03 junho, 2013

Esperando o expresso 2222

por Denise Queiroz

Imagem via google

Bandeiras nas mãos, caminhamos e cantamos fazendo a hora, não esperando acontecer.
    
Com a volta do irmão do Henfil e tantos outros que foram levados pelo rabo de foguete, alguns dos nossos heróis morreram de overdose e alguns dos nossos inimigos continuam no poder. A roda viva gigante continua a girar e já não tem muitas bancas nem quem leia tanta notícia. Se você sair sem lenço e sem documento vai ser vítima de olhares estranhos de gente esquisita em todas as vitrines que te verem passar. Um resto de pouco nos dá a certeza de não estarmos no fim do caminho, nós vamos prosseguir, mas há o medo de não estarmos no rumo certo da estrada.

Naquele edifício alto, que ajudamos a construir, agora não podemos entrar. Viver pelado e vestido de verde, num eterno domingo, é risco de vida. A americana pátria morena com guitarra e canto livre continua alambrada, João e Maria esperam o roçado, o meu guri, que trazia perfume, colar e gravador sumiu, nas pedras do caminho.

O barracão de zinco sem telhado, sem pintura que estava há anos pendurado no morro, caiu na última enchente. Agora chacoalho horas no trem para pagar a prestação da casa, bem prá lá do Jaçanã. No domingo, o parque é perigoso, a faca está amolada, a procissão se arrasta pros shoppings, onde ficava aquele palacete assombradado. Lá come-se uns bichos esquisitos, até que gostosos, depois de fazer um crediário nas casas Bahia. 
O Haiti continua aqui, os babacas de gravata, batina ou avental, ainda vociferam contra os pobres, bichas, negros e mulheres que fazem o carnaval. As vacas das divinas tetas, com muita purpurina, derramam leite bom e mau, onde quer que você esteja.

Já passou o expresso 2222? 

5 comentários:

  1. E eu, que andei pelos quatro cantos do mundo e já estou pra lá de Teerã, vendo isso tudo acontecendo, aqui na praça dando milho aos pombos e esperando a morte chegar - em meio a meros devaneios tolos a me torturar - enquanto a mulher do Pedro espera um filho pra esperar também! A MPB conta estórias! Abraço

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    1. Já que falando sério ninguém escuta...
      Abraços!

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  2. Comovente, Denise! Muito lindo mesmo!

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  3. Então me diz o que você faria se só lhe restasse um dia? Abria as portas do hospício ou fechava as da delegacia?

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