16 março, 2014

Contra a violência, solidariedade

Imagine abrir a porta da sua casa e dar de cara com um desconhecido ao lado de sua filha de 12 anos que está machucada, sangrando, chorando e tentando entender o que fez de errado. Essa foi a cena que um grande companheiro das redes sociais viveu semana passada. Sua filha lhe foi entregue em casa por uma pessoa que ele nunca havia visto antes, mas que a salvou da agressão brutal que sofria.

O crime ocorreu numa rua de um bairro da zona norte de Porto Alegre, na saída da escola pública onde as três filhas dele estudam. Os agressores são colegas que, além de espancá-la, gravaram tudo em celular e espalharam nas redes sociais.

Abaixo reproduzo o relato que o @oalex_henrique enviou por e-mail. Não vamos reproduzir o vídeo no blog, pois o mesmo contém imagens de menores de idade, que pela lei devem ter sua imagem protegida.

Fica aqui nosso apelo enorme por solidariedade no que for possível. Pedimos também a quem trabalha no Estado, Secretaria de Educação e outros órgãos, para que atentem com muita urgência e dedicação, pois embora desta vez nos sensibilize muito mais por tratarem-se de pessoa que conhecemos, não são raras as notícias de fatos do tipo em todas as partes. 

Contatos podem ser feitos a partir da caixa de comentários do blog, na página dele do facebook e pelo e-mail slargher@gmail.com .

O relato:

 “Meu nome é Alexsandro, sou pai de três lindas filhas, de 17, de 12 e de 10 anos, e o que vou relatar a seguir após três noites sem dormir passa por cima do pouco orgulho que me resta, devido ao desespero.
Tenho 36 anos e sou estudante de graduação de História (licenciatura) graças ao FIES (financiamento estudantil) e a ajuda de poucos amigos amados que me incentivaram e me ajudaram a realizar esse sonho, que foi entrar na faculdade. Escolhi história por achar o mundo injusto, por discordar de um sistema que oprime os seres humanos e que algo deveria ser feito, nenhum lugar melhor que a sala de aula ao meu entender, quero ser professor.
Estou desempregado, não por escolha, mas por sofrer de uma doença que tenho a mais de 10 anos, que é a depressão e a síndrome do pânico, o que dificulta muito a permanência em empregos, pois cada vez que o ciclo da doença volta, acabo faltando, logo, não há empresa que compreenda isso e em muitas, por vergonha, nunca expus minha real condição. Estudar é outra tarefa penosa, não fosse a compreensão de meus mestres professores da faculdade já teria sido reprovado em muitas cadeiras por faltas. Estou no 5º semestre e com o fato recente que aconteceu com minha filha Giulia pretendo trancar a faculdade, ao menos por enquanto, explico no texto a seguir:
Minha filha é uma criança especial, nasceu prematuramente, pois a bolsa da mãe rompeu muito antes do tempo, o que acarretou em problemas pulmonares, ela sofre de asma. Desde a infância percebemos que ela precisaria de cuidados especiais, e sempre que pudemos estivemos ao lado dela. Sua vida escolar não é fácil, ela tem um ritmo diferenciado de outras crianças, tem muita dificuldade em aprender e tem um ritmo mais lento que outras crianças, o que resulta sempre em frustrações para ela e reprovações. Ela tem 12 anos e está no 5º ano a antiga 4ª série. É uma criança, que para os padrões estéticos atuais, está acima do peso, e por isso sempre sofreu bullying na escola desde as primeiras séries. Adjetivos como gorda, baleia e etc. fizeram parte da sua rotina e, como conseqüência, a autoestima dela foi cada vez ficando mais baixa. Com isso desenvolveu a timidez e uma grande dificuldade de relacionamento com outras crianças, além de uma dermatite crônica emocional, que ataca principalmente suas mãos e pés, que viram em feridas graves, se não tratadas.
Ano passado, ela foi agredida na escola por colegas na cidade onde morava e na tentativa de socorrer minha filha, trouxe ela pra morar comigo e a transferi para uma escola em Porto Alegre, perto da minha casa, até que a mãe dela conseguisse alugar uma casa aqui perto de onde eu moro com minha filha mais velha. Passaram-se alguns meses, a mãe dela conseguiu vir pra cá e trouxe a nossa filha menor também, e hoje, as três estudam na mesma escola.
Infelizmente, desde o ano passado, na escola em que minhas filhas estão estudando, ela vinha sendo ameaçada, zombada e etc. e por ter apenas 12 anos, mais as dificuldades que relatei acima, nunca soube se defender ou ficar imune a estas “perseguições”. Por mais que tentássemos ajudar e aconselhar, em seu pensamento ela é burra, feia e gorda, como todos os colegas dizem pra ela todos os dias. E desde então, foi perdendo a alegria de viver.
O motivo de meu apelo vem a partir dos fatos que ocorreram esta semana, pois minha filha na saída da escola, nesta quinta-feira, foi cercada por 8 meninas e alguns meninos, onde uma delas a agrediu violentamente, com socos, pontapés no rosto e foi arrastada pelos cabelos na rua ao lado de sua escola, foi salva por um cidadão que estava passando quando estava prestes a desmaiar, que a trouxe pra casa e me relatou o ocorrido, pois segundo ele, que agora é meu herói, ela estava sendo linchada em via pública e ninguém fazia nada.
Não desejo que nenhum pai ou mãe passe pelo que passei ao ver minha filha naquele estado, é de se perder a racionalidade.
Não bastasse a violência, um menino gravou em vídeo, e esse vídeo foi publicado nas redes sociais e compartilhado em toda escola via bluetooth e wathsapp. Minha filha virou motivo de deboche e cyberbullying. Crianças dos 9 aos 16 anos assistem ao vídeo e continuam compartilhando.
Foi assim que uma coleguinha de sala, de 11 anos me adicionou no Facebook e disse que tinha visto vídeo, pois passaram pra ela também, e que estava chorando preocupada com o estado da Giulia. Conversei com ela, acalmando-a e a mãe dela, foi assim que consegui uma cópia e ter acesso ao viral que está na internet e na escola. Vi e ainda não tenho palavras pra descrever o que fizeram com minha filha.
Minha filha agora está com medo de sair na rua, não quer ir à escola, chora aos soluços toda vez que se lembra do ato e que todos na escola estão vendo o vídeo onde ela foi surrada e arrastada na rua, só pensa em morrer. Chegou a pensar que tudo é culpa dela, pois não deveria ter nascido, e do jeito que é a vida dela, prefere morrer. (nas crises de choro ameaça tirar a própria vida). Com isto, não deixamos ela sozinha um minuto sequer, tentando confortá-la e dar todo amor que sempre sentimos por ela.
O meu desespero é tamanho, que estou apelando através desta carta por qualquer ajuda. A mãe dela, uma batalhadora, trabalha como temporária em uma loja de roupas em Porto Alegre quase 10 horas por dia, ganha 800,00 de salário e paga 540,00 só de aluguel para morar aqui com as nossas duas outras filhas. Veio para Porto Alegre por achar que aqui sua filha estaria segura. Está com o aluguel atrasado e o proprietário está cobrando 17,00 por dia de atraso, ameaçando expulsá-la até o fim deste mês caso não quite o débito.
Não bastasse eu estar doente, e ter gastado todas minhas economias tentando sobreviver sem emprego há quase um ano, as ameaças à minha filha continuam, pois segundo relatos que chegam até nós pelas redes sociais, estas meninas e meninos ainda querem pegar a minha filha novamente, pois não as deixaram “terminar o serviço”!
Preciso urgentemente arrumar um lugar seguro para elas morarem, percebemos que onde moramos não é mais seguro pra elas. Hoje estou juntando elementos para mover um processo crime contra estes agressores e um cível também, já tenho o vídeo e as mensagens postadas nas redes sociais, e duas testemunhas que presenciaram a cena (estou tentando convencê-los a testemunhar). Já registramos o BO no DECA e ela realizou exame de lesão corporal.
Nosso maior problema agora, é que nem eu, nem a mãe dela temos condições financeiras para fazer isso com urgência, estou procurando tratamento psicoterápico para minha filha, e o mais em conta que encontrei custa R$80,00/mês. Os remédios para tratar as feridas dela estão em falta na farmácia do SUS e segundo o posto de saúde aqui perto de casa, está em falta em Porto Alegre. E segundo o médico do posto, minha filha quando em crise de dermatite atópica emocional (acho que é esse o nome) não pode tocar em nenhum produto químico, nem suas roupas podem ser lavadas com sabão em pó, somente sabão neutro e, meias, só de algodão. Ela foi encaminhada ao dermatologista, pois no posto aqui do bairro só tem clínico e o tratamento por ele indicado não está dando resultado.
Enfim, estamos procurando casas ou apartamentos que aluguem direto com o proprietário, pois infelizmente não temos como alugar de imobiliária por estarmos registrados em órgãos restritivos. Tudo que tínhamos de limites de crédito acabou. E aqueles imóveis que estamos encontrando em meio a esse caos todo, pedem dois ou três meses de “caução”.
Por isto, no desespero, apesar de toda vergonha e culpa que carrego pela minha incapacidade de prover segurança às minhas filhas, peço aos amigos e amigas que puderem me ajudar, seria de grande esperança. Se souberem de alguma psicoterapeuta que faça algum trabalho voluntário com criança, algum dermatologista, pois temo que o SUS demore demais e, se puderem, uma ajuda financeira de qualquer valor.  A nossa situação está tão crítica neste momento que 1 REAL faz toda diferença. Qualquer sugestão será de grande ajuda!
Peço de coração aos amigos e amigas que assistirem ao vídeo que não culpem a agressora, apesar de toda a violência que ela usou contra a minha filha, sabemos que ela também é uma vítima desse sistema que vivemos e que destrói seres humanos e os transforma nisso que verão. Ninguém nasce odiando outro ser humano, aprende a odiar. Ela, assim com outras com o mesmo perfil violento, tenho certeza que cruzarão meu caminho na escola pública, e pretendo ajudar daqui alguns anos, formado e na sala de aula como professor de história, pois essa é minha causa de vida, é no que acredito. Só que agora, infelizmente, eu mal consigo ajudar as minhas filhas.
E se me permitirem a ousadia, peço também de coração, que conversem com seus filhos, irmãos, sobrinhos, enteados, afilhados e crianças que estudam em escola pública ou privada. Instrua-os a, sempre que puderem, que lhes contem o que está acontecendo nas escolas deles, que se virem um briga na escola que chamem os professores responsáveis, que ajudem a separar, que jamais filmem ou postem em redes sociais, que se receber por celular, que apaguem e não compartilhem mais, pois gestos como esse, podem salvar uma vida, e quem sabe até mais. Precisamos construir uma cultura de paz, de diálogo e de coexistência.
Sintam-se livres para compartilhar essa corrente que pensei no improviso e no desespero”.



PS através do envio deste mail durante a manhã para conhecidos e amigos, algumas pessoas já se comprometeram. Algumas com pequenas contribuições financeiras, uma pessoa se dispôs a pagar as sessões de psicoterapia e uma psicopedagoga se ofereceu para ajudar no tratamento das dificuldades de aprendizado e de inserção social. Ampliemos a corrente.

9 comentários:

  1. Meu amigo, os vagabundos que agrediram a sua filha não são vítimas do sistema. São uns desgraçados que **escolheram** fazer isso. Eu realmente fiquei sensibilizado com a sua situação e, mesmo estando a meio país de distância, eu quero ajudar. Por favor, me informe como. Tenho amigos em Porto Alegre que podem ajudar também. No aguardo por mais informações.

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    1. Herbert, meu e-mail é slargher@gmail.com caso precise de mais informações!! Grande abraço!!

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. É lamentável a sua situação meu amigo e fiquei revoltado com o que fizeram com sua pequena. Pra não passam de animais e devem ser tratados como animais. Esse é meu e-mail,mande o numero de sua conta para que eu juntamente com minha esposa possamos depositar algum valor pra você. Sniper_rd@hotmail.com e ghostreconalfha@hotmail.com.Que Deus te abençoe

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    1. Amigo, obrigado pela solidariedade! Enviei e-mail!!
      Que Deus te abençoe!!!

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  4. Querido amigo, fiquei muito triste com o ocorrido, sabes o carinho enorme que tenho por voce...
    Vou compartilhar desta corrente.... e que a justiça seja feita....
    Mais o que realmente torço é pela melhora de sua filhota e também deste pai amoroso que vc é!!!!
    Beijossssss fiquem com Deus, ele tudo vê

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    1. Amiga querida!!
      Obrigado pela solidariedade!

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  5. Amigo me mande o número de sua conta.. Claudinha.slima@hotmail.com

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    1. Amiga Cláudia, obrigado pela solidariedade! Enviei e-mail!!
      Que Deus te abençoe!!!

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