvel, o militar Wanderley da Silva, 65 anos, que desconhecia a importância do endereço. O problema, segundo lideranças religiosas regionais, não foi o ato dele e, sim, o da prefeita de São Gonçalo, Maria Aparecida Panisset (PDT), que teria ignorado os pedidos de umbandistas para salvar o local tombando-o. A prefeitura expediu uma nota dizendo que nada poderia fazer porque a casa era particular. Mas outro caso envolvendo a prefeita Maria Aparecida, que é frequentadora da Primeira Igreja Batista Renovada, provoca dúvidas entre os religiosos.
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NA MIRA
Cristiano Ramos, diante do Centro Espírita Caboclo Pena
de Ouro, no Rio de Janeiro, que pode ser desapropriado
Maria Aparecida estaria forçando a desapropriação de um local onde funciona outro histórico terreiro, o Centro Espírita Caboclo Pena de Ouro. O presidente da Casa, Cristiano Ramos, diz que a explicação oficial é a construção de um Complexo Poliesportivo no local – embora haja um centro esportivo com características semelhantes na região. O caso virou, em abril, uma disputa judicial. “Tentei negociar várias vezes, mas ninguém quis me ouvir”, diz Ramos, que alega não ter recebido informações sobre indenização até agora. Procurada por ISTOÉ, a prefeitura não deu retorno.
                        
Muitas iniciativas para combater a perseguição ainda dependem de apoio governamental. Por exemplo, o tombamento de templos – que são pedidos e não são atendidos pelas prefeituras –, a morosidade na apuração de denúncias de perseguição e a falta de providências contra policiais que se recusam a investigar casos de intolerância. Para o delegado Henrique Pêssoa, saber a abrangência exata desse tipo de crime, que tem pena de um a três anos de reclusão e multa, é quase impossível. Os registros raramente são feitos de maneira correta e, além disso, a lei não costuma ser cumprida. A bancária Elisângela Queiroz descobriu isso na prática. Chamada de “macumbeira safada” por um colega de trabalho, ela procurou uma delegacia, mas recusaram o registro da ocorrência. “Chegaram a me dizer que era apenas uma briguinha”, contou ela.
         
Pesquisa recente da Fundação Getulio Vargas aponta que 0,35% da população declarou ser praticante de religiões afro-brasileiras. O teólogo Jayro de Jesus acredita que é muito mais e até estima um crescimento de quase 70% no número de terreiros nos últimos 30 anos. “Acho que as pessoas estão sendo segregadas e, por isso, não tiveram a altivez de se autodeclarar nos censos”, afirma. Ele faz parte do grupo que está discutindo o mapeamento dos terreiros existentes no Brasil, com apoio da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. A expectativa é de que os trabalhos comecem no início do próximo ano e durem até 2013. Em um levantamento feito em 2011, foram localizados até agora, somente na região metropolitana do Rio, 847 terreiros. Com os dados obtidos, o próximo passo será a implementação de um Plano Nacional de Proteção Religiosa. Para impedir a propagação de conflitos movidos pela religião, é preciso agir rápido.                   
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Para saber mais sobre o caldeirão cultural Brasileiro

04 novembro, 2011

EUA: 20,5 milhões na extrema pobreza

Do Prensa Latina , via Diário Liberdade

Casa americana? Veja mais fotos


Ao menos 20,5 milhões de estadunidenses, cerca de 6,7 por cento da população, vive hoje na extrema pobreza, segundo estatísticas do Escritório do Censo.

Para esta consideração os especialistas levam em conta que estas pessoas estão localizadas nos 50 por cento ou mais abaixo do índice oficial de indigência.
Os dados assinalam que este setor é quase a metade dos 46,2 milhões de norte-americanos que vivem por abaixo da linha da pobreza.
O Censo considera que para estar no extremo da linha uma pessoa deve ter um rendimento individual de 5.570 dólares ou menos ao ano, e de 11.157 dólares uma família de quatro membros.
Atualmente os pobres mais indigentes do país estão em um nível recorde, pois uma da cada 15 pessoas enfrenta essa condição.
Tema central dos protestos do movimento dos chamados indignados de Ocuppy Wall Street, as novas estatísticas mostram os extremos entre os ricos e os pobres da nação quando o desemprego se mantém estancado em um índice de 9,1 por cento.
O problema afeta mais a hispanos, idosos e pobres em idade de trabalhar que caíram na miséria.
As autoridades alertam que os bairros com taxas de pobreza de ao menos 40 por cento aumentam em áreas mais amplas, acrescentando os subúrbios com duas vezes o ritmo das cidades.
Segundo o Censo, zonas metropolitanas do sul do país enfrentam agora alguns dos maiores aumentos de concentração de penúria.
O problema afeta 42 estados e o Distrito de Columbia, onde aumentaram os mais indigentes entre os pobres desde 2007.
A pobreza extrema ocorre mais entre hispanos e negros, as duas principais minorias do país.
Resultados do censo de 2009 indicam que 27,6 por cento dos latinos nos Estados Unidos vivem na pobreza, assim como 23,4 por cento dos negros.
Por outro lado, algumas análises indicam que nos Estados Unidos pobreza e fome andam de mãos dadas. Cerca de 20,7 por cento das crianças são necessitadas, com destaque para os hispanos, que atingem 33,1 por cento, indicou recentemente um relatório do Instituto Pan para o Mundo, um movimento religioso contra a fome.
Segundo esse estudo, o problema da insegurança alimentar afetou em 2009 14,7 por cento dos lares estadunidenses, tendo sido os hispanos quem enfrentaram mais estas penúrias com 26,9 por cento.
A análise realizada sobre a base de cifras do Escritório do Censo e do Departamento de Agricultura assegura que o índice geral de pobreza entre os estadunidenses é de 14,3 por cento, e a afetação entre os hispanos chegou a 25,3.

Comunicação no RS terá Conselho Estadual


Do @sul21 , por Rachel Duarte
Reunião do CDES_RS | Foto de Alexandre Morim, Sul 21
O Rio Grande do Sul conclui nesta sexta-feira (4) mais uma etapa na construção de um Conselho Estadual de Comunicação. Contrariando a interpretação de alguns setores sobre o órgão ser um ‘fiscalizador’ da imprensa, o relatório aprovado pela Câmara Temática do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES-RS), que discute o tema desde o começo do ano, sugere um órgão apenas consultivo. Na ocasião, os conselheiros recomendaram o envio da proposta via Projeto de Lei para aprovação na Assembleia Legislativa RS. Mas, de acordo com a secretária estadual de Comunicação, Vera Spolidoro, a decisão será do governador Tarso Genro e poderá ser por decreto.
Após a aprovação do pleno do CDES-RS, em reunião ordinária no próximo dia 10, a proposta será analisada pelo governador Tarso Genro junto com a Casa Civil e a Procuradoria Geral do Estado. Segundo Vera, a minuta aprovada pelos conselheiros da Câmara Temática de Cultura e Comunicação nesta sexta não tem grandes alterações sobre o que já foi discutido com a sociedade anteriormente. “Decidimos quais os conselheiros que irão apresentar a minuta ao pleno do Conselhão e mantivemos todos os pontos essenciais já discutidos antes”, salienta.
O representante da Associação Riograndense de Imprensa (ARI), Ercy Pereira Torma, confirma que as principais normas para constituição do Conselho Estadual de Comunicação no RS foram preservadas dentro dos princípios constitucionais. “Liberdade de manifestação de pensamento, sendo vedado o anonimato. Liberdade de informação jornalística em qualquer veículo comunicacional, vedação de censura de qualquer natureza, entre outros preceitos fundamentais. Essas serão as bases da atuação do Conselho”, explica.
Segundo Torma, uma questão central que ficou em aberto é a autonomia do Conselho, uma vez que ele está sendo proposto pelo governo estadual. “A partir de agora temos que pensar a forma de atuação e composição para que o órgão possa dar sustentação ao executivo, mas, mantenha independência”, afirmou.
Quem fará parte do Conselho?
A pergunta que ainda será respondida após a aprovação do relatório pelo pleno do CDES é: quem irá compor o Conselho Estadual de Comunicação do RS? A resposta será dada em novas reuniões a serem feitas por uma comissão formada pelos conselheiros da Câmara Temática de Cultura e Comunicação do CDES-RS e alguns representantes a serem sugeridos pelo governo estadual. A secretária de Comunicação, Vera Spolidoro, informa que a decisão dos membros do Conselho é um passo a ser dado apenas em 2012, quando ocorre a 2ª Conferência Estadual de Comunicação.
Porém, o presidente da Federação Nacional dos Jornalistas, Celso Schröder, reforça o desejo dos profissionais de comunicação para que o futuro Conselho tenha “absoluta autonomia e a garantia de existência”. “Temos que ter capacidade orçamentária e de atuação, mas, não podemos ser um órgão de estado”, diz.
Schröder defende que o consenso entre os atores que vem discutindo o tema é de que a representatividade do Conselho de Comunicação tem que dar peso para a área de comunicação do RS. “Os empresários, sindicatos, setores dos ‘consumidores’ e da universidade estarão representados também”, alerta.
De acordo com a proposta sistematizada pela Câmara Temática da Cultura e Comunicação do CDES-RS, a composição do futuro Conselho deverá ser contar com entidades de classe dos profissionais da comunicação; entidades ligadas à comunicação comunitária; representantse de veículos e empresas de comunicação; instituições da sociedade civil, de ensino e pesquisa na comunicação; e representantes do poder público (sugeridos pelo Executivo, Legislativo e Ministério Público).
A conselheira Maria Helena Weber, doutora em Comunicação e Cultura e mestre em Sociologia, avalia positivamente a criação do Conselho de Comunicação gaúcho. “A simples discussão de um conselho de Comunicação já é um momento emblemático para nossa história. Muitas questões que estão sendo aqui debatidas já estão presentes na Constituição, mas até hoje não são executadas. O papel do conselho poderá contribuir muito nesse sentido”, observou.

Chomsky diz que não vai ser fácil avançar

Do La Jornada
Tradução de Denise Queiroz
Colaboração de Sergio Pecci
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Fazer uma conferência em Howard Zinn é uma experiência agridoce para mim. Lamento que ele não esteja aqui para participar e revigorar um movimento que seria o sonho de sua vida. Pode-se dizer que ele é o responsável por boa parte dos fundamentos que deram origem a ele.
              
Se os laços e as associações que estão se estabelecendo nestes notáveis eventos se sustentarem durante o longo e difícil período que os espera – a vitória nunca chega rápido – os protestos do Ocupemos poderão representar um momento significativo da história norte-americana.
          
Eu nunca vi nada como o movimento Occupy, nem em tamanho nem em caráter, nem aqui nem em outra parte do mundo. As lideranças estão empenhadas em criar comunidades cooperativas que poderão ser as bases para as organizações permanentes que serão necessárias para superar as barreiras - que virão - e a reação contrária - que já está se produzindo.
             
É apropriado dizer que o este movimento não tem precedentes, pois esta é uma era sem precedentes e não só nestes momentos, senão desde os anos 70 que foram uma época decisiva para os Estados Unidos. Desde que se iniciou o país, tivemos uma sociedade em desenvolvimento, não sempre no melhor sentido, mas como um avanço geral até a industrialização e a riqueza.
              
Ainda nos períodos mais sombrios, a expectativa era que o progresso tinha que continuar. Minha idade me permite lembrar vagamente a grande depressão. Nos meados dos anos 30. Ainda que objetivamente a situação fosse muito mais dura que hoje, o espírito era bastante diferente. Estava recém se organizando um movimento operário militante – com o Congresso das Organizações Industriais (CIO) e outros- e os trabalhadores organizavam greves com plantões, e estavam a um passo de tomar as fábricas e dirigi-las eles mesmos.
 
Devidos às pressões populares, foi aprovada a legislação de um novo tratado (New Deal) e a sensação dominante era que sairíamos dos tempos difíceis.



Mãe migrante nos anos 30
Desesperança e desespero
Agora há uma sensação de desesperança e às vezes de desespero. É algo bastante novo na nossa história. Nos anos 30 os trabalhadores podiam prever que os empregos voltariam. Agora os trabalhadores das manufaturas, com o desemprego praticamente no mesmo nível que durante a grande depressão, sabem que, se continuarem as políticas atuais, esse emprego vai desaparecer para sempre.
Essa mudança na perspectiva norte-americana evoluiu desde os anos 70. É uma mudança de direção, vários séculos de industrialização se converteram em desindustrialização. Claro, a manufatura continuou, mas nos outros países; muito lucrativo para as empresas, mas nocivo para a força de trabalho.
A economia centrou nas finanças. As instituições financeiras se expandiram enormemente. Se acelerou o círculo vicioso entre finanças e política. A riqueza se concentrava cada vez mais no setor financeiro. Os políticos, frente aos altos custos das campanhas, se afundaram mais profundamente nos bolsos de quem os apoiava com dinheiro. E, por sua vez, os políticos os favoreciam com políticas que favoreciam Wall Street: desregulamentação, mudanças fiscais, relaxamento das regras de administração corporativa, o que acabou intensificando o círculo vicioso. O colapso era inevitável. Em 2008 o governo resgatou as empresas de Wall Street, que supostamente, eram grandes demais para quebrar, com dirigentes grandes demais para irem presos.
Agora, para cada um décimo de 1% da população que mais se beneficiou de todos estes anos de cobiça e enganos, tudo está muito bem.
1% X  99%

Plutonomia e precariado
                 
Em 2005 o Citigroup – que várias vezes foi objeto de resgate do governo – viu o luxo como uma oportunidade de crescimento. O Banco distribuiu um folheto para os investidores, convidava-os a colocar o seu dinheiro em algo chamado índice de plutonomía, que identificava as ações das companhias que atendem ao mercado do luxo.
 O mundo assim se dividiu em dois blocos: a plutonomia e o resto, conforme resumiu o Citigroup. Estados Unidos, Grã-Bretanha e Canadá, segundo a visão do Citybanck, são as plutonomias chave: as economias impulsionadas pelo luxo.
E os não ricos foram chamados de precariado: o proletariado que tem um modo de vida precário na periferia da sociedade. Essa periferia, no entanto, se converteu numa proporção substancial da população tanto dos Estados Unidos quanto de outros países.
Assim temos a plutonomia e o precariado: o 1% e o 99%, como se vê no movimento Occupy. Não como cifras literais, mas como uma imagem acertada.
A mudança histórica da confiança popular no futuro é um reflexo de tendências que poderiam ser irreversíveis. Os protestos do Ocupemos são a primeira reação popular importante que poderiam mudar essa dinâmica.

Ameaças
               
Centrei nos assuntos internos, mas há dois perigosos fatos na arena internacional que opacam aos demais. Pela primeira vez na história há ameaças reais a sobrevivência da espécie humana. Desde 1945 temos armas nucleares e parece um milagre que tenhamos sobrevivido. Mas as políticas do governo Barack Obama e seus aliados estão fomentando a escalada.
A outra ameaça claro, é a catástrofe ambiental. Por fim praticamente todos os países do mundo estão tomando medidas para fazer algo a respeito, mas Estados Unidos avança para trás.
Um sistema de propaganda, reconhecido abertamente pela comunidade empresarial, declara que o câmbio climático é uma enganação dos setores liberais. Por que deveríamos dar atenção a esses cientistas? Se continuar essa intransigência no país mais rico e poderoso do mundo não poderemos evitar a catástrofe.

Caos e esperança
Occupy pode ser embrião das mudanças
Deve-se fazer algo de forma disciplinada e sustentável. E pronto. Não vai ser fácil avançar. É inevitável que haja dificuldades e fracassos. Mas, a não ser que o processo que está ocorrendo aqui e em outras partes do país e do mundo continue crescendo e se converta numa força importante da sociedade e da política, serão exíguas as possibilidades de um futuro decente. 
Não se podem lançar iniciativas significativas sem uma base popular ampla e ativa. É necessário sair por todo o país e fazer as pessoas entenderem do que se trata o movimento Ocupemos, explicando o que cada um pode fazer e que conseqüências teriam o não fazer nada. 
Organizar uma base assim implica educação e ativismo. Educar o povo não significa dizer em quem devem acreditar, significa aprender dele e com ele. 
Karl Marx disse: A tarefa não é somente entender o mundo, senão transformá-lo. Uma variante que convém ter em conta é que, se queremos mudar o mundo, temos que entendê-lo. Isso não significa escutar uma palestra ou ler um livro, se bem que isso ajuda. Se aprende ao participar, se aprende dos outros, se aprende das pessoas a quem queremos organizar. Todos temos que alcançar conhecimentos e experiências para formular e implementar idéias.
O aspecto mais digno de entusiasmo do movimento Ocupemos é a construção de vínculos que está ocorrendo em todas as partes. Se puderem se manter e expandir, o movimento poderá dedicar-se a campanhas destinadas a encaminhar a sociedade para uma trajetória mais humana.

Aqui a primeira parte da palestra de Chomsky em Boston. 

03 novembro, 2011

O Declínio do Império Americano

Do Blog do Paul Krugman 
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Caro Ben: não estamos mais em 2007
                              
O comitê de política monetária (FOMC) do Fed se pronunciou. Sua previsão é de um desemprego altíssimo para os próximos três anos, no mínimo, esperando também que a inflação fique abaixo da meta. De acordo com todas as interpretações nas quais consigo pensar, o Fed está, portanto, declarando que espera fracassar na sua dupla missão de manter a estabilidade dos preços e o pleno emprego. Para lidar com esta insuficiência, o Fed propõe que façamos… nada.
           
Mas não é isto que me frustra, já que é assim que as coisas têm sido desde o começo. O que me incomoda é a resposta de Bernanke quando indagado se o Fed poderia adotar metas para o PIB nominal, ou promover alguma outra mudança ampla nas estruturas conceituais de sua política capaz de nos ajudar a escapar desta Depressão Menor. A resposta dele foi não, pois a abordagem padrão demonstrou “seus benefícios em termos de estabilização macroeconômica”.
              
Oh, céus. Vejam só, eis aqui um cálculo aproximado – a variação na taxa de desemprego nos dez anos anteriores:


Podemos ver a Grande Moderação, algo que poderia ter levado o Fed a crer, nos idos de 2007, que a questão da estabilização estivesse sob controle. Mas e agora, depois de quatro anos de um declínio que ainda não chegou ao fim?
                
Seja como for, não é uma “estabilização” que queremos no momento – o que queremos é a fuga de um declínio que está acabando com o nosso futuro. Não é hora de propor políticas com base na esperança de que, um dia desses, nós nos encontremos novamente na Grande Moderação.
            
Sempre trabalhei com a suposição de que Bernanke fazia comentários tão brandos quando o possível levando-se em consideração o seu conselho – de que, em particular, ele compreendia o quanto precisamos de medidas radicais. Parece que não – e isto é uma péssima notícia.
           

Do que se trata, afinal, o #OWS?

Vídeo completamente explicativo sobre as razões para o #OccupyWallStreet.
Do MoveOn.org 






Relações delicadas

Do Terra
Dica de @VannaMonna
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A eventual ajuda de países emergentes, sobretudo da China, à Europa está sendo vista com reticência por alguns setores no continente, que veem a iniciativa como uma ingerência que pode afetar a soberania europeia. Na França, a oposição teme as contrapartidas que a China poderia exigir para ajudar a Europa e qualifica de "chocante" o apelo feito "a uma ditadura comunista".

Ditadura comunista???? 


"A ajuda da China significa uma perda de independência para a Europa. Sermos obrigados a proclamar ao mundo que vamos recorrer à China para nos reequilibrarmos significa que teremos menos armas para negociar assuntos cruciais com esse país", diz François Bayrou, presidente do partido centrista MoDem.
Ele cita, entre as negociações cruciais, a questão da desvalorização da moeda chinesa para estimular as exportações do país. A "guerra cambial" é um dos temas da pauta da reunião de líderes do G20 que começa nesta quinta-feira em Cannes, na França.
"Decidimos nos entregar com os pés e as mãos amarradas aos emergentes. Os europeus não podem discutir uma proteção contra os efeitos sociais e ambientais da globalização e pedir, ao mesmo tempo, a quem você vai negociar isso, para pagar a conta da sua crise financeira", diz o deputado do partido verde europeu Daniel Cohn-Bendit.

Soberania

Por todo continente, a possível ajuda dos emergentes à Europa em crise é alvo de críticas. Em fóruns na internet, cidadãos europeus também manifestam reticências. "Após os indignados, os humilhados. Pedir ajuda à China é uma humilhação", diz um internauta. Mesmo na Itália, país visto como um dos possíveis próximos a serem afetados com o agravamento da crise, a ajuda provoca divisões.
O ministro das Finanças da Itália, Giulio Tremonti, havia alertado, em um livro publicado há três anos, sobre os riscos de "uma colonização invertida da China na Europa". Mas recentemente, o mesmo Tremonti não viu com maus olhos a possibilidade de a China comprar títulos da dívida italiana em um momento em que a Itália teve de captar recursos no mercado com juros bem mais altos do que os habituais.
"Se a zona do euro precisa recorrer aos credores estrangeiros, ela vai depender necessariamente da vontade deles para assegurar seu autofinanciamento", diz Harry Wolhandler, diretor da corretora Amilton Asset Management. "Se a China conseguir impor seus pontos de vista diplomáticos e comerciais graças a uma eventual forte participação no Fundo Europeu de Estabilização Financeira, podemos considerar a possibilidade de perda de soberania", afirma.
"A China busca garantias políticas para acesso aos mercados europeus e para manter sua moeda desvalorizada. E pode ter uma posição fortalecida para negociar outros pontos de conflito com os europeus, como o estatuto de economia de mercado que ela espera obter", afirma a economista Françoise Lemoine, economista do Centro de Estudos e Pesquisas sobre Economia Internacional. O presidente francês, Nicolas Sarkozy, que negociou o plano europeu de ajuda à Grécia e preside atualmente o G20, assegurou que a independência da Europa não estaria ameaçada com a ajuda da China à crise na zona do euro.

Instabilidade

A cúpula do G20 em Cannes, que deveria aprofundar a discussão sobre ajuda dos emergentes à Europa, acabou sendo cvolocada em um cenário de incertezas por causa do anúncio surpresa da Grécia de convocar um referendo sobre o pacote de socorro europeu. A ajuda prevê o corte de 50% da dívida grega em poder dos bancos e o reforço do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FESF). Segundo alternativas em discussão, a China poderia injetar recursos justamente nesse fundo, estimados entre 50 bilhões e 100 bilhões de euros.
Em entrevista ao jornal francês Le Figaro na segunda-feira, o presidente chinês, Hu Jin Tao, não deixou claro se seu país pretende socorrer financeiramente a Europa. Mas afirmou que o "G20 deve emitir um sinal claro de solidariedade". A China possui reservas internacionais colossais, da ordem de US$ 3,2 trilhões. O país já teria, segundo estimativas de economistas, US$ 500 bilhões em títulos da dívida de países europeus, como Grécia, Portugal, Irlanda e Espanha.
Antes de chegar a França, para a reunião do G20, Jin disse esperar "convencer a União Europeia a reconhecer a China como uma economia de mercado", disse o líder chinês na Áustria.
Se a China obtiver esse estatuto junto à Organização Mundial do Comércio, poderá exportar mais facilmente. A União Européia é o principal importador de produtos chineses e representa 20% do total das vendas externas do país. A China poderia exigir em contrapartida que a Europa pare de criticar o país por manter sua moeda, o yuan, desvalorizada artificialmente, o que favorece suas exportações.
A ajuda da China à Grécia no ano passado já havia provocado críticas em países europeus, que não viram com bons olhos os chineses comprando ativos a preços baixos e se apropriando de setores de infra-estrutura do país, como o contrato de concessão de 3,3 bilhões de euros para explorar o porto de Pireu. A estratégia da China seria criar uma rede de portos, ferrovias e centros logísticos para distribuir seus produtos em todo o continente.
"Não há uma agenda escondida e o desejo de colonizar a Europa. Antes de tudo, a China vai agir em função de seus próprios interesses", diz a economista Mary-Françoise Renard, do Instituto de Pesquisas sobre a Economia Chinesa (Idrec, na sigla em francês). Analistas afirmam que há um interesse mútuo entre europeus e chineses para que a zona do euro não desmorone. A indústria chinesa seria afetada pela redução drástica da demanda europeia e isso teria repercussões sobre o crescimento da China, que já está sofrendo desaceleração, dizem os especialistas.

Lula: vim para lutar

"Se o dia hoje não foi bom, a gente faz ele ficar melhor amanhã!"





Metodologia (imaginada) calcula a corrupção


Por Marcos Coimbra, na Carta Capital 
A corrupção e a tartaruga de Alice

Em uma das passagens mais conhecidas de Alice no País das Maravilhas, a heroína entabula um diálogo com a Falsa Tartaruga, um ser melancólico, sempre triste por ter deixado de ser uma tartaruga de verdade.
A alturas tantas, a tartaruga relembra os dias na escola e as matérias que estudara: “Reler e escrevinhar, é claro (…) e os diferentes ramos da aritmética: Ambição, Distração, Enfeiamento e Escárnio”. Quando a menina lhe pede que explique o que quer dizer o terceiro, ela responde: “Você sabe o que é embelezar, imagino (…) então você sabe o que é enfeiar”.
A mídia conservadora brasileira é uma espécie de Falsa Tartaruga. Ela não hesita no emprego de sua peculiar aritmética de enfeiar, confundir e escarnecer.
Sua proeza mais recente é a fabricação de uma conta sobre o tamanho da corrupção no Brasil, seguida de sua difusão maciça. Faz como ensinava um famoso propagandista alemão: para transformar uma mentira em verdade, é preciso repeti-la mil vezes. Hoje, ela fala em 85 bilhões de reais anuais, como se pode ver na capa da principal revista da direita nativa. Ontem, eram 70 bilhões. Amanhã, sabe-se lá. E não importa. O relevante é trombetear uma cifra que impressione, qualquer que ela seja.
A mídia conservadora pega o número e põe nas manchetes, na boca de comentaristas televisivos, em suas “análises”. Ficam todos compungidos com o tamanho do problema. Como se não fosse ela mesma que lhe deu a dimensão que tanto a assusta.
Tudo começou com a divulgação de um estudo do Departamento de Competitividade e Tecnologia da Fiesp, que tinha a intenção de estimar os “custos econômicos da corrupção”no Brasil. Como passou a ser referência, vale a pena entender o que fizeram seus autores.
Seu ponto de partida foi usar de forma questionável algo banal, os estudos sobre percepção de corrupção, que perguntam a determinado público se acha que ela existe e se seria grande ou pequena. Como as respostas decorrem de impressões, o resultado, óbvio, é subjetivo.
Se, por exemplo, a mídia estiver falando muito do assunto, os entrevistados podem imaginar que a corrupção aumentou, sem que tenha crescido um só milímetro objetivamente. Vice-versa, podem achar que diminui enquanto cresce.
O que o estudo da Fiesp fez de mais condenável foi usar uma medida de percepção da corrupção para inferir seu custo custo real. Inovaram, fazendo algo que, mundo afora, ninguém faz.
Um problema adicional da metodologia é a fragilidade de suas bases de dados. Para chegar à “corrupção percebida”, a fonte são avaliações de técnicos estrangeiros (vinculados, tipicamente, a empresas de cálculo de risco), somadas a alguns poucos e modestos estudos com empresários brasileiros. Exemplificando: o Fórum Econômico Mundial faz, em média, 98 entrevistas por país; o Institute for Management Development, 83. Qualquer um vê que seu tamanho é insuficiente.
São pesquisas que usam questionários autorrespondidos, o que as complica ainda mais. Quando a Transparência Brasil quis fazer algo parecido, convidou 4 mil empresas, mas obteve apenas 76 respostas. Como imaginar que essas 0,019% sejam representativas, se foram só elas que quiseram participar?
Os técnicos da Fiesp utilizaram o Índice de Percepção da Corrupção (IPC), calculado pela Transparência Internacional para 180 países, e resolveram inventar (verificaram que o Brasil melhorou de 1996 para 2009, mas preferiram deixar isso de lado).
O IPC brasileiro, em 2009, era 3,7 (em uma escala que chega a 10, que significa zero de corrupção percebida). E se nosso índice fosse maior, se a percepção fosse menor?
Mas quanto? Talvez achando que suas especulações pareceriam mais “científicas”, escolheram 12 países a esmo para calcular seu IPC médio. Ficaram, sabe-se lá porque, com Coreia do Sul, Costa Rica, Japão, Chile, Espanha, Irlanda, Estados Unidos, Alemanha, Austrália, Canadá, Cingapura e Finlândia. Se a corrupção percebida no Brasil fosse igual (por alguma razão misteriosa) à média desses países, nosso IPC iria para 7,45. E daí? Iria para menos se substituíssemos a Finlândia pela Holanda, “mais corrupta”. Para mais, se trocássemos a Espanha pela Eslovênia, “menos corrupta”. E daí?
Daí vem a prestidigitação do estudo da Fiesp. Tomaram um modelo neoclássico de crescimento econômico e resolveram torná-lo “sensível ao índice de percepção da corrupção”. Para isso se deram ao direito de modificar o modelo (sem dizer como) para “incluir os efeitos da corrupção sobre o crescimento de longo prazo do produto per capita” (embora continuassem a falar, somente, de percepções).
Se, então, nosso IPC fosse 7,45 e se o modelo que inventaram fosse verdadeiro, o produto per capita brasileiro seria 1,36% maior ao ano, entre 1990 e 2008. Como o IPC real é menor, teria havido, nessa lógica estranha, um “prejuízo” ( o “custo da corrupção”) de 41,5 bilhões de reais anuais.
E se o IPC brasileiro fosse 10? Se nenhum dos empresários ouvidos achasse que há qualquer tipo de corrupção no Brasil? Se fôssemos o único país do mundo com esse índice (melhor que o da Dinamarca, o “menos corrupto”)?
Aí o “prejuízo” de ter o IPC de 3,7 seria maior. Chegaria a 69,1 bilhões de reais anuais (a preços de 2008), que nossa mídia arredondou para 70 bilhões.
E assim se explicam os números que andam por aí: pesquisas limitadas, metodologias discutíveis, inferências sem fundamento. Eles não dizem simplesmente nada.
Se alguém quiser um exemplo melhor da aritmética da Falsa Tartaruga, vai ter trabalho. Faz tempo que não vemos uma discussão tão sem pé nem cabeça.

02 novembro, 2011

Quebrando neuroparadigmas

Leitura indicada por @MiguelNicolelis via twitter: "Resenha de 'Muito Além do Nosso Eu' por quem entende das coisas!", publicada na Ciência Hoje 
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Por H. Moysés Nussenzveig, da UFRJ




“Você, suas alegrias e tristezas, suas memórias e ambições, seu senso de identidade pessoal e livre-arbítrio, são na verdade nada mais que o comportamento de um vasto conjunto de células nervosas e suas moléculas associadas.”

É o que dizia o biólogo inglês Francis Crick (1916-2004) em seu livro A hipótese espantosa, de 1994. Em Muito além do nosso eu, o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis descreve sua trajetória científica, dedicada a desvendar como o cérebro humano realiza essa tarefa miraculosa de criar a nossa realidade.

No seu trabalho de pós-doutorado com John Chapin, como bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Nicolelis deu uma contribuição fundamental para uma mudança de paradigma na neurofisiologia.

Pela primeira vez, sua equipe conseguiu o registro simultâneo da atividade elétrica de múltiplos neurônios cerebrais em ratos despertos. O resultado mostrava que a realização de uma tarefa específica pelo animal estava associada a impulsos elétricos distribuídos por todo esse conjunto de neurônios.

A neurofisiologia tradicional tendia a ser ‘localizacionista’, associando a realização de funções cerebrais específicas a regiões especiais muito bem localizadas no sistema nervoso. Exemplo extremo seria o ‘neurônio da vovó’, especializado no reconhecimento da fisionomia dessa antepassada.

Em contraste, a visão ‘distribucionista’ diz que “qualquer tipo de informação processado pelo cérebro envolve o recrutamento altamente distribuído de populações de neurônios”.

Contradizer o paradigma tradicional naturalmente provocou reações. Argumentou-se que os experimentadores não podiam saber o que o roedor sentia ou experimentava em associação à atividade elétrica detectada.

Para responder a essa objeção, resolveram procurar um meio de ligar diretamente um cérebro, não mais de rato, mas de um primata, a uma máquina que revelasse o que desejava fazer. Essa parece ter sido a origem do projeto das ICMs, as Interfaces Cérebro-máquina.

Nicolelis descreve com requintes de suspense hitchcockiano o primeiro experimento bem-sucedido, em que uma macaca movimentou um braço robótico apenas por meio do pensamento.

A partir desse êxito, que teve grande repercussão na mídia, foram vencidos outros desafios, como a transmissão em tempo real do pensamento de um macaco nos Estados Unidos para comandar a marcha ereta de um robô humanoide no Japão.





Repercussões médicas

Aplicações médicas de ICMs à reabilitação de pacientes com funções neurológicas perdidas em consequência de doenças ou traumas estão sendo desenvolvidas. O Projeto Andar Novamente ambiciona montar uma veste robótica de corpo inteiro para restaurar a mobilidade de pacientes paralisados, em tempo para que um deles dê o chute inicial na Copa do Mundo de 2014.

Outro projeto visa criar uma nova terapia para pacientes com a doença de Parkinson.

Em seu livro fascinante de 1998, Fantasmas no cérebro, o neurocientista indiano Vilayanur S. Ramachandran descreve como conseguiu curar a síndrome da dor no ‘braço fantasma’ de um amputado iludindo o seu cérebro com a projeção da imagem do braço bom no lugar do amputado, usando uma caixa de espelhos.

Nicolelis comenta experimentos recentes, utilizando aparatos de realidade virtual, em que uma pessoa experimenta a sensação de trocar de corpo com outra, até de sexo diferente.

A plasticidade do cérebro, permitindo incorporar à imagem do próprio corpo ferramentas externas, como um braço robótico, seria uma das razões do sucesso de ICMs. Ao longo de seu livro, Nicolelis, com base em seus estudos, propõe uma dezena de novos princípios neurofisiológicos.

Muito além do nosso eu é um registro precioso de como foram realizadas descobertas revolucionárias, com impacto profundo nos fundamentos da neurociência e repercussões médicas importantes. Não é um livro de leitura fácil, apesar do apelo frequente a imagens do futebol.

Algumas ressalvas

Como físico, porém, tenho sérias reservas quanto à nomenclatura empregada pelo autor ao descrever seu modelo como ‘cérebro relativista’.

A constatação de que campos receptivos e mapas cerebrais variam não só espacialmente, mas também no tempo, significa apenas que o cérebro deve ser classificado como um sistema dinâmico, termo matemático de ampla abrangência.

É, conforme Nicolelis menciona, um sistema complexo, mais precisamente, um ‘sistema complexo adaptativo’, que se modifica no decorrer de sua própria evolução.

Restrições ao funcionamento cerebral decorrentes da conservação da energia e da velocidade limitada do disparo de um neurônio nada têm a ver com a teoria da relatividade de Einstein.

Nicolelis também se deixa contaminar em parte pela frequente confusão dos filósofos entre relatividade e relativismo.

Também devo objetar à caracterização como “arqui-inimigo de Newton” de Albert Einstein, o qual tinha verdadeira veneração por seu grande antecessor. Isso também era válido para Thomas Young, que usou as medições feitas por Newton dos comprimentos de onda (sim, tratando luz como onda) associados às cores do espectro, desmentindo o mito de que “Young demonstrou que Newton estava errado”.

Nicolelis traduziu o próprio livro da versão original inglesa. A meu ver, optou por uma versão infeliz de binding problem, o problema da ligação (como o cérebro associa os diferentes estímulos sensoriais que recebe), como ‘problema da encadernação’, termo só aplicado a livros no dicionário.

A tradução corrente de binding energy é ‘energia de ligação’. Essas restrições semânticas e de física em nada afetam meu juízo global: recomendo fortemente esta obra, um livro a meu ver imperdível.

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Para saber mais, clique aqui e aqui 

O Povo Brasileiro

Documentário feito a partir da obra de Darcy Ribeiro.  Nestes vídeos, a matriz Tupi.
               
Parte 1




Parte 2




A obra completa, em 30 partes, está disponível no Youtube, a partir deste link: 
O povo Brasileiro 

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