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19 março, 2013

Eleição 2014: aberta temporada de “plantação” de notícias

por: Bob Fernandes 
do: Terra Magazine
dica @EduPavao





Está aberta a temporada de ensaio geral. Ensaio para as eleições de 2014. E, para isso, os candidatos a candidato contam com a nossa colaboração, a dos jornalistas e a das redes sociais.

Eles ensaiam estratégias, discursos, destinos partidários. Fazem de conta que tudo já é pra valer. E, quando se noticia e se comenta, candidatos e seus assessores, pesquisadores, avaliam o que pega e o que não pega. O que funciona e o que não funciona, o que o eleitor "compra" ou não.

Eduardo Campos (PSB) é governador de Pernambuco, onde tem algo como 90% de aprovação. Nestes dias, ele tem andado pelo Sudeste. Entre outras ações, tem conversado com cúpulas dos grandes grupos de mídia. E, quase sempre na moita, tem conversado também com grandes empresários.

Para medir o pulso e porque, como sabemos, as campanhas eleitorais no Brasil estão entre as mais caras do mundo. Então, alguns terão que bancá-las, pagá-las. Sempre.

Assim, de governo em governo, a oposição ao governo seguinte faz uma CPI. Isso no plano federal, nos Estados e nos municípios. Levam-se meses apurando "como foi possível acontecer uma coisa dessa?". E depois, quase sempre, todos se acertam. Só não se acertam quando o infrator não é do clube. Ou quando age como amador.

Esse quadro, é bom que se diga, vale para todos que jogam o jogo grande. Uns mais, outros menos, mas essa é a regra. A regra não será essa no dia em que, por exemplo, o PMDB não for mais "indispensável à governabilidade".

Esse quadro terá mudado quando Lula não precisar mais engolir, ou ser engolido, pelo Jader, pelo Sarney, por essa gente toda, e quando não precisar posar para fotos com Maluf.

Isso já não será assim quando um Fernando Henrique Cardoso não tiver um Antônio Carlos Magalhães, o ACM, como o homem forte de quase todo seu tempo na Presidência. Ou não tiver Renan Calheiros como seu ministro da Justiça.

Isso será diferente quando, nessa geleia geral, pra não dizer outra coisa, a Comissão de Direitos Humanos não for entregue ao pastor Feliciano (PSC-SP). E quando o Blairo Maggi (PR-MT) não for o escolhido para cuidar do Meio Ambiente.

Ou quando, em nome da "governabilidade", um presidente não precisar arranjar boquinhas para partidos em 39 ministérios; ou em 30, ou em 25… o delírio é igual.

Enquanto isso… parece que o senador Aécio Neves (PSDB-MG), com ajuda do FHC, tenta convencer o Serra a… deixar de ser Serra. E o ex-prefeito Kassab não sabe se vai ou não, se é ou deixa de ser.

Enquanto isso, a presidente Dilma Rousseff, em Roma, empresta abalizadas opiniões ao papa.

Tudo, de todos, sempre registrado para uso posterior. Ou, como se diz no jornalismo, para ser "plantado". Para que se possa medir as reações, afinar discursos, estratégias, candidaturas, etc.

A partir do dia 30 de setembro, esse jogo muda um pouco. Essa data é o fim do prazo para filiações, troca de partidos, ou novos partidos, rumo à eleição de 2014.

Enquanto isso, e até lá, segue o ensaio geral… e a plantação.

30 outubro, 2012

A derrota de um cadáver político insepulto


Por: Dennis de Oliveira ( @dennisoliveira )
Da: Revista Forum

Em uma rápida análise feita com base nas matérias publicadas sobre o segundo turno das eleições municipais em São Paulo, elencamos os temas presentes nas declarações dadas à imprensa ou registradas pela imprensa em comícios e outros atos de campanha dos dois candidatos. O tema mais falado por Serra foi o mensalão, seguido de saúde e o kit anti-homofobia. Já Fernando Haddad priorizou saúde, mensalão e a taxa de inspeção veicular.

HaddadSerra
Saúde (31,82%)Mensalão (39,13%)
Mensalão (18,18%)Saúde (21,74%)
Taxa Inspeção Veicular (13,63%)Kit-antihomofobia (13,04%)
Educação/creches (9,09%)Transporte (9%)

Percebe-se a presença de uma agenda “negativa” nos discursos de Serra, uma campanha que procurou se pautar muito mais pelo “perigo do PT”, discurso que beira até o ressentimento, do que um discurso propositivo. A ausência de programa – ele foi só apresentado em outubro – foi acompanhada da apresentação de um monte de promessas desconectadas na área social, como o aumento de salários de professores, a bolsa-creche, o bilhete único de seis horas, a jornada de 7 horas nas escolas. Isto ocorreu após a percepção de que o discurso fundamentalista-religioso ampliou a sua rejeição, o fez perder mais votos e ainda afastou líderes históricos do partido, como Fernando Henrique Cardoso e José Gregori.

Os resultados pífios nas primeiras pesquisas de intenção de voto fizeram o candidato disparar contra tudo e contra todos. Acusou o PT de fazer baixaria, passou a agredir a própria grande mídia sempre simpática a ele (note-se que o tema mensalão foi o assunto principal da agenda midiática) e tentou se posar de popular. Ao perder as eleições, desejou boa sorte ao adversário vencedor sem citar o seu nome. A derrota foi vergonhosa pois contou com tudo a seu favor – a máquina do governo, a mídia favorável e o fato do adversário entrar na corrida eleitoral como um desconhecido.

27 outubro, 2012

Sim, é preciso resistir – uma resposta ao Estadão

por Denise Queiroz
_______ 


Onda de violência, edição de debates para favorecer o candidato da agora oposição ao governo, panfletos apócrifos, sites falsos... faltou a bolinha de papel e as previsíveis manchetes, em chamadas extraordinárias, sobre suposta agressão ao candidato que vinha mal nas pesquisas para que a eleição de São Paulo deste ano revivesse, em alguns dias, todo o cordel de baixo nível que assistimos desde que voltamos a ter eleições diretas para todos os cargos.

Independente dos marqueteiros que, no desempenho de seu ofício, apresentam o melhor lado do candidato, tanto na propaganda eleitoral gratuita quanto nos debates, segue em jogo dois projetos opostos de governança.

De um lado o representante – sempre ele, o mesmo desde 2002 e só não o foi em 1998 por que houve alteração na constituição e, pelo domínio dos fatos não julgados, comprada por quem ocupava a cadeira mais alta – das oligarquias que tiveram o comando do país durante 500 anos, com algumas pequenas interrupções e tentativa de avanços logo sufocadas por essas mesmas oligarquias. E de outro um projeto que vem colocando em prática algo que não é nem o pior capitalismo, mas tampouco socialismo, comunismo ou o nome que se queira dar. Na verdade um projeto que vem quebrando paradigmas e aos poucos resgatando parte pequena da dívida que essa gente montada no mando de fato deixou nesses séculos todos. O pagamento dessa dívida é feito em doses homeopáticas, mas mesmo assim, como o medicamento, com mais eficácia e menos danos colaterais que doses alopáticas poderiam causar.

“Devagar e sempre”, “passo a passo”, “de grão em grão a galinha enche o papo”, “de poste em poste um luz para todos”. São muitos os ditos, antigos ou recém criados, que já fazem parte e se aplicam a estes últimos 10 anos!

“O pior cego é o que não quer ver” cai como uma luva hoje, véspera do segundo turno, tanto ao editorial do Estadão “resistir é preciso”– onde mais uma vez o jornalão deixa claro de que lado está e que, caso eleito, Haddad não terá neles um aliado, quanto aos ainda milhares de eleitores que, talvez por algo como catarata, não conseguem visualizar que a inclusão social e econômica de quem sempre esteve à margem propicia, a eles mesmos, um “bem-estar” que em outros tempos e sob outros comandos era incerto.

Na política não há perfeição e sempre há riscos. Mas entre optar por um projeto que ainda na candidatura é capaz dos piores artifícios para desqualificar o adversário e assim ‘ganhar no tapetão”, a exemplo do que foi feito em 1989, 1994, 1998 e tentado sem sucesso, de várias formas, em 2002, 2006 e 2010, não há dúvida de que a escolha óbvia é pelo projeto que, dentro das regras - questionáveis e necessitando faxina e reconstrução - do jogo eleitoral, representa possibilidade de transformação e recapacitação da cidade como ambiente a ser ocupado por quem de direito, todos os cidadãos.


 


18 outubro, 2012

Pautas e cólera

Publicado no mesmo Estadão que foi o único jornal a declarar apoio a Jose Serra em 2010. 



O candidato Serra e as 'pautas petistas'

por Eugênio Bucci


Na terça-feira o candidato tucano à Prefeitura de São Paulo, José Serra, agastado com perguntas de dois jornalistas, acusou-os de defenderem "pautas petistas" e tentou desqualificá-los como profissionais. As ofensas mereceram destaque na primeira página do jornal Folha de S.Paulo de ontem. A "pauta petista", na opinião de Serra, é a comparação entre o famigerado "kit gay", preparado pelo Ministério da Educação (MEC) no ano passado, quando Fernando Haddad, hoje candidato a prefeito pelo PT, ainda era o titular dessa pasta, e uma cartilha distribuída às escolas pelo governo paulista em 2009, tempo em que Serra ainda morava no Palácio dos Bandeirantes.

O ex-governador de São Paulo repudiou a revelação feita na segunda-feira pela colunista Mônica Bergamo, da própria Folha, de que o kit do MEC e a cartilha paulista tinham conteúdos parecidos (é verdade que o material do MEC, depois de pronto, nunca foi distribuído, pois a presidente Dilma Rousseff, pressionada pelas reações ruidosas de congressistas católicos e evangélicos, mandou engavetá-lo). Serra entendeu que a analogia entre uma coisa e a outra constitui mau jornalismo, ou, nas palavras dele mesmo, "a Folha entrou numa roubada (...) e fez uma má reportagem".

O tucano atacou pessoalmente os dois profissionais em dois episódios diferentes. Na terça de manhã, ao ser indagado sobre o assunto pelo jornalista Kennedy Alencar, da rádio CBN, disparou: "Eu sei que você tem preferências políticas, mas modere, você não pode fazer campanha eleitoral aqui". Parecia falar em nome dos acionistas da CBN. Depois, à tarde, tentou humilhar uma repórter do UOL, portal do Grupo Folha, propondo que ela fosse "trabalhar com o Haddad". A repórter, como Kennedy Alencar, não tinha injuriado ou agravado o candidato. Ela simplesmente solicitara que ele esclarecesse sua posição sobre o debate da homofobia em escolas. Foi o que bastou para Serra subir o tom.

Como se viu, o "kit gay" desencadeia um tique nervoso no candidato tucano: bater boca com a imprensa. Na campanha que disputou para a Presidência da República, em 2010, por motivos outros, que nada tinham que ver com homofobia, o mesmo tique apareceu em mais de uma ocasião. Aqui e ali, Serra tratou repórteres com uma rispidez inadmissível para alguém que pleiteava nada menos que o emprego de presidente do Brasil.

Quando um governante - ou candidato a - dirige a um repórter insinuações ou acusações com o objetivo de macular sua dignidade profissional, estamos no pior dos mundos. Se exacerbada, essa conduta desestabiliza as instituições. Rafael Correa, presidente do Equador, levou às últimas consequências a política de fustigar jornalistas: ele os ataca nominalmente em discursos transmitidos em cadeia nacional de rádio e televisiva. A consequência é que hoje as condições da imprensa livre no Equador inspiram preocupações das mais sérias.

Serra não é Correa, evidentemente, mas agiu mal. Um candidato pode reprovar uma manchete, uma legenda, uma pergunta que lhe façam. Pode discordar. O que não pode é investir contra a pessoa do jornalista. Interrogações adversas fazem parte do clima eleitoral. Se ele agride um repórter acusando-o de não observar as regras da independência editorial (um cânone da nossa profissão) e de fazer proselitismo partidário disfarçado de noticiário, dá indícios de que talvez não esteja assim tão preparado para conviver serenamente com a pluralidade de opiniões.

Por certo, a conduta arrivista de José Serra nesta semana não constitui, em si mesma, uma ameaça à democracia. O problema, porém, não é o que essa impaciência toda destrói ou deixa de destruir, mas o que ela não constrói. Atitudes assim não ajudam a sustentar o ambiente democrático e de um candidato a prefeito de São Paulo não se exige apenas que não ameace a liberdade de imprensa, mas se exige dele que ajude a fortalecê-la. Candidato que se arvora a passar pito em repórter sai de sua função e não constrói nada de bom.

Nesse ponto, um gesto de desrespeito dirigido contra jornalistas pode ser lido, sim, como falta de zelo pela própria instituição da imprensa. Se o destempero de Serra não corrói a liberdade, ainda que fira a imagem de profissionais de imprensa, não constrói a convivência entre jornalistas, eleitores e autoridades.

Não é só isso. Um candidato que preza, mais que a instituição da imprensa, a autonomia e a dignidade do eleitorado tem o dever moral de responder a todas as perguntas que lhe fazem, venham elas dos veículos jornalísticos que ele aprecia ou venham diretamente dos partidos adversários. Do ponto de vista do eleitor, tanto faz. As dúvidas da sociedade, tenham a origem que tiverem, devem ser todas esclarecidas. Pense bem o leitor: o que seria do debate público se todos os candidatos petistas, quando indagados sobre o mensalão, dissessem simplesmente que isso é uma "pauta tucana" e não respondessem nada? O debate público ficaria inviável.

É fato que centenas de petistas - inclusive alguns dirigentes da máquina partidária - vivem a jogar nas costas da imprensa a responsabilidade pelas misérias morais do PT, mas existem candidatos responsáveis da legenda que se prestam a responder com sobriedade e urbanidade a todas as perguntas. Eles sabem que o cidadão tem o direito de saber dos assuntos de interesse público e isso inclui o direito de saber sobre mensalão e... sobre o "kit gay" também. Portanto, mesmo que a cartilha do governo paulista sobre homofobia fosse uma "pauta petista" (o que não é), isso não o desobrigaria de responder ao que lhe é perguntado. Ao descartar o questionamento como se fosse uma bobagem, o candidato chamou de bobos todos os interessados no tema.

Um jornalista, seja da Folha, da rádio CBN, do UOL, de onde for, representa o seu veículo e o seu público. Quem agride um jornalista agride o público.

21 setembro, 2012

As pararedações


do @pagina2

Esvaziadas por seguidos cortes de pessoal, redações utilizam material produzido por campanhas eleitorais como apuração própria


Imagem do filme Poltergeist

A conta não bate. Até 2003 o sexto andar no Estadão era dividido por um corredor. Metade era redação do JT. Na outra ficava o Estado. Os Mesquita foram demitidos, as redações foram integradas e hoje, o JT tem 50 profissionais. Uns 30 são jornalistas. A Folha segue o mesmo caminho. O online acabou e repórteres fazem texto para o jornal, site e agência.

O Len (@Len_Brasil) se perguntou outro dia como os jornais tem acessos a telefonemas de Lula, relatórios internos de Dilma.

Paranormais?

Sempre haverá palacianos dispostos a ajudar o trabalho de um jornal. Fogo amigo existe em todos os partidos. Mas, nos últimos anos, com o trabalho incansável de Serra em busca do poder, as produções terceirizadas ganharam espaço nas páginas dos jornais.

"Lembra de fulano?", perguntaram-me outro dia. Sim, respondi. Grande repórter. "Agora é repórter investigativo do Serra".

Gravações ilegais, arapongagem, invasões foram usada como arma política. A experiência do núcleo de espionagem montado por Serra na estrutura da Anvisa transformou numa redação surda, muda e telepática.

A campanha de Serra parece um iceberg. A parte visível é a menor. Submergida num mundo de ilegalidade há até uma redação completa. O pessoal veio das assessorias de governo de SP.

Com passaralhos a cada seis meses, muito e bons jornalistas foram trabalhar na comunicação corporativa. Vários foram contratados por secretarias e autarquias do governo e da prefeitura de SP. São editores, repórteres e redatores que produzem matérias investigativas contra adversários e sede a jornais e revistas que as publicam como se fosse levantamento interno.

O esquema é o mesmo operado por Cachoeira em Veja. Não há apuração de matéria. O que vem da campanha (ou dos grampos de Dadá e companhia) são tratados pelos jornais como verdade factual. Uma vez com cara de notícia é repercutido pelos outros entes do PiG.
Ou alguém pensou que com 30 jornalistas uma redação tem condições de fazer reportagens de fôlegos, ouvir fontes, cavar documentos?

27 junho, 2012

Hiato entre poderes põe em risco a democracia



Do Adital
Pe. Alfredo J. Gonçalves*

Na história do processo democrático latinoamericano encontra-se um dado comum e preocupante. Vários países exibem, ao mesmo tempo, um(a) Presidente popular e progressista ao lado de um Parlamento conservador ou retrógrado. Na raiz dessa constante poderíamos encontrar uma explicação no que Maria Isaura Pereira de Queiróz e José de Souza Martins chamam de "messianismo político”. Este muda de grau e de tonalidade, mas em seu conteúdo e forma, repete-se ao longo da trajetória acidentada do continente.

Isso quer dizer que as eleições com frequência revelam uma espécie de esquizofrenia: enquanto a população em geral tende a eleger um "salvador da pátria” na pessoa do mandatário máximo, as oligarquias costuram alianças para formar senadores e deputados que deverão defender seus interesses e/ou privilégios. Em alguns casos a dicotomia é flagrante. Na emoção e expectativa da mudança, o povo concentra sua esperança e suas energias sobre a figura do líder, ao passo que as classes dominantes, calculada e matematicamente, preparam, em surdina ou ao à luz do dia, uma maioria decisiva e decisória.

Semelhante descompasso resulta na cristalização ou congelamento do status quo, em detrimento de um programa de mudanças urgentes e necessárias. A expectativa levantada com a eleição de um "messias” costuma ser infinitamente superior à capacidade de organização dos que o levaram ao poder. A capacidade real de tomar decisões por parte do poder Executivo debate-se com as forças contrárias dos outros dois poderes: Legislativo e Judiciário. O resultado são os constantes entraves, impasses e constrangimentos no interior do exercício democrático, além da prática do "toma lá dá cá” e do tráfico de influências. Evidente que neste clima há terreno fértil para a corrupção e o balcão de negócios.

Não poucas vezes o processo eleitoral expõe de maneira nua e crua essa dicotomia. Por um lado, as pesquisas da mídia e o trabalho do marketing convergem câmeras, holofotes e microfones para a eleição dos cargos majoritários (Prefeito, Governador e Presidente); por outro, nos bastidores ocultos das luzes e cores do cenário político, crescem as candidaturas dos cargos legislativos (vereadores, deputados e senadores). Não se trata apenas de descompasso, mas de um conflito que reflete e traduz um jogo de interesses da própria sociedade. A população centra o olhar no trono mais elevado, mas os representantes dos setores que detêm a riqueza e o poder o centram nas cadeiras da Câmera e do Senado. Sabem que estas, em última instância, é que elaboram as leis. Resta ao soberano, no exercício do mandato, o apelo às Medidas Provisórias, o que contrasta com o a prática genuína da democracia.

Em síntese, o "messias” encarna o governo, mas os parlamentares e juízes dominam as forças do Estado. Este não é um tigre, com suas acrobacias rápidas e flexíveis, e sim um elefante pesado, cuja burocracia requer muito tempo para completar um passo à frente. O Estado tende mais à inércia do que ao movimento. Disso resulta a decepção com presidentes que, supostamente, foram eleitos para efetuarem mudanças rápidas, as quais, de resto, fazem parte do cardápio de suas promessas. Numa palavra, não é o "messias” que põe a história em marcha, nem o paquiderme dos três poderes da união. Como a flor, a espiga e o edifício, as mudanças históricas se levantam do chão.

Talvez isso ajude a entender a trajetória de Lula, de Lugo e de Cristina, respectivamente no Brasil, Paraguai e Argentina. Mas não só!


*Assesssor das Pastorais Sociais

19 junho, 2012

Não existem santos nem inocentes neste jogo pesado



Reproduzimos um sentimento que o Kotscho conseguiu colocar em palavras.
  



por Ricardo Kotscho


Maluf já tinha conseguido tudo o que queria do PT: colocar um cupincha do PP no Ministério das Cidades e a garantia de cargos na área de habitação da prefeitura caso Fernando Haddad seja eleito.

Nesta segunda-feira, com tudo acertado para o acordo ser celebrado pelas direções dos dois partidos num almoço em sua latifundiária mansão da rua Costa Rica, no Jardim América, o criador do malufismo resolveu tripudiar: exigiu a presença do ex-presidente Lula no almoço.

Deu a entender a interlocutores do PT que, sem tirar uma foto com Lula em seus belos jardins, não selaria a aliança. A esta altura, já era certo que o ex-presidente não iria ao casamento, por recomendação dos médicos, que lhe recomendaram distância dos atos políticos por mais alguns dias para poupar a voz.

Pelo mesmo motivo, Lula não participou do ato, na última sexta-feira, em que o PSB oficializou seu apoio ao PT com a indicação da ex-prefeita Luiza Erundina para vice de Haddad. Erundina, que já estava inconformada com esta aliança, ficou magoada, e ameaçou pular do barco.

Nunca se vai saber se Maluf, como é de seu costume, estava apenas blefando ou se levaria até o fim a chantagem. O fato é que Lula não quis pagar para ver e acabou se submetendo a uma cena constrangedora diante da imprensa como se tivesse sido obrigado a fazer uma coisa que não queria. Por conhecê-lo bem e ser seu amigo faz mais de 30 anos, posso imaginar quanto deve ter sido difícil para ele tomar esta decisão.

Sabemos todos que nestes tempos modernos de política pragmática os acordos eleitorais são feitos não mais baseados em programas partidários, mas em tempo de TV, cargos e verbas, que se transformam em votos e decidem vitórias ou derrotas. Não existem santos nem inocentes neste jogo pesado. Mas precisava da foto?

Em eleições, só é feio perder, costumam dizer os marqueteiros e estrategistas nos comitês de campanha. Além de votos, porém, a política também é feita de símbolos e de fatores subjetivos como a esperança, a confiança e a lealdade a certos princípios e valores.

Por longo tempo, desde a sua fundação, em 1980, o PT e Lula, seu principal líder, simbolizavam esta esperança de que a política pudesse ser feita de outro modo, sem que fosse preciso vender a alma ao diabo. Paulo Maluf sempre representou exatamente o oposto. Sou do tempo em que Lula era inimigo de Maluf e vice-versa. Sempre fiquei ao lado de Lula.

A realidade do poder, no entanto, foi maior do que o sonho e, hoje, ao ver esta foto em todos os jornais, muitos eleitores, principalmente os mais jovens, perderam as referências.

O pior de tudo foi ver o sorriso de vitorioso de Paulo Maluf ao passar a mão na cabeça de Fernando Haddad sob o olhar conformado de Lula. As eleições passam, mas esta foto vai ficar na memória como sinal de um tempo _ um tempo de descrença na política e nos valores democráticos.

Heródoto Barbeiro me perguntou ontem à noite no Jornal da Record News se este apoio de Maluf vai dar ou tirar votos do PT. Não soube responder, e também não importa. Minha conta não é essa.

E se o Maluf fechasse o acordo com o Serra, o que você diria?, perguntam-me alguns leitores. Eu não diria nada, até porque seria algo absolutamente normal, dentro do previsível e, portanto, nem daria manchete nos jornais. Boi preto com boi preto não chamam a atenção de ninguém.

A mais antiga história sobre jornalismo é aquela do cachorro que morde o homem e a do homem que morde o cachorro. Notícia é o que foge à normalidade, e esta foto na mansão de Paulo Maluf se enquadra no caso do homem que mordeu o cachorro.

Do ponto de vista puramente eleitoral, para mim não muda muita coisa ter um minuto a mais ou a menos no horário político obrigatório, já que o candidato tucano José Serra, no mesmo dia em que perdeu o apoio de Maluf, correu atrás do tempo de televisão do PTB de Roberto Jefferson, depois de ter vencido o leilão do PR de Valdemar da Costa Neto.

Neste negócio de ganhar ou perder apoios, ninguém vai poder falar nada de ninguém. Quem mais perde, com certeza, é o eleitor, cada vez mais descrente nos rumos da política brasileira. É triste.

06 junho, 2012

Lulismo X Petismo?

Por Francisco Bicudo



O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a cúpula do PT paulistano ficaram acabrunhados, macambúzios e irados com a senadora Marta Suplicy. A ex-prefeita de São Paulo, depois de ter confirmado participação, deu o cano na convenção que oficializou o ex-ministro Fernando Haddad como candidato petista à disputa pela prefeitura de São Paulo. Marta sumiu, não deu inicialmente satisfações, desligou o celular - o mesmo fizeram seus assessores. No dia seguinte, alegou "motivos particulares" para a ausência. E ponto. Nada mais. Restaram aos organizadores da festa os sorrisos amarelos e as evasivas constrangidas, além de praticamente terem jogado a toalha para aceitar, de forma resignada, que a campanha terá mesmo de acontecer sem o apoio de Marta.

Não penso honestamente que dizer "sim, irei" para depois simplesmente sumir do mapa tenha sido o comportamento político mais adequado e equilibrado. De certa forma, reforça características marcantes e definidoras da personalidade de Marta, responsáveis inclusive, em boa medida, por derrotas eleitorais recentes: a arrogância e a soberba, o "umbiguismo" exacerbado. Entendo também que a última campanha dela à Prefeitura, em 2008, foi marcada por escolhas e decisões lamentáveis e desastrosas, que culminaram com aquela preconceituosa peça publicitária que peguntava se Kassab "era casado, se tinha filhos". Também tenho dúvidas se Marta seria a opção política (não apenas eleitoral) mais adequada para a disputa que se anuncia, capaz de agregar e de construir um projeto com condições de enfrentar ideologicamente e programaticamente o higienismo excludente, anti-social e cheio de proibições do kassabismo-serrismo.

O fato, no entanto, é que a maioria do PT paulistano, sucumbindo aos apelos e ditames messiânicos do ex-presidente Lula, atropelou a ex-prefeita e detonou a pré-candidatura de Marta, impedindo-a de fazer valer um direito legítimo e democrático de qualquer filiado de qualquer partido - o de disputar as prévias que escolheriam o candidato da agremiação. A mão de ferro lulista foi implacável, sufocando resquícios de democracia interna e tirando coelho da cartola, sem espaços para divergências ou contestações.

É verdade, vamos lá, política não se faz com o fígado. Racionalidade é fundamental. Mas princípios e dignidade não podem ser abandonados pelas esquinas. Não há quem consiga me convencer que o líder comunista Luis Carlos Prestes agiu corretamente ao apertar a mão de Getulio Vargas, apoiando-o nas eleições presidenciais de 1950, depois de ter sido ele próprio, Prestes, vítima do autoritarismo getulista (passou quase dez anos preso), sem contar a deportação de Olga Benário para a Alemanha nazista, onde acabaria assassinada no campo de extermínio de Bernburg. Lembro do episódio para voltar à prefeitura paulistana e dizer que compreendo ser legítimo o direito de Marta de manter-se afastada da campanha, depois de, insisto, ter visto suas pretensões terem sido implodidas pelo caciquismo e coronelismo internos.

Ora, quem agiu dessa maneira, truculenta e autoritária, imaginou mesmo que bastaria um estalo de dedos e uma nova ordem do grande líder para que Marta se engajasse automaticamente à campanha de Haddad, aparecendo sorridente ao lado dele nas fotos de campanha? As pontes foram implodidas, a interlocução caducou. Terão de ser cuidadosamente reconstruídas - e tal processo não poderá ser pautado por bravatas ou ameaças veladas, ao contrário, deveria ser conduzido com muita paciência. Pode levar mais tempo do que deseja o PT. É o ônus, o preço de uma escolha. Atordoado, o PT sabe que não tem esse tempo, e reconhece que a presença de Marta nas periferias da capital é fundamental para ajudar a levantar a candidatura Haddad. Noves fora, parte para a desqualificação.

Reside aqui a essência do texto, a discussão de fundo que pretendo sugerir: para além das picuinhas e arranca-rabos entre Marta Suplicy e Lula/PT, o que se lamenta é que o episódio todo sirva para reforçar, mais uma vez, que o PT se transformou em um partido como outro qualquer, onde decisões importantes são tomadas unilateralmente, por um líder carismático que tem inegavelmente sua importância histórica, mas que se julga com infalível capacidade de avaliação política, acima do bem e do mal, isento de erros, e que não aceita ser contrariado. Alguém que confia cegamente em seu faro político apurado - e que, mesmo quando está nu, é elogiado por seus companheiros.

O PT transformou-se num exército da vontade de um homem só. O lulismo engoliu o petismo, tal qual uma ameba a fagocitar o pedaço de alimento que encontra. Se era para renovar, que tal movimento viesse explicitado e legitimado pelo desejo manifesto das bases, que a militância tivesse tido a oportunidade democrática de dizer, no debate interno, "Marta, agradecemos seu governo, reconhecemos os avanços e conquistas, mas é hora de apostar na oxigenação do partido em São Paulo, é a hora do Haddad".

Parece tarefa mais fácil, no entanto, crucificar e demonizar Marta (que tem seus defeitos e erros políticos, reforço) e dizer que "ao não comparecer à convenção e ao não apoiar Haddad, ela faz o jogo do Serra". Não vou ficar admirado se alguém comentar por aqui que, com este texto, estou alinhado com o pensamento do PIG - o Partido da Imprensa Golpista. Compra-se mais uma vez, sem qualquer espírito crítico ou de independência intelectual, a reducionista e obsessiva análise lulista - "quem não concorda com tudo o que o chefe diz e faz está contra ele e é aliado dos tucanos". Tão tosco quanto falso. Até porque, cabe lembrar, Marta não é a única vítima dos tentáculos lulistas neste processo eleitoral de 2012. Os diretórios do PT nas cidades do Rio de Janeiro e de Recife que o digam.

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