22 agosto, 2013

Muito mais que médicos

por Denise Queiroz

imagem garimpada do google

A questão dos médicos acabou expondo uma ferida pouco visível do sistema brasileiro de desenvolvimento e que, obviamente, tem a ver com todo o restolho cultural que a sociedade industrializada e de consumo cria: a orientação urbana.

Num país onde até a década de 50 a população era majoritariamente rural (link) e que teve um salto desenvolvimentista impulsionado primeiro na era Vargas e depois pelos militares baixo o slogan ‘este é um país que vai pra frente’, o produzir, manufaturar, plantar e colher do campo foram sendo colocados num segundo plano. Para sermos aceitos como ‘grandes’ precisaríamos produzir em grande escala. Não à toa, verifica-se que boa parte da cobertura vegetal do país quase foi dizimada junto com a cultura do trabalho de produzir para comer - o que implicava também numa convivência comunitária de trocas, desde sementes até doces, passando por pães, receitas, farinhas, carnes dos bichinhos criados ‘para ter’.

A ‘cidade grande’ com suas luzes passou a ser o alvo da cobiça de um modo de vida onde o progresso, o sucesso, a ‘cultura’ estavam ao alcance. O povo do campo, tratando como caipira no pior sentido que a palavra pode ter - atrasado, pouco civilizado - aos poucos deixa de lado até seu linguajar típico e rico de palavras e expressões definidoras, e o substitui pelos jargões massificados, vendidos como sabão em pó pelas novelas e programas patrocinados por essa indústria, a do sabão.
Viver no interior e do que se é capaz de produzir para consumo passou a ser símbolo de pouca ‘civilização’ e de pouco acesso ao ‘bom' e até de sujeira. Cultura tão avessa é criada, que não raro conhecemos pessoas que negam sua origem geográfica ‘interiorana’, pois, após higienização pasteurizada em boas universidades das capitais, nos shoppings, lojas de departamentos, clínicas estéticas e cabeleireiros, se igualam aos oriundos do que passou a ser sinônimo de ‘desenvolvimento’ e ‘bem viver’, os da cidade.

Algumas décadas depois dessa criação cultural que buscava mão-de-obra barata, o desconhecimento do modo de vida que deu origem à maior parte das pessoas que hoje se amontoam em ruas mal tratadas das grandes cidades é tal, que não se pode mais criticar os norte-americanos pelo seu desconhecimento geográfico do resto do mundo. Jovens universitários brasileiros em congressos aos quais alguns comparecem para ‘ter currículo’ olham com desprezo estudantes de universidades desconhecidas (por pouco expostas à mídia hegemônica) do interior do país. E acabam arregalando os olhos ao saber que muitas cidades de 300 ou 400 mil habitantes de estados distantes demais das grandes metrópoles são capazes de produzir não só conhecimento, mas tecnologia de ponta em algumas áreas.

Desde o sistema educacional básico, onde informações sobre cidadania são dadas en passant e textos para análise e aprendizado são baseados em programas televisivos e personagens de telenovelas, ‘pois fica mais fácil trabalhar uma vez que os alunos estão familiarizados com o tema’, até as universidades tradicionalmente bem conceituadas, o modus vivendi urbano é disseminado. 

A quem compete a mudança? Quem vai ser o responsável pela verdadeira revolução deste país, que é mostrar aos brasileiros a enorme riqueza cultural que desperdiçamos diariamente ao acompanhar ficção patrocinada por uma indústria que nada mais visa o consumo? Como reverter a dominação cultural de lixo pasteurizado e valorizar o regional, o autêntico, transformar o local em central e motivo de orgulho que ultrapasse as fronteiras de pequenas comunidades?

É tragicômico que crianças criadas em comunidades rurais, distantes miles de quilômetros de grandes centros metropolizados, reproduzam o modo de vestir, dançar, falar, da cultura do rap, por exemplo. Mas essa cultura lhes chega pelas ondas da TV, agora que já quase não há mais casas sem eletricidade e televisão. O estilo ‘da moda’ aparece no programa dominical – de qualquer emissora aberta – e também na telenovela e no noticiário, até em horário nobre, quando celebridades construídas são chamadas a opinar sobre grandes temas nacionais... O apelo é tal e tanto que parece àquela pessoa, lá do interior do Pará ou de uma comunidade alemã nas montanhas catarinenses, que não há outro modo possível de viver. Até as favelas - onde só em São Paulo cerca de um milhão de pessoas vivem exprimidas, à margem do ordenamento civilizatório prometido pelo imaginário ficcional construído do ‘desenvolvimento’ - são glamourizadas.

Talvez uma das grandes mentiras criadas pela publicidade é o slogan daquela rede de TV que assegura que ‘a gente se vê por aqui’. A canção do Aldir Blanc, imortalizada por Elis, já dizia que ‘o Brazil não conhece o Brasil’.  A resistência dos novos profissionais - não são só os médicos, ressalte-se - em se bandearem para onde são necessários, é prova disso. É prova também de que, apesar dos indicadores, do censo, dos estudos sérios que vem sendo conduzidos e encaminhados desde pelo menos a década de 30, buscando uma forma de desenvolver o país e apontando falhas, cada vez mais gritantes, nas opções tomadas pelos que governaram e vem governando, pouco foi feito.

As cidades grandes ficaram enormes, invivíveis. As médias ficaram grandes e o individualismo, antes restrito a quem morava empoleirado nos edifícios de apartamentos, agora é a norma até para quem vive em cidades onde há 30 anos havia um povoado. A fartura de tanta terra se amontoa nos portos à espera do embarque, enquanto o roçado vira capoeira outra vez porque os velhos, já sem forças, não dão conta e ‘os meninos foram trabalhar na cidade, pois precisam do salário certo’.

Louvável que se contrate mais médicos para tratar da saúde física, essencial, de tanta gente de tantos lugares, pois também a procura por saúde é uma das razões de abandono do campo. Que a mesma urgência seja aplicada em tratar da saúde cultural, para modificar e reestruturar o modelo de desenvolvimento, antes que o paciente Brasil entre em estado vegetativo.
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Para pensar mais, sugerimos: 

Atlas da questão agrária no Brasil 

Morte de criança abre os olhos para realidades

20 agosto, 2013

Hipólito da Costa era Ninja


A Saga dos marginais

Casa onde nasceu Hipólito da Costa, Colônia de Sacramento, Uruguai, 2004, arquivo pessoal 

por Alberto Dines 

Há um clima de estupidez no ar. Estupidez no sentido de barbárie, estupidez no sentido de estultice. Felizmente longe das guerras, damos a volta ao mundo em busca de um belicismo extemporâneo que distribui tacapes a quem deveria ocupar-se em construir consensos.

Para enfrentar o frio e/ou o esvaziamento das redações, nossa mídia empenha-se num esquentamento generalizado. Quer barulho, calor. A vítima do mais recente exercício de tiro ao alvo tem sido a nanica Mídia Ninja, subitamente alçada à posição de destaque pela própria grande mídia.

Arrependida e para não se desmoralizar, girou para o lado suas metralhadoras midiáticas e descarregou seu furor contra o coletivo musical chamado Fora do Eixo, onde o projeto Ninja foi incubado. O criador desse circuito alternativo, Pablo Capilé, foi convertido em Inimigo Público nº 1 e em seguida linchado pelas manadas de predadores das redes ditas sociais. É possível que o FdE tenha cometido erros e enveredado pelo caminho das simplificações, mas qualquer experiência antes de ser bem sucedida atrapalha-se com enganos.

A Mídia Ninja, comandada por Bruno Torturra, passou a chamar a atenção no exato momento em que o país começou a reparar nos absurdos e abismos para os quais estava (está?) sendo conduzido. Tal como as Jornadas de Junho, é um fenômeno – e os fenômenos precisam ser observados, comparados, referenciados, discutidos. Sobretudo aproveitados.

Injeção de ânimo

História é mudança, jornalismo é mudança em alta pressão, mudanças não percebidas geram desastres. Em abril passado, a indústria jornalística brasileira finalmente assumiu a sua crise identitária e estrutural. Em junho, enquanto a sociedade ia para as ruas tentando vocalizar suas frustrações, patenteou-se a incapacidade de nossa imprensa – e de nossas lideranças políticas, acadêmicas e administrativas – em perceber o que acontecia além dos respectivos umbigos.

A Mídia Ninja destacou-se naquele momento. Foi parar no Jornal Nacional – o registro oficial, autorizado, do que acontece. E essa façanha não foi casual, resultou da pasmaceira generalizada, do culto aos formatos rígidos e à inovação burocratizada.

Os Ninja entraram em campo com a tecnologia a serviço da autenticidade, da instantaneidade, e não a serviço da cosmética, do glamour e da falsa informalidade. Não chegou a ser um sacolejo real, foi uma promessa de movimento. Ninguém discutiu o seu “modelo negócio”, todos se animaram com o modelo de despojamento.

O fenômeno equivale ao acontecido nos anos 1960-70, durante a ditadura militar, quando uma imprensa amordaçada ou autocensurada só conseguiu aproveitar as lições e paradigmas da imprensa alternativa,udigrudi (de underground) ou nanica, quando o processo de distensão política já estava em andamento.

Qual era a matéria-prima da imprensa alternativa? A informação não censurada, a opinião livre, A Folha de S.Paulo foi atrás: não apenas criou uma página de opinião (que até então não tinha) como foi preenchê-la com a contratação de um punhado de marginalizados e punidos pela ditadura. Meses depois criou a segunda página de opinião (inspirada na op-ed-page dos americanos) e chegou mesmo a atrair para a equipe do jornal alguns azes da imprensa alternativa (o mais notório, Tarso de Castro, egresso do Pasquim). Pouco depois, o jornal foi obrigado a recuar, esqueceu o surto libertário, e o resto da imprensa fingiu que nada acontecera.

Se não for atalhada, constrangida e manietada, a Mídia Ninja poderá equivaler em matéria de adrenalina, descontração e invenção aos nanicos e alternativos de quarenta anos atrás. Queiram ou não aqueles e aquelas que se consideram proprietários exclusivos da experiência alternativa.

Sentido de direção

A edição do Economist de 10/8 (pág. 30) relembra a história do estudante Soe Myint, que conseguiu escapar da brutal repressão dos militares da antiga Birmânia (hoje Myanmar), refugiou-se na Índia e lá criou uma agência de notícias usando uma rede clandestina de repórteres. O país prepara-se hoje para eleições livres e esses repórteres marginais estão em postos-chave da grande imprensa birmanesa. Eram alternativos, algo Ninjas, fizeram bom jornalismo, ficaram.

Perseguido pelo senador Joseph McCarthy, o repórter investigativo Isidor Fainstein entrou para a história do jornalismo americano como I.F. Stone. Ao longo de 17 anos, escreveu e editou sozinho um newsletter semanal com a melhor cobertura da política americana. Era um Ninja, tornou-se paradigma, instituição.

Antes dele, em 1808, um conterrâneo refugiado em Londres para escapar das malhas da Inquisição lançou um mensário que escreveu e editou sozinho durante 14 anos, o Correio Braziliense. Hipólito da Costa foi um clássico Ninja e tornou-se o patriarca da imprensa livre em língua portuguesa.

Os Ninja capazes de entender o conceito de renovação poderão dar sentido e direção a uma mídia engessada e baratinada.
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Hipólito da Costa, biografia  

18 agosto, 2013

Sobre a violência nas manifestações de rua

por Pablo Ortellado 
do Facebook

O democrático Estadão não aceita réplica para artigos de opinião, então publico por aqui minhas considerações sobre o artigo do Demétrio Magnoli que saiu na edição de 15 de agosto do jornal. 

Imagem do UJCeará

No última quinta-feira, Demétrio Magnoli publicou no Estado de São Paulo um artigo intitulado "Nas franjas do Black Bloc" no qual critica uma declaração que dei a este mesmo jornal duas semanas antes tentando explicar a natureza das ações do Black Bloc. Minha declaração buscava resgatar a origem do Black Bloc no movimento social alemão dos anos 1980 e sua ressignificação no movimento contra a globalização econômica no final dos anos 1990.

Na declaração que dei ao jornalista Bruno Paes Manso ressaltava que o Black Bloc nasceu no movimento social alemão como um grupo que se vestia de preto e se dedicava a proteger as manifestações de rua da infiltração de agitadores e do ataque repressivo da polícia. Na sua segunda aparição, nos anos 1990, o Black Bloc ressurge como uma tática predominantemente simbólica que deve ser entendida mais na interface da política com a arte do que da política com o crime. Isso, porque a destruição de propriedade a que se dedica não busca causar dano econômico significativo, mas apenas demonstrar simbolicamente a insatisfação com o sistema econômico ou o sistema político.

Há, obviamente, uma ilegalidade no procedimento de destruir uma agência bancária ou um edifício governamental, mas é justamente a conjugação de uma arriscada desobediência civil e a ineficácia em causar prejuízo econômico à empresa ou ao governo que confere a essa ação seu sentido expressivo ou estético, num entendimento ampliado. A destruição de propriedade sem outro propósito que o de demonstrar descontentamento simboliza e apenas simboliza a ojeriza à exploração econômica ou à dominação do estado.

Essa análise descritiva do que eu acredito ser a natureza e o objetivo desse tipo de ação foi considerada por Magnoli um elogio irresponsável que levaria à legitimação da violência como estratégia de luta. Para ele, explicar para o público de um jornal qual é a história e qual é o propósito da ação de um movimento social é fazer perigosa apologia.

Magnoli traça um paralelo entre o que eu disse e o que disseram alguns teóricos do movimento social italiano que foram injustamente acusados de serem os responsáveis pelas ações armadas que aconteceram naquele país nos anos 1970. Na sua análise, ele primeiro conecta os escritos teóricos da tradição autonomista à luta armada de grupos de outras correntes políticas com os quais esses textos não tem relação; em seguida, de maneira muito anacrônica, sugere que da mesma forma que alguns movimentos de ação direta daquele período passaram à luta armada, também o Black Bloc poderia seguir esse caminho, a despeito do abismo que separam esses dois momentos históricos.

Como tinha declarado que não considerava violenta a estratégia do Black Bloc porque sua ação era orientada a coisas (agências bancárias ou prédios governamentais) e não a pessoas, Magnoli sugere que também na Itália os atentados armados contra pessoas poderiam ser considerados como voltados a coisas se essas ações fossem vistas como ataques a "símbolos do sistema".

É preciso dizer que essa despropositada inferência que objetifica a vida humana não foi feita pelo Black Bloc que, ao contrário das forças policiais e de comentaristas que legitimam a ação repressiva, tem demonstrado saber a diferença de valor entre uma vidraça e a integridade física de um ser humano.

Estado precário de direito

por Denise Queiroz

Imagem do blog Eu e meu chapéu

Os centavos que levam milhões de brasileiros às ruas desde abril são apenas a ponta perceptível do quanto estamos distantes de um ideal de Estado Democrático de Direito. A maneira como a tarifa dos transportes coletivos é reajustada é só uma mostra. Por imediatamente influírem nas contas do fim do mês das famílias com renda baixa e que vivem nas periferias de metrópoles mal administradas, catalisaram a insatisfação que se estende a muitas outras áreas públicas.

A forma nada transparente com que são definidos os reajustes, evidenciam o quanto as manobras jurídicas são usadas, cotidianamente, em palácios suntuosos que abrigam servidores públicos muito bem pagos pelo Estado (nós). Reflete a podridão de um sistema que raramente serve à maioria e sempre aos que, desde muito antes de sermos um Estado, o usam em seu benefício.

Um somatório de fatos e injustiças praticadas pelos poderes que deveriam zelar pela inclusão, justiça e mínima qualidade de vida a todos que, involuntariamente, sustentam a máquina estatal – os impostos são recolhidos por uma bala ou um carro de luxo –, transforma-se facilmente em revolta ‘contra tudo que está aí’. E não há argumentos racionais capazes de explicar que não é bem assim, pois a cada dia fica mais evidente que só os 'elegidos' usufruem de benefícios que deveriam ser de todos. E isso acaba pondo em xeque o que a maioria dos que tem mais de 40 anos viveram: a reconstrução da democracia. 

Embora o sistema eleitoral funcione e elejamos a cada dois anos representantes, o que nos autorizaria a dizer que estamos num sistema democrático e vivemos plena cidadania ainda está longe de ser conquistado. O Estado ainda é um ente inatingível e os serviços mais básicos não são prestados ou, o são com falhas tais que comprometem seu bom desempenho. A democracia e cidadania restritas a poucos momentos passam a ser conceitos abstratos, lindos nos discursos marqueteiros das campanhas, pouco palpáveis na prática.
  
Embora as exceções, quantos dos inquéritos minuciosamente investigados e preparados por servidores bem intencionados chegam a um julgamento em que a Justiça é realmente aplicada?

Desde a caixa preta das planilhas de reajuste das tarifas de transporte, passando pelas indecentes emendas parlamentares - que na prática servem como financiamento de campanhas para que os mesmos de sempre, quase todos péssimos representantes eleitos, continuem usufruindo de um Estado privatizado - até a pena para o roubo de uma galinha ser aplicada com rigor em contraste aos habeas-corpus para os grandes contraventores, expedidos em trajes íntimos durante a noite, a sensação de injustiça é o que se sente.

Esse é nosso Estado de Direito. E não importa o partido de plantão. A estrutura está podre na base. Estamos mais próximos de um estado bárbaro do que de um democrático de direito, uma vez que o acesso ao que as leis deveriam garantir, se restringe a uns poucos, os mesmos de sempre, aos que fazem o mesmo jogo, ao podre. Aos que se negam ou tentam outra forma, a velha desqualificação fulanizada se encarrega de jogar no lixo.

Tem horas que a vontade é ir morar no meio do mato, sem rádio e sem notícia das terras ‘civilizadas’. Não mudaria nada, mas certamente viveria mais feliz,  pois é muito triste constatar que o que levamos anos para tentar construir está sendo destruído, minuto a minuto, por acordos espúrios e pela falta total de um mínimo de ética de quem exerce o poder nas várias áreas desta república. E ainda regiamente pagos com o pouco dinheiro da maioria.  

08 agosto, 2013

Kreeg-ah! Bundolo!


por Willian Fagiolo

Já adivinhou né? Lembrou-se? Tarzan of The Apes (Tarzan dos Macacos).

Edgar Rice Burroughs, o genial autor de Tarzan, nasceu na cidade americana de Chicago, em 1875, e só foi escrever sua obra prima aos 37 anos, vendendo-a por modestíssimos US$ 700.

Sua vida, nada fácil. Para sobreviver teve que se alistar no exército. Se bem que não em qualquer regimento, mas na 7th U.S. Cavalry in Arizona, aquela do General Custer. Logo saiu. Trabalhou na Sears. Também não deu certo. Em seguida, de fracasso em fracasso, teve que penhorar as joias da mulher para poder comprar comida.

A história de Tarzan todo mundo sabe. Após a morte de seus pais em um acidente de avião em plena selva, o sobrevivente “Tarzan”, ainda bebezinho, é adotado por um grupo de macacos, na África do século XIX. O formidável é que Burroughs nunca foi à África, nunca pisou na selva. Sua obra foi o resultado da mais pura imaginação, inspiração, criatividade, talento. Vitória de neurônios sobre tutanos. Escreveu 24 livros sobre o Rei das Selvas. Com efeito, não é exagero considerar Tarzan o mais célebre herói de ficção do século passado, ultrapassando em popularidade outros heróis igualmente famosos, tais como Mickey Mouse, Super Homem, Flash Gordon, Mandrake, Fantasma, Príncipe Valente, entre tantos.

Admiravelmente genial, Burroughs, para dar credibilidade a sua história, criou sua própria espécie de símios, os MANGANI, inventando para eles uma “linguagem rudimentar”. Na verdade, seleta linguística, muitos estudos sobre fonética, semântica, semiótica. O próprio nome Tarzan significa neste apatacado (em minha modesta opinião) idioma dos macacos: "Pele Branca".

Não tire conclusões apressadas, tsk, tsk, tsk. Bundolo não é o cara que nasceu na tribo dos Bundomoles, não senhor e senhora, meus jovens! Eu estudei a complexa língua dos Manganis.

A frase mais famosa da língua Mangani, talvez por ser a mais repetida, é "Kreeg-ah! Bundolo" (adaptada no Brasil como Bandolo), que pode ser traduzida como: Perigo! Matar! Cuidado! Matar! Ou ainda: Perigo! Inimigo!

Na onda de Burroughs navegaram, de corpo e alma, o linguista Marc Okrand, que criou o idioma KLINGON para a megasérie “STAR TREK”, que maravilhou fãs do mundo todo, e o escritor J.R.R. Tolkien, professor em Oxford, que em 1954 e 1955 elaborou mais de quinze idiomas para as civilizações que aparecem em “O SENHOR DOS ANÉIS”.

Sabe cumequié, gênio atrai gênio. Harold Foster foi o primeiro desenhista de Tarzan, sendo sucedido por outro monstro sagrado dos quadrinhos, Burne Hogarth. Lendas! Qualquer dia desses posso tentar escrever sobre eles. Passei muitos dias e noites tentando desenhar alguma coisa parecida com o que faziam. Esqueçam.


O cinema não fez jus a Tarzan. Os desenhos de Hogarth e Foster sim. Que fique entre nós.

Falando em Tarzan, o que eu queria mesmo, antes de submergir nos abençoados gibis da minha infância, era falar da Lei-da-Selva que impera nos dias de hoje. Minha mãe, dona Alice, dizia que “as boas ações dificilmente saem de nossas casas, entretanto, as más viajam milhares e milhares de quilômetros”.

Notícias ruins? Futricas? Badamecos? Todos ficam sabendo em segundos.

Dá-lhes sal grosso!

Então, como eu ia dizendo: Lei-da-Selva...

Os seres vivos que se alimentam de outra espécie tem um nome: PREDADORES.

Os seres vivos que causam algum prejuízo às plantações, predando ou parasitando-as também tem nome: PRAGA.

A cadeia alimentar é um dos mecanismos que regula o número de indivíduos de uma dada população e, caso ocorra um desarranjo em qualquer um de seus elos, o sistema entra em desequilíbrio.

As serpentes, por exemplo, têm um papel significativo neste equilíbrio. Muitas delas alimentam-se de pequenos mamíferos, como os ratos, evitando que estes se tornem pragas. Sendo assim, é de fundamental importância mantê-las em seu ambiente, desempenhando seu papel de controle populacional. Você sabia que tanto a jiboia, que não é peçonhenta, como a jararaca, que é peçonhenta, alimentam-se de pequenos roedores? Em muitas fazendas, onde as serpentes foram eliminadas pelos moradores, as plantações são prejudicadas pelo excesso de ratos. Pois é. Esse perigoso desequilíbrio está atingindo nossas sociedades. Digo sociedade de seres humanos.

Numa mundo onde os empregos e as oportunidades escasseiam, dia após dia, o instinto selvagem acaba prevalecendo. Homem devorando homem. Na pré-história o homem estava entre as criaturas mais frágeis da natureza (mais para caça do que para caçador), sendo por isso forçado a desenvolver habilidades para sua sobrevivência, o que o levou à criação de utensílios, armas e, posteriormente, de sistemas sociais. O jogo da sobrevivência, da escassez, da falta de criatividade, do imobilismo, joga às favas tudo quanto se refere à dignidade, consideração, respeito e sentimento. Ou seja, espezinha o que há de mais sagrado em cada um: a humanidade.

A miséria e a violência, nas suas várias acepções, jorram livremente por todos os cantos. Rastejando por debaixo da mesa, os predadores, aos bandos, à espera que alguma migalha lhes precipite, se destroçam uns aos outros por alguns bagaços, por alguns restolhos.

Os comparsas do Leviatã, em exuberantes fotos digitais coloridas, achincalham-se com o deprimente espetáculo. Argh!!!

Em tempo, lembrei-me de Marina Silva. Veio da selva como Tarzan. Não é? Tenta encontrar uma nova linguagem. Mas acho que ela deveria esquecer essa história de nova linguagem. Nova linguagem é incompreensível para quem quer comida, trabalhar, se divertir, acreditar em alguma coisa e voltar para casa em paz!

06 agosto, 2013

Uma roda que muda

por Denise Queiroz



Desde ontem nota-se um discurso cambiante na TL do twitter, a minha com grande parte de seguidos e seguidores militantes do PT. Embora desde junho, quando ‘as ruas’ ganharam outro significado que o de vias para trânsito ou endereço, e os ataques desclassificatórios da grande imprensa evidenciassem que o que estava lá eram as velhas pautas abandonadas pelos partidos de esquerda que assumiram o poder em 2002, parte da militância lhes fazia coro.

A ‘cegueira coletiva’ impedia alguns, que reconhecidamente tem alguma influência e relevância opinativa, de ver o evidente, colocado em posts em todas as redes, por parte de pessoas que estão diretamente relacionadas e atuando junto aos movimentos sociais que não fazem parte da agenda oficial.

Desde a semana passada, no entanto, talvez por insistência de alguns poucos visionários, ou pela divulgação de que o pessoal da mídia ninja é ligada ao movimento Fora do Eixo, (veiculado como crítica a eles) que aos poucos o discurso foi mudando. Em tempo.

Assinalar isso soa como chover no molhado. Mas temos que assinalar. Impressiona que, embora grande parte dessas pessoas entendam e postem milhares de alertas sobre a necessidade -cada vez mais premente- de regular a mídia, tenham levado tanto tempo e precisado de um programa em rede nacional para entender que o que está posto é regulação da mídia na prática, uma vez que pelos meios que espera-se numa democracia representativa (projeto de lei, discussão no congresso, votação, aprovação) essa regulação nunca virá... pelo menos não enquanto o sistema for mantido com essa representatividade vendida ao capital.

Agora falta ainda a alguns ‘formadores de opinião’ junto à militância das redes sociais, entender que o que foi mostrado pela mídia ninja e por aqueles posts, que foram antes desqualificados, é a realidade deste país.

As ruas, embora ainda num caldo morno e amorfo, mostraram que esse sistema - econômico, democrático, de organização da sociedade, ao qual os governos, em sua maioria, dão sustento - não serve. Entender que o que ‘as ruas’ querem é não mais o reformismo para adequar, e sim uma mudança estrutural. Aquilo que esses mesmos ‘formadores de opinião’ sempre quiseram, mas, uma vez no poder, em vez de lutar para que a transformação ocorresse, acabaram por usar um molde que se mostra vazado. 
Pois o caldo escorreu do molde e está tomando outra forma. Imperfeita, por enquanto, mas melhor que um molde que não serve mais. Ajudar a moldá-la será mais produtivo que tentar colocar em vidrinhos com rótulos velhos.

Leia: (no imperativo mesmo) Mídia Ninja e Casa Fora do Eixo: a explosão do novo


31 julho, 2013

O "Trenzão" do PSDB




por @Bob_Fernandes

O Movimento Passe Livre centra sua luta nos transportes públicos. E por isso volta às ruas a 14 de agosto. Volta por conta de uma denúncia: ao longo dos últimos 20 anos, num esquema de cartel e corrupção, governos do PSDB em São Paulo teriam lesado os cofres públicos em R$ 425 milhões.

O esquema teria sido montado para vencer concorrências na área de metro e trens. Com envolvimento de políticos e funcionários públicos de governos do PSDB paulista.

A investigação nasceu da devassa feita, no exterior, em duas multinacionais do setor: a francesa Alstom e a alemã Siemens. Com confissão de ex-funcionários, na justiça. Por lá já tem gente demitida e presa.

A Alstom aponta distribuição de US$ 6,8 milhões para integrantes do tucanato paulista entre 1998 e 2001. Um ex-funcionário da Siemens revelou: de outro contrato superfaturado, algo como R$ 46 milhões seguiram para gente do PSDB.

No Brasil, a denúncia é fruto de acordo feito pela Siemens com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Em troca a multinacional ganha imunidade.

O uso do futuro do pretérito composto -teria, teriam, seriam- é uma imposição elementar do jornalismo. Isso são denúncias. Denúncias sobre o que seria um propinoduto tucano, mas não são fatos já julgados.

Será preciso, via ministério público e Justiça, investigar e apontar quem é culpado e quem é inocente. É claro que isso terá desdobramentos na política; o chamado "mensalão" do PT, por exemplo, está em cartaz há 9 anos.

O que não se deve esperar é o mesmo empenho, a mesma gana e, principalmente, o mesmo barulho. Cinco mil dólares na cueca de um petista é algo espetacular. Ir ao banco com carteira de identidade e receber 20 ou 50 mil de um "por fora" é também espetacular; além de ser crime, é rudimentar e é hilário enquanto método.
Tudo isso e muito, muito mais, alimentou o espetáculo do "mensalão". E o problema é do PT, que se enfiou nessa porque quis. Mas admitamos: R$ 425 milhões, com multinacionais e corrupção, é também enredo espetacular. Do PSDB.

A diferença está, estará na disposição de se ir a fundo nesse "trenzão" tucano. No investigar, noticiar e reverberar até a punição.

No Brasil tem os escândalos que existem. E tem escândalos que não se quer que exista. Para estes, reserva-se o estrondoso silêncio.

A propósito, recordemos o que disse Paulo Vieira de Souza, que depôs na CPI da Delta/Cachoeira. Em entrevista à Revista Piaui, o ex-diretor do Dersa paulista escancarou: "Por que a CPI proibiu abrir as contas do eixo Rio-São Paulo? Porque se abrir, cai o Brasil."

30 julho, 2013

Brasil: protestos por cidadania e direitos

Protestos foram registrados em todo país nos últimos dois meses

por @felippe_ramos
do Opera Mundi


Para compreender a conjuntura política do Brasil hoje e os protestos que tomaram as ruas em junho, é necessário desfazer três leituras equivocadas ou insuficientes: (a) sobre a realidade socioeconômica do Brasil; (b) sobre a composição, forma e orientação político-ideológica das manifestações de junho; (c) sobre o papel que deve e pode desempenhar a esquerda organizada face aos novíssimos movimentos sociais e as manifestações que eclodiram sem liderança identificável.

Após dez anos de governos encabeçados pelo Partido dos Trabalhadores (PT), o Brasil apresenta um cenário socioeconômico mais favorável do que o período neoliberal (década de 90). O boom das commodities iniciado em 2003 permitiu ao país viver um ciclo de expansão de exportações agrícolas e minerais para mercados asiáticos emergentes, principalmente a China, que passou a ser o principal parceiro comercial do Brasil.

Com mais divisas, equilíbrio macroeconômico e superávits comerciais sustentados, o presidente Lula, eleito nessa nova conjuntura macroeconômica, contou com a fortuna necessária para todo bom governo e soube administrar o país com a virtude do grande líder. A partir de uma correta (mas não a única possível) leitura da realidade (estrutura e conjuntura), o líder acabou por criar as condições da construção de uma nova hegemonia política que passou a ser nomeada lulismo e que consiste na constituição de uma ampla coalizão de partidos políticos, movimentos sociais, elites econômicas e grupos de interesse, capaz de promover a redução da miséria e da pobreza sem tocar em interesses fundamentais do topo da pirâmide social.

As políticas de transferência emergencial de renda (Bolsa Família) e a valorização do salário mínimo possibilitaram o crescimento do mercado interno, o que contribuiu, por meio de políticas anti-cíclicas por parte do governo, para proteger o país da crise econômica mundial eclodida em 2008. Essas políticas simultaneamente respondiam demandas das classes mais baixas (D e E) por inclusão social e demandas das classes mais altas (A e B) por equilíbrio e crescimento econômico.

A grande incógnita passou a ser a classe C, principalmente setores com mais renda nessa classe, que antes votava no PT e que passou a buscar uma terceira alternativa à alternância PT-PSDB. O grande pacto de classes permitiu, nesse sentido, uma gestão macroeconômica conservadora que não afetava interesses do grande capital, ao mesmo tempo em que impulsionava políticas sociais que recolocavam o Estado como importante agente indutor do desenvolvimento. Alguns autores chamam a isso, de forma um tanto imprecisa, de pós-neoliberalismo.



Alguns protestos acabaram se tornando verdadeiras praças de guerra

A fórmula lulista foi bem sucedida e reequilibrou a hegemonia política no país ao inserir não apenas as classes D e E do ponto de vista econômico, mas ao abrir oportunidades políticas aos atores com origem em movimentos sociais diversos (sindicais, estudantis, luta pela terra, minorias, etc.). Quadros administrativos e políticos em distintos escalões passaram a ser compostos por indivíduos com lealdades políticas diferentes do núcleo da hegemonia conservadora do pacto, o que possibilitou e legitimou a existência de conflitos intra e inter-institucionais que deram vigor e dinâmica ao próprio projeto que foi sempre tocado ao sabor da instável e mutante correlação de forças.

A tática foi lotear o aparato do Estado entre os interesses, de acordo com a força política dos agentes políticos: por exemplo, Ministério da Agricultura para o agronegócio; Ministério do Desenvolvimento Agrário para a reforma agrária e a agricultura familiar. O discurso na esquerda foi o de que o governo se encontrava em disputa e de que não haveria alternativa politicamente viável mais à esquerda. Era preciso, então, apoiar as pautas progressistas e combater as pautas conservadoras, mas sempre dentro da coalizão.

Do ponto de vista da esquerda e da contestação, portanto, o pacto lulista significou uma oportunidade política de acesso parcial ao Estado e ao poder, mas com o custo da desmobilização e o risco da burocratização dos principais movimentos sociais e políticos forjados na luta pela redemocratização (anos 80) e contra o neoliberalismo (anos 90).

O problema político evidenciou-se quando o lulismo chegou ao seu esgotamento (se parcial ou total só será possível afirmar com as eleições de 2014), cujo marco foi a eclosão das manifestações espontâneas de massa em junho de 2013. A fórmula lulista do pacto amplo possibilitou a inserção econômica de amplos estratos populacionais antes excluídos, mas essa inserção se deu basicamente via consumo. O aumento da capacidade individual de consumo de bens básicos e supérfluos significou, para aqueles que se beneficiaram, um aumento de bem-estar e ao mesmo tempo garantiu a ampliação do mercado interno, o que agradou a indústria nacional.

No entanto, a mesma fórmula lulista do pacto amplo também impediu que políticas públicas mais ousadas de promoção da cidadania e de ampliação de direitos fossem tomadas. Isto é, a fortuna e a virtude lulistas tinham um limite: a inserção deveria acontecer, primordialmente, pelo consumo e pela lógica do privado e não pela cidadania ou pela lógica do bem público.

A expansão do público se observou, mas apenas sob duas condições: (a) quando o aumento do gasto acompanhava o aumento da arrecadação e o respeito a “responsabilidade fiscal” e (b) quando se tratava de atribuição direta, mas não exclusiva, do governo federal, como no caso do fortalecimento das universidades federais. Isso não impediu, contudo, que o ensino superior privado crescesse mais do que o público e tampouco significou uma melhoria significativa do ensino básico, relegado a cada conjuntura estadual e ao pacto de governabilidade com os governadores. O mesmo poderia ser dito sobre a saúde: o fortalecimento do SUS não retira a ninguém o desejo de ter um bom plano de saúde privado.



Manifestantes aproveitaram o momento de tensão para saquear lojas

Foi justamente um desafio à lógica do privado em detrimento do público o recado que primeiro emanou das ruas durante os protestos e que levou multidões às manifestações de junho. A negativa popular ao aumento do valor da tarifa do transporte público em São Paulo foi o estopim de um imenso número de demandas e pautas que mais à frente apareceriam escritos à mão nos cartazes de cartolina exibidos nas ruas de todo o país. Dessa multiplicidade, no entanto, podem ser extraídas as categorias temáticas: educação pública, saúde pública, direito à cidade e mobilidade urbana, segurança pública e redução da violência e da criminalidade, direito à habitação e moradia, combate à corrupção.

As bandeiras mais reacionárias e conservadoras, destacadas por alguns com o objetivo de deslegitimar o grito das ruas, foram, na verdade, limitadas e pouco representativas, ainda que inevitáveis, dado o caráter descentralizado e horizontal dos protestos, composto majoritariamente por jovens neófitos em manifestações e influenciados pela cultura de massa e pelo cartel ideológico dos meios de comunicação. A leitura mais abrangente dos cartazes à mostra revela, contudo, certa coerência na polifonia das ruas: a demanda é pelo público. Os partidos políticos de esquerda e os movimentos sociais tradicionais não tinham condições políticas nem legitimidade para liderar tais protestos, justamente pelo fato de terem composto e legitimado o governo que resolveu parcialmente os problemas sociais, mas que também cristalizou os limites para qualquer solução mais radical e profunda.

A adesão, desmobilização, burocratização, institucionalização e/ou cooptação dos movimentos sociais e partidos de esquerda nos governos Lula e Dilma possibilitaram os ganhos socioeconômicos obtidos pela nova classe trabalhadora em um contexto de consolidação democrática, mas também impediram que esses grupos dirigissem a overdose de pautas fragmentadas emanadas das ruas que são fruto do passivo do pacto conservador.

Quando a presidenta Dilma Rousseff manifestou-se publicamente pela segunda vez desde a eclosão dos protestos soube evitar que a agenda fosse ditada por interesses escusos dos meios de comunicação (Rede Globo) e contrariou leituras de eminentes personalidades de seu próprio partido (a tese de que as manifestações expressavam a tríade “golpe, fascismo e direita”). Mas ao proclamar um pacto com governadores, prefeitos e sociedade civil, o primeiro dos cinco pontos – responsabilidade fiscal – evidencia que, a despeito de haver percebido a necessidade de fazer política ao invés de uma gestão supostamente técnica, o lulismo segue ditando as respostas políticas: a análise da conjuntura e da correlação de forças do momento orienta o desenho da ação cirúrgica para curar os efeitos desestabilizadores.

De fato, o recado das ruas era claro ao pedir políticas que teriam como consequência a elevação do gasto público em detrimento da política de austeridade (corte de gastos e elevação da taxa básica de juros) que vem sendo implantada pelo governo. No entanto, segundo a fórmula lulista, as respostas governamentais às demandas populares são aceitáveis, legítimas e até desejáveis, desde que não afetem interesses consolidados dos interesses rentistas e oligopólicos que dominam a estrutura econômica. Por isso os demais pontos do pacto proposto (transporte público, saúde, etc.) devem se subordinar ao primeiro (responsabilidade fiscal), inserido por pressão dos grupos dominantes e dos governadores e prefeitos, ainda que contra a vontade manifesta das ruas.

A nova classe trabalhadora, uma vez beneficiada pela inclusão no mundo do consumo, deseja direitos e cidadania: percebeu que a vida melhorou da porta da casa para dentro, mas segue desagradável da porta da casa para fora – no espaço público. Mas está claro também que o fôlego e o alcance dos protestos realizados de maneira espontânea é limitado. Sem a organização profissional do movimento exigida pelo mundo da política, a fiscalização cotidiana do poder não acontece e após os sintomas de febre e convulsão, o corpo político, que ensaiava mudanças de hábito, tende a voltar ao normal: a reforma política e o plebiscito provavelmente serão engavetados. O recado, no entanto, foi dado à esquerda e ao governo: o povo quer mais e quando sair para protestar já não será sob o seu comando.
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* Felippe Ramos é sociólogo, diretor do Instituto Surear

A construção de uma nação de telespectadores


imagem revista Trip

do Le Monde Diplomatique 
por Lamia Oualalou* 

Promovidas sob a ditadura para conectar o país, as novelas brasileiras evoluíram. Acompanhadas pelo conjunto da população, elas representam um espelho para uma sociedade em efervescência. A transformação do gigante não pode ser resumida pela divisa “ordem e progresso”, como mostram as recentes manifestações de rua.
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"Não vai ter ninguém!” A equipe da campanha de Fernando Haddad, à época na corrida pela prefeitura de São Paulo, foi clara: a presidente Dilma Rousseff não poderia pensar seriamente em organizar um comício para apoiar o candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) naquela sexta, 19 de outubro, exatamente na hora em que seria transmitido o último episódio de Avenida Brasil, a telenovela sensação da Rede Globo. Naquela noite, dezenas de milhões de brasileiros assistiriam ao confronto final entre as duas heroínas, Nina e Carminha, a fim de finalmente saber quem matara Max. Convencida, a presidente adiou o evento para o dia seguinte.

Avenida Brasil parece ter voltado a atingir as massas, marcando o retorno da reunião da maioria das famílias diante da telinha. Um desafio quando se lembra de que a telenovela brasileira, ou simplesmente novela, como preferem chamá-la por aqui, celebrou seu sexagésimo aniversário em 2012.

Quando a televisão surgiu no Brasil, as soap operas norte-americanas já tinham conquistado Cuba via Miami. E foi naturalmente para os autores da ilha, amedrontados pela revolução, que se voltaram as redes de TV, a começar pela pioneira, a TV Tupi. Dessa forma, O direito de nascer, lançada em 1964, foi uma adaptação do folhetim radiofônico homônimo que inundara as ondas da ilha caribenha em 1946. Como em Cuba, o folhetim teve um fim, enquanto nos Estados Unidos se prolongou por décadas. Pela primeira vez, a vida parava em São Paulo e no Rio de Janeiro por meia hora, várias vezes por semana... mas não ao mesmo tempo. A novela ainda não era diária e a transmissão em rede não existia: tão logo o episódio ia ao ar em São Paulo, a gravação era encaminhada por avião ou carro para o Rio de Janeiro, então a capital do país.

Na época, as tramas eram propositadamente exóticas, como evidenciado por títulos comoO rei dos ciganos, O sheik de Agadirou A Ponte dos Suspiros. Em 1968, Beto Rockfellermarcou uma ruptura. Pela primeira vez, o herói vivia em São Paulo. Ele trabalhava em uma loja de calçados em uma rua popular da metrópole, mas fingia ser um milionário que morava em outro endereço. Com um vocabulário do dia a dia, referências às coisas boas e aos desafios do Brasil urbano, ainda mais visíveis pelo fato de algumas cenas serem filmadas ao ar livre, a novela mudou de cara. “A partir daí, ela passou a incorporar as questões sociais e políticas do Brasil, enquanto no México ou na Argentina o tema continuava sendo os dramas familiares”, diz Maria Immaculata Vassallo de Lopes, que coordena o Centro de Estudos de Telenovela da Universidade de São Paulo (USP).

Em seguida, surgiu a TV Globo, que se apoderou do formato. Tanto assim que, de acordo com Bosco Brasil, um ex-autor da rede, “quando se fala em ‘novela brasileira’, se pensa em ‘novela da Globo’”. Nascida em 1965, um ano após o golpe militar, a rede é principalmente o resultado do gênio político de Roberto Marinho, herdeiro de um grande jornal, O Globo, mas sem influência nacional. Ele entendeu como era estratégico para a junta militar alcançar a integração do território. Enquanto para Juscelino Kubitschek (1956-1961) esta passava pela construção de uma rede de estradas, os militares, no poder de 1964 a 1985, iriam apostar na mídia. E, nessa área, a Globo seria uma peça central: “Do ponto de vista econômico, ela desempenhou um papel essencial na integração de um país de dimensões continentais, por meio da formação de um mercado consumidor. Do ponto de vista político, sua programação levou uma mensagem nacional de otimismo ligado ao desenvolvimento, crucial para apoiar e legitimar a hegemonia do regime autoritário”,1analisa Venício de Lima, pesquisador de comunicação da Universidade de Brasília.

Muitos outros vindos do teatro

Com o tempo, a rede criou “um repertório comum, uma comunidade nacional imaginária”, explica Maria Immaculata. Em 2011, 59,4 milhões de famílias, ou seja, 96,9% do total, tinham um televisor, e cada brasileiro consumia em média 700 horas de programas da Globo a cada ano. Embora um gaúcho, mais próximo dos argentinos em seu estilo de vida, não tenha muito a ver com um pescador da Amazônia ou um agricultor do Nordeste, todos compartilham hoje o sonho de conhecer o Rio de Janeiro, principal cenário dos folhetins globais, ou de vestir a camisa branca e o cinto dourado de Carminha. A identificação é mais fácil quanto menos nítida é a fronteira entre ficção e realidade. Quando os brasileiros comemoram o Natal, seus heróis na telinha fazem o mesmo. O desmoronamento, real, em janeiro de 2012 de um prédio no Rio de Janeiro foi comentada pelos personagens da novela Fina estampa nos dias seguintes. E quando, durante um episódio, um eleito fictício é enterrado, políticos reais concordam em se deixar filmar ao redor do caixão.

Jovens e velhos, ricos e pobres, analfabetos e intelectuais: todos devem poder se contemplar no espelho. De acordo com a psicanalista Maria Rita Kehl, “essas imagens únicas que percorrem simultaneamente um país tão dividido como o Brasil contribuem para transformá-lo em um arremedo de nação, cuja população, unificada não enquanto ‘povo’, mas enquanto público, articula uma linguagem segundo uma mesma sintaxe”.2

A inegável benevolência dos militares não explica por si só como a Globo conseguiu impor essa sintaxe. Nas horas de maior audiência, a rede alcança a proeza de transmitir produções próprias: na França, nessas faixas de horário, com frequência são as séries norte-americanas que triunfam. “Tudo isso é baseado em um verdadeiro talento artístico e técnico, que se concentrou na novela”, diz Mauro Alencar, professor de Teledramaturgia Brasileira e Latino-Americana da USP. Ao decidir fazer da novela o cerne de sua rede, Roberto Marinho abraçou um desafio. Ironicamente, a ditadura lhe facilitou a tarefa, posto que a censura proibia bons dramaturgos, muitos deles de esquerda, de montar suas peças. Assim, autores como Dias Gomes, Bráulio Pedroso e Jorge Andrade se viram trabalhando para o “doutor” Marinho e para a televisão, que antes desprezavam.

Contra todas as probabilidades, esses grandes nomes descobriram que uma liberdade verdadeira lhes era oferecida pelos dirigentes da rede, que concordavam em enfrentar os censores. A Globo já tinha rodado 36 capítulos de Roque Santeiro, de Dias Gomes, quando a novela foi proibida. Ela conheceria um sucesso retumbante ao ser refilmada, dez anos depois, em 1985, após o advento da democracia. Em 1996, O rei do gado, de Benedito Ruy Barbosa, foi uma elegia à reforma agrária que deu visibilidade sem precedentes ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

“Já faz 35 anos que trabalho para a Globo, sou autor de dezessete novelas e nunca ninguém me disse o que eu deveria fazer. Sempre fui totalmente livre “, testemunha Silvio de Abreu, um dos principais autores da rede. Para Maria Carmem Jacob de Souza Romano, professora de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, “os grandes autores têm um poder de barganha, é claro. Eles dão mostras de bom senso e não podem transformar a novela em discurso social, mas podem abordar temas que lhes são caros, se o sucesso vai ao encontro disso”.

A partir do centro do Rio, é preciso viajar uma boa hora de carro, com trânsito bom, para chegar ao Projac, a fábrica de sonhos montada pela Globo em Jacarepaguá, na zona oeste da cidade. Mais de 1,65 milhão de metros quadrados, dos quais 70% de floresta, permitem à rede concentrar, desde 1995, todas as etapas da produção de uma novela. “Antes, as filmagens eram divididas em vários estúdios por toda a cidade. Concentrar tudo permite uma enorme economia de tempo e de dinheiro”, explica Iracema Paternostro, gerente de relações públicas, mostrando uma maquete das instalações.

É preciso um carro para fazer o tour. Ali, um edifício agrupa as equipes de pesquisa encarregadas de compilar os arquivos e os estudos de mercado. Um pouco mais adiante, os figurinos são desenhados, costurados e cuidadosamente conservados para serem utilizados no futuro. Em seguida, entra-se em uma gigantesca oficina de carpintaria, na qual são elaborados os móveis e os cenários imaginados a alguns metros dali: um salão do século XIX, um trem do metrô – tudo em partes, para que se possa montá-los em algumas horas, em um dos quatro estúdios de mil metros quadrados, onde as novelas são gravadas todos os dias do ano. As peças serão, então, desmontadas e guardadas para filmagens futuras ou destruídas para serem recicladas.

A leste do território se encontra a cidade cinematográfica, com alguns equipamentos permanentes, como uma curiosa igreja que dispõe de uma fachada tríplice: uma barroca, outra italiana, outra portuguesa. “Sempre precisamos de uma igreja”, brinca Iracema, referindo-se ao casamento inevitável do episódio final. Atrás, há pedaços de cidade que são erguidos por nove meses, a duração média de uma novela. Como a metade da ação de Salve Jorge, veiculada no início de 2013, se passava na Turquia, a direção de arte reconstituiu uma pequena Istambul, observando os menores detalhes: um cartaz rasgado, um livro caído de uma biblioteca, uma chaleira tradicional. Para instalar esse cenário, milhares de fotos foram tiradas no local e uma batelada de objetos típicos foi levada para o Rio de Janeiro. As equipes também filmaram horas do cotidiano do lugar, os vendedores de rua, o fluxo dos carros. Durante a montagem, as imagens, sempre panorâmicas, eram encaixadas nas cenas filmadas na cidade cinematográfica. A ilusão funciona perfeitamente. E o processo não é usado apenas para destinos distantes: ao lado da pequena Istambul, há um labirinto de ruas recriado em 1.800 metros quadrados do Complexo do Alemão, uma das maiores favelas do Rio de Janeiro. Também nesse caso acreditamos estar no lugar real. A Globo chegou a contratar Adriana Souza, uma vendedora de empadas, para vender seus produtos no cenário de papelão, como faz na favela.

Tocar todas as classes sociais

O segredo do sucesso da Globo é sua capacidade de industrializar todas as fases da criação, para conseguir transmitir todos os dias pelo menos três novelas, cada uma com algo entre 140 e 180 episódios de quarenta minutos, durante seis a nove meses. Para cada horário, sua atmosfera, segundo um modelo não modificado desde 1968: a novela das 18 horas aborda um tema leve; a das 19 horas é com frequência cômica; as questões sociais e os dramas ficam reservados para a das 21 horas, o horário nobre. Quanto à história, ela muitas vezes retoma as receitas típicas do melodrama, girando em torno da questão da família, da identidade – ignorada ou usurpada, levando à procura do pai ou da mãe – e da vingança.

Produzir uma novela custa caro: cerca de US$ 200 mil por episódio, de acordo com estimativas de Maria Immaculata. “Uma forte tendência nos últimos anos é o remakedos grandes sucessos do passado”, explica Nilson Xavier, autor do Almanaque da telenovela brasileira (Panda Books, 2007). “Uma escolha idiota” aos olhos de Gilberto Braga, um dos mais cortejados autores da Globo. Para ele, “não há uma receita que funcione todas as vezes”.

Quando sua proposta é aprovada, o autor envolve um punhado de auxiliares que escrevem uma parte dos diálogos e das cenas num ritmo frenético. Cerca de trinta episódios são gravados antes do lançamento. Desde os primeiros dias de exibição, a reação do público é cuidadosamente auscultada, seja por meio de pesquisas, seja em redes sociais. “A novela é uma obra aberta”, explica Flavio Rocha, um dos diretores da Globo. “Um casal pode parecer pouco convincente aos olhos do público e, eventualmente, desaparecer, enquanto um personagem secundário pode tornar-se central, se alcançar mais sucesso. O autor se adapta.”

O discurso sobre a “obra aberta” é um mito cultivado pela Globo. Porque, antes de deixar sua imaginação divagar, os autores são convidados a pensar nos custos de produção: idealmente, as cenas que vão acontecer em uma sala devem ser escritas com antecedência, para serem filmadas em sequência, antes da destruição do cenário e de sua substituição por outro no estúdio. Os atores encadeiam assim durante uma mesma tarde a gravação de cenas dos episódios 8, 22, 24 e 42. Somente aqueles que estão acostumados a esse tipo de filmagem conseguem se encontrar na trama.

Trabalhar com uma estrela é um quebra-cabeça para o autor: alguns atores fazem constar no contrato que só irão ao Projac às terças e quintas ou exigem uma fortuna para reformular sua programação. Eles também querem concentrar suas cenas em um mesmo dia. “É por essa razão, por exemplo, que os principais personagens nunca se divorciam: isso poderia forçá-los a deixar sua casa, que constitui o cenário principal, e a gravar em uma infinidade de outros”, diverte-se um autor sob o manto do anonimato. O texto deve ser simples e bastante repetitivo para que o espectador possa se reconectar com a história depois de perder alguns episódios. Mas os personagens não são menos complexos, e a narrativa – que muitas vezes remete a um rico patrimônio literário – é suficientemente sofisticada para assombrar a sociedade por anos após sua transmissão.

Também é necessário atingir todas as classes sociais: “É o imperativo da novela, como também o do jornal televisivo da Globo. E, no entanto, escrever para todos é aparentemente um contrassenso. Raros são os que conseguem isso”, ressalta Bosco Brasil. Ser autor de novela não é para qualquer um: “Entre 1989 e 2004, 25 novelas foram veiculadas no horário nobre, e elas foram assinadas por apenas seis autores, alternadamente”, confirma Maria Carmem. O salário dos membros desse clubinho ultrapassa muitas vezes os R$ 250 mil por mês.

Uma fortuna para alguns, mas uma soma insignificante diante do que se ganha com esse produto artístico e comercial. Estima-se que uma publicidade de trinta segundos durante a novela no horário nobre custe em torno de R$ 350 mil. Mas, para o último capítulo deAvenida Brasil, o preço dobrou. Naquela noite, o episódio durou setenta minutos, quase duas horas, levando em conta os comerciais. Entre os anunciantes nacionais e regionais, quinhentos espaços foram vendidos.

O espelho da modernidade funciona ainda melhor quando incorpora um discurso pedagógico sobre as principais causas apoiadas pela rede e por seus autores. Estudos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID)3 estimam que as novelas desempenharam um papel importante na redução significativa do número de nascimentos – a taxa de fertilidade caiu 60% desde os anos 1970 – e na quintuplicação dos divórcios.4 A leucemia de Camila, personagem de Laços de família, exibida em 2000, causou uma explosão de doação de órgãos. “Algumas novelas também têm contribuído grandemente para a aceitação da homossexualidade”, acrescenta Silvio de Abreu, lembrando que a Globo dispõe de um departamento encarregado de sugerir temas de sociedade.

Muitas vezes politicamente correto, esse “merchandisingsocial” é uma marca comercial da novela brasileira e, sem dúvida, contribui para promover o debate na sociedade. Para a Globo, o maior conglomerado midiático da América Latina, controlado unicamente pela família Marinho, “é também uma forma de oferecer uma boa imagem, a de uma rede privada preocupada com uma missão de serviço público”, estima Maria Carmem. Por sua vez, Mauro Alencar confia que o velho lema da Globo, “A gente se vê por aqui”, e o atual, “A gente se liga em você”, “não são apenas sloganspublicitários: eles demonstram a intensa relação de identificação do público e o interesse da rede pelos grandes temas nacionais”.

Manter essa relação não é simples. Por um lado, porque, se a Globo continua sendo a rainha indiscutível da novela, com as outras redes simplesmente copiando seu modelo de produção, sem ter os meios para colocá-lo em prática, ela sofre hoje em dia com a concorrência da internet e o desinteresse de alguns jovens. Até os anos 1970, as pontuações médias da audiência de novelas com frequência ultrapassavam os 60%, quando não chegavam aos 80%. Hoje, captar o interesse de 40% dos lares representa um sucesso. Em 2012, a audiência total da Globo atingiu o nível mais baixo da história, com uma queda de 10%5 – que, certamente, atingiu todas as redes. “O problema é que assistimos à novela no computador, no telefone, e ainda não temos nenhum instrumento de medição para essas mídias”, argumenta Mauro Alencar.

Na verdade, contra todas as expectativas, a queda da audiência não implica redução de benefícios: as novelas rendem mais do que nunca. Nas agências de publicidade, reconhece-se que isso é em parte o resultado de certa inércia. Tal como acontece na imprensa escrita, é mais fácil levar os anunciantes a concentrar seu orçamento em alguns títulos, sem prestar atenção em seu menor impacto. E essa ilusão é alimentada pelo fato de que a novela tem contaminado todas as áreas: dezenas de revistas são dedicadas a ela, as redes sociais mantêm o suspense, para não mencionar os especialistas de todo tipo convidados a falar sobre o fenômeno em outros programas da rede, mas também nas colunas do jornal O Globo, bem como nas rádios e em outros canais ligados ao grupo, uma sinergia pouco estudada nas universidades. “Cada vez mais falamos e ouvimos falar da novela, sem necessariamente assistir a ela”, constata Bosco Brasil.

Especialmente porque a sociedade brasileira mudou dramaticamente ao longo dos últimos dez anos, com a saída da pobreza de cerca de 50 milhões de pessoas, alçadas ao mercado de consumo de massa, e uma redução significativa das desigualdades. “São famílias cujo poder aquisitivo aumentou consideravelmente. Torna-se mais interessante investir em publicidade ou ações de merchandising”, ressalta Mauro Alencar.

Empregadas domésticas como heroínas

Essa é também uma das razões do enorme sucesso de Avenida Brasil, que deve seu nome à via rápida que liga os subúrbios do norte à zona sul do Rio de Janeiro, rica e turística. Não foi tanto o enredo – uma jovem criada em um aterro municipal pretende se vingar por ter sido abandonada por sua madrasta, que se tornara rica – que se mostrou decisivo, e sim o surgimento de um novo tipo de protagonista. As tradicionais cenas nas praias de Ipanema ou de Copacabana e nos bairros mais exclusivos do Rio de Janeiro foram substituídas por um mergulho em um bairro fictício, Divino, típico da classe média baixa da zona norte da cidade. Essa não é a primeira vez que os pobres estão representados; mas, em geral, seu único sonho, que se realizava no happy end, era conseguir acesso ao Rio rico e ilustre. Não em Avenida Brasil: Tufão, o herói, transformado em milionário graças ao futebol, permanece no bairro de sua infância. Ali, as pessoas falam alto e não sabem usar os talheres corretamente, mas ele gosta. Sucesso enorme junto ao que o governo tenta descrever como uma “classe média emergente” (mas que continua sendo mais um “segmento pobre” da população ativa),6 que se vê representada pela primeira vez como próxima dos mais ricos, que têm assim acesso a um mundo desconhecido.

Esse coquetel de orgulho em uns e de curiosidade em outros também explica o sucesso de Cheias de charme(2012), cujas heroínas são três empregadas domésticas: algo nunca visto. “Até então, era um personagem secundário e muitas vezes caricatural: a empregada que se mete em tudo na vida da patroa, sem existência própria”, diz Nilson Xavier. Entre o aumento do salário mínimo, que passou R$ 200 a R$ 678 entre 2002 e 2013, e o aumento do nível de ensino – a proporção de jovens de 19 anos que foram escolarizados por pelo menos onze anos aumentou de 25,7% em 2001 para 45% em 2011 –, o equilíbrio de forças começou a mudar na sociedade, levando os autores, Filipe Miguez e Izabel de Oliveira, a imaginar esse cenário. “Antes, a empregada aparecia somente em sua função. Decidimos segui-la em sua vida, em sua casa, na rua, em seus sonhos”, conta Miguez. Mais uma vez, o sucesso foi ter conseguido não mexer com os mais ricos, de ideias bem pouco progressistas, como observado pelo autor: “Fizemos uma pesquisa que colocava perguntas como: ‘Você acha certo que uma empregada suba no mesmo elevador que você?’, e a maioria respondeu que não. É esquizofrênico: como ela é a empregada, não pode usar seu elevador ou seu banheiro, mas pode cuidar de seu filho!”.

Nos escritórios do Projac são muitos a se debruçar sobre as mudanças econômicas e tecnológicas que sacodem o país, e Silvio de Abreu dá uma de filósofo: “Eu não tenho bola de cristal para prever o futuro da novela, mas uma história bem escrita sempre vai fascinar o público. Tanto faz que ela seja vista no ônibus, na internet, em um telefone, para mim nada vai mudar: eu vou sempre me levantar às 7 da manhã e escrever até a meia-noite, para produzir um capítulo por dia”.

*Lamia Oualalou é jornalista


1 Venício de Lima, Mídia. Teoria e política, Fundação Perseu Abramo, São Paulo, 2001.
2 Alcir Henrique da Costa, Maria Rita Kehl e Inimá Ferreira Simões, Um país no ar, Brasiliense, São Paulo, 1986.
3 Eliana La Ferrara, Alberto Chong e Suzanne Duryea, “Soap operas and fertility: evidence from Brazil” [Novelas e fertilidade: evidências do Brasil], Banco Interamericano de Desenvolvimento, Washington, 2008.
4 Alberto Chong e Eliana La Ferrara, “Television and divorce: evidence from Brazilian novelas” [Televisão e divórcio: evidências de novelas brasileiras], Banco Interamericano de Desenvolvimento, 2009.
5 “Globo fecha 2012 com pior ibope da história”, Midianews, 3 jan. 2013. Disponível em: .
6 Marcio Pochmann, Nova classe média? O trabalho na base da pirâmide social brasileira, Boitempo, São Paulo, 2012.


28 julho, 2013

Quem está ganhando é "o centrão"






por Marco Weissheimer
do Sul21

O governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, foi um dos raros casos de políticos brasileiros que colocou a cara para bater durante as manifestações de rua que sacudiram o país em junho e julho deste ano. No calor dos protestos, promoveu reuniões, entrevistas coletivas, audiências públicas, convidou os jovens manifestantes para debater e ouviu diretamente, sem nenhum filtro, críticas destes à atuação das forças de segurança e sobre outros problemas relacionados a políticas e serviços públicos. Dentro do PT, suas iniciativas acabaram tendo projeção nacional, diante do ruidoso silêncio que se ouvia então. Foi um dos primeiros a defender a necessidade de uma Constituinte exclusiva, proposta que mais tarde seria abraçada pela presidenta Dilma Rousseff e, rapidamente, bombardeada pelo “Centrão” político que comanda o Congresso Nacional e tem crescente poder inclusive dentro do PT.

Goste-se ou não de suas opiniões, do governador gaúcho não se pode dizer que pecou pela omissão. Entrou em várias bolas divididas e segue entrando. Tarso Genro está preocupado com o que considera ser uma interpretação ingênua por parte de setores da esquerda a respeito das consequências políticas de todo o processo de manifestações até aqui. O desdobramento do debate sobre a Reforma Política no Congresso, a subordinação do PT à lógica Vaccarezza, e a tentativa de desconstituição das conquistas sociais dos últimos 10 anos são alguns dos fatos apontados por Tarso para analisar a conjuntura atual. “O que está ocorrendo agora não é mais um debate sobre normas mais, ou menos, democráticas, mas um debate sobre a correlação de forças no plano da política, para a aplicação dos princípios que inspiraram a Constituição de 88. E quem está ganhando é o “centrão”, resume.

Tarso Genro expõe assim as suas principais preocupações a respeito do atual momento político no país e sobre as leituras que vêm sendo feitas sobre as manifestações de rua e suas consequências:

“A ingenuidade de uma parte da esquerda meio pollyana”

O que me pasma é uma certa ingenuidade de uma parte da esquerda meio “pollyana” a respeito das manifestações do início de julho, pela qual confundem as autênticas manifestações dos estudantes e de certos novos movimentos sociais – que aliás já estão na cena pública há mais de duas décadas- com a instrumentalização que a mídia oposicionista fez do próprio movimento, direcionando-o para dois níveis: primeiro, desgastando as funções públicas do Estado, principalmente nas áreas da saúde e do transporte público das grandes regiões metropolitanas e, segundo, pretendendo “apagar” da memória popular, de forma totalitária, as grande conquistas dos governos do Presidente Lula, seguidas pelo governo atual da Presidenta Dilma, na base do “gigante acordou”, que tanto deleitou as classes médias mais conservadoras. Tudo isso veio combinado com um ataque aos partidos e aos políticos em geral, que atingem a própria democracia, que certamente na visão destes conservadores deve ser substituída por um processo “limpo”, de manejos tecnocráticos, feito por gerentes do capital financeiro.

A histórica campanha da grande mídia contra o Estado

Na verdade, ocorreram dois movimentos neste processo: um movimento tipicamente eleitoreiro da grande mídia, seguido por algumas redes sociais, preparando o ambiente eleitoral para o próximo ano, e um autêntico movimento popular, insatisfeito pelas limitações das conquistas até agora obtidas, cujo seguimento e aprofundamento, agora, só pode ser dado por novos processos de participação popular direta, inclusive para reformar o atrasado sistema político brasileiro, que já é um emperramento para que se aprofundem as conquistas sociais até agora obtidas.

Dou o exemplo da saúde pública. Quem não sabe que o SUS faz dezenas de milhões de atendimentos às populações mais pobres e que é uma das grandes conquistas do povo trabalhador do país, que salva milhões e milhões de vidas em cada ano? Pois bem, dezenas de reportagens “contra” este sistema público foram feitas precisamente no momento em que os planos privados, que eram apontados como a grande saída pelos neoliberais, entraram numa crise profunda, que ficou totalmente subsumida nos noticiários, pois o “problema”, para esta mídia, era o Estado, não o mundo privado.

Há luta ideológica sobre a saúde pública

Ambos, certamente, estavam e estão subfinanciados e o nosso SUS precisa ser muito melhorado. Mas o que foi escondido -nestes ataques ao sistema de saúde pública no Brasil- é que ele é, predominantemente bom para o povo e que o privatismo não resolveu a questão nem para a classe média que paga religiosamente os seus planos. A direita, na verdade, se propôs a uma luta ideológica, sobre a questão da saúde no Brasil, manipulando a informação, e a esquerda e os governos se recusaram a fazê-la. As lideranças de esquerda em geral, com algumas exceções honrosas, manifestaram-se “encantadas” com os movimentos, como se eles fossem uniformemente “autênticos”, não manipulados, o que não é verdade. Basta ver que quando eles saíram da domesticação induzida passaram a ser depreciados.

A falência do sistema político atual

O que preocupa não é mais simplesmente a eleição do ano próximo, pois acredito que a Presidenta vai recuperar o seu prestígio, porque o governo tem bala na agulha. O que me preocupa é o grau de governabilidade que qualquer governo terá, no próximo período, em função da falência do sistema político atual, que estimula as alianças fisiológicas que tornam os governos reféns de maiorias artificiais, e, em função da incapacidade dos estados e municípios -sejam eles quais forem- de responder às demandas populares, por melhor saúde, melhor educação, melhor transporte, em função de duas coisas: as desonerações que sacrificam as nossas arrecadações, através da redução dos valores do Fundo de Participação dos Estados e dos Fundo de Participação dos Municípios, e em função das dívidas do Estados, que não param de crescer e impedem que se obtenha novos financiamentos para obras de infraestrutura, por exemplo

A tarefa estratégica para um governo de esquerda

Reagir contra a “desindustrialização” do país e reforçar a capacidade de resposta dos Estados e Municípios -principalmente os que governam com participação popular- no próximo período é, na minha opinião, a principal tarefa estratégica de um governo democrático de esquerda, pois ,como parece que não haverá reforma política nem reforma tributária, a estabilidade política dos governos só pode ser moldada através de “remendos” no pacto federativo, mais no âmbito da política do que âmbito de reformas na legalidade vigente.

“Quem está ganhando é o centrão”

Que me perdoem os estetas da democracia formal, mas o que está ocorrendo agora não é mais um debate sobre “normas” mais, ou menos, democráticas, mas um debate sobre a correlação de forças no plano da política, para a aplicação dos princípios que inspiraram a Constituição de 88. E quem está ganhando é o “centrão”, ou seja, as mudanças que eles toleram já chegaram ao seu limite. Agora, para eles, é conservar e acalmar a plebe. Para nós deve ser mais igualdade, o que significa reforma tributária, reforma política, democratização dos meios de comunicação e mais combate às desigualdades sociais e regionais. Que tal encarar um imposto sobre as grandes fortunas e um bom CPMF, para Transportes e Saúde?

Quando o novo já nasceu e o velho ainda não morreu

2001

por Renato Rovai
da Revista Forum

A onda de manifestações que varreu o Brasil evidenciou um novo padrão de demandas e lutas sociais. Dialogar e compreender a importância deste momento é fundamental para não ser atropelado pela História

O que aconteceu no mês passado no Brasil não pode ser entendido com base nas mesmas lógicas e padrões da sociedade industrial. É necessário buscar entender o tempo em que estamos vivendo, como as dinâmicas de relação de poder se estabelecem e quais as novas demandas e padrões de luta. Não são questões fáceis e nem demandam respostas precipitadas.

O mundo transita da era industrial para a era informacional. Isso acarreta grandes transformações na economia, na cultura e também na política. Quando ocorreu a migração da sociedade agrícola para a industrial, pôde-se perceber movimento semelhante. Foram grandes as transformações e enormes as resistências. Houve quem preferisse destruir as máquinas do que tentar entender suas possibilidades e potencialidades. Hoje, alguns agem da mesma forma. Mas a sociedade em redes não permite respostas analógicas.

Os partidos e movimentos tradicionais ainda resistem em entender esse novo processo. Não compreenderam que, na sociedade em redes, uma das grandes crises se dá em relação às organizações intermediárias. A indústria cultural foi uma das primeiras afetadas por esse fenômeno. As gravadoras de música, por exemplo, tentaram resistir a ele com a criminalização do que chamavam de pirataria. Tiveram que mudar a estratégia, mas, antes disso, perderam muito espaço e parte significativa do poder que possuíam.

Na indústria da informação está ocorrendo o mesmo. Boa parte dos grandes grupos desse setor está ruindo porque decidiu enfrentar as mudanças, e não buscar se adaptar a elas. Ao mesmo tempo, as redes se organizam e buscam novas formas de narrar as transformações que acontecem nas ruas. Formas essas que são mais diretas, em tempo real, colaborativas.

Um bom exemplo é o trabalho realizado pelo Mídia Ninja. Jovens, espalhados por todo o Brasil, munidos de celulares e câmeras, transmitem as manifestações em tempo real, via web, diretamente do olho do furacão. A iniciativa em si não é inédita, mas, na atual conjuntura, ganhou uma relevância sem precedentes. Esses jovens, articulados em rede, realizam uma cobertura melhor, mais completa e mais fidedigna do que acontece nas ruas do Brasil. Deixam a velha “grande mídia”, detentora de enorme poder econômico e político, comendo poeira. Assim como negam a “grande mídia” nas ruas, os novos movimentos reconhecem e valorizam essas iniciativas. Se o governo se nega a discutir a democratização da comunicação, esses jovens não querem e não podem mais esperar. Estão indo para as ruas e fazem acontecer. É o midialivrismo plantado por veículos como a Fórum que começa a ver um novo florescimento. É, parafrasendo o poeta Sérgio Vaz, o midialivrismo vivendo sua Primavera de Praga.

Crise da democracia representativa

Mas voltando aos mediadores, na lógica da democracia representativa os partidos são as entidades intermediárias. Eles são as gravadoras da indústria da música. E as pessoas que estão nas ruas não desejam mais ser representadas por eles da mesma forma que são hoje. Pelo contrário, querem se autorrepresentar. É uma crise de um modelo de democracia para o qual ainda não se tem respostas e muito menos soluções. Mas a crise precisa ser reconhecida para que se possa criar novos modelos.

A resposta tradicional a isso é a de que esses movimentos negam a política. Essa é uma daquelas respostas simples que não buscam dialogar com o problema. Entre outras coisas, porque nunca se discutiu tanto política como nesses anos de redes em redes. Essas redes nascem nas ruas e se articulam na internet. Nascem na internet e se manifestam nas ruas. Não são produzidas em escala industrial e nem em linhas de produção. E nelas há forças centrais, mas não há um centro. E as forças centrais podem inclusive ser contraditórias.

É preciso pensar em movimentos, e não num único movimento. Movimentos que, em alguns momentos, podem se juntar com base em uma sensação de que algo precisa mudar.

É preciso pensar um novo modelo político com base em um novo diagnóstico. Não tentar forçar o novo a se adaptar ao velho. Ou aí, sim, a democracia entra na zona de risco. Quando o velho e o novo convivem no mesmo período, o imponderável passa a ser parte constante do jogo.

Geração Facebook e Passe Livre

Há um bom tempo que representantes de movimentos tradicionais de esquerda afirmam que “essa galera do Facebook não sai do sofá”. E, além de não participar dos debates que acontecem na internet, deslegitimam aqueles que o fazem. A geração Facebook já havia saído do sofá em alguns países. E agora resolveu sair do sofá no Brasil, questionando, entre outras coisas, a política tradicional.

O Facebook é uma plataforma como foi o Orkut, que hoje é um cemitério de perfis. E o Facebook, em breve, será substituído por outra plataforma, mas as redes que nele se articulam não mais se dissiparão, pois são anteriores à internet. Elas são espaços de esfera pública. Na França da revolução burguesa, os cafés de Paris faziam esse papel. Nas greves do ABC, do fim da década de 1970, as comissões de base organizavam o chão da fábrica e o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC era o principal aglutinador daquele movimento que vinha de baixo. E, ao mesmo tempo, o Sindicato se articulava com outros sindicatos do Brasil e do mundo, construindo uma rede de lutas que foi fundamental para derrotar a ditadura.

Nas novas dinâmicas de rede, o que está ocorrendo é que essas organizações tradicionais preferiram o velho ao novo. Negar a rede parece ser uma forma de se defender do novo. Isso não tem a ver diretamente com o Movimento Passe Livre, mas tem. O Passe Livre já há algum tempo se articula e debate a questão do transporte público no Brasil. Seus líderes sabem do que falam e têm sua pauta. Nos últimos anos, esse movimento já vinha crescendo, tanto que nas últimas manifestações contra o governo Kassab houve forte repressão e, inclusive, vereadores petistas que atuavam com o movimento foram agredidos.

A primeira ação do MPL no governo Haddad também foi grande, mas, dessa vez, havia uma insatisfação generalizada e difusa contra uma outra série de coisas. Há gente contra a realização da Copa no Brasil, movimentos sociais indignados com o governo Dilma pela ausência de interlocução, grupos de direita doidos para acabar com o PT, gente da periferia de São Paulo que não suporta mais a ação policial repressiva e outros que lutaram contra a PEC 37. Havia de tudo, como é comum nesses novos tempos de múltiplas pautas e múltiplas causas.

Não foi diferente no Egito, na Tunísia, na Espanha e nem no Occupy Wall Street. De novo, não existe movimento, mas movimentos. E, neste novo contexto, as pautas estarão sempre em disputa quando o povo for às ruas. Às organizações mediadoras, enquanto a democracia representativa resistir, restará a possibilidade de tentar dialogar com a parte das ruas que tiver apreço pela democracia. E lutar para que o processo democrático não seja dinamitado.

O que será do amanhã?

Existe uma possibilidade enorme de se avançar e de o Brasil dar um passo mais largo no sentido de ampliar seus canais democráticos. Para isso, é necessário passar a entender a política de forma dialógica, e não analógica. É preciso ampliar o diálogo utilizando instrumentos das ruas e das redes. Há uma nova gramática dos movimentos que precisa ser incorporada pela política tradicional. Uma nova gramática muito mais horizontal e plural.

Também há que se reaprender a fazer mais política com seus instrumentos sociológicos e escapar da centralidade das planilhas. A tecnocracia substituiu o deus mercado no Brasil. Antes, tudo se resolvia na lógica do mercado. Hoje, se resolve na base do que as planilhas disserem. E planilhas são planilhas. Elas podem ser adaptadas às conjunturas e ao momento social.

Na era informacional, a fragmentação não está em disputa, ela é um dado de realidade. O que está em disputa é a política, que não está sendo praticada na sua essência nem pelos governos que afirmam ter viés de esquerda e nem pelos movimentos tradicionais de esquerda. A política como um espaço de construção de um mundo melhor e de diálogo. A política como espaço de transformação da realidade.

O texto faz parte da edição 124 de Fórum, que traz um especial sobre as manifestações de junho. Nas bancas ou compre aqui.
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