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14 julho, 2012

Os factóides e o 'medo, medo, medo'


A rede globo anuncia que o fantástico deste domingo vai exibir uma entrevista na qual Rosane Collor revela detalhes da época em que foi primeira dama. Como diria Mino Carta, é do conhecimento do mundo mineral que tanto a Veja quanto a Globo foram os principais cabos eleitorais de Fernando Collor nas eleições de 1989. E, depois, os principais alimentadores e disseminadores da série de denúncias paralelas à CPI, que acabou resultando no impeachment, em 1992.

Algumas carreiras políticas terminaram ali, outras começaram.

A CPMI do Cachoeira avança. Além de Demóstenes, outros frequentadores de tribunas e vociferantes políticos podem ter sua carreira terminada até o final do processo.

E a mídia?

A revista veja (não sei com o que saiu neste final de semana) viu sua fonte de escândalos secar com a prisão do bicheiro. E o resto da velha imprensa também teve sua pauta minguada, pois passava a semana 'repercutindo' as sempre 'graves denúncias' da revista.

A exibição de uma entrevista, que supostamente vai revelar detalhes da vida palaciana de quem foi apeado do poder há mais de 20 anos, não é nada além de mais uma tentativa da revista eletrônica dominical de criar factóides para serem comentados nos salões de beleza e assim desviar o foco do esgoto onde eles se abasteciam.

E não é casual que isso seja exibido um mês depois deste pronunciamento de Collor na CPMI.





04 julho, 2012

A quadrilha de Cachoeira ainda atua

Em entrevista à Conceição Lemes, o deputado federal Paulo Teixeira, vice-presidente da CPI do Cachoeira, revela indícios de que a quadrilha continua em atividade, e é comandada pelo bicheiro, de dentro da prisão. Cita como exemplo o fato de Andressa Mendonça, esposa do Cachoeira, e o braço político dele, Wladimir Garcez, ex-vereador do PSDB, terem usado o mesmo argumento para desqualificar o depoimento do jornalista Luiz Carlos Bordoni, além das ameaças que procuradores e juízes envolvidos com o caso vem sofrendo. Para Teixeira, só quando a CPI conseguir dissecar todo o funcionamento da quadrilha é que ela poderá ser desbaratada. 



Do Viomundo
por Conceição Lemes

Nesta quinta-feira 5, haverá reunião administrativa da CPI do Cachoeira para decidir as próximas oitivas e quebras de sigilo. Entre os requerimentos a serem votados, estão as convocações de:

Fernando Cavendish, ex-presidente da Delta Construções. Há suspeitas de que a Delta, durante a sua presidência, teria vínculos com o esquema do bicheiro Carlinhos Cachoeira.

Luiz Antonio Pagot, ex-diretor-geral do Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes (Dnit) do Ministério dos Transportes. Ele relatou a influência do bicheiro na sua demissão do Dnit.

Paulo Vieira de Souza, o Paulo Preto, ex-diretor da Dersa. São Paulo fez contratos de quase um bilhão com a Delta; R$ 178, 5 milhões, celebrados nas gestões Alckmin (2002 a março de 2006 e de janeiro de 2011 em diante) e R$ 764,8 milhões no governo Serra (janeiro de 2007 a abril de 2010). Paulo Preto assinou o maior deles. A Dersa contratou em 2009 a Delta para executar a ampliação da marginal do Tietê por R$ 415.078.940,59 (valores corrigidos).
 Pela Delta, assinou Heraldo Puccini Neto, que teve a prisão preventiva decretada em abril e continua foragido.

Adir Assad, empresário de São Paulo que atua nos segmentos de construção civil e eventos. Suas empresas, entre as quais a SM Terraplenagem, receberam cerca de R$ 50 milhões da Delta.

Raul Filho, prefeito de Palmas, Raul Filho (PT-TO). Apareceu em vídeo divulgado no último domingo, negociando doações com o bicheiro Carlinhos Cachoeira.

“Cavendish, Pagot, Paulo Preto, Raul Filho e Adir Assad estão entre os nomes que serão apreciados no dia 5”, informa ao Viomundo o deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP), vice-presidente da CPI do Cachoeira. “Mas não dá para adiantar quem será e quem não será chamado já. O que eu posso garantir é que todos os nomes relacionados com a organização criminosa do senhor Carlinhos Cachoeira serão investigados. A CPI não vai blindar quem quer que seja.”
“O saldo da CPI na última semana foi muito positivo”, prossegue. “A casa do Marconi Perillo caiu. Além disso, tivemos demonstrações de que essa organização criminosa continua muito ativa e articulada, apesar do Cachoeira preso.”
Viomundo – Mas a CPI suspendeu algumas convocações e nessa terça-feira nenhuma das quatro pessoas convocadas para depor compareceu.

Paulo Teixeira
 – Quanto à suspensão de alguns requerimentos, nós decidimos por isso até que tivéssemos acesso à quebra do sigilo bancário, já que CPI tem mais condições de fazê-lo do que a Polícia Federal (PF) e o Ministério Público Federal (MPF). Essas informações começam a chegar e vão nos permitir avançar em todo o braço dessa organização criminosa.

Quanto ao não comparecimento de algumas testemunhas, isso acontece em qualquer CPI. Mas as quatro serão reconvocadas. A saber: Rosely Pantoja da Silva, sócia da Alberto & Pantoja, empresa fantasma de Cachoeira; Edivaldo Cardoso, ex-presidente do Departamento Estadual de Trânsito (Detran) de Goiás; o policial aposentado Joaquim Gomes Thomé Neto, acusado de ser um dos espiões do bicheiro; e Ana Lorenzo, dona da Serpes Pesquisa de Opinião e Mercado, contratada para a campanha do governador goiano, Marconi Perillo (PSDB), em 2010 e que, segundo a Polícia Federal, recebeu cheques do esquema de Cachoeira.

Viomundo
 – A mídia tem feito avaliações negativas dos trabalhos da CPI. Como analisa o papel dela até o momento?

Paulo Teixeira
 — A CPI surgiu de uma investigação da Polícia Federal com o acompanhamento do Ministério Público Federal que resultou numa decisão judicial que levou à prisão os principais líderes de uma organização criminosa bem organizada, com raízes muito profundas, e que operava a partir do estado de Goiás.

A CPI está complementando esse trabalho que, aliás, foi muito bem feito. A CPI está dissecando todo o fluxo de recursos da organização criminosa: quais empresas alimentavam-na e quais ela alimentava. Ou seja, origens, destinos, valores…

A CPI tem agora uma equipe grande de técnicos do Banco Central, Controladoria Geral da União (CGU), Tribunal de Contas da União, Polícia Federal, Senado, que está analisando os dados. São técnicos fazendo uma análise financeiro-contábil da circulação do dinheiro. Nós queremos ter um diagnóstico rápido da organização e provas consistentes para levar a julgamento célere as pessoas envolvidas.

Viomundo
 – No começo da entrevista, o senhor disse que a organização criminosa do Cachoeira continua muito viva. Que sinais ela deu nesse sentido ultimamente?

Paulo Teixeira
 – Realmente, tivemos demonstrações de que ela continua bem articulada. É uma organização ousada que atua para constranger, a ponto de ameaçar magistrados. Por exemplo, o juiz Paulo Augusto Moreira Lima, da Justiça Federal de Goiás, se afastou do processo da Operação Monte Carlo porque se sentiu ameaçado. A procuradora Léa Batista, que atua também em Goiás, recebeu e-mail com ameaças a ela.

E ousada também nos seus relacionamentos a ponto de um juiz federal se dar como impedido pelas relações que ele tinha com um integrante dessa organização criminosa.

Viomundo
 – Que outras demonstrações ela deu de atuação? 

Paulo Teixeira
 – Na semana passada, por exemplo, a Andressa Mendonça, esposa do Cachoeira, e o Wladimir Garcez, ex-vereador do PSDB e braço político do bicheiro, usaram o mesmo argumento para desqualificar o depoimento do jornalista Luiz Carlos Bordoni. Em 2010, ele prestou serviços à campanha de Marconi Perillo como locutor de rádio e recebeu recursos da Alberto & Pantoja e da Adércio & Rafel Construções e Incorporações, empresas que pertenciam à organização criminosa.

A Andressa disse em entrevista e o Wladimir, em depoimento na CPI criada na Assembleia Legislativa de Goiás para tentar livrar a cara do Perillo, que o jornalista teria tentado extorquir o bicheiro e o dinheiro que apareceu na conta dele seria decorrente disso. Essa coincidência nas falas demonstra que a organização criminosa ainda está articulada, conversa, combina estratégias, ainda que o Wladimir Garcez tenha saído da prisão com o compromisso de não procurar os seus antigos pares.

Evidentemente agora cabe à CPI, via quebra do sigilo telefônico, verificar se na véspera dos pagamentos houve algum telefonema entre Lúcio Fiúza Gouthier, ex-assessor especial do governador goiano, e o jornalista. Havendo, será a prova cabal de que quem ordenou os pagamentos foram os assessores de Marconi Perillo. Uma acusação grave, pois vincula diretamente a campanha do governador com o dinheiro do crime organizado.

Viomundo
 – Na semana passada, um arquiteto também prestou depoimento sobre a casa do Perillo/Cachoeira.

Paulo Teixeira
 – Isso mesmo. Ele decorou a casa que era do Perillo para o Cachoeira. Ele demonstrou que a casa foi vendida para o Cachoeira. Também foi encontrada a escuta de um diálogo entre o Cachoeira e um ex-diretor da Delta sobre a casa.

Viomundo
 – Esse diálogo foi com quem? O que dizia exatamente?

Paulo Teixeira
 – Entre o Cachoeira e o Cláudio Abreu, ex-diretor da Delta no Centro-Oeste. O Cláudio Abreu diz que a compra da casa do Perillo iria abrir as portas do estado de Goiás tanto para ele, Cachoeira, quanto para a Delta, pois estavam fazendo um favor ao governador. Também na conversa, o Cachoeira diz que o contrato da casa não pode estar no seu nome.

Assim, juntando esses dois depoimentos da semana passada mais a gravação feita pela Polícia Federal, eu diria que a casa do Marconi Perillo caiu. Ao mesmo tempo, ficou demonstrado que não existe nenhuma ligação entre o senhor Cláudio Monteiro, assessor do governador Agnelo Queiroz (PT-DF), e o esquema do Carlos Cachoeira.

Viomundo
 – A quadrilha continua funcionando mesmo?

Paulo Teixeira – Não tenho a menor dúvida. O senhor Carlos Cachoeira tem despachado com sua ex-mulher, que é quem dirige o laboratório Vitapan, por onde circulam muitos milhões de reais. Ele deve orientá-la em como fazer para manter a organização de pé.

A coincidência de versão do Wladimir e da Andressa e as ameaças feitas a procuradores e juízes federais demonstram também que essa organização criminosa não só continua funcionando, mas como tem uma profunda articulação. E que o próprio Cachoeira, da cadeia, continua operando os interesses financeiros dela.

Viomundo
 – O senhor acredita que o trabalho da CPI possa dar resultados positivos para a sociedade?

Paulo Teixeira
 – À medida que a CPI aprofunda as investigações, ela pode contribuir para que essa organização deixe de funcionar. Ao dissecá-la, teremos como desmantelá-la Assim como teremos condições de desbaratar aqueles que ela utilizou para sobreviver.

Por outro lado, se não tivesse a CPI, talvez todos os participantes dessa organização criminosa estivessem em liberdade, atuando a pleno vapor.
  Também se não tivesse a CPI, várias pessoas que estão sendo investigadas não poderiam sê-lo, pois têm foro privilegiado. Estou me referindo aqui a parlamentares e ao próprio governador de Goiás.

Veja bem. Essa organização criminosa conseguiu dominar todo o aparato de Estado, principalmente em Goiás. As investigações demonstram que ela teve influência nas polícias civil, militar e até Federal, no Poder Judiciário, no governo de Goiás.

Viomundo
 – Mas os trabalhos não poderiam ser mais rápidos?

Paulo Teixeira
 — Nós vivemos num estado democrático de direito. Essa investigação tem de ser feita dentro dos parâmetros legais. Assim, estamos utilizando, de um lado, oitivas. De outro, a análise de documentos e informações que nos chegam da sociedade.

A CPI está trabalhando de forma intensa. Até novembro, que é o prazo final para os trabalhos da CPI, nós vamos entregar uma grande contribuição para o Brasil. Além de desvendar essa organização criminosa e acusar na Justiça quem se envolveu com ela, acredito que poderemos também propor aperfeiçoamentos na legislação brasileira para organizações criminosas como essa não prosperem. E que a efetividade no combate a elas seja maior.

18 maio, 2012

Vaccarezza e Dias blindam governadores e CPMI perde credibilidade

Por Wálter Maierovitch
Dica de @Marandrea e @Maramandrea




Se a ética fosse levada a sério no Parlamento, um novo processo, junto à Comissão de Ética da Câmara, deveria ser iniciado contra Cândido Vaccarezza. Ele deixou a liderança do governo pelas trapalhadas e ganhou fama de ser pouco brilhante intelectualmente.

Ontem, durante a sessão da CPMI, Vaccarezza foi surpreendido ao mandar, com recursos telemáticos que consegue operar, mensagens ao governador Sérgio Cabral, do Rio de Janeiro.

Cabral, apavorado com a ameaça de depor na CPMI e depois de implorar socorro ao vice-presidente Michel Temer que antes ignorava, restou confortado pelas mensagens on-line de Vaccarezza.

Não se sabe nada a respeito do comprometimento de estoques de fraldões geriátricos no Rio de Janeiro, mas Cabral ontem, enquanto se desenvolvia a sessão da CPMI, movia-se entre o desespero e o pavor de ser convidado a comparecer a Brasília.

Na principal mensagem, Vaccarezza, flagrado pelo pessoal do SBT, digitou a respeito da não convocação de Cabral: “Você é nosso”.

Como Vaccarezza pertence ao Partido dos Trabalhadores e Cabral ao PMDB, a mensagem aponta para um acordo que, evidentemente, contraria o interesse público.

Na verdade, Vaccarezza premia, em nome de seu partido político, o sabujismo de Cabral para com Lula. Afinal, nos mandatos de Lula, Cabral foi o governador que mais bajulou e se curvou às vontades do então presidente. E nem sempre as vontades de Lula atendiam ao interesse do estado fluminense.

Com efeito. Muitos podem concluir, com relação ao escândalo Cachoeira-Demóstenes, que se a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) acabar em pizza teremos a ação do Ministério Público.

Um Ministério Público, pelo nosso sistema constitucional, sem qualquer obrigação de acatar o relatório final da CPMI: muitas vezes, as investigações parlamentares terminam sem consenso e, portanto, sem aprovação da peça de encerramento.

O grande problema é que na outra ponta da outra linha está, por força dessa excrescência chamada “foro privilegiado”, o procurador Roberto Gurgel e a sua esposa Cláudia Sampaio, na condição de subprocuradora.

Esses consortes, Gurgel e Cláudia, já engavetaram o inquérito iniciado pela Operação Vegas, conduzida pela Polícia Federal que revelava a participação do senador Demóstenes Torres na organização criminosa chefiada por Carlinhos Cachoeira.

No Parlamento, quando da recondução a novo mandato de procurador-geral e com a Operação Vegas no “freezer” do seu gabinete, Gurgel disse que poderia ser acusado de tudo, menos de omissão. Não se sabe se Gurgel, com a afirmação feita, chegou a corar ou manteve um caradurismo hipócrita.

Não bastasse, Gurgel soltou a seguinte frase: “O Ministério Público tem de ser um exemplo de transparência”.

Essa frase de Gurgel está publicada hoje no jornal O Estado de S.Paulo. E Gurgel não explica convincentemente o inexplicável engavetamento, de 2009 a 2012, do inquérito da Operação Vegas.

Só para lembrar, Gurgel tinha, segundo estabelecido no Código de Processo Penal, o prazo de 15 dias para se manifestar nos autos do inquérito da Operação Vegas.

No momento, para Gurgel escapar, a subprocuradora e esposa Cláudia apresentou-se como biombo protetor. E ela já foi desmentida pelo delegado responsável pela Operação Vegas e por nota divulgada pela direção da Polícia Federal.

Ontem, a CPMI não convocou o ex-presidente da Delta, Fernando Cavendish, nem os governadores de Goiás, Distrito Federal e Rio de Janeiro. A subprocuradora Cláudia também não foi convidada a comparecer.

Para blindar Cavendish, a CPMI quer focar a apuração exclusivamente nos negócios da Construtora Delta na região Centro-Oeste, sob responsabilidade de Cláudio Abreu, diretor defenestrado que está preso preventivamente.

Quanto à tentativa de convocação de Marconi Perillo, governador de Goiás, o novo Varão de Plutarco do Senado Federal Álvaro Dias avisou, bravo, que se mexessem com Perillo iria encrespar e os outros governadores seriam convocados.

Álvaro Dias é aquele que abriu mão da aposentadoria de governador do estado do Paraná. Depois de ter explorado politicamente essa sua liberalidade, voltou, “na moita”, a pedir a aposentadoria. Atenção: pediu que voltassem a pagar a aposentadoria e colocassem no seu bolso, retroativamente, as importâncias que havia renunciado.

O senador Álvaro Dias, do PSDB, passou a representar o papel de Varão de Plutarco que antes era interpretado por Demóstenes Torres.

Requião: Passividade não! CPI deve investigar Veja e Delta

Do Viomundo



13 maio, 2012

A revista Veja foi ao inferno e voltou queimada

Por Mauricio Dias
Do CartaCapital

Faust de Murnau























Argumenta a direção de Veja, apoiada por um grupo de acólitos furibundos e direitistas desnorteados, que os repórteres da revista, em razão da natureza da reportagem, mantiveram relações perigosas com Carlinhos Cachoeira como, às vezes, exige a insalubridade da missão do profissional em busca de informações importantes para conhecimento da sociedade.

Há registro de mais de 200 telefonemas trocados entre os repórteres e Cachoeira, uma fonte de onde jorraram algumas das principais “investigações” daquela revista semanal.

O princípio defendido é correto. E o número de ligações telefônicas, por si só, não significa nada além do fato de se falarem muito. Mas as conversas travadas pelo repórter e o contraventor Cachoeira são de preocupante intimidade, como mostram algumas transcrições já publicadas.

“Fala pra ele que é de confiança o homem”, diz o senador Demóstenes Torres para Carlinhos Cachoeira ao se referir ao repórter de Veja.

O repórter é sempre o elo mais fraco nesse processo, conforme deixa entender Eurípedes Alcântara, diretor de redação de Veja. Ele tentou explicar assim o envolvimento da revista com um contraventor que agora já pode ser carimbado como criminoso: “… casos assim jamais são decididos individualmente por um jornalista, mas pela direção da revista”.

A frase de Alcântara protege o pé e descobre a cabeça. Talvez ele tenha tentado preservar o repórter dos longos braços da CPI, mas certamente expôs os donos da revista. Ele próprio ocupa um “cargo de confiança” pelas mesmas razões que o repórter de Veja era da confiança do senador Demóstenes.

Confiança no Brasil traduz a confiança “pessoal” e não a “profissional”.

Esse processo confirma, em última instância, que o repórter de confiança do editor e de Cachoeira é também de confiança do dono. Assim fica claro que o acordo liga Cachoeira diretamente a Roberto Civita, dono da Veja.

Nesse caso, portanto, a tese correta sobre a insalubridade do trabalho do repórter desvirtuou-se na prática.

A crítica que se faz é ao desvio de conduta, comprovada por uma série histórica de erros intencionalmente cometidos. O elenco é grande e aponta uma tendência política. São geralmente denúncias, ao longo dos governos de Lula e Dilma, notadamente apontando suspeitas de focos de corrupção em setores específicos da administração federal.

A base do acordo entre o contraventor e Veja foi firmado assim: ele entregou as informações e ela silenciou sobre os crimes cometidos para obtê-las.

Repórter conversar com demônios faz parte da rotina do trabalho. A questão está no pacto que se firma. O repórter só pactua com o aval do editor.

Adrian Leverkun, pianista, personagem de Thomas Mann (Montanha Mágica) entregou a alma ao demônio para obter sucesso. Antes, o Fausto de Goethe fez o mesmo.

Além de poder assumir aparência humana, há quem diga que o diabo seja o inspirador do neoliberalismo. Há mesmo quem sustente hipótese de a “mão invisível” de Adam Smith ser a própria mão do diabo.

Nos anos 1940, o jovem estudante Raymundo Faoro, ao mudar de Vacaria para Porto Alegre, tentou um pacto para sobreviver à fome.

“O diabo não me deu nenhuma importância”, conta Faoro nos inéditos Manuscritos Perdidos, ainda em preparo.

O silêncio diante da proposta de Faoro sugere que o diabo sabe com quem faz acordo.

10 maio, 2012

As consequências morais de um veto suspeito

por Saul Leblon



O mesmo personagem que por cinco horas fará acusações ao governo Lula, a membros do seu ministério e a integrantes do PT, no processo denominado de 'mensalão', obstruiu durante dois anos e sete meses uma operação da Polícia Federal cujos dados, a ele apresentados em 2009, já seriam suficientes para a abertura de inquérito e prisão de vários membros da quadrilha de Carlos Cachoeira, entre eles o senador Demostenes Torres. 

O nome desse personagem obstrutivo é Roberto Monteiro Gurgel Santos, Procurador Geral da República. No dia 15 de setembro de 2009 ele incumbiu a própria esposa, subprocuradora Claudia Sampaio, de informar a um perplexo delegado da PF, Raul Alexandre Marques Souza, que não cabia a abertura de processo com base nos dados arrolados pela Operação Vega.

Desqualificava-se assim juridicamente a continuidade de uma minuciosa investigação que reuniu quase 1.400 horas de gravações telefônicas e constatou a endogâmica relação entre o crime organizado e a corrupção política, ambos abrigados em uma engrenagem --dotada de orgânica presença de um braço midiático - com atuação decisiva na gênese dos acontecimentos geradores, justamente, das denúncias do chamado 'mensalão'.

O veredito do casal Gurgel significou do ponto de vista legal um interdito à continuidade da Operação Vega. Seria necessário uma nova investigação sigilosa, a Monte Carlo, para que fatos anteriormente conhecidos, agora vazados primeiramente na mídia, impelissem o senhor Gurgel às providências judiciais competentes - o que ocorreria em 27 de março último.

Esses são os dados da equação que define o jogo político nos dias que correm. Eles estão ancorados no depoimento seguro e contundente do próprio delegado Raul Alexandre Marques Souza à CPI Mista que investiga a quadrilha Cachoeira. Esse encadeamento de fatos tem consequências morais; elas arguem o coração dos atributos requeridos de um Procurador Geral dos interesses republicanos: a isenção.

30 abril, 2012

O julgamento do mensalão

 A mídia e o golpe

por Marcos Coimbra

 Quando os historiadores do futuro fizerem o balanço da época em que vivemos, é bem provável que sobressaiam coisas às quais hoje não damos nenhuma importância. É quase impossível dizer quais serão. Alguém perceberia, em 1960, nos trabalhos de um obscuro engenheiro da Rand Corporation, a semente da internet?

O que, do presente, entrará para a história? De tudo que achamos importante hoje, o que, no futuro, permanecerá significativo? Ninguém sabe.

Mas há um consolo: é fácil perceber o que se provará irrelevante. Em tudo – na vida social, nas artes, na ciência, na tecnologia – não é complicado enxergar o desimportante.

Também na política. E se há um candidato ao troféu de maior não evento deste período de nossa vida política, seu nome é “o julgamento do mensalão”. Quem lê a dita grande mídia brasileira tem a impressão oposta. Fica com a sensação de que se trata de uma coisa fundamental. Que é a mais transcendental de todas as que temos em nossa agenda.

Isso só se acentuou depois que a CPI do Cachoeira se tornou inevitável. A partir daí, os principais veículos de nossa indústria de comunicação, seus editorialistas, colunistas e comentaristas, decretaram que o “julgamento do mensalão” seria a prioridade.

Exigem que seja logo, que conclua pela culpa dos -acusados e reclamam punições exemplares. Têm consciência de que, juridicamente, o caso é frágil, mas não se importam: afirmam que a “opinião pública” clama por uma “resposta firme”. E que o STF tem a obrigação de atendê-la. E que o ministro que titubear na condenação é fraco – para dizer o mínimo.

O que querem do julgamento? Simples – e errado – seria dizer justiça. Na democracia, essa só aparece ao final, depois que o rito judiciário é integralmente cumprido. Nunca antes.

Admitamos, por hipótese, que o STF resolva pela absolvição de todos ou alguns dos acusados – o que, pelas provas coletadas contra eles, não seria surpresa. Estará nossa mídia disposta a aceitar o julgamento como justo? Ou, como já condenaram todos por antecipação, a decisão será questionada e ridicularizada?

É possível que ela se sinta “representante” e “guardiã do povo”, em seu nome exigindo justiça. O problema é que nada sustenta a tese. A sociedade não dá qualquer mostra de que deseja que ela exerça tal papel.

O “julgamento do mensalão” não quer dizer nada para a vastíssima maioria do País. Ela nem sequer sabe que está por acontecer. É claro que existe uma militância oposicionista na sociedade, que se agita e reivindica rigor no julgamento. Só que é pequena. Quando, por exemplo, tentaram encher as ruas de “indignados”, ficou claro que são poucos.

Que vitória política terão os adversários do governo e do “lulopetismo” se os acusados forem condenados? Isso alteraria a avaliação largamente favorável dos oito anos de Lula e dos quatro de Dilma, que começaram bem, aos olhos da população? Isso mudaria o favoritismo de ambos – pois Lula e Dilma lideram com imensa vantagem as pesquisas – para vencer as eleições de 2014? O “julgamento do mensalão” não vai reescrever o passado ou modificar o futuro da política brasileira.

A campanha para que aconteça já e para que redunde na condenação de todos os acusados nada tem a ver com a ideia de justiça. Não responde a anseios reais da vasta maioria da sociedade. Nada altera de concreto em nossa política. É por isso que seu significado no longo prazo é tão limitado.

Mesmo que, nos próximos meses, tenhamos de ouvir falar do assunto até não -poder mais

Gurgel reluta em se declarar impedido

Foto da Agência Brasil: Procurador Geral Roberto Gurgel 


Do Sem Fronteiras 
por Wálter Fanganiello Maierovitch 
Dica do @jrfidalgo

A correta decisão do ministro Ricardo Lewandowski de liberar, para a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito e o Conselho de Ética do Senado, todas as peças da investigação policial sigilosa sobre o chamado caso Carlinhos Cachoeira resultaram em uma enxurrada de vazamentos à imprensa. As peças se referem às operações Las Vegas, que apesar da gravidade dormiu no gabinete de Roberto Gurgel de 2009 a 2012, e Monte Carlo.

Na essência, o sigilo é imposto no interesse da investigação. Um vazamento, como sabem até os rábulas de porta de cadeia de periferia, pode prejudicar a apuração criminal. Por isso, finda a investigação, o inquérito deveria ser levantado, mas isso não acontece no Brasil.

Entre nós, infelizmente, o sigilo visa manter distante do conhecimento público falcatruas apuradas por poderosos e potentes que gozam de foro privilegiado. Por evidente, as increpações, contidas no inquérito policial e se objeto de ação penal, ficam sujeitas à confirmação no devido processo legal, que tem na ampla defesa a sua pedra angular e na presunção de não culpabilidade (não se confunde, como já escrevi milhões de vezes, com a presunção de inocência, não acolhida na Constituição brasileira) uma garantia fundamental.

Das várias interceptações telefônicas realizadas, uma chama a atenção em especial. Ela mostra como a organização criminal de Carlinhos Cachoeira era tentacular, como a Cosa Nostra, quer a siciliana, quer a siculo-norte-americana. Ambas têm o polvo (la piovra) como símbolo.

De pronto, friso, me refiro sobre a atenção especial ao teor da interceptação publicada hoje na coluna do Ilimar Franco do jornal O Globo sobre a conversa entre Cachoeira e o governador Marconi Perillo.

Antes da divulgação da peça, Perillo sustentava que apenas uma vez atendeu Cachoeira por ele ter pedido uma audiência. A revelação contida na supramencionada coluna do Ilimar Franco mostra a mentira de Perillo. E basta atentar para a consideração de Perillo para com Cachoeira, na conversa interceptada e que segue: “Parabéns. Que Deus continue te abençoando aí, te dando saúde, sorte. Um grande abraço prá você, viu”.

Não me refiro, ainda, à “cachaçada” relatada por Demóstenes, num jantar entre ele, Cachoeira e Perillo, tudo conforme contado na coluna do Ilimar Franco e publicada na edição de hoje do O Globo.

Também não me refiro à gravação que revela mais uma das mil farsas do senador Demóstenes Torres. O senador, quando divulgado o escândalo, sustentou que havia conversado para Cachoeira para ajudar numa pendência entre o seu suplente no Senado e o bicheiro. Na coluna do Jorge Bastos Moreno, intitulada “Nhenhenhém” e publicada no O Globo de hoje, está revelado que a companheira e convivente de Cachoeira, Andressa Mendonça, era casada com Wilder Pedro de Morais, ex-sócio de Cachoeira e suplente do senador Demóstenes Torres. Como se percebe, Demóstenes até aceitou, como suplente de senador, pessoa da organização delinquencial de Cachoeira.

O fato grave a chamar a atenção diz respeito ao litígio pouco digno, segundo os dados revelados, entre o procurador-geral da República, Roberto Gurgel e o senador Demóstenes.

Gurgel, como circulou por todo Ministério Público, teve a recondução no cargo de procurador-geral da República cuidada por Antonio Palocci, então ministro-chefe da Casa Civil.

Quando estourou o escândalo Palocci, o procurador Gurgel, inusitadamente, enviou-lhe um ofício para explicar as gravíssimas suspeitas que pesavam contra ele.

Palocci, que preferiu silenciar sobre os clientes da sua imobiliária (ele tinha uma imobiliária que não cuidava de imóveis), respondeu que tinha feito fortuna com assessoria dada na sua empresa quando estava fora do governo. Gurgel, por incrível que possa parecer, não requisitou inquérito apuratório e determinou o arquivamento do escândalo Palocci.

Sobre essa conduta de Gurgel, o senador Torres, com o discurso correto e apoio da sociedade civil que luta pela restauração da moralidade pública, criticou o procurador-geral da República (a escolha para a função é do presidente da República pela nossa Constituição) com veemência.

Na interceptada conversa entre Cachoeira e Demóstenes, publicada na edição de hoje do jornal O Estado de S.Paulo, ficou clara a verdadeira razão do protesto de Demóstenes contra Gurgel, do plenário do Senado: “Se não der nele, ele (Gurgel) começa a pegar a gente, entendeu ?" (A interceptação é de 7 de julho de 2011.)

Trocada em miúdos essa conversa entre Demóstenes e Cachoeira, fica patente a pressão em razão de Gurgel estar com o inquérito Las Vegas, que apurou a atuação criminosa de Cachoeira e já envolvia Demóstenes.

Não passou muito tempo para Demóstenes concordar, no Senado e expressamente, com a recondução de Gurgel. E Gurgel, por coincidência ou não, ficou com o inquérito Vegas no seu gabinete de 2009 a 2012. Só mexeu nele quando pressionado por cobrança de parlamentares baseada na Operação Monte Carlo.

Ontem, Gurgel informou, com relação a Demóstenes e seu envolvimento no esquema Cachoeira, "que R$1 milhão foi depositado” na conta do senador.

Gurgel fez a afirmação sem ainda ter a movimentação da conta-corrente de Demóstenes, que nega haver recebido.

Com a experiência que possui, Gurgel deveria esperar para verificar a movimentação bancária de Demóstenes, pois, se não for verdadeiro o mencionado, acaba por favorecer, “encher a bola” o senador, ou melhor, de um farsante do tipo tartufo de Molière.

De boa cautela, até porque “embalou” e fez adormecer no seu gabinete o caso Las Vegas, que Gurgel se desse por impedido e deixasse de atuar, passando a tarefa ao seu substituto. Afinal, Gurgel atua como representante da sociedade civil e é, pelo foro privilegiado de Demóstenes, o único que poderá propor ação penal pública contra ele.

Nesse quadro de “bas-fond” do Irajá, pontifica, também, o petista Humberto Costa, relator na Comissão de Ética do processo por quebra de decoro parlamentar contra Demóstenes. Costa anunciou que não vai usar dados de interceptações telefônicas colhidas na Operação Monte Carlo. Em outras palavras, vai aliviar para o lado de Demóstenes, e se contentar no relatório, com fatos indecorosos menores, como o exuberante presente de casamento escolhido pelo senador Demóstenes, pago e importado por Cachoeira.

Pano rápido. Viva o Brasil!


28 abril, 2012

Vazaram os negócios de Demóstenes com Cachoeira



por Najla Passos



Brasília - O vazamento do inquérito contra o senador Demóstenes Torres (ex-DEM), na noite de sexta (28), momentos após o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowsky, autorizar seu repasse à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Congresso Nacional, colocou fim à onda de vazamentos seletivos que vinha ocorrendo na grande mídia e lançou novas luzes sobre as relações do parlamentar com o esquema de Carlinhos Cachoeiras, a construtora Delta, agentes públicos e veículos da imprensa.

Em uma espécie de cobertura colaborativa descentralizada e espontânea, dezenas de jornalistas e blogueiros dissecaram, em algumas horas, o conteúdo das centenas de páginas de transcrições de escutas telefônicas feitas com autorização judicial entre os principais membros da quadrilha de Carlinhos cachoeira. O resultado é uma nova percepção sobre quem é, e como agia e quem eram os parceiros do senador que fez carreira com um discurso pesado de combate à corrupção e ao crime organizado.

As denúncias apontam, por exemplo, que Demóstenes teria atuado em conjunto com o ministro do STF, Gilmar Mendes, para levar à corte máxima uma ação bilionária envolvendo a companhia Energética de Goiás. (Leia aqui). E que a quadrilha à qual está vinculado atuou para derrubar, no ano passado, a cúpula do Ministério dos Transportes. (Leia aqui).

Impressionam, especialmente, as articulações sistemáticas entre Demóstenes, Cachoeira e a revista Veja, para a publicação de matérias de interesse do crime organizado. (Veja aqui um exemplo).

Acusações contra Demóstenes
No pedido de investigação encaminhado ao STF, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, aponta graves indícios da prática, pelo senador, de crimes de corrupção passiva, prevaricação e advocacia administrativa. “Constatou-se que o Senador Demóstenes Torres mantém estreitos vínculos com Carlos Cachoeira, de natureza pessoal e, também, de natureza profissional. Os contatos telefônicos entre eles são praticamente diários, sucedidos, muitos deles, de encontros para tratar de assuntos que não poderiam ser conversados por telefone. O conteúdo das conversas revela graves indícios de que o Parlamentar valia-se do seu cargo para viabilizar interesses econômicos comuns com Carlos Cachoeira”, afirma Gurgel.

De acordo com o procurador-geral, “são vários os contextos de ação do Parlamentar em benefício da Delta, existindo até a suspeita, extraída de diálogos interceptados, que ele seria sócio oculto da empresa”. Exemplo são diálogos captados entre os dias 12 e 13 de julho de 2010, nos quais Demóstenes é flagrado cuidando de assuntos da Delta com o Governo do Estado de Goiás. Pelos diálogos captados entre o contraventor Carlinhos Cachoeira e o então diretor da Delta para o Centro-Oeste, Cláudio Abreu, a empresa estaria tendo dificuldade na condução de um contrato em razão de o Governo ter dado preferência à Queiroz Galvão e à Odebrecht, que, por isso, “queriam comandar o processo”.

CARLINHOS: (..) me escuta, não é melhor a DELTA sair fora desse trem não, ô

CLAUDIO ? Nós tamo fazendo média com DELTA ai, eu não tenho compromisso nenhum com DELTA, não,

CLÁUDIO: Que que é que você tá falando? O que que é?

CARLINHOS: Eu não tenho compromisso nenhum com DELTA, cara,eu pego e tiramos a DELTA, fala com o MARCONI ele pega e tira a DELTA, sem problema nenhum, você deixa esse HERALDO aí tomar conta do nossos negócios (INAUDÍVEL) eu tiro a DELTA, entendeu ? Não tenho compromisso nenhum com DELTA, tenho compromisso com você, com DELTA não tenho nenhum, entendeu ?

CLÁUDIO.. Uai, eu não tô entendendo, não tô entendendo porque você tá falando isso aí, sinceridade, cara.

CARLINHOS: (INAUDÍVEL) ele ia cobrar pedágio do pessoal, já não aconteceu, depende se o pessoal for, nós somos os últimos, já tem o pessoal da ODEBRECH mandando, todo mundo mandando e a gente aqui escutando, por que ? Porque você põe o HERALDO incompetente lá, entendeu ? E o que que eu tô fazendo com DELTA, cara? (...)

CLÁUDIO: (..) o cliente ai que colocou a ODEBRECH e a GALVÃO,cara, na história, você sabe ( ...) agora os caras tão botando as manguinhas de fora, achando, achando que como o cliente botou eles, agora eles mandam igual a nós, só que nós já falamos, o parceiro aí do lado aí, já me falaram que ele falou uma cagada, que não podia ter falado o nome do DEMÓSTENES, ele falou o nome do DEMÓSTENES na reunião, então nós estávamos falando que o dono do negócio é um sócio oculto, aí foi e falou que era o DEMÓSTENES
o dono do negócio aí é f., né, amigo?

São muitas as evidências de que Demóstenes recebia, sistematicamente, dinheiro da quadrilha. Conforme consta no inquérito, em diálogo no dia 22/3/2011, às 11:18 horas, entre Carlos Cachoeira e Cláudio Abreu, ainda não degravado, “é expressamente referido que o valor de um milhão foi depositado na conta do Senador Demóstenes e que o valor total repassado para o Parlamentar foi de R$ 3.100.000,00 (três milhões e cem mil reais)”.

Há outras gravações que falam em repasses menores, presentes, compras de vinhos caros e até foguetes para a comemoração da formatura da esposa de Demóstenes. A denúncia mais grave já levantada até o momento, é a que trata do repasse dos R$ 3,1 milhões. O procurador já pediu a quebra de sigilo bancário do senador, do então superintendente regional da Delta no Centro-Oeste, Cláudio Abreu, de Cachoeira e seus principais comparsas para aprofundar as investigações.

Confira trecho do diálogo entre Claudio Abreu e Geovani (comparsa de Cachoeira), no dia 22/3/2011:

CLÁUDIO ABREU: Geovani

GEOVANI: Pode falar

CLÁDIO ABREU: Eu tô vendo aqui o que pagou em fevereiro aqui,pagou pra você 5.530. Era pra você colocar 4.977. Tá faltando aqui um saldo de 1.171, mais o 1 milhão que é aquele trem lá pra trás. Aquele lá é que vocês já usaram que o CARLINHOS reteve. Então, você tá me devendo 2.172 aqui na minha conta cara! O 1 (um milhão) que o CARLINHOS tá usando mais esse 1.172

GEOVANI: Então, mais tem aqueles 600 e o 173 ué, que "mandô" eu passar!

CLÁDIO ABREU: Eu já descontei Dr. É 1.972.000,00 menos 801.000,00. Você descontou aqui 600 mais 173, mais duas de 20 do JOÃO, mais uma de 20 para um rapaiz ai, dá 801. É 1.972 menos 800, vai ficar 1.171.

GEOVANI: Justamente, menos um (um milhão) que ele tá usando

CLÁDIO ABREU: Menos um não, cara. Esse menos um é lá pra trás. Você já descontou ele rapaiz. Você tá doido. Agora vai descontar mais um milhão.

GEOVANI: Não moço. Não descontou não. Esse um ele tá usando já faz dias já uai. Você sabe disso?

CLÁDIO ABREU: Eu sei amigo, esse um ele tá usando desde outubro do ano passado. Foi das contas do ano passado cara, que ele reteve 1.000.000,00 (um milhão) e não devolveu! Agora esse aí, foi que eu paguei pra vocês agora em fevereiro.

GEOVANI: Não, CLÁUDIO. É um seguinte: aquele 1.000.000,00 (um milhão) que descontou aquela vez é outro. Ele tá usando 1.000,000,00 desse agora. Por isso que toda vez tá dando essa divergência

CLÁDIO ABREU: Então ele segurou 2.000.000,00?

O assunto continuou no dia seguinte, entre Cláudio e o próprio Cachoeira:

CARLINHOS: Fala, CLAUDIO!

CLAUDIO: Eu to com os meninos aqui e eles mataram aqui, mesmo. É aquilo que eu falei, CARLINHOS... É Um milhão do Professor, que você pediu pra mim fazer... diluiu, já morreu. E mais um milhão que você reteve aí que é coisa particular sua... que é o que você tem que passar pra mim. O GEOVANI tá me passando aqui agora.

CARLINHOS: Que eu retive?... O quê que eu retive?

CLAUDIO: Um milhão que ele tá falando aqui, uai! Um milhão do DEMÓSTENES morreu! Aquele lá ficou na minha conta. E um milhão que você reteve em Dezembro.... É... ele falou que você tinha falado comigo... eu não lembro dessa conversa sua comigo, não.

Mas você não precisa falar comigo.

CARLINHOS: Vai cagar, CLAUDIO. Você tá brincando, né? Vai cagar!.. Eu precisava falar com você agora à tarde. Vai ter um tempinho pra mim ou não?

CLAUDIO: O "Vai cagar" tá no viva-voz aqui. O GEOVANI vai falar procê porque é ele que tá me mostrando as contas aqui, uê. Sou eu não!

CARLINHOS: Vai tomar banho, rapaz! Só porque eu vou te entregar naquele negócio do Copacabana Palace?

CLAUDIO: Ah, vai tomar no c., CARLINHO! Cê tá onde? Os meninos ficaram aqui. Agora que eu fui atender eles aqui. Ele tá me passando aqui um negócio aqui... é.... desse um milhão que você reteve aqui. Não é aquele do DEMÓSTENES que você já torrou, não.

É o outro.

CARLINHOS: É... vai cagar!

O procurador também afirma que “o senador Demóstenes, valendo-se do prestígio do cargo, intermediou interesses de Carlos Cachoeira perante a Procuradoria-Geral de Justiça de Goiás, chefiada por seu irmão, Benedito Torres”, como revela gravação de 16/5/2011:

CARLINHOS - doutor

DEMOSTENES - fala professor, você me ligou? você me ligou,professor?

CARLINHOS - liguei, você falou com seu irmão?

DEMOSTENES - de novo não, vou encontrar com ele pessoalmente

CARLINHOS - hã tá, deixa de falar, lá no DAE de Anapólis tem aquela empresa de carros lá que é prestadora de serviços, e lá só pode indústria ...e aquele malandro,aquele malandro daquele cara lá do (..) industrial ta ganhando um milhão dele, para dar vinte alqueires para ele lá, o cara tá até com o BALDIA, o BALDIA vai por o Ministério Público, mas você podia adiantar aí, precisava de uma entrevista com o promotor lá do jornal do BOTINA dizendo que vai entrar com o processo entendeu, sobre desse caso aí.

DEMOSTENES - é aquele negócio da GABARNO né?

CARLINHOS - exatamente, precisava designar um promotor pra ler isso aí

DEMOSTENES - na hora, é o de ANAPÓLIS, ô0000 e também é o seguinte, o problema é que o BICA ,eu to sabendo dessa história, fez um acordo com o tal de JOÃO FURTADO lá, pro JOÃO tomar conta dos casos, isso não pode acontecer né, não falei nada pra ele, (..) tem que, tem que ver aí, era melhor chamar o BICA que o BICA resolve esse trem

CARLINHOS - resolve nada, tem que atropelar ele, ele tá na mão do JOÃO, quem manda nele é o JOÃO e o JOÃO tá ganhando dinheiro também, tem que ser via Ministério Público, entendeu

DEMOSTENES - então vamo fazer, pode deixar que eu tomo conta disso então, falo, é vou ver como que faz isso, deixa isso aí é por minha conta então que vou resolver, mas o BICA tem que ficar, tem que ficar é, vou procurar, vou encontrar com meu irmão agora na hora do almoço, agora nos vamos almoçar juntos e vou falar essa questão com ele falo.

CARLINHOS - manda ele lá designar um promotor pra entrar com uma ação contra isso aí, porque isso aí é parte do Ministério Público municipal, entendeu, não precisa nem fica sabendo.

DEMOSTENES - é verdade, pode entrar por lá, pode entrar aqui também contra ato (....)

CARLINHOS - exatamente, tá bom, um abraço

DEMOSTENES - então o negócio é esse, o trem lá é comércio e lá é reservado só para indústria, né?

CARLINHOS - pra ter ideia, aonde eles estão lá hoje atrapalha o trânsito inteiro e dez empregos que só gera é prestadora de serviços e lá é industria pô,entendeu, e agora com o acordo com o (..) vão dar vinte alqueires de terra que o estado comprou a quatrocentos mil reais pra dá pra eles, pra gerar mais dez empregos

DEMOSTENES - não ok, deixa isso comigo,falo

CARLINHOS - um abraço, doutor obrigado

DEMOSTENES - um abraço, tchau

24 abril, 2012

Aécio arrumou emprego para prima de Cachoeira



por Fausto Macedo
do Estadão


SÃO PAULO - Escutas telefônicas da Polícia Federal revelam que o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) intercedeu diretamente junto a seu colega, Aécio Neves (PSDB-MG), e arrumou emprego comissionado para uma prima do empresário do jogo de azar Carlos Augusto de Almeida Ramos, o Carlinhos Cachoeira. Mônica Beatriz Silva Vieira, a prima do bicheiro, assumiu em 25 de maio de 2011 o cargo de Diretora Regional da Secretaria de Estado de Assistência Social em Uberaba.

Do pedido de Cachoeira a Demóstenes, até a nomeação de Mônica, bastaram apenas 12 dias e 7 telefonemas. Aécio confirma o empenho para atender solicitação de Demóstenes, mas alega desconhecer interesse de Cachoeira na indicação.

São citados nos grampos Marcos Montes (PSD), ex-prefeito de Uberaba, e Danilo de Castro, principal articulador político de Aécio em seu Estado e secretário de Governo da gestão Antonio Anastasia (PSDB), governador de Minas. Eles negam envolvimento na trama.

A PF monitorou Cachoeira, a prima e Demóstenes no bojo da Operação Monte Carlo, que desmantelou alentado esquema da contravenção, fez ruir a aura de paladino do senador goiano e expôs métodos supostamente ilícitos da Delta Construções para atingir a supremacia em sua área de ação.

Aécio não caiu no grampo porque não é alvo da investigação. Mas ele é mencionado por Demóstenes e Cachoeira. O contraventor chama Demóstenes de ‘doutor’ e o senador lhe confere o título de ‘professor’.

O grampo que mostra a ascensão profissional da prima de Cachoeira está sob guarda do Supremo Tribunal Federal (STF), nos autos que tratam exclusivamente do conluio de Demóstenes com o bicheiro.

Em 13 de maio de 2011, Aécio é citado pela primeira vez. Cachoeira pede a Demóstenes para “não esquecer” do pedido. “É importantíssimo prá mim. Você consegue por ela lá com Aécio... em Uberaba, pô, a mãe dela morreu. É irmã da minha mãe.”

Demóstenes responde. “Tranquilo. Deixa eu só ligar pro rapaz lá. Deixa eu ligar prá ele.”

A PF avalia que o caso pode caracterizar tráfico de influência. “Seguem ligações telefônicas, divididas por investigado, em ordem cronológica, que contém indícios de possível cometimento de infração penal por parte de seus interlocutores ou pessoas referidas.”

Na síntese que faz da ligação de Cachoeira para Mônica, a 26 de maio – contato durou 3 minutos e 47 segundos –, a PF assinala. “Falam sobre a nomeação de Mônica para a SEDESE/MG, conseguida por Cachoeira junto ao senador Aécio Neves por intermédio do senador Demóstenes Torres e de Danilo de Castro.”

23 abril, 2012

CPI pode desnudar a cultura da corrupção





por Tarso Genro

Ao contrário do que torcem – e em parte patrocinam significativos setores da mídia – não está se abrindo uma crise com a instalação da CPI sobre a possível rede criminosa do contraventor Cachoeira. Abre-se, sim, uma extraordinária oportunidade de investigar a fundo, não só um caso concreto, mas os métodos, a cultura, a simbiose (às vezes espontânea e no mais das vezes deliberada), entre o sistema político, o Estado e as organizações criminosas politizadas. Estas, como já está provado, não só interferem na pauta administrativa dos governos, mas também na pauta política dos partidos e podem mancomunar-se com órgãos de imprensa para transitar, ou interesses de grupos econômicos -criminosos ou não- ou interesses dos diferentes partidos aos quais estes órgão são simpáticos.

Para que esta oportunidade seja aproveitada é necessário, porém, que a CPI tenha a predominância de parlamentares que não tenham medo. Não tenham medo de que o seu passado seja revelado – um passado complicado fragilizaria o resultado da CPI -, não tenham medo de ser achincalhados pela imprensa, pois à medida que contrariarem os interesses que ela defende serão ridicularizados por algum motivo ou atacados na sua honradez. Não tenham medo, sobretudo, de encontrar algum resíduo de envolvimento seu, na teia de interesses, manipulada pelo grupo ora apontado como criminoso.

Uma parte da esquerda, na defensiva em função do cerco a que foi submetida principalmente no primeiro governo do Presidente Lula, convenceu-se que as denúncias feitas pela imprensa não passavam de montagens para nos desgastar. Ora, é razoável supor que muitas denúncias são forjadas (em função de brigas entre empreiteiras, por exemplo, ou para desmoralizar lideranças que são importantes para os governos), mas tomar as denúncias como produto de uma conspiração é errado. É deixar de lado que o estado brasileiro, historicamente cartorial, bacharelesco, barroco nos seus procedimentos e forjado sob o patrocínio do nosso liberalismo pouco republicano, tem um sistema político-eleitoral e partidário, totalmente estimulante aos desvios de conduta e às condutas que propiciam a corrupção.

O uso que a mídia faz dos eventos de corrupção, para tentar destruir o PT e a esquerda é, na verdade, um elemento da luta política por projetos diferentes de estado e de democracia. São diferentes concepções de republicanismo que estão em jogo, entre um republicanismo elitista e “globalizado” pelo capital financeiro e um republicanismo plebeu, participativo e aberto aos movimentos dos “de baixo”. Este, considera urgente a redução das desigualdades sociais e regionais, mesmo que isso se choque contra as receitas dos FMI e do Banco Central Europeu: um republicanismo do Consenso de Washington e um republicanismo do anti-Consenso de Washington, é o que está em jogo.

O fato, porém, da corrupção ser “usada” pela mídia, nas suas campanhas anti-esquerda, não quer dizer que ela não exista, inclusive no nosso meio. Então, o que se trata, não é de “amaciar” os fatos, mas de disputar o seu “uso” – o tratamento político dos fatos – para fortalecer uma das duas principais concepções de República que caracterizam o grande embate político nacional na atualidade. O “aceite” deste embate político tem um terreno fértil na CPI, em instalação, e a esquerda brasileira poderá agora, se tiver uma estratégia unitária adequada, amalgamar um conjunto de forças em torno dos seus propósitos republicanos e democráticos.

A atual CPI, ao que tudo indica, vai se debruçar sobre um sofisticado sistema duplamente criminoso: ele promove diretamente, de um lado, a apropriação de recursos públicos para fruição de grupos privados criminosos (através da corrupção) e, de outra parte, promove a deformação ainda maior do sistema político (através de criação de agendas políticas), para cooptar pessoas, vincular mandatos ao crime e, também, certamente, financiar campanhas eleitorais. Se de tudo que está sendo publicado 50% for verdadeiro trata-se de um patamar de organização superior da corrupção, que já adquire um estatuto diferenciado. Nele, o crime e a política não apenas interferem-se, reciprocamente, mas já compõem um todo único, com alto grau de organicidade e sofisticação.

O pior que pode acontecer é que a condução da CPI não permita investigações profundas e que seus membros, eventualmente, cortejem mais os holofotes do que a busca da verdade, ou que ocorram acordos para “flexibilizar” resultados, por realismo eleitoral. Nesta hipótese, ficarão fortalecidos aqueles que hoje estão empenhados em desgastar a esfera da política, que significa relativizar, cada vez mais, a força das instituições do estado e o sentido republicano da nossa democracia.

Este serviço, aliás, já está sendo feito pela oposição de direita ao governo Dilma, pois já conseguiram semear a informação que o governo “está preocupado” com os resultados da CPI. A oposição demo-tucana faz isso com objetivos muitos claros: para que todos esqueçam as raízes partidárias profundas, já visíveis, neste escândalo de repercussão mundial, mas que também é uma boa oportunidade de virada republicana na democracia brasileira.

Publicado em Carta Maior dia 23 de abril de 2011.
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