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21 março, 2015

Receita para seduzir descontentes

por Denise Queiroz


A seguir uma lista de expressões que vem sendo usadas nas redes sociais pelos governistas. A luta é pela sedução dos incautos que contestam esta maravilhosa gestão, para que voltem a apoiar o governo. E também para desmentir esses boatos de crise que o PT e partidos da base enfrentam. Claro que essa crise é pura invenção, mas pelo sim, pelo não, você tem que saber como defender o governo dos pobres e iluminar a mente dos desinformados. Pode parecer estranho, mas muita gente não entende que estamos sendo vítimas de uma enorme e bem elaborada conspiração da CIA. O que queremos é menos ódio e mais democracia. Portanto, use e abuse dos seguintes termos.

1 – Coxinha : qualquer pessoa que usa roupa e adereços da moda e discorde de qualquer coisa que venha do governo. Se insinuar que uma vírgula está mal colocada num texto, que o brinco da presida não ornou, que tal postura não é correta, não tenha dúvidas: você está diante de um coxinha, portanto desinformado. Coloque-o no seu lugar. Chame-o de coxinha e mande se informar. Lembre de mandar links com textos de reconhecidos blogueiros progressistas.

2 – Reaça: se você imaginou aquele velhinho conservador arenista e resmungão diante de qualquer mudança, você parou no tempo. Reaça é aquele coxinha que ousa fazer alguma crítica ao governo, a algum político, jornalista, acadêmico ou blogueiro governista . ‘mas eu milito no movimento lgbtt...’ Reaça. ‘Sempre gostei de ler x, mas desta vez perdeu a mão.’ REAÇA. "Concordo que tal coisa tenha que ser resolvida, mas discordo dessa proposta... " REAÇA. "A corrupção ..." Coxinha REAÇA.

3 – Psolista : qualquer crítica ao governo ‘pela esquerda’. Termo um pouco em desuso desde as eleições de 2014, mas desconfie de posicionamentos a favor de greves, de movimentos populares independentes como o MPL e blocos de lutas, estado laico, energias alternativas, críticas aos homens de deus, se chamar os grande produtores agrícolas de ruralistas, criticar a cooptação das centrais sindicais, designar privatizações as concessões ou transferência de ativos etc. Diante disto, tasque logo um 'coxinha reaça e PSOLISTA'. A pessoa imediatamente vai concordar com você e pedir desculpas pelos equívocos.

4 - Golpista: qualquer um que leia qualquer portal ou colunista da grande mídia, o pig (Partido da Imprensa Golpista). A imprensa é golpista, a mídia é golpista, os atores (com exceção do Zé e mais uns 3 ou 4 que apoiam o governo) são golpistas. Os apresentadores são golpistas e têm o poder de transformar qualquer um que os assista ou leia em golpistas. É impressionante o poder da mídia hegemônica e de quem nela trabalha. São uma espécie de semi-deuses que transformam todo um país (que não votou na Dilma ou que votou e se arrependeu ainda antes da posse diante dos belíssimos e necessários ajustes anunciados) em golpistas. Ao ligar a TV (com excessão da TV do querido Edir Macedo, que deu uma pisadinha na bola ao cobrir o 15M, mas o Falcão entende que ele queria competir pela audiência) você recebe automaticamente um raio golpitizador. Cuidado. Se alguém compartilhar qualquer notícia vinda dos portalões, chame a atenção e comente: isso é coisa de coxinha, reaça, psolista e GOLPISTA.

5 - Elite: conforme os parâmetros seríssimos e completamente afinados com nossa linda realidade paradisíaca, classe média é quem ganha entre 291 e 1.019 reais (dados de 2013). Se a pessoa ganha o suficiente para pagar sua conta de luz, almoçar, jantar, morar em algum lugar, pagar todas as taxas e impostos decorrentes disso e do uso do seu carro, desconfie. Provavelemente você está diante de uma pessoa da elite. Mas, observe. Se ela vive bem mas vota no governo e publica na TL textão do Emir, do PHA, do Nassif ou qualquer outro ‘comunicador independente' ou se comunica com eles nas redes, não é elite. Aí é classe média esclarecida, e você não tem nada que publicar ou comentar as publicações dela.

É complicado explicar este verbete, porque com a ascensão e inclusão promovidas pelo nosso ilibado governo, ficou difícil distinguir, mas funciona mais ou menos assim: seu vizinho de porta que comprou o apê no lançamento e mobiliou casualmente na mesma loja que você, funcionário público, aquele que tem o gatinho e que te ajudou a tirar as compras do elevador outro dia, defende cotas para as universidades, faz excelente trabalho de conscientização dos vizinhos sobre lixo, ecologia, participa das reuniões e mutirões no bairro. Fique atento pois ele pode ser elite. Se ele nem foi à manifestação do dia 15, mas seguidamente você ouve batidas de panelas vindas da casa dele na hora do Jornal Nacional não tenha dúvidas. Ele é elite, a pior das elites, aliás. “mas ele não era legal, o seu vizinho de porta? Ah, é, mas ele é elite, assina o Estadão (ou qualquer outro grande jornal) golpista de primeira hora. E ele tem camiseta da seleção brasileira! Eu deveria ter desconfiado quando uma vez criticou o atendimento que o porteiro (a faxineira ou conhecidos do interior) recebeu no SUS. Um coxinha, reaça, golpista. Até a greve dos caminhoneiros ele apoiou. É aquela elite coxinha golpista reaça meio psolista, entende?"
Esses são perigosíssimos. espalhe na vizinhança que é um coxinha reaça da elite golpista até que ninguém mais lhe dirija a palavra. Esse tipo de gente não merece todos os enormes benefícios de viver em paz e deve ser isolado até que volte à realidade.

Além desses, você poderá usar estes argumentos inconstestáveis:

Aecista ou tucano: se usar algum argumento que por acaso Aécio (ou qualquer outro que apoiou Aécio em 2014, mesmo que só no segundo turno) usou num debate ou programa de TV. Informe-se bem. Entre no youtube e veja o quanto nossa querida coração valente foi superior a todos os outros nos debates e use e abuse do argumento aecista ou tucano. Claro, quem contesta essa verdade são nada mais que reaças coxinhas golpistas e de elite.

Marinista: se criticar o excelente programa energético e insinuar que o desenvolvimento a qualquer custo prejudica o meio-ambiente, populações tradicionais, etc, certamente é uma pessoa que não preza a vida e o trabalho. E lembre-se sempre que, ao contrário da Dilma que tem um socialista como ministro da Fazenda, a Marina ia nomear o Giannetti (o Gianetti) para tirar o leite da mesa das crianças. Óbvio que alguém que defenda esses argumento é um marinista coxinha, reaça, meio psolista da elite ressentida e traíra.

Se depois disso a pessoa insistir em criticar, não lhe restará alternativa, pois claramente ela optou pelo ódio e não ama a democracia. Inspire-se naquele antigo militante trabalhador que compareceu à manifestação dos trabalhadores em São Paulo dia 13. Levante a plaquinha da foto abaixo. Mande  o coxinha reaça psolista golpista e elitista pra Miami. Esse está perdido e é um traíra convicto. E aqui não queremos traíras.




PS este post é uma ironia (sempre bom avisar)
PS 2 sobre algumas notícias sobre a comunicação que estão saindo na imprensa, recomendo excelente post do @BrunoCava

19 outubro, 2011

Patrulhas


Ontem de manhã, quando recém abri o tuíter vi um RT da folha. O título dizia que o PT treina “patrulha virtual para atuar em redes sociais”. Só isso já me fez gargalhar, pois afinal boa parte dos simpatizantes da esquerda fazemos isso, virtual ou presencialmente há séculos... Pois, abro a matéria e vejo que quem havia falado à folha tinha sido o Fito (Adolfo Fernandez, o mesmo que, pra quem nao sabe, foi o responsável pela descoberta da gráfica que imprimia os panfletos apócrifos da diocese de Guarulhos, durante a campanha contra o coiso e pela denúncia e vigília que se sucederam). Nem me dei ao trabalho de ler o resto... E dei RT do RT...





Algum tempo depois entro de novo na TL e vejo vários tuítes de militantes comentando a entrevista, matéria...


Outros, bem humorados, já elaborando procedimentos como treinamento de alvos de bolinhas de papel etc.






O que me causou bastante surpresa foi a reação de parte dos conhecidos nicks e avatares que criticavam o fato do PT estar criando núcleos de militância virtual... E essas críticas vindas de pessoas que sempre criticaram o fato dos partidos terem pouca comunicação com a militância... Pensei num alou, coerência, mas as atividades do dia não me deixavam tempo para discussões. Que foram respondidas por representantes mais que legítimos do PT.







Mais tarde, novos questionamentos... Então tá. Concordo que o representante do núcleo poderia ter se precavido e gravado a entrevista para provar que suas palavras foram distorcidas. Contou, acho, com a inteligência das pessoas que a estas alturas já deveriam saber que em alguns dos jornalões até os pontos são falsos...

Mas não concordo com a crítica feita a ele por ter falado com a Folha, ou qualquer outro jornalão, informado assim dos núcleos que estão sendo criados e quais seus objetivos (alguns já em funcionamentos desde o início do ano, outros sendo organizados agora). A prova de que não foi um equívoco está no fato de que muitos dos que aqui atuam, de ambos lados, ativamente, só souberam da existência disso graças à visibilidade que o título enviesado da Folha deu à matéria.





E aqui cabe colocar o estranhamento ao fato de que, alguns dos que criticavam, são os mesmos que pregam diuturnamente na TL e em outros meios, democratização da política, diálogo, informação, horizontalidade. E que com a mesma intensidade criticam a imprensalona, pig, velha mídia, como queiram. Oras, então porque dar mais credito à distorção do que ao fato? Estamos tão carregados ainda dos preceitos ditatoriais que só 'autoridades' tidas e reconhecidas podem ter voz e com ela o direito de ter suas vidas e palavras distorcidas pela grande mídia?


Outro alou, coerência!!!!! 

Núcleos são agrupações de pessoas com afinidades temática, geográfica, profissional. Participei de alguns, como pitaqueira. Mas se você quiser criar um núcleo dos torcedores do clube aliança para fazer militância, pode,  desde que o partido abra essa possibilidade. Adere quem quer, participa quem quer.

O congresso do PT em setembro decidiu pela criação de setoriais que teriam participação ativa nas redes sociais. Ou seja, a experiência dos Mavs, (núcleo de Militância em Ambientes Virtuais) criados no início do ano, será ampliada, e o partido, instituição vai promover, dizer que existe MAIS essa possibilidade para a militância. E sim, buscar pessoas para passar a experiência, mostrar alternativas e formas de militância não presencial.

Alguma novidade? Sim! Finalmente o partido está reconhecendo a importância das redes sociais – já comprovada na campanha presidencial do ano passado – e criando mecanismos de atuação mais eficiente.

Sabendo de tudo isso, continuo perguntando: qual o problema?
O que queremos afinal? Seguir patrulhando e patrulhando e ficar horas na TL criticando a nós mesmos e às sabidas e mastigadas escorregadas que a imprensa dá? Ou queremos usar estes meios para a difusão de fatos que de outra forma não seriam sabidos?  Porque rechaçar de maneira tão rápida e veemente esse novo canal do partido?

Agradecimento ao Sergio Pecci pela ajuda na edição e nos prints

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