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01 maio, 2013

Financiamento público para a mídia independente


Foto de canillitas, os entregadores de jornal

por Marcelo Pellegrini
da Carta Capital


Está em discussão na Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados uma proposta para a criação de um fundo de financiamento público e linhas de crédito especiais para as pequenas empresas do setor de mídia no Brasil –blogs inclusive.

Fundo para pequenas empresas de mídia asseguraria a pluralidade de opinião e a diversidade cultural, segundo a deputada Feghali.

Uma audiência pública na Câmara debaterá, na terça-feira 7, a viabilidade da proposta. Participarão do debate Luciene Fernandes Gorgulho, chefe do Departamento de Cultura, Entretenimento e Turismo do BNDES, Nelson Breve, presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e Paulo Miranda, presidente da Associação Brasileira de Canais Comunitários (ABCCOM). “Nossa intenção é sair com algum plano concreto de financiamento do BNDES”, afirma a deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ), presidente da Comissão de Cultura.

“(A ideia) é viabilizar a chamada mídia livre no Brasil. Notamos que há uma grande dificuldade dos blogs, rádios comunitárias e até mesmo da TV Pública em ter a sustentação financeira necessária para se manter no ar com qualidade, em um nível competitivo, e com possibilidade para se estruturar”, diz a parlamentar. “É impossível se imaginar a pluralidade da informação sem esses veículos e entendemos que é o momento dos bancos públicos financiarem a democracia da comunicação no País”, acrescenta.

A proposta em discussão na Comissão surge em um momento que a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) concentra 70% do dinheiro de publicidade do governo federal em apenas 10 veículos de comunicação. Só para citar um exemplo, desde o início do governo Dilma Rousseff, 50 milhões de reais – de um total de 161 milhões repassados a emissoras de tevê, rádios, jornais, revistas e sites - foram direcionados apenas à TV Globo. Hoje, 72% da publicidade dna internet é também direcionada a grandes grupos.

Isso, na visão da deputada Feghali, prejudica a divulgação das culturas locais brasileiras e a pluralidade da informação e de opiniões. “Hoje, na Comissão de Cultura, eu não vejo como podemos garantir a pluralidade da diversidade cultural brasileira se essa mídia (blogs, rádios comunitárias e tevês públicas) não existir ou não puder funcionar e divulgar aquilo que a cultura brasileira produz”.

Para ela, o financiamento de pequenas empresas de mídia é apenas o primeiro passo e deve ser seguido por outras ações, como um financiamento mais bem distribuído entre os veículos de comunicação. “Vamos montar parcerias com as outras comissões e órgãos que lidam com o tema e puxar esse debate”, disse.

Em sua edição número 742, Carta Capital abordou a falta de vontade política do ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, em revisar a regulamentação de mídia brasileira e torná-la mais plural e democrática. Sob esse contexto, surgem diversas medidas e demandas sociais para contornar a concentração de mídia no País. Entre eles, está o Projeto de Lei de Iniciativa Popular (PLIP) para a democratização das comunicações no Brasil (leia aqui), que começará a colher assinaturas a partir de 1º de maio. O documento precisa de no mínimo 1,3 milhão de assinaturas para ingressar no Congresso Nacional.

“Eu acho que o governo deveria ter uma atitude mais ofensiva em relação à regulação da mídia por tudo o que representa, inclusive no que diz respeito ao avanço democrático no Brasil”, opinia a parlamentar. “Isso é um tema estratégico para a consolidação da democracia e na medida que o governo não faz, já surge um PLIP colhendo assinaturas”.

“Agora, vamos ter que aliar parlamento e sociedade para tomarmos iniciativas sobre o tema”, conclui.

29 outubro, 2012

A grandeza da política

por Denise Queiroz
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Brizola, Lula, Osmar Santos e Franco Montoro em comício pelas Diretas-já (arquivo)

Ontem, depois de mais de 90% dos votos apurados e de muitas gargalhadas assistindo à cobertura da apuração na Globonews, entrou na minha timeline do tuíter um avatar desconhecido que fazia coro ao discurso corrente da velha mídia e da campanha tucana. Elegeram um partido de bandidos, mensaleiros, condenados, foram algumas das palavras. Obviamente, diante da felicidade de ver Haddad eleito em São Paulo e da vitória de um projeto ainda sendo aperfeiçoado, mas muito mais próximo das necessidades de inclusão da maior capital do país ao século 21, tratei o sujeito como trato a todos os que aparecem com essa retórica. Depois de algumas tuitadas, o sujeito finalmente revelou que não era do psdb, e sim do PSOL. Em gauchês, “me caiu os butiá do bolso”.

Conheci, alguns pessoalmente, vários dos fundadores do PT que depois saíram do partido e fundaram o PSOL. Entendo suas razões, e embora não concorde que a luta de fora seja mais construtiva que a de dentro, respeito alguns deles. E vejo como legítimo que se tente empreender uma forma de fazer política diferente à medida que uma agremiação se distancie do ideal de cada um. Fecha parêntesis. O que me deixa bastante assustada, e exatamente por conhecer alguns desses dirigentes que tem longa história de luta junto ao campo popular, é a semelhança do discurso que apareceu na TL, em sendo verdade que o sujeito é simpático ao partido, com o que há de mais nefasto na política brasileira.

Também a imprensa relatou ontem que, quando exercia seu direito de votar, um dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), que já foi presidente do Tribunal Superior Eleitoral, (TSE) e a quem coube a revisão da ação 470, a do mensalão, teria sido agredido verbalmente por uma eleitora e por um mesário. Se fato, mais que o desrespeito e a falta de educação correntes, o episódio revela o quanto a mídia e um discurso parcial podem ser perigosos para a nossa, como diz o querido companheiro Gilmar da Rosa, mimosa (a democracia).

Acompanhando a apuração e o gaguejar inconsistente do time de comentaristas e especialistas (?) em política da Globonews, constatava a cada minuto o espanto deles diante dos resultados que iam se desenhando. Houve um momento em que, em três curtas orações, o comentarista – guindado a membro da academia brasileira de letras pelos serviços que presta não ao povo ou às letras, mas aos interesses de quem só vê povo como massa de consumo e manobra – mencionou a palavra mensalão QUATRO vezes.

“A pobreza das idéias dessa gente que comanda os alicerces do paísr”, conforme já cantava na década de 80 o Nei Lisboa, ficou evidente. Na falta de idéias que possam convencer a população de que devem comandar outra vez, usaram como plataforma eleitoral e se apegaram a um episódio nebuloso, mas o único de tantos como ele que chegou à suprema corte do país, para tentar desqualificar e criminalizar todas as ações promovidas pelo partido e seus associados políticos em benefício dos quase 200 milhões de brasileiros .

É um caminho perigoso. Os mesmos que durante séculos alimentaram a cisão econômica e em consequência disso, a social, não mais disfarçam o seu ódio hidrofóbico à pobreza, ao diferente que cada vez se diferencia menos. Mas assim como entendo – com as ressalvas expostas acima – a fundação de outro partido a partir da costela do PT, entendo quando esse discurso raivoso vem de representantes dos privilegiados. É a reação primeira e natural às mudanças, que com o tempo tende a ser assimilada. O que é incompreensível é que quem se diz 'de esquerda’, onde está implícito, mais que tudo, a igualdade humana no mais amplo sentido, use o mesmo discurso. E mais que isso, é extremamente preocupante.

A grandeza da política é a de outras falas. Parte dela está no discurso de Fernando Haddad de ontem, pela vitória: “quero agradecer por último, mas não menos importante, a todos meus opositores que me obrigaram a extrair o melhor de mim nessa campanha para poder superá-los”.


03 julho, 2012

Bernardo quer o governo mais invisível




É contrário à razão, ao senso comum, portanto, absurdo – assim como o quase total silêncio em torno disso – que um Ministro das Comunicações de um país como o nosso, onde ainda não há energia elétrica em muitos lugares - logo o acesso às informações é limitado – e que não retira da gaveta o projeto deixado por seu antecessor de regulamentação da mídia, apoie a “flexibilização” do horário da Voz do Brasil

Conforme foi noticiado no último dia 20, pelo Terra, a informação foi prestada pelo próprio ministro Paulo Bernardo, no 26º Congresso Brasileiro da Radiodifusão, evento promovido pela Abert
(Associação Brasileira de Emissoras de Radio e Televisão).

A proposta tramita na Câmara e só não foi à votação no último dia 26 de junho porque deputados do partido do governo e do Psol não concordam com a proposta, segundo o site da Associação. A declaração publicada por eles é de Jilmar Tatto, deputado Federal pelo Estado de São Paulo: “O PT não é contra. O PT vai discutir. Eu sou contra. Quem não quiser ouvir bota um CD e MP3. Pobre gosta de ouvir [a Voz do Brasil]. Querem o horário nobre para ganhar dinheiro com publicidade? Oito milhões de pessoas ouvem a voz do Brasil. Por que flexibilizar? Flexibilizar é para acabar”.

Não há como discordar dessa afirmação. A Voz do Brasil é transmitida em horário nobríssimo de rádio, e abarca informações do Executivo, Legislativo e Judiciário. A quem interessa que possa ser transmitida às 3 da manhã?

O estranho é que o governo que, segundo o ministro, apóia a flexibilização (e que por sorte ainda tem em sua base alguns que não concordam), é o mesmo que justifica alianças eleitorais com inimigos históricos porque necessita do tempo de TV para dar a conhecer ao público o seu candidato, o mesmo que esteve sete anos à frente de um dos ministérios mais importantes, o da Educação. Certamente quem ouve a Voz do Brasil sabe quem é Fernando Haddad, Paulo Bernardo, Eduardo Cardozo... Mas quem lê os jornais editados pelas mesmas empresas que compõe a Abert tem que puxar pela memória para saber quem são.

Ou seja, além de tentar inviabilizar o governo diariamente, aliadas com partidos que tem essa meta, as grandes empresas de comunicações objetivam torná-lo mais invisível. E o ministro das comunicações declara concordar. Agora vai!

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20 janeiro, 2012

SOPA: Consolidación del Estado Policial

Los usuarios de Megaupload tienen derecho a recuperar sus archivos privados












Por Neirlay Andrade

Durante 24 horas, el miércoles, más de cien portales de internet protagonizaron un “apagón digital” en contra de uno de los más recientes proyectos de censura y persecución promovidos por el Congreso de Estados Unidos. La frase “imagina un mundo sin conocimiento libre” se multiplicó en la red, entre páginas “a media luz”.

De aprobarse el proyecto de ley Sopa (Stop Online Privacy Act), “el control cibernético y el poder del gobierno norteamericano, a nivel mundial, sería el de un estado policial aterrador en toda la Red”, detalló la pedagoga Thais Marrero en una entrevista ofrecida a la Agencia Venezolana de Noticias (AVN).

El documento, presentado el 26 de octubre de 2011 en la Cámara de Representantes, fue engavetado el pasado 14 de enero hasta que no se logre un consenso entre republicanos y demócratas. Su impulsor es el presidente del Comité Judicial de la Cámara, el republicano Lamar Smith.

La asesora del ministerio venezolano de Ciencia y Tecnología calificó como “un mecanismo totalitario de censura” a este instrumento que restringe la libertad de los usuarios para descargar música, películas o textos gratis.

“La ley Sopa es la que ha tenido mayor difusión, pero ella va acompañada por otra, que está pasando por debajo de la mesa, la cual se denomina Ley P.I.P.A., para la Protección de la Propiedad Intelectual”.

Ambos documentos se articulan para “bloquear, censurar, atacar, cerrar portales, sitios web, redes sociales y desconectar buscadores, después de una reclamación por la infracción de los derechos de autor”, agregó la ex decana de Postgrado de la Universidad Nacional Experimental Simón Rodíguez.

“La iniciativa no es sólo de Lamar S. Smith, sino de una cofradía compuesta por unos diecinueve congresistas unidos a una lista de 140 gigantescas y multimillonarias empresas y compañías”.

Algunas de las corporaciones interesadas en la pronta aprobación del texto están desde la American Federation of Musicians (AFM); American Federation of Television and Radio Artists (AFTRA); American Society of Composers, Authors and Publishers (ASCAP) hasta emporios cosméticos como Estée Lauder Companies o L’Oreal; pasando por las reconocida cadena Sony.

Uno de los grandes millonarios que aupan el proyecto de censura es Keith Rupert Murdoch, “magnate del negocio de los medios de comunicación, información y cinematográficos, dueño del emporio News Corporation; poder que controla el 75 % de los contenidos que a nivel planetario circulan a través de sus operadores de cable, satélite y televisión”, destacó Marrero quien se especializa también en andragogía y forma parte de la Comunidad Venezolana de Profesionales de las Relaciones Internacionales y Defensores de la Solidaridad Mundial.

La ley Sopa “pone en jaque a los denominados recursos multimedia y a los recursos educativos abiertos (REA, u OER, por sus siglas en inglés)”.

Su imposición, advierte Marrero, pondría punto y final a una red de investigación global que paulatinamente han construido “estudiantes, profesores e investigadores de todo el mundo, quienes comparten y utilizan gratuitamente materiales digitalizados”.

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Ministro venezuelano Jesse Chacón




Entrevista com Jesse Chacón
 
Quadro influente na revolução bolivariana encabeçada por Hugo Chávez, o venezuelano Jesse Chacón era o ministro de Telecomunicações do país na época em que a empresa RCTV não teve sua concessão pública renovada, em 2007, causando histeria da mídia corporativa mundo afora. Em entrevista ao Brasil de Fato, Chacón resgata este episódio e debate os avanços e a agenda a cumprir-se no continente para a democratização da comunicação.


Brasil de Fato - Em que se baseou a decisão de vocês no caso RCTV?

Jesse Chacón - Nesse momento venciam três concessões, de 25 anos cada. Em 1998 se aprovou a nova Constituição da Venezuela que estabelecia taxativamente que o Estado deveria criar um canal de serviço público. Como venciam as concessões, era mais importante para o Estado criar este canal do que renovar o canal privado. Além disso, o Estado não é obrigado a renovar, é uma decisão do Estado, que precisa ser fundamentada, mas pela Constituição a renovação não é automática, não sei se aqui é assim.

Pela Constituição não, mas na prática sim, é automática...

Bom... Se o espectro eletromagnético é um recurso limitado, você não pode ter infinitos canais. Se alguém explorou um canal de TV 25 anos, por que não dar a oportunidade a outro se o espectro é um bem de domínio público? Se o espectro é público e limitado tem que haver um sistema que permita que um maior número de elementos da sociedade desfrute desse recurso. Com a Constituição nos dizendo que deveríamos criar um canal de serviço público, que por ser dessa natureza dá maior entrada de atores do que o canal privado, não renovamos o privado.Buscamos a melhor solução técnica para dizer qual não seria renovado. A Televen é um canal UHF, RCTV e Venevisión eram VHF. Em matéria de propagação, o VHF é uma melhor freqüência. Com isso se descartou a Televen. Entre a RCTV, que operava no canal 2, e a Venevisión, no canal 4, optamos pelo canal 2, pois é uma freqüência melhor do que o canal 4. Assim, renovamos a concessão de Venevisión e Televen, não renovamos a RCTV e criamos o canal público. Juridicamente é impecável a decisão. O dono do espectro é a RCTV ou os venezuelanos? Se isso fosse um canal a cabo, eles poderiam seguir explorando, mas se estamos falando do espectro, temos que pensar uma maneira democratizá-lo.

Esse canal público já está no ar?

Sim, se chama TVes [Televisão Venezuelana Social].

Quando se trata da renovação de uma concessão pública, em qualquer setor, o Estado ou a sociedade, em tese, deveriam avaliar o serviço prestado durante o último período de concessão para, então, decidirem sobre a renovação ou não. No caso da RCTV, não houve avaliação deste tipo?

Nesse caso não foi necessário, mas nas próximas concessões a vencer o Estado terá que valorar se durante o tempo desta concessão se cumpriu o uso que de alguma maneira se defi niu para ele. Vão existir pessoas querendo ter sua televisão e dizendo“por que eles que já a exploraram por 25 anos e ganharam milhões seguem com o direito de explorar e eu não?” Há que se saber sob que condições se renova. Em alguns países as leiloam, então ganha quem tem mais poder. A questão é quem dá e quem tira o direito. Quanto tempo tem a Globo coma concessão no Brasil? Não há outra família que pode herdar isso? Se o espectro fosse um bem ilimitado, poderíamos dar a todos, mas como não é, onde está a democracia? A democracia deveria dar liberdade de acesso a todos os grupos. Nós fizemos uma proposta, que está em pronta discussão na Venezuela, de se separar o meio da mensagem. Onde não se entrega o meio a um concessionário específico. Cria-se uma redistribuição e se entrega o espaço em todos os meios, então, alguém ficaria com o canal 2 entre às 14 e 16 horas da tarde, outro entre às 16 e 18 horas, um terceiro entre às 18 e 20 horas. Através de cada um teremos diferentes visões da sociedade e não a visão que tem o dono do canal. Entretanto,a briga não é fácil. Mas, como querer uma sociedade plural se não há pluralidade no que se comunica?

Com a ascensão de governos de esquerda na América Latina a pauta da democratização da comunicação avançou?

A luta pela hegemonia é uma luta permanente. Se a sociedade não se dota de um elemento plural de difusão, quem tem o controle das transmissões de valores e símbolos impõe o modelo cultural dessa sociedade. Eu acho que a sociedade latino-americana está passando por um reencontro com o público, em matéria de comunicação. A Europa nasceu com um conceito público dos meios de comunicação, a América do Norte nasce com um conceito privado, que depois foi imposto à América Latina e nos causou muitos danos. Acho que temos que redefinir isto. Toda sociedade se constrói com um mecanismo onde você tem um contrato social, uma Constituição, e cidadãos que compartilham desse contrato. Para que eles compartilhem tem que ter um esquema de valores e um esquema de desejabilidade dentro dos marcos dessa Constituição. O único elemento que pode difundir esses valores assim definidos, porque o elege o povo e o tira o povo, é o público. Se faz necessário uma discussão entre o que significa um meio público realmente, no sentido de que é aberto a todos e é transparente em termos de gestão pública. Em segundo lugar, já nessa entrada do século 21, a sociedade se dotou de uma capacidade para divulgação muito maior. É preciso analisar a necessidade de facilitar o surgimento da comunidade como elemento gerador de mensagens, não como consumidor. Isso nos levaria a um novo esquema comunicacional onde deveriam conviver público, privado e a comunidade organizada. Na Venezuela avançamos nesse caminho, temos essa estrutura, com seus erros e acertos. Temos uma figura de rádio e televisão que se chama comunitária, que é distinta do alternativo. Alternativo nós entendemos como o jornal de vocês, porque é um grupo de pessoas que estão interessados no tema comunicacional, sem fins lucrativos. O comunitário é o veículo da comunidade. Na Venezuela um distrito pode se organizar e solicitar sua própria rádio ou televisão, criar sua fundação e a cada dois anos, em assembleia, reelegem quem vai ser o responsável. Esse modelo teve muita entrada. Em alguns lados teve um êxito gigantesco, em outros não, porque todo processo de socialização depende muito da maturidade da comunidade para entender que ela é a dona, não os que montaram o veículo.

Qual seria a agenda da democratização da comunicação por cumprir na América Latina?

Necessitamos fazer uma análise sobre como se constituem as comunicações aqui e se esse é o sistema que necessitamos. Um sistema que não permita a apropriação da comunidade da comunicação não vai facilitar o crescimento de uma sociedade plural. Em primeiro lugar, deve haver a possibilidade de que o privado, o público e o comunitário dividam esse espaço. Segundo: tem que haver um sistema que faça com que as mensagens sejam plurais, por isso temos que fracionar.

E a universalização da internet?

É muito importante. Agora, precisamos ter infraestrutura. Hoje, toda a rede de telecomunicações está globalizada e foi privatizada. O que se crê descentralizado é, na verdade, muito centralizado. E sobre isso se foram criando redes sociais. Creio que temos que voltar ao conceito de Estado-nação. Por exemplo, a Venezuela maneja sua própria rede de telecomunicações, seu satélite e agora está construindo o seu NAP [Node Access Point], o ponto onde se produz o intercâmbio de tráfego de todos os operadores de internet. Hoje, todos eles estão em Miami e tudo que surgiu na rede está aí porque o poder que centraliza isso ainda não se sente ameaçado. Mas, já começaram os problemas. Na Inglaterra, todo o movimento que se agrupou contra a privatização da educação foi retirado do Facebook quando viram que estavam se aglutinando. No Egito, quando começaram as manifestações, apagaram a rede completa à toda sociedade. Então, a pergunta é: é real este crescimento das redes sociais na internet, a ponto dela ser um espaço de disputa do poder? Ou é uma ilusão que terminará no momento em que o poder sinta que a rede atenta contra ele? Há pouco tempo, a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, disse que internet é um desafio para seu país e que deve haver um equilíbrio entre segurança e liberdade. Palavras mais, palavras menos, o que ela disse é que na internet, no contexto das redes sociais, existem dois tipos de pessoas: aqueles que a usam em benefício da sociedade e os “terroristas” que a utilizam contra a paz. E todos aqueles que ela determine como terroristas vão para o buraco. Isso signifi ca que a internet vai para o buraco quando for um perigo para o establishment. Esse é um dos grandes desafios da sociedade no século 21.

Isso desmonta a tese dos que acham que as redes sociais fazem revoluções.

De fato, elas tem potencial, funcionou nos países árabes. A pergunta é o que vai acontecer quando isso aconteça na Inglaterra, EUA, França. Quem tem a “tomada” na mão vai plugá-la ou desconectá-la? Aí está o desafio. A internet segue sendo um espaço interessante, o que não podemos é ser inocentes em pensar que ela por si só vai permitir todo o surgimento de um movimento antissistema gigantesco. Hoje ela se desenvolveu porque há sistema, ainda não lhe significa um risco.

A América Latina tem as possibilidades econômicas para ter o poder da“tomada”?

O mais difícil é a parte física, que já está enterrada aqui. O grande problema é que os processos de privatização levaram para as mãos das transnacionais grande parte destas redes. Seria interessante, por exemplo, que o tráfego de informações que vai da Venezuela ao Brasil, ao invés de subir ao NAP de Miami, ficasse entre os nossos NAPs. Sairia para o norte somente o tráfego de informações com o norte. Isso é muito simples de fazer, aqui já se fez coisas muito maiores.

Por que não se faz?

Mais por vontade política do qualquer outra coisa. O problema é que as telecomunicações não estão em mãos de empresas públicas ou privadas que sejam dos países e que tenham a visão dos países, mas são grandes transnacionais. O interesse deles é global, não é um negócio daqui. Aí passaríamos pelo tema do quão importante é termos essa estrutura hoje, de forma que se nos desligam lá em cima, seguimos conectados aqui embaixo. Do ponto de vista técnico, isso não é nada complexo. Do ponto de vista de custo, pode-se manter também.


Quem é

Jesse Chacón, 46, graduado em Engenharia de Sistemas pelo Instituto Politécnico da Força Armada Nacional da Venezuela e pós-graduado em Telemática na França. Atualmente é diretor da fundação Grupo de Investigação Social Século XXI (GISXXI). Muito influente no governo Hugo Chávez, dirigiu os ministérios do Interior, de Comunicação e Informação, de Telecomunicações, de Ciência, Tecnologia e Indústrias Intermediárias. Também esteve à frente do despacho da Presidência da República e da Comissão Nacional de Telecomunicações (Conatel).
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