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22 agosto, 2013

A geração bit se assenhora da comunicação, mas a revolta está no ar

Nature morte au crane


A Geração Bit

A velha mídia está derretendo sob o sol a pino de novas formas de consumo da informação. Os abalos sofridos por ícones tradicionais do jornalismo se sucedem. O que sobrará dos velhos modelos?

Uma guerra de titãs se processa no campo da comunicação e da tecnologia da informação, envolvendo pelo menos três atores essenciais: os grandes grupos financeiros (bancos e seus financistas), as grandes corporações do mundo da informação e da comunicação e os governos.

Quem agora puxa o ritmo das transformações são o que chamo de barões digitais, ou Geração Bit (de Bill Gates, da Microsoft; do finado Steve Jobs, da Apple; Mark Zuckerberg, do Facebook; Sergey Brin e Larry Page, do Google, Jeff Bezos, da Amazon, e tantos outros que não param de surgir), todos de trajetória meteórica.

Por enquanto, eles agem em conluio com os velhos gigantes das telecomunicações. O problema é que o principal negócio das telecons está se transformando. Dentre em breve, será quase exclusivamente o de entregar os produtos empacotados pelos barões digitais, pura e simplesmente. A sorte das telecons está, literalmente, por um fio. Se houver inovações que tornem a interligação física dispensável ou menos rentável do que o necessário para cobrir os custos de sua infraestrutura, as telefônicas passarão a ser a bola da vez do canibalismo dos barões digitais.

Mais cedo ou mais tarde, os velhos capitães das telecons terão que encarar diretamente os criadores da atual fase da era digital. Ambos os lados irão reinstalar o teatro que, há um século, se dava em torno de ferrovias, petróleo, energia elétrica e siderurgia. Na segunda metade do século XIX, esses barões ladrões se abraçavam e se apunhalavam o tempo todo. Algo similar deve ocorrer na era digital entre o baronato sem fio e o com fio, em duelos em que as armas serão telefones (fixos e móveis), computadores portáteis e televisores. Nenhum deles deve desaparecer. A grande incógnita não é quem irá vencer, mas sim como e quando os barões digitais da Geração Bit irão enterrar os telecons, e se alguém dentre as telefônicas irá mudar de lado a tempo para evitar ficar pequeno, como aconteceu com a IBM, a Xerox e a Kodak.

O entrechoque vai ditar os novos rumos da comunicação global. Aqueles que prevalecerem desse confronto irão transformar definitivamente o mundo das comunicações.

Os Cavalos de Troia

Os governos aparecem como peças chave dessa equação. Eles são propulsores das estratégias comerciais e industriais dos grupos econômicos que estão à frente das inovações que reinventam o mundo em que vivemos. Patrocinam as estratégias desses grupos, compram seus produtos e os alimentam de informação vendida como notícia.

O complexo militar é normalmente responsável por investir recursos maciços em tecnologias inovadoras que, posteriormente, ganham versões de mercado. Hoje se sabe o quanto tais tecnologias continuam sendo capturadas por objetivos militares e de influência geopolítica.

Celulares, tablets, notebooks e televisores, vendidos em lojas de varejo e dados aos montes em época de Natal, aniversário e Dia dos Namorados, são presentes de grego que trazem em suas barrigas soldados digitais (como era Edward Snowden), recrutados para abrir os portões das atividades, das preferências e dos pensamentos de cidadãos, empresas e governos, onde quer que estejam.

A comunidade de informação dos EUA continua se banqueteando de todos nós, a cada clique, como vermes escondidos. Graças a Snowden, descobrimos que o grande problema da internet não são os piratas, são os corsários, ladrões de informações preciosas a serviço dos governos. Ao invés de empunharem a bandeira de ossos cruzados, vestem uniformes e hasteiam as bandeiras de seus países.

Em meio a tudo, o outrora grande negócio do jornalismo tornou-se apenas um detalhe. Neste instante, completa-se uma longa trajetória que começou, no século XIX, do jornalismo, enquanto profissão - “profissão liberal”, como se dizia no passado daqueles que trabalhavam por conta própria e recebiam o quanto lhes era pago diretamente por seus clientes. No século XX, o jornalismo abriu um grande mercado – o da comunicação de massa. Suas corporações carregavam o portentoso título de “a grande mídia”. Eram titãs nos velhos tempos. Alguns ainda são. Em pouco tempo dirão, como a personagem do filme “Crepúsculo dos deuses”: “eu sou grande! O mundo é que ficou pequeno”.

A trajetória hoje se completa com o jornalismo e a informação sendo transformados simplesmente em um produto. Um produto cada vez menor, rasteiro e descartável. Em uma visão dialética, se percebe que esse já era o destino para o qual os grandes veículos estavam transformando o caráter da notícia. Hoje, provam sua amarga colheita e se sentem envenenados.

Entre tantos sinais do derretimento colossal, o mais recente e apoteótico foi a compra do Washington Post pelo fundador e chefão da Amazon.com, Jeff Bezos. O Post custou o preço de um quadro de Paul Cézanne.

Pior destino tiveram muitos outros jornais. Eles se dividem entre os que desapareceram, os que permanecem em estado vegetativo e os que entraram em autofagia. A maioria resiste fazendo dos jornalistas suas principais vítimas, com demissões em massa e enxugamento das redações e editorias.

O titã tornou-se, ao fim, um Titanic. Foi essa a metáfora mais emblemática da venda do Washington Post a Bezos. O jornal encontrou seu iceberg, e é sobre ele que o negócio do jornalismo, prostrado, lança suas esperanças de abrigar-se. É sobre sua plataforma gigantesca e reluzente que se busca refúgio e alívio contra um destino pior: afundar.

O mesmo Bezos já havia vaticinado:

"A internet está transformando quase todos os elementos do negócio das notícias: reduziu os ciclos noticiosos, erodiu as fontes confiáveis de receita e abriu espaço a novas formas de competição, entre as quais as que têm pouco ou nenhum custo para a produção de notícias".

A notícia como mercadoria

O grande negócio do jornalismo, ao transformar a notícia em mercadoria, hipotecou sua independência. O “jornalismo independente” significava, no princípio, que o jornalismo era um negócio próprio, autônomo. Sua principal fonte de receita era a venda em bancas e as assinaturas. É esse modelo que está em crise.

Cada vez mais, os velhos jornalões estão sendo comprados ou por grandes financistas (como John W. Henry e Warren Buffett) ou por grupos de telecomunicações e novas mídias digitais (como Carlos Slim e, agora, Bezos). Bezos é o primeiro da Geração Bit a entrar pela porta da frente do mundo jornalístico. Antes dele, e pela porta dos fundos, o Google ameaçou fazer um estrago no jornalismo tradicional similar ao provocado pelo Youtube na indústria do entretenimento. Rodando resumos de notícias extraídas diretamente dos jornais, em tempo real, em seu motor de busca, ele provocou uma diminuição na propensão dos leitores de gastarem um clique a mais para visitar as páginas dos jornais, definhando a estatística que alimenta sua publicidade.

O jornalismo de grande escala é cada vez menos um negócio em si e cada vez mais uma parte de outros negócios. É um produto a mais na grande lista de produtos das grandes corporações digitais de entretenimento.

Porém, a dialética da nova comunicação digital, se em escala global levou à sua transformação completa em mercadoria, em escala local produziu uma nova versão do jornalismo enquanto atividade militante, dedicada ao desmascaramento das relações ocultas entre o público e o privado. Também tem se revelado fundamental à proclamação da identidade de novos atores, com novas agendas na relação entre Estado e sociedade.

De fato, esse jornalismo militante estava presente na origem do jornalismo contemporâneo. Desde os tempos longínquos de Marat (1743-1793) e seu jornal “O Amigo do Povo”, fagulha essencial para a Revolução Francesa. Também no jornalismo operário do século XIX e na imprensa revolucionária dos partidos proscritos pelos governos aristocráticos da velha Europa. Estava igualmente visível na primeira imprensa dos Estados Unidos, que Alexis de Tocqueville (1805-1859) registrou como uma das bases essenciais “Da Democracia na América” (título de seu livro de 1835). Naquela república que, segundo ele, trazia um padrão de governança que se espalharia por todo o mundo, havia um cidadão com uma característica peculiar: o gosto por ler jornais.

Não à toa, ali se conformaria uma ética e uma estética do jornalismo que se tornariam um padrão internacional, pelas mãos do célebre Joseph Pulitzer (1847–1911). Pulitzer, celebrizado pelo prêmio que funciona como um Nobel para os profissionais da área, reproduziu seu modelo de “independência”, zelo pela precisão das informações e rigor na apuração. Consolidou também o gosto dos jornais por títulos grandes e chamativos, imagens fartas, frases curtas, objetivas, diretas.

É importante lembrar o contexto de Pulitzer, de combate intenso do jornalismo contra os barões ladrões, crítica à política corrupta, capturada pelo interesse dos cartéis. Pulitzer fez parte de um processo importante de formação da consciência nacional que levou à formação do chamado “movimento progressista”, que levou à eleição de presidentes (Theodore Roosevelt, em especial) que enfrentaram a cartelização econômica e que forçou os partidos a um realinhamento de suas plataformas e de suas relações com a sociedade. Nos tempos de Pulitzer, o leitor era a fonte essencial da sustentação dos jornais. Os jornais, para vender, em alguma medida precisavam expressar o ímpeto por mudanças.

Paulatinamente, esse modelo foi superado. O jornalismo baseado no interesse do leitor foi transformado em jornalismo comercial, no qual a publicidade passou a ocupar um espaço fundamental. Ele não pode, francamente, se reivindicar independente. Ele não pode revelar suas relações íntimas com os grandes grupos econômicos e seus governos liberais. Como alternativa, sua pregação iconoclasta, sua simulação de independência e sua indignação se volta contra movimentos sociais, permanentemente estigmatizados, e contra governos progressistas, quase sempre nivelados por baixo e carimbados de corruptos.

A situação chega ao paroxismo no Brasil, onde, como lembra o professor Mário Schapiro, a corrupção e as práticas ilícitas “parecem corresponder a um mercado de ficção: o mercado em que só há a demanda, mas não há a oferta". Há corruptos por todo o Estado, mas o mercado de corruptores é apenas negócio.

Ele se encaminha para o que Manuel Castells (Communication, Power and Counter-power in the Network Society. International Journal of Communication, vol. 1, 2007, págs. 238-266) denominou “autocomunicação de massa”. Uma comunicação que não é unívoca e depois massificada, e sim proveniente de uma profusão de atores e autores. Por meio da troca multimodal, algumas mensagens provenientes de muitos e endereçadas a muitos ganham uma notoriedade viral.

Essa comunicação, dificílima de ser engarrafada pelos meios de comunicação tradicionais, é revolucionária por criar e recriar, o tempo todo, novos padrões comunicativos e narrativas inovadoras. Ao mesmo tempo, é uma comunicação descartável, que se desmancha no ar. Tende a gerar um Walter Cronkite por dia (Cronkite, 1916-2009, foi o respeitado âncora da CBS entre os anos 1960 e 1980), descartando-o no dia seguinte. É essa lógica do efêmero, movida pelo “on-line” e pela inovação de formatos e narrativas, que torna constante o descarte de profissionais, a repaginação dos lay-outs e a migração para novas plataformas eletrônicas. Estamos diante de um processo acelerado de destruição da atividade jornalística tradicional. O jornalismo não está morrendo. Está se reinventando. O que está morrendo é uma forma específica e datada de jornalismo.

Frente a toda essa dificuldade, a velha mídia do Brasil pisou distraída nas jornadas de junho - como foram apelidadas as manifestações ocorridas neste ano. Diante de novos padrões comunicativos e narrativas inovadoras, produzidas por atores multifacetados, os veículos de maior audiência resolveram brincar com fogo. Os maiores veículos não estavam seriamente interessados em saber o que estava acontecendo, e sim em direcionar o alvo do desgaste. Os especialistas de plantão eram os de sempre, inaptos a dar opiniões que realmente fizessem algum sentido em relação às pautas das manifestações.

Em pouco tempo, uma imprensa desacostumada a uma pluralidade de atores, sobre os quais praticou a delicada censura do silêncio, tornou-se ela própria um alvo evidente dos protestos. As grandes multidões eram compostas de inúmeras e diversas “multidinhas”. Em comum elas tinham, no mínimo, uma desconfiança em relação à velha mídia, mas alguns grupos demonstraram uma franca aversão e até ódio aos veículos mais tradicionais.

A revolta da comunicação das ruas

A tentativa da velha mídia de dublar as opiniões das multidões, com uma tradução enviesada por seus próprios interesses, gerou revolta entre os transeuntes e foi rechaçada de forma agressiva pelos manifestantes, que hostilizaram e expulsaram todos os jornalistas que se apresentavam na multidão com o símbolo dos grandes grupos de comunicação. Mesmo alguns de nossos melhores jornalistas, críticos e acostumados a mostrar o outro lado, foram nivelados por baixo. Algo que não se justifica, mas se explica.

De positivo, houve a eclosão de uma infinidade de comunicadores populares, com uma ideia na cabeça e um smartphone ou uma pequena câmera na mão. No Brasil, um desses grupos ganhou identidade em torno da Mídia Ninja. Mas há uma centena de pessoas e de grupos populares de comunicação espalhados pelo Brasil, surgidos em torno da vontade de mostrar o que ninguém vê. Se somarmos a isso a comunicação popular comunitária, a conta passa dos milhares. A única diferença para os Ninjas é que eles não surgiram das manifestações de ontem, e sim há um bom tempo, e ainda não escreveram seu manifesto.

Ao por em ação um novo padrão comunicativo, colocam em xeque o padrão tradicional de comunicação jornalística, publicitária, de eventos (como a Copa), e mesmo da comunicação digital. O jornalismo impresso era responsável por apresentar, diariamente, “uma condensação totalizante de determinada visão de mundo”, como lembra Maringoni (Jornal, o fim de uma concepção). O jornalismo alternativo e popular ganha sentido com uma visão horizontal, crítica da sobredeterminação do mercado sobre as políticas públicas do Estado. Longe do mito da isenção e da imparcialidade, sua objetividade é garantida justamente pela possibilidade de estar próximo à ação popular ou de ser parte dessa própria ação.

Também essa visão engajada estava presente na origem do jornalismo. No entanto, o novo padrão comunicativo não é mais o velho engajamento dos publicistas, como o de Émile Zola (1840 - 1902) em seu “J’accuse”, ou o jornalismo de Samuel Weiner (1912-1980), que tomava partido pró-Getúlio Vargas (1930-1945). O velho publicismo e o jornalismo partidário faziam, no primeiro caso, um apelo à consciência nacional. A comunicação popular e alternativa é parte do próprio alinhamento de setores da sociedade que ganham expressão comunicativa. Em meio a uma feroz disputa política, os velhos publicistas eram como heróis da consciência nacional adormecida. Hoje, os que fazem a comunicação de movimentos sociais e de atos de revolta buscam sobretudo registrar, e não orientar tais iniciativas.

O engajamento hoje se dá na relação com movimentos populares, dos quais sua comunicação brota e depende. Se (ou quando) tais movimentos se recolhem, essa comunicação tende ou a murchar ou a ganhar maturidade e permanência, como foi no caso da experiência da TV dos Trabalhadores. Ou hibernam junto com um outono das mobilizações, até que ressurjam com força, ou ganham nova forma e novo sentido.

O jornalismo mambembe diante dos governos que se comportam como empresas

Infelizmente, as formas de comunicação plurais, de pequena escala, que interessam ao cidadão que vê o mundo de sua janela, estão fora do radar da comunicação governamental. Os governos, que deveriam ser os principais interessados em comunicar para a cidadania, agem no mercado publicitário sem qualquer diferença em relação ao que fazem as fábricas de cerveja, as lojas de varejo e as montadoras de automóvel.

Há preocupações extremadas com a possibilidade, por exemplo, de financiar mídias que cobrem protestos - possivelmente, mais pelo fato de que as manifestações criticam todos os governos, como é próprio da luta pela cidadania. A luta por direitos sempre foi antecipada por revoltas, algumas violentas. Do ludismo dos ingleses e das sabotagens dos franceses, que jogavam seus “sabots” (tamancos) dentro das máquinas, contra a Revolução Industrial; dos protestos violentos de 1º. de maio de 1886 pela redução da jornada de trabalho; das passeatas pelo voto das mulheres (as sufragistas); das greves operárias de 1978 e 1980 que confrontaram a ditadura no Brasil; dos Occupy, nos EUA; dos indignados, na Espanha; dos revoltosos da Primavera Árabe. O mesmo vale para as jornadas de junho. Os movimentos que se tornaram vitoriosos foram aqueles que transformaram a revolta e a destruição em politização das pautas e em partidarização de bandeiras que foram progressivamente sendo institucionalizadas, ou seja, se tornaram regras. Uma dessas bandeiras ainda à espera de quem as empunhe com mais firmeza é a da democratização da comunicação.

Dizem que não se pode financiar mídias que, entre outras coisas, podem verbalizar protestos, mas não se tem pudor algum em anunciar em programas cujos apresentadores defendem que bandido bom é bandido morto, ou programas humorísticos em que as principais piadas são contra negros, mulheres, nordestinos e homossexuais. Se os índices de audiência justificam o gasto, não importa o gosto, não importa, nem mesmo, a mensagem (!?). Financiar o conservadorismo é normal. Financiar a mudança é um perigo.

Os governos chamam de “mídia técnica” aquela que é medida pelo Ibope e pelo Índice de Veiculação de Circulação de jornais e revistas (o IVC). Se esquecem de dizer que o Ibope e IVCs dessas mídias é diariamente alimentado por um mercado de informações privilegiadas, cujos lucros vem dos “furos” e das entrevistas exclusivas concedidas apenas para “os grandes”. A informação produzida pelo Estado é um bem imaterial, mas que custa dinheiro público para ser produzida. Pois ela é rotineiramente dada privadamente de bom grado, conforme relações de amizade e interesses de evidência ou jogada pela janela da cizânia de autoridades maiores e menores dos próprios governos. Sem licitação, sem transparência, sem critérios republicanos. Muitas vezes em segredo, o que é algo proibido pela lei que rege o serviço público (salvo raras exceções), mas é afrontosamente tolerado sob o charmoso apelido de “off”.

A “mídia técnica” gasta absurdamente mais recursos em TV do que em rádio, embora o consumo de informação dos brasileiros pelo rádio esteja praticamente no mesmo patamar do da TV. Gasta-se injustificadamente mais do que se deveria em jornais e revistas do que em internet. Gasta-se muito com poucas empresas de comunicação, e pouco com os profissionais que fazem a comunicação. A esmagadora maioria dos profissionais da comunicação está fora do pequeno circuito da velha mídia.

Esse é um debate essencial e que precisa mudar de patamar. É preciso olhar ao redor o que acontece no mundo da nova comunicação digital e no que ocorreu bem debaixo de nosso nariz, após os protestos. A comunicação alternativa e popular não pode ser tratada como um jornalismo mambembe, que sobrevive de centavos jogados pelos transeuntes sobre um chapéu virado.

Sua principal virtude é tratada como um defeito pela visão oficial, dado o viés meramente comercial. A comunicação popular e a alternativa não são estritamente jornalismo. São mais do que isso: são comunicação. Sua principal atividade não é apenas relatar e opinar (isso também), e sim dar voz, documentar ações e personagens muitas vezes invisíveis, contar histórias de quem é silenciado pelos meios tradicionais. Sua vocação não é a da massificação, mas a de públicos segmentados – melhor seria dizer, públicos especiais. Ela caminha pelo que Castells chama de “pequenos meandros”, as redes de relacionamento social que precederam as ferramentas eletrônicas criadas para facilitar a produção e entrega de suas mensagens.

Essa comunicação não se dedica ao mercado, e sim à cidadania. Talvez por isso a maioria das áreas de publicidade dos governos, colonizada pela visão marqueteira, não sabe exatamente o que fazer com ela.

Deveria ser acolhida de forma pública e transparente nas estratégias de financiamento das políticas públicas que interessam ao fortalecimento da pluralidade, da democracia, da radicalização dos direitos de cidadania. É claro que essa possibilidade inovadora só poderia existir em governos que também não encarassem a notícia como mercadoria. É difícil encontrá-los.

Assim que Jeff Bezzos comprou o Washington Post, surgiram várias especulações sobre o que ele afinal pretende. Se Bezos estiver pensando grande, pode criar um novo modelo de negócio para o jornalismo, fazendo desaparecer muitos jornais, assim como, com o Kindle, seu leitor de livros digitais, ajudou a fechar várias livrarias por todo o país. Outra hipótese é a de que, se estiver pensando pequeno, Bezos usará o Post apenas como instrumento para aumentar sua influência em Washington - convenhamos, Bezos não precisa do Post para isso, basta seu dinheiro. Alguns ainda disseram que ele quer, além da marca do Post, se aproveitar de uma parcela preciosa da inteligência nacional, aquela formada pelo excelente time de profissionais da notícia que vive sob o manto e o mito do jornal que derrubou Nixon. Provavelmente, Bezos está pensando não em uma, mas em todas as opções anteriores.

A que me parece mais instigante é justamente a da inteligência nacional. No Brasil, ela está sendo demitida dos jornais e partindo para voos solo, em blogs ou em novas organizações coletivas, micro, pequenas e médias; comunitárias ou cooperativas. Isso deveria interessar aos governos que pretendam uma política ousada e republicana de comunicação, capaz de relacioná-la mais aos direitos de cidadania do que ao Ibope. Uma política que se aproveitasse mais da extraordinária capacidade e inteligência dos jornalistas do que das marcas dos veículos que as transmitem. Afinal, tais marcas são efêmeras e decadentes. É melhor investir em quadros de Paul Cézzane. No futuro, eles valerão bem mais.
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Antonio Lassance é cientista político e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente opiniões do Instituto.

Muito mais que médicos

por Denise Queiroz

imagem garimpada do google

A questão dos médicos acabou expondo uma ferida pouco visível do sistema brasileiro de desenvolvimento e que, obviamente, tem a ver com todo o restolho cultural que a sociedade industrializada e de consumo cria: a orientação urbana.

Num país onde até a década de 50 a população era majoritariamente rural (link) e que teve um salto desenvolvimentista impulsionado primeiro na era Vargas e depois pelos militares baixo o slogan ‘este é um país que vai pra frente’, o produzir, manufaturar, plantar e colher do campo foram sendo colocados num segundo plano. Para sermos aceitos como ‘grandes’ precisaríamos produzir em grande escala. Não à toa, verifica-se que boa parte da cobertura vegetal do país quase foi dizimada junto com a cultura do trabalho de produzir para comer - o que implicava também numa convivência comunitária de trocas, desde sementes até doces, passando por pães, receitas, farinhas, carnes dos bichinhos criados ‘para ter’.

A ‘cidade grande’ com suas luzes passou a ser o alvo da cobiça de um modo de vida onde o progresso, o sucesso, a ‘cultura’ estavam ao alcance. O povo do campo, tratando como caipira no pior sentido que a palavra pode ter - atrasado, pouco civilizado - aos poucos deixa de lado até seu linguajar típico e rico de palavras e expressões definidoras, e o substitui pelos jargões massificados, vendidos como sabão em pó pelas novelas e programas patrocinados por essa indústria, a do sabão.
Viver no interior e do que se é capaz de produzir para consumo passou a ser símbolo de pouca ‘civilização’ e de pouco acesso ao ‘bom' e até de sujeira. Cultura tão avessa é criada, que não raro conhecemos pessoas que negam sua origem geográfica ‘interiorana’, pois, após higienização pasteurizada em boas universidades das capitais, nos shoppings, lojas de departamentos, clínicas estéticas e cabeleireiros, se igualam aos oriundos do que passou a ser sinônimo de ‘desenvolvimento’ e ‘bem viver’, os da cidade.

Algumas décadas depois dessa criação cultural que buscava mão-de-obra barata, o desconhecimento do modo de vida que deu origem à maior parte das pessoas que hoje se amontoam em ruas mal tratadas das grandes cidades é tal, que não se pode mais criticar os norte-americanos pelo seu desconhecimento geográfico do resto do mundo. Jovens universitários brasileiros em congressos aos quais alguns comparecem para ‘ter currículo’ olham com desprezo estudantes de universidades desconhecidas (por pouco expostas à mídia hegemônica) do interior do país. E acabam arregalando os olhos ao saber que muitas cidades de 300 ou 400 mil habitantes de estados distantes demais das grandes metrópoles são capazes de produzir não só conhecimento, mas tecnologia de ponta em algumas áreas.

Desde o sistema educacional básico, onde informações sobre cidadania são dadas en passant e textos para análise e aprendizado são baseados em programas televisivos e personagens de telenovelas, ‘pois fica mais fácil trabalhar uma vez que os alunos estão familiarizados com o tema’, até as universidades tradicionalmente bem conceituadas, o modus vivendi urbano é disseminado. 

A quem compete a mudança? Quem vai ser o responsável pela verdadeira revolução deste país, que é mostrar aos brasileiros a enorme riqueza cultural que desperdiçamos diariamente ao acompanhar ficção patrocinada por uma indústria que nada mais visa o consumo? Como reverter a dominação cultural de lixo pasteurizado e valorizar o regional, o autêntico, transformar o local em central e motivo de orgulho que ultrapasse as fronteiras de pequenas comunidades?

É tragicômico que crianças criadas em comunidades rurais, distantes miles de quilômetros de grandes centros metropolizados, reproduzam o modo de vestir, dançar, falar, da cultura do rap, por exemplo. Mas essa cultura lhes chega pelas ondas da TV, agora que já quase não há mais casas sem eletricidade e televisão. O estilo ‘da moda’ aparece no programa dominical – de qualquer emissora aberta – e também na telenovela e no noticiário, até em horário nobre, quando celebridades construídas são chamadas a opinar sobre grandes temas nacionais... O apelo é tal e tanto que parece àquela pessoa, lá do interior do Pará ou de uma comunidade alemã nas montanhas catarinenses, que não há outro modo possível de viver. Até as favelas - onde só em São Paulo cerca de um milhão de pessoas vivem exprimidas, à margem do ordenamento civilizatório prometido pelo imaginário ficcional construído do ‘desenvolvimento’ - são glamourizadas.

Talvez uma das grandes mentiras criadas pela publicidade é o slogan daquela rede de TV que assegura que ‘a gente se vê por aqui’. A canção do Aldir Blanc, imortalizada por Elis, já dizia que ‘o Brazil não conhece o Brasil’.  A resistência dos novos profissionais - não são só os médicos, ressalte-se - em se bandearem para onde são necessários, é prova disso. É prova também de que, apesar dos indicadores, do censo, dos estudos sérios que vem sendo conduzidos e encaminhados desde pelo menos a década de 30, buscando uma forma de desenvolver o país e apontando falhas, cada vez mais gritantes, nas opções tomadas pelos que governaram e vem governando, pouco foi feito.

As cidades grandes ficaram enormes, invivíveis. As médias ficaram grandes e o individualismo, antes restrito a quem morava empoleirado nos edifícios de apartamentos, agora é a norma até para quem vive em cidades onde há 30 anos havia um povoado. A fartura de tanta terra se amontoa nos portos à espera do embarque, enquanto o roçado vira capoeira outra vez porque os velhos, já sem forças, não dão conta e ‘os meninos foram trabalhar na cidade, pois precisam do salário certo’.

Louvável que se contrate mais médicos para tratar da saúde física, essencial, de tanta gente de tantos lugares, pois também a procura por saúde é uma das razões de abandono do campo. Que a mesma urgência seja aplicada em tratar da saúde cultural, para modificar e reestruturar o modelo de desenvolvimento, antes que o paciente Brasil entre em estado vegetativo.
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Para pensar mais, sugerimos: 

Atlas da questão agrária no Brasil 

Morte de criança abre os olhos para realidades

10 julho, 2012

A ascensão do “anti-intelectualismo” nos EUA


Livros "semitas" sendo queimados em Berlin


Professores são o principal alvo de ofensiva da extrema-direita norte-americana contra "ideias subversivas e comunistas"

A classe intelectual está mais uma vez sob ataque nos Estados Unidos. Por trás dessa recente ofensiva ronda o fantasma do “Macartismo”, período de intensa patrulha anticomunista que começou de forma bastante semelhante nos anos 1950. Os alvos preferenciais também eram integrantes da sociedade com ideias “subversivas”.

Hoje, o “anti-intelectualismo” é uma prática em ascensão na sociedade norte-americana, particularmente em estados onde a extrema-direita é maioria. O exemplo mais recente aconteceu em Tucson, no Arizona, possivelmente o mais intolerante em relação aos imigrantes, quando uma junta escolar baniu das bibliotecas escolares os livros da escritora chilena Isabel Allende – mesmo ela vivendo há mais de 40 anos na Califórnia e naturalizada norte-americana.

Segundo Michael Hicks, membro da junta escolar, os livros da escritora foram banidos porque não são “compatíveis com os valores da sociedade”. Ele confessa que nunca leu a obra de Allende. “Não me interessa o que dizem [os livros]. Mas sei que não são bons para os nossos alunos”, disse Hicks recentemente em entrevista ao programa “The Daily Show”.

Allende não está sozinha. Escritores e editores como Junot Díaz, Jonathan Kozol, Rudolfo Anaya, Sandra Cisneros, James Baldwin, Howard Zinn, Rodolfo Acuña, Ronald Takaki, Jerome Skolnick e Gloria Anzaldúa também viram seus livros banidos. Até, A Tempestade, de William Shakespeare, desapareceu das estantes escolares.

A decisão em Tucson obedece a uma lei aprovada pelo congresso estadual do Arizona, que proíbe o ensino de estudos que “promovam a derrubada do governo dos Estados Unidos, o ressentimento contra raças ou classes sociais, estejam orientados para alunos de um determinado grupo étnico e alimentem a solidariedade entre raças em vez do tratamento dos estudantes como indivíduos”. O curioso neste caso é que Tucson, uma cidade com forte imigração latina, proibiu justamente autores da região.

Outra vítima foi a professora Brooke Harris, do Michigan, demitida após pedir autorização para uma campanha em favor da família de Trayvon Martin, jovem negro assassinado por um latino na Flórida em fevereiro – o caso teve repercussão internacional. O diretor do sistema escolar justificou a demissão com o argumento de que Harris era paga para ensinar, “não para realizar atividades políticas”.

Em 2010, um tribunal de apelações em Cincinnati, Ohio, confirmou o desligamento de uma professora do ensino secundário. Shelley Evans Marshall recomendou aos alunos para que estudassem a lista da Associação Norte-americana de Bibliotecas com os “100 livros Banidos e mais questionados” (pelos extremistas), e escrevessem um ensaio sobre a censura.

Wikicommons
Ela foi despedida depois que alguns pais protestaram, em particular porque ela recomendou a leitura de livros como Siddhartha, de Hermann Hes,s e Como matar um rouxinol, de Harper Lee. Também causou furor Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, que descreve uma sociedade futura onde uma polícia intelectual se dedica a queimar livros “proibidos”, como nas fogueiras da Idade Média ou da Alemanha Nazista.

Explicações

Desde a chegada de Barack Obama à Casa Branca, membros dessas elites reacionárias e extremistas políticos decretaram o fim de uma “pureza” ideológica que, até então, controlava os EUA. Muitos vêem Obama como um símbolo dessa ameaça e o “antiintelectualismo” transformou-se, de repente, em uma espécie de “antiobamismo”.

A reforma do sistema de saúde, de repente, virou um “ato antiamericano”, pois teria um verniz“socialista” por favorecer as classes mais pobres e limitar o enriquecimento das companhias de seguros.

“Deus fez o mundo à sua semelhança. Devemos acabar com aqueles quem se opõem a Ele banindo todos esses livros e estudos maltrapilhos que atentam contra a pureza da família”, disse recentemente o pastor evangelista Mattew Simmons, conhecido animador dos comícios do “Tea Party”.

O deputado pela Flórida, Allen West, "acusou" os colegas de serem comunistas. “Há uma rede de membros do Partido Comunista, infiltrada em todos os comitês. Eles não querem o retorno de valores da América; preferem nos levar em direção ao socialismo e a um mundo ateu”, disse West.

Os EUA “têm uma longa historia de antiintelectualismo, é algo que faz parte da nossa cultura e vida política. Somos experts em difundir mensagens contra todos aspectos da vida política e social dos EUA que não nos agradam”, comentou no Huffington Post o escritor e professor de antropologia da Universidade de West Chester, Paul Stoller.

"Vivemos em um país que suspeita dos ‘nerd’, dos sonhadores e dos intelectuais inovadores que guiam Volvos, gostam de comida francesa e bebem cappuccinos. Mas no fundo, são noções artificiais que nos levam a uma ignorância muito perigosa”, acrescentou o intelectual.

11 junho, 2012

Revista da BN fica sem conselho editorial

da Folha



Os dez membros do conselho editorial da Revista de História, publicada pela Biblioteca Nacional, anunciaram nesta segunda-feira (11) que renunciam aos seus cargos. O pedido foi anunciado em uma carta assinada pelos dez intelectuais, entre professores e escritores, que compunham o colegiado.

Nomes como Alberto da Costa e Silva, membro da Academia Brasileira de Letras, Lília Moritz Schwarcz, professora da USP e Ronaldo Vainfas, professor da Universidade Federal Fluminense, alegaram conflitos com Jean-Louis de Lacerda Soares, presidente da Sabin (Sociedade dos Amigos da Biblioteca Nacional) que gere os recursos que permitem publicar a revista.

As rusgas entre o conselho e a presidência da sociedade vêm sendo expostas desde a demissão do editor Luciano Figueiredo, supostamente por retaliação política.

Os conselheiros já haviam ameaçado renunciar após a Sabin demitir Figueiredo "por razões administrativas internas" não especificadas, sem consultar o conselho.

Semanas antes, o então editor havia demitido o jornalista Celso de Castro Barbosa após divergências relacionadas a uma resenha escrita por ele sobre o livro "A Privataria Tucana", do jornalista Amaury Ribeiro Jr., publicada no site da revista.

Em um de seus trechos, a resenha diz que o livro joga "uma pá de cal na aura de honestidade de certos tucanos". Em outro, afirma que José Serra "é quem tem a imagem mais chamuscada, para não dizer estorricada, ao fim da 'Privataria Tucana'".

O texto gerou protestos públicos do PSDB e foi tirado do ar, mas, segundo a Sabin, nem a demissão de Castro Barbosa por Figueiredo nem a deste pela sociedade tiveram qualquer componente de pressão política.

Leia a carta de renúncia na íntegra:

"Aos leitores, amigos e financiadores da Revista de História da Biblioteca Nacional,

Há algum tempo, o Conselho Editorial da RHBN está em conflito com a presidência da Sociedade de Amigos da Biblioteca Nacional (Sabin). A Revista foi ideada pela Biblioteca, cujo presidente, à época de sua criação, nomeou o Conselho e o editor. À Sabin coube sempre a tarefa de administrar os recursos da Revista e de produzi-la. No entanto, seu presidente arrogou-se o direito de demitir e contratar o editor e de vetar nomes para o Conselho.

De administradora, a Sabin tornou-se a proprietária e controladora da Revista. O Conselho não aceita esta subordinação que lhe tira a autonomia necessária para dirigir uma Revista séria e de qualidade. Os esforços do presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Dr. Galeno Amorim, no sentido de encontrar uma solução, resguardando ao mesmo tempo o papel da BN na escolha dos conselheiros e a prerrogativa do Conselho de escolher o editor, chocaram-se sistematicamente com a intransigência do presidente da Sabin.

Diante do impasse, e recusando abrir mão de sua independência, os membros do Conselho, abaixo assinados, decidiram por unanimidade entregar ao Dr. Galeno Amorim seu pedido de demissão.

É com pesar que nos vemos forçados a abandonar um projeto de que muito nos orgulhamos. Por sete anos, sem remuneração, em reuniões mensais com uma redação dedicada, levamos a mais de cem mil leitores a melhor revista de divulgação de História, dirigida por historiadores, jamais feita no Brasil e que nada fica a dever a suas congêneres no exterior.

Agradecemos o apoio recebido da presidência da Biblioteca Nacional, de leitores, amigos e financiadores, sobretudo do MEC, do Minc, da Petrobrás e do BNDES.

Alberto da Costa e Silva, membro da Academia Brasileira de Letras
Caio César Boschi, professor titular da PUC-BH
João José Reis, professor titular da UFBA
José Murilo de Carvalho, professor emérito da UFRJ, membro da Academia Brasileira de Letras
Laura de Melo e Souza, professora titular da USP
Lília Moritz Schwarcz, professora titular da USP
Luciano Figueiredo, professor associado da UFF
Marieta de Moraes Ferreira, professora titular da Fundação Getulio Vargas
Ricardo Benzaquen, professor assistente da PUC-RJ
Ronaldo Vainfas, professor titular da UFF"

13 março, 2012

As afinidades eletivas entre a Globo e Teixeira




















por Marcel Gomes

São Paulo – Ex-presidente do Palmeiras (2009/10) e um apaixonado pelo futebol, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo se encontrou apenas duas vezes com o ex-mandatário da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira, que renunciou nesta segunda-feira (12).

O ano era 2010 e ocorria a eleição para o comando do Clube dos 13, entidade que representa as mais importantes equipes do país. Teixeira articulava a candidatura do ex-presidente do Flamengo, Kléber Leite, contra Fábio Koff. Na ocasião, Belluzzo "trombou" com o então comandante da CBF.

"Eu defendi que a entidade dos clubes precisava ser autônoma, e não vinculada à CBF", lembra ele. No fim, Koff venceu, mas o Clube dos 13 saiu enfraquecido. Era cada vez mais previsível o racha, que acabou ocorrendo em 2011, na disputa pelo dinheiro do futebol pago pela TV Globo.

Nesta entrevista à Carta Maior, Belluzzo diz que espera por mudanças no futebol brasileiro, mas afirma que dificilmente elas virão dos clubes, verdadeiras "casamatas que reúnem os interesses mais díspares, dos maiores aos mais mesquinhos.

Carta Maior - Quem foi Ricardo Teixeira para o futebol brasileiro?
Luiz Gonzaga Belluzzo - Para entender o papel dele precisamos voltar no tempo, até a eleição de João Havelange na Fifa, em 1974, quando ele substituiu Stanley Rous. A partir dali houve uma mudança importante na administração do futebol, na relação com os patrocinadores. A direção do futebol deixou de ser feita de maneira amadora e se tornou um grande negócio, sobretudo para a área de marketing, que aproveitou o fato de o esporte ter se tornado uma impressionante manifestação de massa. Esse processo tomou corpo nos anos 80 e se acentuou nos 90.

CM - Foi essa transformação que ocorreu no Brasil em 1989, com a eleição de Ricardo Teixeira para a CBF?
LGB - Exatamente. O futebol se tornou um grande centro de negócios, legais e ilegais, e atraiu aventureiros interessados em ganhar dinheiro. Os escândalos começaram aí, e não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. Se você deixa a lógica do dinheiro dominar, precisa tomar cuidado para não perder a natureza da atividade. Esse é o problema do futebol, o mais interessante de todos os esportes quando é bem jogado.

CM - Isso afetou o esporte dentro de campo?
LGB - No Brasil e em todo o mundo. Houve o caso da Copa do Mundo na França, em 1998, quando a Nike teria se envolvido na escalação de Ronaldo no jogo final. E o campeonato brasileiro de 2005, com a questão das apostas e a manipulação de resultados.

CM - Ricardo Teixeira sempre dependeu muito de sua relação com a TV Globo, não?
LGB - Era uma relação muito forte, de mútua dependência. A Globo tem o futebol como o principal item de sua programação, então seria muito complicado ficar sem ele. O problema são todos esses interesses privados, que não levam em conta o interesse público.

CM - O futebol é um bem material e imaterial da cultura brasileira. Sua gestão não teria de ser mais pública?
LGB - Você tem razão. Os clubes de futebol são entidades semipúblicas, responsáveis por um esporte que interessa a todos os brasileiros. Uma mudança de gestão, porém, teria de passar por uma mudança da organização desses clubes. Mas isso é muito difícil, porque eles são controlados por oligarquias que não querem que algo mude. Falo por experiência própria, como ex-presidente do Palmeiras. Os clubes são casamatas que reúnem os interesses mais díspares, dos maiores aos mais mesquinhos.

CM - É difícil que a democratização venha debaixo?
LGB - Muito difícil. Sem uma regulação geral, os clubes têm se enfiado nas mais complicadas negociações financeiras. Se sou presidente do Palmeiras e o Corinthians gasta muito com um jogador, eu tenho de fazer o mesmo. Veja o caso do Flamengo, que está em uma situação difícil e, mesmo assim, segue contratando jogador. Países como Alemanha e França já criaram regulações coletivas para fazer o controle financeiro do clube, impor teto de endividamento e levá-los a segunda divisão se eles quebrarem. Precisamos de algo similar aqui.

CM - O senhor discutiu alguma vez esses assuntos com Ricardo Teixeira?
LGB - Eu me encontrei com ele apenas duas vezes, uma em São Paulo e outra no Rio, quando havia a eleição do Clube dos 13 em 2010. Ele articulou a candidatura do Kleber Leite contra o Fábio Koff, mas felizmente os clubes barraram. Venceu o Koff. Naquela época, eu defendi que a entidade dos clubes precisava ser autônoma, e não vinculada à CBF.

CM - E a CBF sem Ricardo Teixeira? Muda algo?
LGB - A CBF é um pote de ouro, uma arca perdida que todo mundo quer. Minha esperança é que surja alguém mais isento. Mas é difícil, porque a eleição depende dos presidentes das federações. E aí é um jogo de compromissos.

26 fevereiro, 2012

O Neo-Realismo em Portugal

Do Esquerda.Net

O Neo-Realismo em Portugal não se esgota na sua componente literária, estando igualmente associado às artes plásticas e à história da resistência antifascista. O seu comprometimento com a transformação humana do mundo e a permanente articulação entre o individual e o coletivo são alguns dos traços que caracterizam as obras neo-realistas. Dossier coordenado por Mariana Carneiro.



Neste dossier, poderá obter informações sobre a vida e obra de Alves Redol, mediante a leitura dos artigos de João Madeira António Mota Redol, assim como sobre o papel da mulher na obra deste autor.

É também aqui reproduzido um texto sobre Manuel da Fonseca publicado pela Hemeroteca de Lisboa por ocasião do centenário do seu nascimento.

Nos artigos Ler hoje o Neo-Realismo e Uma breve abordagem ao Neo-Realismo, de Vítor Pena Viçoso e João Machado, respetivamente, é retratada a história do Neo-Realismo em Portugal e no artigo de Maria José Vitorino, a autora explica qual é, a seu ver, a importância do trabalho desenvolvido pelo Museu do Neorealismo.


23 fevereiro, 2012

A obra em que Darcy Ribeiro desafia o Brasil






















Do OutrasPalavras
por Arlindenor Pedro*

No ano de 1995, o professor Darcy Ribeiro conseguiu concluir e publicar a obra que mais desejava mostrar ao mundo: o livro O Povo Brasileiro: a Formação e o Sentido do Brasil.

Na verdade, Darcy passou a maior parte de sua vida almejando escrevê-lo. Por duas vezes na sua conturbada vida de antropólogo, indigenista, filósofo, educador, escritor e político, tentou concluí-lo, sendo sempre afastado do epílogo pelas batalhas em que sempre se envolveu. Só o fez, quando sentiu que tinha pela frente um inimigo que não podia vencer – a morte, que o rondava desde muito, mas que sempre adiava sua cartada final, pois ele a convencia de que ainda não era hora. Parece que houve um acordo final, nesse jogo de xadrez bergmaniano. Tomou a forma de uma pequena trégua. Após escapar do CTI de um hospital, de quase ninguém acreditava que saísse vivo, Darcy encontrou forças do fundo do seu ser, exilou-se em Maricá e legou à posteridade essa obra – talvez a mais magistral de todas, da robusta lista de criações originais que fez sobre o nosso Brasil. 


Em 2005, um documentário em linguagem televisiva procurou popularizar as ideias contidas no livro. Produzido pela Fundação Darcy Ribeiro, TV Cultura e GNT, dirigido por Isa Ferraz e materializado (em 2 DVDs), sugere estabelecer contato com o Brasil fantástico de Darcy e com o que significamos, segundo ele, como participantes da grande história universal.






Darcy parte de uma pergunta que o atormentou por toda a vida. Por que, a despeito de todas as condições favoráveis, o Brasil ainda não deu certo? Para superarmos o que nos amarrava, ele acreditava, era imperioso saber quem somos, qual a gênese de nossa formação e no que ela resultou. Nesse sentido, a idéia de lançar o conteúdo do livro em linguagem televisiva foi perfeita.

Sabemos que a sociedade contemporânea é da televisão. Ela está presente em todos os lugares e influencia fortemente o comportamento do cidadão no seu dia-a-dia. Acompanha-o quando acorda; nos ônibus e carros com que se desloca ao trabalho; nos restaurantes onde come e na sala de espera de seu médico ou dentista; no celular e na Internet; em casa, à noite, dividindo tempo precioso com a família. Ao empregá-la, as classes dominantes procuram manter os cidadãos amorfos, sem uma concepção de mundo própria. Na disputa pelo poder de Estado, ela constrói vitórias e derrotas eleitorais. Tornou-se um clássica, por exemplo, a manipulação promovida pelo Jornal Nacional nas eleições presidenciais de 1989, após o debate entre Collor e Lula, distorcendo a imagem do último a ponto de evitar sua provável vitória nas urnas.

Mas o uso apropriado de veículos como a TV também pode produzir resultados excepcionais, difundindo vastamente certas ideias, como já nos dizia Rossellini, com seu cinema pedagógico. Mostrar ao brasileiro a sua cara, através de um documentário baseado na obra de Darcy Ribeiro, é a estratégia mais correta para despertar as ideias contidas em seu livro, libertando-as do campo meramente acadêmico, em que poucos irão entendê-lo e lançando-as à população. Muito de acordo, aliás, com as concepções do próprio autor.

Embora doutor honoris causa pela Sorbonne, plenamente reconhecido em grandes universidades; criador, ele próprio da Universidade de Brasília, ministro da Educação no governo João Goulart e autor de livros ediados em vários idiomas, Darcy não foi uma unanimidade (se é que isto existe realmente) na academia. Sua história de “fazedor” desenvolve-se plenamente no campo, na ação da prática de vida-vivida, segundo o axioma marxista de que “os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo de diversas maneiras, mas o que importa é transformá-lo” (Karl Marx, in Teses sobre Feuerbach). Por suas atitudes, colecionou muitos seguidores, mas também muitos opositores.

Darcy faz parte da galeria de grandes intelectuais, que pensaram o Brasil e desenvolveram, no pós-II Guerra Mundial, teses para nossa consolidação como uma das grandes nações do mundo. O grupo inclui Florestan Fernandes e a chamada Escola Paulista de Sociologia; intelectuais oriundos dos partidos de esquerda – comunistas, socialistas, e outros; economistas da escola cepalina, que influenciaram governos como os de Vargas, Juscelino, Jânio e João Goulart.

Profundo conhecedor do interior Brasil, principalmente pela estreita ligação com o Serviço de Proteção ao Índio (SPI), do Marechal Rondon, e com os indigenistas da época, como os irmãos Villas Boas, Darcy destacou-se pelos seus valiosos estudos sobre etnias indígenas brasileiras. Passou a ter dimensão nacional quando se aproximou do professor Anízio Teixeira e os educadores da “Nova Escola”, incorporando aos seus estudos a questão educacional no Brasil.

Suas formulações teóricas sempre estiveram ligadas a uma prática política com um conteúdo ideológico definido: ele partia da concepção de que na raiz de um pensamento existem sempre interesses de classes, que determinam a sua essência. Darcy escolheu um lado, e este foi sempre o dos despossuídos, tendo grande capacidade de se colocar na posição do outro e de fazer do interesse do outro o seu problema.

Por suas ideias e ações políticas – exerceu, por exemplo, importante influência no governo João Goulart – granjeou muitos inimigos. Por isso, foi obrigado ao exílio, após o golpe de Estado de 1964.

Mas jamais deixou de produzir. Em 1968, lançou O Processo Civilizatório, em que se atreve a uma revisão crítica dos esquemas conceituais propostos pelos estudos clássicos de antropologia. Esboça uma nova visão acerca do desenvolvimento humano que gera forte impacto, haja vista não estar enquadrada nos esquemas teóricos tradicionais.

Darcy se queixa: “… nos faltava uma teoria geral, cuja luz nos tornasse explicáveis em seus próprios termos, fundada em nossa experiência histórica. As teorizações oriundas de outros contextos eram todas elas eurocêntricas demais e, por isso mesmo, impotentes para nos fazer inteligíveis. Nosso passado, não tendo sido o alheio, nosso presente não era necessariamente o passado deles, nem nosso futuro um futuro comum. (…) O processo civilizatório é minha voz nesse debate. Ouvida, quero crer, porque foi traduzida para as línguas de nosso círculo ocidental, editada e reeditada muitas vezes é objeto de debates internacionais nos Estados Unidos e na Alemanha. A ousadia de escrever um livro tão ambicioso me custou algum despeito dos enfermos de sentimentos de inferioridade, que não admitem a um intelectual brasileiro o direito de entrar nesses debates, tratando de matérias tão complexas. Sofreu restrições, também, dos comunistas, porque não era um livro marxista, e dos acadêmicos da direita, porque era um livro marxista. Isso não fez dano, porque ele acabou sendo editado e mais lido do que qualquer outro livro recente sobre o mesmo tema” (Darcy Ribeiro, in O Povo Brasileiro).

Seguindo a esteira de grandes pensadores da sociedade brasileira, desde a Semana de Arte Moderna de 1922, Darcy nos via na construção de uma civilização original: tropical, mestiça e humanista. Dos índios, segundo ele, herdamos a capacidade e o talento para o convívio; dos negros, a espiritualidade e a ação sobre o invisível e o não dito; dos europeus a tecnologia e racionalidade. Estaríamos prontos, pois, para ser uma das civilizações do mundo. Seriamos o novo, capaz, na medida em que tomássemos conhecimento de nós mesmos, de contribuir para o avanço histórico da humanidade.

“Nessa confluência, que se dá sob regência dos portugueses, matrizes raciais dispares, tradições culturais distintas, formações sociais defasadas se enfrentam e se fundem para dar lugar a um povo novo, num novo modelo de estruturação societária. Novo porque surge como uma etnia nacional, diferenciada culturalmente de suas matrizes formadoras, fortemente mestiçada, dinamizada por uma cultura sincrética e singularizada pela redefinição de traços culturais delas oriundos. Também novo, ainda, porque é um novo modelo de estruturação societária, fundada num tipo renovado de escravismo e numa servidão continuada ao mercado mundial. Novo, inclusive, pela inverossímil alegria e espantosa vontade de felicidade, num povo tão sacrificado, que alenta e comove a todos os brasileiros.” (Darcy Ribeiro, in O Povo Brasileiro).

O documentário desenvolve as teses darcinianas seguindo o roteiro do livro. Ao longo de sete capítulos, ele nos fala sobre nossas matrizes: tupi, lusa e afro. Aborda o encontro dessas matrizes e a estruturação do modo de vida, costumes e tradições: cabocla, caipira, crioula, sertaneja, e sulina. Por fim, discute os caminhos para o Brasil atual, ressaltando principalmente nossas homogeneidades (tais como a língua, comportamentos, etc.), e ao mesmo tempo, nossas diversidades. Mais do que uma junção de etnias formando uma outra, e única (a brasileira), o Brasil é um povo-nação, ajustado a um território próprio para nele, juntos, viver o seu destino. Suas gentes teriam se amalgamado, a princípio, pelo peculiar instituto do cunhadismo, originário da cultura indígena. Formaram um ser, “um ninguém” – o brasileiro primitivo, que teve de procurar o sentido de sua existência como ser diverso das culturas matrizes.

Para Darcy Ribeiro formamos a maior presença neolatina no mundo, uma “Nova Roma”. Melhor do que a anterior, porque radicalmente lavada em sangue índio e negro. Esta singularidade nos condena a nos inventarmos a nós mesmos. Também nos desafia a construir uma nova sociedade, inspirada nas nossas gêneses, despontando no cenário mundial com nossas próprias particularidades

Darcy acreditava que o Brasil estava diante de uma encruzilhada, a partir da reordenação do mundo globalizado, provocada pela terceira revolução industrial. Impaciente, via que poderiamos perder essa oportunidade, a exemplo do que aconteceu no século XIX – quando não nos industrializamos e permanecemos como exportador de matérias primas. Vem dai sua insistência na pauta prioritária da educação como mola motriz do nosso desenvolvimento, em uma época na qual dominar o conhecimento tornou-se o elemento decisivo no processo de emancipação de um povo.

Utópico no melhor da sua essência – movido por aquela utopia de que nos fala Karl Mannheim que é a incongruência perante a realidade – Darcy é uma das figuras mais fascinantes do século XX. Viveu plenamente suas utopias, não se importando se elas não se realizavam. Sua contribuição ao Brasil, até hoje pouco compreendida, pode nos dotar de uma proposta original. Abre caminho para participar de fato do novo cenário internacional. Exige que venham à tona do fundo de nossas humanidades, e num quadro de declínio de civilizações, novas formas de viver. Pacíficas, alegres e sábias, capazes de recompor a aliança do ser humano com a natureza e a criatividade. Darcy achava que, por nossa peculiar formação, nós seriamos seus arautos.

Serra da Mantiqueira, fevereiro de 2012.

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* Arlindenor Pedro é professor de história e especialista em projetos educacionais. Anistiado por sua oposição ao regime militar dedica-se na atualidade a produção de flores tropicais na região das Agulhas Negras.

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