06 agosto, 2015

Acabou. E desde 2013


Caos















por Denise Queiroz

Apesar da eleição com diferença de alguns poucos milhões de votos e graças a uma campanha eleitoral digna de figurar no ranking das piores propagandas enganosas, o governo Dilma II não deslanchou e a cada dia se afunda mais. Arrisco, mas é quase impossível não afirmar que desde as grandes manifestações de junho de 2013, quando se mostrou incapaz de conseguir dar respostas às centenas de reivindicações que cartazinhos e faixas exibiam nas ruas e telas, textos e textões, que o ciclo PT no governo acabou.

Ao contrário do que os governistas - em seu autoengano obsessivo - tentam propagar, junho de 2013 não foi o responsável ‘pelo pior congresso da história’. Este resulta, conforme a operação lava-jato prova a cada dia, de uma série de acordos e conversinhas que passaram muito longe das ruas e de quem esteve nelas.

Ele resulta da série de renúncias que os eleitos ‘para fazer diferente e trazer a esperança’ fizeram ao longo dos anos em nome de uma suposta governabilidade que, infelizmente, nada mais era do que dar a impressão de que mudanças estavam ocorrendo. Hoje vemos que, na verdade, estavam por um lado privatizando o Estado para alguns novos atores e, por outro, enchendo os cofres dos de sempre, como as odebrechts e camargos correias da vida.

É de uma desfaçatez sem sobrenome publicável que o partido do governo que fechou olhos, ouvidos, portas de gabinetes e palácios para as justas reivindicações de anos, além de ter criminalizado movimentos e sujeitos não alinhados ao governismo, venha hoje, com cerca de 7% de aprovação, dizer que nós, povo, numa democracia representativa, é que podemos barrar uma crise política que só progride.

Pretender que a população arque com o ônus de defender os desastres político, econômico, ambiental, social e tantos outros, instalados pela arrogância e inabilidade dos seus dirigentes e eleitos, só mostra o enorme distanciamento que o partido, nascido para ser popular e de classes, alcançou de sua origem. Muito tarde para a volta atrás. Lamentável para o país.


18 abril, 2015

Roda de conversa sobre novos movimentos e uma nova forma-partido na Espanha, na América do Sul e no Brasil. Organizada pelo círculo de cidadania do RJ e o de SP (em formação na data), com participação de Peter Pál Pelbart, Sandra Mara Ortegosa, Lu Ornellas, Celio Gari, Giuseppe Cocco, Bruno Cava Rodrigues, Alexandre Mendes, Salvador Schavelzon, entre outros, aproveitando a presença de Raúl Sánchez Cedillo, envolvido com o debate sobre o movimento 15-M, o Podemos e o Barcelona em Comum (ex-Guanyem), na Espanha.

- Entrada franca, todas pessoas convidadas!
- Terça, 28 de abril, 18h, na Casa do Povo. Endereço: Rua Três Rios, 252, Bom Retiro, São Paulo.
- Link dos círculos de cidadania (sem vínculo a qualquer projeto partidário): http://circulocidadania.tumblr.com/

21 março, 2015

Receita para seduzir descontentes

por Denise Queiroz


A seguir uma lista de expressões que vem sendo usadas nas redes sociais pelos governistas. A luta é pela sedução dos incautos que contestam esta maravilhosa gestão, para que voltem a apoiar o governo. E também para desmentir esses boatos de crise que o PT e partidos da base enfrentam. Claro que essa crise é pura invenção, mas pelo sim, pelo não, você tem que saber como defender o governo dos pobres e iluminar a mente dos desinformados. Pode parecer estranho, mas muita gente não entende que estamos sendo vítimas de uma enorme e bem elaborada conspiração da CIA. O que queremos é menos ódio e mais democracia. Portanto, use e abuse dos seguintes termos.

1 – Coxinha : qualquer pessoa que usa roupa e adereços da moda e discorde de qualquer coisa que venha do governo. Se insinuar que uma vírgula está mal colocada num texto, que o brinco da presida não ornou, que tal postura não é correta, não tenha dúvidas: você está diante de um coxinha, portanto desinformado. Coloque-o no seu lugar. Chame-o de coxinha e mande se informar. Lembre de mandar links com textos de reconhecidos blogueiros progressistas.

2 – Reaça: se você imaginou aquele velhinho conservador arenista e resmungão diante de qualquer mudança, você parou no tempo. Reaça é aquele coxinha que ousa fazer alguma crítica ao governo, a algum político, jornalista, acadêmico ou blogueiro governista . ‘mas eu milito no movimento lgbtt...’ Reaça. ‘Sempre gostei de ler x, mas desta vez perdeu a mão.’ REAÇA. "Concordo que tal coisa tenha que ser resolvida, mas discordo dessa proposta... " REAÇA. "A corrupção ..." Coxinha REAÇA.

3 – Psolista : qualquer crítica ao governo ‘pela esquerda’. Termo um pouco em desuso desde as eleições de 2014, mas desconfie de posicionamentos a favor de greves, de movimentos populares independentes como o MPL e blocos de lutas, estado laico, energias alternativas, críticas aos homens de deus, se chamar os grande produtores agrícolas de ruralistas, criticar a cooptação das centrais sindicais, designar privatizações as concessões ou transferência de ativos etc. Diante disto, tasque logo um 'coxinha reaça e PSOLISTA'. A pessoa imediatamente vai concordar com você e pedir desculpas pelos equívocos.

4 - Golpista: qualquer um que leia qualquer portal ou colunista da grande mídia, o pig (Partido da Imprensa Golpista). A imprensa é golpista, a mídia é golpista, os atores (com exceção do Zé e mais uns 3 ou 4 que apoiam o governo) são golpistas. Os apresentadores são golpistas e têm o poder de transformar qualquer um que os assista ou leia em golpistas. É impressionante o poder da mídia hegemônica e de quem nela trabalha. São uma espécie de semi-deuses que transformam todo um país (que não votou na Dilma ou que votou e se arrependeu ainda antes da posse diante dos belíssimos e necessários ajustes anunciados) em golpistas. Ao ligar a TV (com excessão da TV do querido Edir Macedo, que deu uma pisadinha na bola ao cobrir o 15M, mas o Falcão entende que ele queria competir pela audiência) você recebe automaticamente um raio golpitizador. Cuidado. Se alguém compartilhar qualquer notícia vinda dos portalões, chame a atenção e comente: isso é coisa de coxinha, reaça, psolista e GOLPISTA.

5 - Elite: conforme os parâmetros seríssimos e completamente afinados com nossa linda realidade paradisíaca, classe média é quem ganha entre 291 e 1.019 reais (dados de 2013). Se a pessoa ganha o suficiente para pagar sua conta de luz, almoçar, jantar, morar em algum lugar, pagar todas as taxas e impostos decorrentes disso e do uso do seu carro, desconfie. Provavelemente você está diante de uma pessoa da elite. Mas, observe. Se ela vive bem mas vota no governo e publica na TL textão do Emir, do PHA, do Nassif ou qualquer outro ‘comunicador independente' ou se comunica com eles nas redes, não é elite. Aí é classe média esclarecida, e você não tem nada que publicar ou comentar as publicações dela.

É complicado explicar este verbete, porque com a ascensão e inclusão promovidas pelo nosso ilibado governo, ficou difícil distinguir, mas funciona mais ou menos assim: seu vizinho de porta que comprou o apê no lançamento e mobiliou casualmente na mesma loja que você, funcionário público, aquele que tem o gatinho e que te ajudou a tirar as compras do elevador outro dia, defende cotas para as universidades, faz excelente trabalho de conscientização dos vizinhos sobre lixo, ecologia, participa das reuniões e mutirões no bairro. Fique atento pois ele pode ser elite. Se ele nem foi à manifestação do dia 15, mas seguidamente você ouve batidas de panelas vindas da casa dele na hora do Jornal Nacional não tenha dúvidas. Ele é elite, a pior das elites, aliás. “mas ele não era legal, o seu vizinho de porta? Ah, é, mas ele é elite, assina o Estadão (ou qualquer outro grande jornal) golpista de primeira hora. E ele tem camiseta da seleção brasileira! Eu deveria ter desconfiado quando uma vez criticou o atendimento que o porteiro (a faxineira ou conhecidos do interior) recebeu no SUS. Um coxinha, reaça, golpista. Até a greve dos caminhoneiros ele apoiou. É aquela elite coxinha golpista reaça meio psolista, entende?"
Esses são perigosíssimos. espalhe na vizinhança que é um coxinha reaça da elite golpista até que ninguém mais lhe dirija a palavra. Esse tipo de gente não merece todos os enormes benefícios de viver em paz e deve ser isolado até que volte à realidade.

Além desses, você poderá usar estes argumentos inconstestáveis:

Aecista ou tucano: se usar algum argumento que por acaso Aécio (ou qualquer outro que apoiou Aécio em 2014, mesmo que só no segundo turno) usou num debate ou programa de TV. Informe-se bem. Entre no youtube e veja o quanto nossa querida coração valente foi superior a todos os outros nos debates e use e abuse do argumento aecista ou tucano. Claro, quem contesta essa verdade são nada mais que reaças coxinhas golpistas e de elite.

Marinista: se criticar o excelente programa energético e insinuar que o desenvolvimento a qualquer custo prejudica o meio-ambiente, populações tradicionais, etc, certamente é uma pessoa que não preza a vida e o trabalho. E lembre-se sempre que, ao contrário da Dilma que tem um socialista como ministro da Fazenda, a Marina ia nomear o Giannetti (o Gianetti) para tirar o leite da mesa das crianças. Óbvio que alguém que defenda esses argumento é um marinista coxinha, reaça, meio psolista da elite ressentida e traíra.

Se depois disso a pessoa insistir em criticar, não lhe restará alternativa, pois claramente ela optou pelo ódio e não ama a democracia. Inspire-se naquele antigo militante trabalhador que compareceu à manifestação dos trabalhadores em São Paulo dia 13. Levante a plaquinha da foto abaixo. Mande  o coxinha reaça psolista golpista e elitista pra Miami. Esse está perdido e é um traíra convicto. E aqui não queremos traíras.




PS este post é uma ironia (sempre bom avisar)
PS 2 sobre algumas notícias sobre a comunicação que estão saindo na imprensa, recomendo excelente post do @BrunoCava

02 dezembro, 2014

Da arte de mandar pastar

por Denise Queiroz
La Roue de la Fortune. Calque de Miniatures de l’Hortus Deliciarum  de Herrade de Landsberg. 
Paris: Bibliothèque Nationale de France

A vó, figuríssima, já falei dela pra muita gente, mas nunca escrevi. Filha de alemão que não sei bem o causo todo, só sei que tinha muita terra e casou com uma índia. Aí misturou umas coisas. A educação em casa, com fraulein (aquelas governantas professoras, encarregada dos 14 filhos numa época em que não havia escola lá naqueles cafundós para os urbanos e centro do mundo para quem vivia) e a cultura da vó Emília, que não conheci, mas que a mãe lembra muito e conta histórias.

Era família imensa, e como ‘de posses’ as filhas tinham casamento tratado desde cedo. Mas num baile daqueles que duravam alguns dias e as meninas bem nascidas levavam vários vestidos, minha avó, com 13 anos, conheceu meu avô. E esse conhecimento (ela descrevia com detalhes as roupas que ela e irmãs, ele e família usavam) descambou tratos e contratos.  Com 14 anos, casou. Vô Jorge era bonito, boa pinta, acho que se eu fosse ela também teria me apaixonado.  E naqueles tempos casava-se cedo porque a vida era mais curta. Ela contava que entre as obrigações de esposa e dona de casa, brincava de bonecas...

Mas a vida é feita do inesperado. Vovô morreu tomando o cafezinho digestivo do almoço e a vó ficou viúva cedo, com 6 dos dez filhos que teve, em casa. O menino mais novo tinha 3 anos. Preciso dizer que ela tinha sido deserdada por ter rompido os tratos e contratos e teve que arcar com as consequências? As quatro meninas pequenas, algumas já meio mocinhas, ajudavam a costurar, cuidar da horta e da lavoura, cozinhar. As mais velhas já casadas e com filhos levavam, em revesamento, algumas das menores para suas casas onde ajudavam nas lidas da casa e com os sobrinhos, e assim aliviavam a carga da mãe. 

Por conta da educação alemã, ela tinha um livro e sabia o mascate pra encomendar as homeopatias que ‘o autor’, como ela chamava o compêndio do Hahnemann, recomendava pra cada dolência.  A casa, perdida no meio de um nada (até hoje igual), era passagem de tropeiros que sabiam dos atalhos entre a fronteira e os campos do planalto. O campo do vovô​, além das vaquinhas pro leite do gasto e pros queijos, servia de albergue pra bichos cansados. O sótão, com ​várias camas tipo de campanha enfileirada e com escada íngreme, para os tropeiros, cansados, nas noites geladas. Nas muito quentes, a figueira era o abrigo. 

Apesar das dificuldades, nunca faltou uma sopa ou limonada pra quem ali passasse. E muitos deles encomendavam as bombachas, com os favinhos que ela fazia como ninguém, na máquina de costura à manivela, à luz do lampião quando sobrava pra querosene, ou de velas fabricadas em casa, o de sempre. Quem chegasse com dor, tosse ou febre, era socorrido pela ‘consulta ao autor’ e se a indicação estivesse em falta, o jujo da vó Emília, a índia, resolvia. Ninguém saía sem agradecimento. Se muito grave, ela não deixava que seguisse até que estivesse bom.

Por conta das necessidades, permitiu que algumas filhas casassem com ‘brasileiros’. Eram uns tropeiros que vez que outra passaram por lá e se encantaram com a beleza e destreza das filhas da dona Catulina. Um desses, meu pai que, pelos olhos azuis, até poderia passar por alemão, mas a mulher ‘não brasileira’ também não foi bem vista na família dele.

Mas enfim, essa figura que desafiou costumes naquele início de século XX (nasceu em 1897) ensinou as netas a mandar “homem pastar”. A expressão deveria ser usada para moços que vinham ‘tirar pra dançar’ em bailes e que não agradavam, ou pela pinta, ou pela fama, ou por qualquer outra coisa. Em língua destes tempos, ensinou o ‘block, porque não sou obrigada’; de quando eu era menina, a dizer não.

Quando eu tinha 15 anos minha avó já não tinha a casa dela. Passava temporadas nas casas dos filhos e filhas mas tinha um quarto reservado na casa de cada um dos filhos e os objetos de vida na do mais velho, que ficou com a casa que era dela. Nós, minha irmã e eu, saindo pra ‘noite’ da cidadezinha, que era uma discoteca onde vinha gente de todas redondezas.  E foi essa noite que ela disse: 'se não te agradar, seja educada, mas manda pastar'.

Obrigada, Catulina! Pratico muito até hoje. Gente ignorante, que vem puxar conversa com maus jeitos e olhares, “vai pastar”. Quando mais nova, chamada de ‘potranca’ na rua: “mas não pro teu potreiro”.

Contam a mãe e as tias que ela, aos quase 92 - única vez que ‘baixou hospital’, 23 dias antes de morrer – recebeu a visita de uma das netas. Indagada se solteira, ela contou que estava vivendo com o então namorado e não sabia se ia casar. “Bem que tu faz, filha, homem, tem que experimentar, nem todos são pra casar”. As filhas pularam “- Mas mamãe, quando a gente se mostrou interessada tu tratou o casamento” ... ”- Naquele tempo era assim, hoje não é mais. Que bom pras meninas”.

Fim

08 outubro, 2014

A possibilidade real de retrocesso

por Denise Queiroz

No primeiro turno a grande vedete foi a propaganda (a meu ver uma das peças mais falaciosas que o marketing político já produziu) de que a independência do Banco Central tiraria a comida dos pratos das crianças. O efeito disso foi trágico para a política brasileira. Perdeu-se a enorme oportunidade de discutir e ajudar a formar consciência crítica sobre questões relevantes para o país. O bom é que essa pólvora já foi gasta pelo ‘gênio’ estrategista da coligação PT-PMDB-PP-PRB (e um sem fim de partidos que elegeram seus representantes retrógrados para o congresso) e agora seremos poupados de tal ignomínia. Mas o estrago feito, avaliam estudiosos da política, levará muito tempo para ser revertido.

“Agora a campanha será propositiva", declarou algum dos cartolões petistas. O que se proporá? Lembremos muito que a vedete falaciosa atribuía a um presidente o poder para acabar, de uma canetaço (risos), com as conquistas sociais destes últimos anos. Como se tal poder estivesse, num país que vive regido por uma Constituição e com poderes definidos, nas mãos de uma única autoridade eleita. Agora vão esclarecer que o presidente sozinho faz quase nada? Seria bom! Pelo menos parte do enorme erro do primeiro turno poderia ser parcialmente mitigado.

A questão é: a despolitização da campanha do primeiro turno elegeu um congresso absolutamente na contramão para o aperfeiçoamento necessário de nossa democracia. Diante dessa realidade incontestável, que tipo de proposta qualquer um dos candidatos pode fazer que signifique avanço e mínimo atendimento do enorme cardápio de demandas? Podem fazer todas as que quiserem, quando chegar ao congresso, não passarão.


Nos próximos quatro anos as possibilidades dos necessários avanços, em todas as áreas que não digam respeito ao capital e patrocinadores de campanhas, estarão no freezer. Temos uma crise econômica para enfrentar e resolver. Os dois postulantes são economistas, logo supõe-se que alguma fórmula adotarão. E politicamente sabem dos riscos, para si próprios e seus partidos, caso essa fórmula signifique sacrifícios que aprendemos a rejeitar. Quando os depoimentos do ex-diretor da Petrobrás e dos doleiros, presos na operação lava-jato e que fizeram acordo, vierem à público, haverá sim crise institucional. A coisa vai ficar muito feia para figuras que desde sempre e até hoje exercem cargos importantes nas instituições.  A justiça vai na contramão das políticas que buscam diminuição das desigualdades - a auto concessão de um auxílio moradia mensal de R$ 4.300,00, valor que significa a compra e quitação de um apartamento do minha casa minha vida em um ano e meio - evidencia isso mais que tudo. 

Diante desse quadro nada entusiasmante, o mais apropriado me parece ser começar a fortalecer as pernas, comprar um par de tênis confortável, fazer estoque de vinagre, cartolina e pilot. O único caminho que nos resta para aperfeiçoar a democracia e evitar cada uma das ameaças de retrocessos - e desculpem os crédulos nesse sistema eleitoral - será estar nas ruas.    

28 setembro, 2014

1989, 2014

por Denise Queiroz

Já escrevi aqui sobre 1989 e o que foi aquilo tudo de esperança de festa de democracia. Não escrevi sobre o horror da campanha suja, podre, nojenta e de baixo nível. Dias antes do segundo turno, Lula à frente nas pesquisas, frente de partidos de esquerda e centro aglutinados, aparece na propaganda de Collor a senhora Miriam Cordeiro, mãe de uma filha de Lula. Ela contava que Lula queria que ela abortasse e mais um sem fim de blás e blás. Verdade ou não, pouco importou. Foi a facada que terminou de sangrar a imagem de monstro que todos os dias vinham homeopaticamente pintando de Lula, do PT. O final todos sabem: quase tudo que Collor dizia que Lula - o analfabeto, o despreparado, o sem apoio no congresso, o pobre, o criminoso por ter proposto aborto à namorada - faria caso fosse eleito (confiscar a poupança e transformar o país num verdadeiro caos) ele o fez no dia da posse, em março de 1990.

Depois do impeachment de Collor em 1992 (ele renunciou horas antes da votação do impeachment que mesmo assim foi realizada, simbolicamente, pelo Congresso que havia encontrado um ‘verdadeiro mar de lama’ na CPI que apurou denúncias de caixa 2 na campanha) o país virou um pandemônio. Assumiu o vice, Itamar Franco que, em meio àquele caos e com as instituições em crise, conseguiu reunir um grupo de políticos de vários partidos para retomar alguma normalidade. Em junho de 1994 lança um plano econômico que anunciado e explicado, rejeitado e apoiado, conseguiu pôr fim a anos de economia descontrolada e inflação criminosa. Com isso credenciou o seu ministro da fazendo para ser o próximo presidente.

De lá até 2010, embora tenhamos vivido momentos de alguma crise e denúncias e mais denúncias de corrupção não tenham parado de aparecer, vivemos um período estável. O país cresceu, com o controle da inflação e políticas de inclusão econômica foram sendo implementadas pelos governos. Os gráficos e os critérios de medição da economia e das melhoras são vantajosos e Lula indica sua ministra da casa civil, a mãe do PAC, para sucedê-lo e continuar o trabalho que vinha desenvolvendo, só que sentando na cadeira que ele mesmo havia ocupado.

Para qualquer conhecedor e observador da política, parecia um despropósito que uma pessoa que nunca havia disputado qualquer cargo pudesse ser eleita presidente do país. Mesmo no círculo dos cartolas do PT a escolha de Lula não foi bem recebida. Mas a verdade é que o partido havia descuidado de formar novos quadros políticos e as chances de qualquer outro nome seriam mínimas. Campanha dura, mas que na verdade já havia sido iniciada com o lançamento do PAC em 2007, quando a ministra começa a aparecer mais e mais na mídia, em entrevistas etc.

Eleita, Dilma nomeia um gabinete que é recebido com narizes tortos. Com exceção de Fernando Haddad na Educação, e alguns outros nomes que trocam de pastas, como Paulo Bernardo e Miriam Melquior, muitos deles desconectados com os meandros técnicos dos ministérios que teriam de tocar.

As promessas de campanha, de continuidade e melhorias, vão sendo pouco a pouco abandonadas, notadamente na área de cultura, direitos humanos, reforma agrária. Áreas essas ‘questão de honra’ e mais que simbólicas para grande parte das pessoas que formaram o PT e elegeram a candidata do Lula. Denúncias pipocam, ministros são trocados. Denúncias pipocam, assessores são demitidos. Denúncias pipocam, novos ministros, mais desconhecidos e alheios às pastas, de partidos quase inexpressivos, vão aparecendo. Novos ministérios criados para acomodar a base aliada e garantir a 'governabilidade'.

Em abril de 2013, em Porto Alegre, movimentos sociais não alinhados aos partidos ‘da base’, de nenhuma base, tomam as ruas de Porto Alegre contra o aumento das passagens do ônibus municipais, motivados por uma ação movida no Ministério Pblico para que os cálculos das tarifas fossem públicos. O movimento se avoluma e,a cada manifestação, mais gente de aglutina. Em junho o Movimento Passe Livre toma as ruas de São Paulo, também apoiado por movimentos não alinhados aos partidos da base, a maioria não alinhada a partido nenhum, mas que viu ali a chance de reivindicar mudanças gerais. Afinal, desde o movimento pela Anistia e depois pelas Diretas, neste país só o povo em massa e nas ruas conseguiu pressionar a modificar minimente estruturas.

Esse movimento se amplifica. A brutal repressão da PM paulista, que fez nas ruas centrais das cidade, à frente das câmaras, o que faz nas periferias dia e noite, revolta movimentos, grupos, sozinhos, gente em rede ou que só fica sabendo mas sofre no dia-à-dia as conseqüências das péssimas políticas públicas, a ir também para a rua. Grandes jornadas passam a ocorrer nas principais capitais, mais concorridas e reprimidas nas que sediariam a copa das confederações.

Diante do aparente descontrole, gabinete de emergência é formado no Palácio do Planalto que não conseguia entender o que ocorria, ‘se somos tão bonzinhos’ e temos bolsa-família, pronatec, pronaf, fies, cies e não sei mais quantos programas aparentemente inclusivos. Pela primeira vez, desde que assumiu a presidência, a autoridade máxima do país se dignou a receber gente que ela nunca tinha ouvido  nem falar que existia, por não serem ‘representantes’ dos movimentos de sempre - os organizados na década de 80 e que depois foram alinhados ao governo - para dialogar. Em pronunciamento à nação, leu um discurso elaborado pelo marqueteiro João Santana, com medidas imediatas para resolver os problemas. Se eram factíveis de serem implementadas ou não, não importava. O que contava era acalmar a turba ensandecida e parar de aparecer na imprensa internacional como um país desigual, onde problemas estruturais não foram resolvidos depois de 10 anos e meio do mesmo partido presidindo.

Não deu muito certo. As ruas continuaram tendo manifestações. Na copa das confederações, os turistas que foram aos estádios construídos pelas empreiteiras que desde sempre financiam as campanhas políticas, puderam provar da melhor tecnologia nacional produzida por um dos braços da maior empreiteira do pais: o gás de pimenta.

Imagem arranhada, confiança quebrada. Os juros não baixaram. A conta de luz que havia sido reduzida voltou a subir, as creches prometidas em 2010 não foram construídas. Os projetos de mobilidade para a copa continuam, grande parte deles, sendo projetos. O maior campo testado de petróleo da camada do pré-sal foi leiloado, contrariando a lei de 2010 que previa leilões, mas de campos não testados. E mesmo assim as contas não fecharam.

Entre desastres discursivos, locais e internacionais, a balança comercial pendeu pro outro lado. A meta da inflação não foi cumprida e o crescimento do país se aproxima do zero. Embora os institutos, baseando-se em critérios internacionais de emprego e desemprego, mostrem dados a serem comemorados, eles brigam com a realidade da violência material e humana que todos vivenciamos.

E todos se perguntam o que está acontecendo? Se temos porcentagens de pleno emprego, desigualdade menor, porque tanta violência? Temos democracia...

Nos acostumamos tanto a repetir chavões de auto-engano que o enfrentamento da realidade diferente demais dos números nos assusta.

Sempre digo ao filho e amigos que a melhor maneira de avaliar um lugar é a leitura das páginas policiais. Se há furtos e brigas de vizinhos, estamos num local próximo ao paraíso. Mas se há assaltos violentos, roubos, mortes, algo está muito errado e há que prestar mais atenção.

Não é de hoje que horrores acontecem. O ser humano é horroroso, cheio de defeitos, ambições, descontroles. Assassinatos ocorrem ‘nas melhores famílias’. Mas se crimes violentos se sucedem e amontoam, é porque o estado das coisas anda mal. Não há números que sejam convincentes quando alguém querido é morto ou agredido por causa de um celular, um tênis, um carro que seja. Quando o sair a rua é arriscado.

Mas está tudo bem, na propaganda do governo que intercala mensagens edificantes e histórias de melhorias com acusações falaciosas aos adversários. Nos acostumamos a fugir da realidade aflitiva vendo novelas. A linguagem das propagandas políticas (aplausos para os marqueteiros?) captou esse gosto tão latino e transformou momento nobre da democracia em obras de ficção. Para produzi-las, os patrocinadores são os mesmos das novelas.

Dia 5 de outubro vamos lá. Votamos. Elegemos alguém para sentar na cadeira presidencial e no dia seguinte voltamos à rotina de transporte infernal, comida às pressas, trânsito na volta para casa, se conseguirmos chegar, e novela. Para esquecer!

27 setembro, 2014

Brasil: a rua e as presidentas, por Manuel Castells

tradução de Denise Queiroz

O que está em jogo é um modelo de desenvolvimento que serve mais ao 
Estado que à economia, e um tipo de política para benefício dos políticos

O amplo movimento de protestos que balançou a sociedade brasileira de junho a setembro de 2013 parece ter se diluído com o passar do tempo, ao ter enfrentado o repúdio dos políticos, a brutal repressão da polícia militar e a manipulação da extrema-direita. A tentativa de boicote à copa do mundo foi um fracasso. Muitas reivindicações locais foram satisfeitas como resultado deles. E a presidenta Dilma Rousseff do PT prometeu mais investimentos públicos em educação e saúde. O efeito político do movimento pode ter sido fundamental: a presidenta declarou “ouvir a voz das ruas”, legitimou suas reivindicações e assumiu as críticas à corrupção política e à partidocracia. Propôs uma assembléia constituinte para uma nova constituição que controle o poder dos partidos. Mas a classe política se opôs. Apesar do apoio de Lula, inclusive o PT manobrou com o PMDB para bloquear qualquer reforma no Congresso. Com a copa e as eleições à vista, Rousseff deixou o tema de lado, ainda que recentemente, diante de suas dificuldades eleitorais, tenha ressuscitado a ideia de reforma política.

Acontece que, o que parecia uma eleição fácil se tornou incerta pelo surgimento da única líder política que apoiou o movimento e foi respeitada por ele. Marina Silva declarou em setembro de 2013 que os protestos constituíam “um movimento de beleza e majestade com o potencial de mudar o país”. E há dez dias insistiu: “não são os partidos ou líderes políticos que vão trazer a mudança. É o movimento que nos muda”. De fato, as pesquisas comprovam que sua popularidade atual está ligada ao apoio de quem concordava com o movimento e suas críticas à política tradicional. A personalidade e a biografia de Marina Silva (a quem conheci em Berkeley), junto à sua valentia em defensa de suas convicções, fascinaram o Brasil e o mundo, e poderão transformá-la na presidenta do Brasil em 26 de outubro. As pesquisas dão agora um empate com Rousseff. 
O simbolismo não poderia ser maior. Mulher, negra, nascida no estado amazônico do Acre, numa família de trabalhadores em um seringal, vivendo na extrema pobreza e gravemente doente em toda sua infância, ficou órfã aos 15 anos. Foi acolhida por irmãs católicas num convento onde aprendeu a ler e escrever e aos 16 anos trabalhou como empregada, mas estudou à noite e conseguiu o diploma de Historia. Ao lado de Chico Mendes organizou o sindicato dos trabalhadores da floresta, exemplo mundial de defesa simultânea dos direitos dos trabalhadores e do desenvolvimento sustentável. Chico Mendes foi assassinado por grileiros, mas seu legado levou à políticas de proteção da Amazônia, em cuja defesa o trabalho de Marina Silva como ministra do Meio Ambiente se destacou, no primeiro governo de Lula da Silva, em 2003.

Logo Marina Silva descobriu a dificuldade de enfrentar não somente o agronegócio, senão a ideologia desenvolvimentista da esquerda brasileira, de colocar o crescimento econômico a qualquer custo e por cima da conservação do meio ambiente e da qualidade de vida. Foi precisamente Dilma Rousseff, como ministra das Minas e Energia a que deu prioridade às políticas energéticas da Petrobrás, a gigante petroleira, sobre qualquer outra consideração. Desenvolvimento energético e produtivo para gerar recursos que permitiriam remediar a pobreza. Silva, vindo de onde veio, fez parte da luta contra a pobreza apoiando o programa bolsa família de Lula/Rousseff, que tirou 40 milhões dessa condição. Mas propôs conciliar valores diversos frente ao produtivismo unidimensional do Estado desenvolvimentista. Por isso, o que se enfrenta nesta eleição não são duas pessoas que se opõem, mas duas concepções de desenvolvimento.  

A defesa da sustentabilidade levou Silva a abandonar o governo e criar uma Rede de Sustentabilidade, com a qual obteve 19% dos votos, como candidata verde, nas eleições presidenciais de 2010. Em 2014 não pode superar entraves legais para registrar sua candidatura e se incorporou, como vice-presidenta, na candidatura do pequeno Partido Socialista Brasileiro, liderado por Eduardo Campos. Em 13 de agosto Campos morreu num acidente de avião. Silva o substituiu como candidata presidencial e rapidamente apareceu à frente nas pesquisas para segundo turno.

A campanha de Marina Silva reflete sua complexa biografia. Sua oposição ao estatismo do PT e à corrupção dos partidos, que sangra empresas públicas como a Petrobrás (obrigada a comissões de 3% dos contratos) a leva a propor a independência do Banco Central e uma economia menos condicionada pela política. Com isso conseguiu o apoio de instituições financeiras como o banco Santander. Ainda assim, Dilma recebeu cinco vezes mais em doações do que Marina. As convicções cristãs pentecostais de Silva lhe aportam o apoio dos evangélicos que são mais ou menos 22% da população. Coerente com sua fé, se opõe ao aborto  e ao matrimônio gay, mas defende a união civil, o que gera críticas. A campanha do PT contra ela está sendo feroz, mentindo sobre suas posições em várias questões de impacto social, segundo consegui me informar. 
Ocorre que o que esta em jogo é um modelo de desenvolvimento que serve ao Estado mais que à economia, e um tipo de política para benefício dos políticos, de esquerda ou direita. Demasiados interesses criados. Diante dessa máquina uma mulher que nunca renunciou aos seus princípios e que se conecta com um Brasil jovem que disse não nas ruas e agora tem a oportunidade nas urnas. Marina Silva é a esperança de um novo Brasil capaz de abrir vias inovadoras de vida e política, para além de ideologias obsoletas.  


18 agosto, 2014

Elas, as imagens










por Denise Queiroz

Durante um curso de especialização em jornalismo que fiz nos 90, uma das disciplinas que gerou ensaio era sobre literatura e jornalismo. Analisava-se o uso, benefícios e prejuízos para o profissional e para o leitor, dos recursos da literatura no jornalismo. Comecei o trabalho usando o exemplo da frase:  ‘o presidente fechou o guarda-chuvas’ e colocava algumas situações em que ela poderia estar. Se numa legenda de foto na capa de um jornal uma conotação, factual, por necessidade do ofício. Se no início de uma novela ou romance, a que o escritor quisesse, conseguisse.

Lembrei dela agora porque não param de pipocar nas redes, desde ontem, posts onde uma foto – e o tempo de uma foto quase todos sabem que é um tempo ínfimo na vida de qualquer pessoa, mais ínfimo ainda torna-se no das pessoas públicas – é usada para tentar passar aos incautos a ideia de que a possível candidata Marina Silva não é digna de dirigir a república, pois a flagraram sorrindo durante o velório  do Eduardo Campos.

Tenho várias razões para não votar na Marina, muito semelhantes às que tenho para não votar em outros e outras, mas obviamente a decisão não se baseia numa fração de segundo da vida de nenhuma delas.

Nestes tempos em que a famosa frase de Glauber Rocha “uma câmera na mão, uma ideia na cabeça” deixou de ser uma possibilidade sonhada, quando cada um é capaz de produzir seu conteúdo e passar sua mensagem através de um aparelho que cabe na palma da mão, a distinção a ser feita entre os bons e maus comunicadores é a mesma de sempre: quem contextualiza e procura abordar os vários sempre existentes ângulos de qualquer fato e os que agem movidos pela tentativa de disseminar e impor seu ponto de vista. 


Aos últimos minha lástima. Estão mal utilizando seu tempo, seu conhecimento, sua auto-função como propositores do ‘fazer diferença’ neste vasto e cada vez mais aberto, mundo da comunicação. E um recado: as palavras e conteúdos de seus posts, se eles não pretendem ser um romance, podem fazer mais estragos na sua imagem do que a foto de uma pessoa pública. O momento da foto, aliás, foi explicado ontem, por um dos clicados

21 abril, 2014

Petróleo movediço

Pangea. Imagem original de @korelmis
por Ildo Sauer*
do Estadão

As disputas que envolvem a Petrobrás transcendem os argumentos e motivações até agora enunciados. Estão vinculadas ao papel da apropriação social da natureza, particularmente da energia, para garantir a existência humana. Recursos com caraterísticas especiais, como o petróleo, têm permitido incrementar de forma extraordinária a produtividade do trabalho socialmente incorporado no processo de produção e, dessa forma, gerar excedente econômico. A partir do início do século passado o petróleo ocupou espaço central nas relações geopolíticas e nos conflitos, tendo como protagonistas as Sete Irmãs (as grandes do petróleo) e a disputa pelo acesso e controle dos recursos. A disputa do excedente está no foco das guerras, disputas, traições, invasões, golpes (Irã, Iraque, Líbia, etc.).

No pós-guerra, com a descolonização, os países centrais abriram mão dos territórios ocupados, mas não do controle sobre o petróleo e de outros recursos essenciais para a acumulação. A criação da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), em 1960, quando as petrolíferas internacionais ainda controlavam mais de 80% das reservas, abriu a disputa entre os países detentores dos recursos e as empresas e governos centrais que controlam a produção e consumo, e assim, o excedente. Os choques de 1973 e 1979 foram as primeiras tentativas, frustradas, dos países da Opep de se apropriarem de fatia da renda petrolífera. Esse quadro se alterou a partir de 2005 pela articulação entre a Opep e a Rússia, que já controlavam mais de 90% das reservas de petróleo. Lograram impor o preço acima de US$ 100 por barril, que é o custo de produção de líquidos com carvão, a única fonte alternativa com potencial de atender a toda a demanda.

Hoje os custos diretos de produção do petróleo, apenas capital e trabalho, sem transferências, impostos, taxas, situam-se entre US$ 1 (Arábia Saudita) e US$ 15 (pré-sal no Brasil e xisto, um petróleo não convencional, nos Estados Unidos) por barril. Com preços acima de US$ 100, emerge a renda petroleira de cerca de US$ 2,5 trilhões a US$ 3 trilhões, para uma produção bruta mundial de US$ 80 trilhões. Essa é a raiz da feroz disputa geopolítica. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE, formada por 34 países para promover a democracia e o livre mercado) e a China buscam, via difusão dos recursos não convencionais (xisto), biocombustíveis, aceleração de novas fronteiras como pré-sal, Golfo do México e África, promover uma oferta capaz de afetar a coesão da Opep e Rússia para manter o equilíbrio entre produção e demanda e, com isso, os preços elevados.

Nesse contexto, a Petrobrás, com uma trajetória cinquentenária de avanços tecnológicos e com uma nova visão estratégica implantada a partir de 2003 (quando valia US$ 15 bilhões), ascendeu aos holofotes globais. Passou a priorizar a pesquisa e exploração no País e no exterior, a promover o uso do gás natural como substituto local do petróleo e a promover o desenvolvimento de fontes renováveis: biocombustíveis, eólica, solar. A descoberta do pré-sal foi resultado dessa estratégia, assim como a trajetória de valorização, superior à das demais petrolíferas, no mesmo ambiente de preços. Em fim de 2007, valia mais de US$ 250 bilhões. Os planos de investimento acompanharam a expansão, superando dezenas de bilhões por ano. Com os altos preços do petróleo, a renda petroleira, minúscula até 2005, aproximou-se dos US$ 70 bilhões anuais, sendo desperdiçada, sem objetivo estratégico, em royalties, participações, lucros e gastos correntes.

A renda petroleira poderá chegar a cifras monumentais, dependendo da confirmação das reservas do pré-sal, de US$ 200 bilhões a US$ 500 bilhões anuais, capazes de propiciar transformações radicais nas condições de vida do País. Porém, a exuberância de recursos, contratos e escolhas enseja desafios e armadilhas.

A Petrobrás, mais que antes, tornou-se objeto de interesse agudo da base política e econômica de sustentação do governo, dos acionistas e dos consumidores. As antigas práticas dos governos de coalizão de conceder franquias a grupos políticos nomeando despachantes de interesse em estatais e órgãos públicos avançam. Ocupando os cargos, privilegiam as empresas e empresários simpáticos aos partidos e políticos patrocinadores em detrimento dos legítimos interesses e obrigações, com abandono de projetos essenciais e implantação de outros inadequados.

A democracia, que prometia o resgate da dívida social, metamorfoseia-se com características de cleptocracia. Acirra-se a disputa pelo butim. Os acionistas buscam a valorização das ações, os consumidores, especialmente os de insumos industriais e do transporte individual, querem preços mais baixos. O governo atropela a lei para controlar o índice inflacionário, impondo preços subsidiados. O povo, pelo artigo 20 da Constituição é proprietário do petróleo e dos potenciais hidráulicos, e pelo artigo sexto tem assegurados direitos sociais à educação, saúde, moradia e outros, mas continua excluído.

Surgem, na esteira de Pasadena, investigações, debates e a CPI para tratar de problemas de vulto muito maior, sumidouros de riqueza pública. A Petrobrás precisa explicar os custos fora do padrão em Abreu e Lima, no Comperj (Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro), no gasoduto Urucu-Manaus, SBM e assemelhadas. Também os processos e valores obscuros da venda dos campos de petróleo, já em produção, na África e no Golfo do México, da venda de ativos e de reservas no Brasil. Há ainda o danoso leilão de Libra e as tergiversações sobre as responsabilidades do Conselho de Administração e dos dirigentes. Se as investigações e debates elucidarem os conflitos e abrirem espaço para o povo se assenhorar do petróleo e da Petrobrás, para construir sua autonomia e resgatar seus direitos, com o mínimo da democracia, o País terá avançado.
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*Ildo Sauer é PhD pelo MIT,
professor do Instituto de Energia e Ambiente da USP
e ex-diretor de gás e energia da Petrobrás, de 2003 a 2007.


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