01 julho, 2013

Por que ainda somos um país subdesenvolvido?





Quando era criança, ouvia dizer que o Brasil era um país do Terceiro Mundo. As crianças de hoje talvez não aprendam isso na escola, então vale recordar que o mundo era dividido em 3 grandes “mundos”: o primeiro, formado pelos países capitalistas desenvolvidos; o segundo, pelos países comunistas que integravam – por bem ou por mal – a também famosa Cortina de Ferro. E havia o resto. E nós éramos o resto. Os subdesenvolvidos e os totalmente pobres, longe de qualquer tipo de desenvolvimento. Seja lá qual fosse o critério.

Mais tarde, já um jovem “jovem”, vi o Brasil ser chamado de “país em desenvolvimento”. Foi um tempo de orgulho. Afinal, deixamos de ser subdesenvolvidos e passamos a ter esperança, pois “em desenvolvimento” nos passa a ideia de que um dia seremos desenvolvidos.

Agora, um jovem “senhor” (se me permitem a auto classificação), ouço dizer que o Brasil é um país “emergente”.

Afinal, o que será necessário fazer para que recebamos, em definitivo, o título de “país desenvolvido”, se já somos a sexta maior economia do mundo?

Falta uma coisa tão simples, mas que parece ser de difícil aplicação. Falta que sejamos donos do Brasil. Mas como ser dono de algo que não existe? E aí entendo porque até hoje ainda somos um país subdesenvolvido.

Insistimos muito em usar a expressão “sociedade”, como se fossemos uma. Não somos. Sociedade, por definição, implica na existência de um conjunto mínimo de objetivos comuns entre as pessoas que (com)partilham o espaço e o tempo. O que chamamos de Brasil não passa de um amontoado de grupos, cada qual defendendo os seus objetivos. Objetivos esses, via de regra, antagônicos.

Traduzindo para o português castiço: nunca na história tivemos uma agenda comum.

Falei em amontoado de grupos, mas na realidade existem apenas dois: os donos e o resto. E o que nos torna subdesenvolvidos é que, em meio ao resto, existe uma porção, que mesmo sabendo que nunca chegará a ser dona, insiste em comportar-se como tal. E uma das características mais importantes desse comportamento, é que alardeiam, aos quatro cantos, que não existem mais classes e que, portanto, não pode existir luta de classes no Brasil. Bobinhos. Perguntem aos donos se eles não se consideram uma classe.

O que vemos hoje nada mais é do que aquilo que sempre aconteceu na história: quem deveria ter uma agenda comum, o resto, segue dividido. E agora mais ainda, depois que os últimos dois governos deram início a uma política de “engrossar” essa camada do resto, que também pretende ser “dona”. Os donos seguem fazendo o que sempre fizeram: jogando o resto contra o resto.

Quem está nas ruas é a tal da classe média. E o resto do resto! Alguma dúvida? A expressão “estudantes” traduz tudo: foram estudantes os “cara pintada” do Collor; são estudantes que reclamam da passagem do transporte.

E vejam que coincidência: é aos estudantes que está sendo oferecido o passe livre! Ao resto do resto, os donos oferecem cacetes e gás lacrimogêneo. São gangues, dizem. Vileiros e favelados que se aproveitam da ocasião para furtar tênis e roupas de grife (!). Ainda não chegaram nos supermercados. Sinal que, ao menos, fome parece não existir nas vilas e favelas.

Que retorno a sexta maior economia do mundo dá para os seus cidadãos? Não poderá jamais dar algum, enquanto os donos forem os donos dos serviços públicos a serem oferecidos ao resto. Os serviços públicos brasileiros são de péssima qualidade? São! E por uma única razão: o serviço público brasileiro tem dono. Mas a tal classe média do resto prefere falar mal dos servidores, esquecendo que grande parte dessa classe é formada por servidores públicos. Sequer nisso há uma agenda comum.

Enquanto a classe média brasileira não entender e aceitar que é o resto, seguiremos sendo um “país” subdesenvolvido!

5 comentários:

  1. Caro Afonso

    A "classe média" é aquela que vive na corda bamba, na verdadeira acepção do termo. Se bobear "cai", porque subir não. Em cima tem dono !!! Os mesmos de sempre. Os oligarcas de todos os matizes, que tão facilmente não vão "largar o osso".
    è fácil ir de burro para cavalo, (de preferencia "puro sangue"), porque "puxar carroça"... só os "outros".

    Forte abraço

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    1. De fato, chumbogrosso, seguiremos, ao que tudo indica, puxando carroça! Abração!

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  2. Somos subdesarrollados, no sólo Brasil sino que todos en América Latina. Pensemos solamente en como nos ven del primer mundo, quienes han controlado nuestros países (somos una creación europea) de manera directa e indirecta desde hace largo rato. Esa inequidad al crearse nuestras sociedades es la base de los problemas de hoy: marginalidad, pobreza, racismo, todos resabios del orden colonial (como la esclavitud)y que nos persiguen hasta hoy....La cosa es preguntarse ¿como nos lo sacamos de encima?

    Saludos

    http://divagacionesdelpato.blogspot.com/2013/07/la-prepotencia-de-la-vieja-europa-y-evo.html

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    1. PatoB, sacamos a los de encima com el pueblo en las calles. Saludos

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  3. O texto trás para a superficie alguns incômodos habitantes do nosso "porão". O texto provoca reflexão. Estou lendo 'A Refundação do Brasil: Rumo à Sociedade Biocentrada", Editora RiMa, São Carlos, SP, de Luiz Gonzaga de Souza Lima. No primeiro capítulo, Um Novo Olhar: Outras Palavras sobre o Jeito do Brasil, pág. 5, ele escreve:
    "No Brasil não foi construída uma sociedade, como sempre se supôs, mas somente uma empresa, uma grande empresa internacional. Uma releitura do processo histórico da formação brasileira indica que o Brasil, na sua origem, é uma empresa internacional, privada, de dimensões mundiais e com vocação mundial. Uma empresa diferente pois já foi construída para produzir para o mundo. Não foi organizada nem para produzir para sua coletividade, nem somente para sua pequena metrópole.(pág. 5) [ ... ] A Empresa Brasil foi construída com fins exclusivamente mercantis e se caracterizou pela apropriação privada dos seus resultados."(pág. 6) [ ... ] O resultado foi o surgimento de uma formação social original e desconhecida pela humanidade até aquele momento, criada unicamente para servir à economia. No Brasil nasceu o que se pode chamar de "formação social empresarial". (pág. 8)

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