19 maio, 2012

As conexões de Cachoeira com a máfia italiana

Por Paolo Manzo
Do Carta Capital
via Viomundo


4 de novembro de 2004. Anotem a data porque foi nesse dia que o nome de Carlinhos Cachoeira se tornou famoso também na Itália. Foi quando a principal revista semanal da península, L’Espresso, publicou uma reportagem primorosa sobre as conexões entre as organizações criminosas italianas que com a globalização se espalharam pelo mundo em busca de países onde lavar o dinheiro do narcotráfico, e de empresários de bingos e caça-níqueis. “Azar de Estado” é o título da matéria assinada pelo repórter investigativo Marco Lillo que, além de descrever as relações suspeitas entre as máfias e os monopólios do Estado no setor das apostas recém-legalizadas na Itália, apresentava Cachoeira como o “chefão das apostas ilegais no Brasil”.

De acordo com Lillo, e também outro jornalista italiano – Francesco Giappichini, que nos informa no seu livro Brasile Terzo Millenio – Cachoeira começou a fazer lobby para a Gtech Corporation, empresa americana líder no mundo das lotéricas, até agosto de 2006, quando foi comprada pela italiana Lottomatica SPA por 4,7 bilhões de dólares. Na época, a Gtech era a responsável pelo sistema informatizado das apostas gerenciadas pela Caixa Econômica Federal e, depois da fusão com a Lottomatica, saiu de Wall Street para passar a coletar dinheiro na Bolsa de Milão. Outra conexão com a Itália.

Cachoeira, escreve Lillo, “queria renovar o contrato das lotéricas com a Gtech, operadora do sistema de loterias da Caixa Econômica Federal contratada durante o governo Fernando Henrique Cardoso, por um valor de uns 130 milhões de dólares”.

Com este propósito, contatou Waldomiro Diniz, já presidente da Loterj, a companhia estadual que trata das lotéricas no Rio de Janeiro e já assessor do então ministro da Casa Civil José Dirceu. O “sonho”de Cachoeira, acrescenta Giapichini, era “a conquista do mercado das apostas online”, que valem bilhões, “começando por Goiás, sua terra natal. Na década de 70, Carlinhos conseguiu estender suas atividades a Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná e Rio”.

A página 61 do livro traz o trecho mais interessante: “Na sua ascensão, Cachoeira chega finalmente a definir uma estratégia conjunta com a Gtech” e “quem abençoou o acordo entre ele e a multinacional americana foi mesmo Diniz”. Informações do Ministério Público Federal confirmam os textos dos jornalistas italianos, bem como a CPI dos Bingos.
O acordo entre Cachoeira e a Gtech foi acertado “no hotel Blue Tree, em Brasília”, no começo de 2003, enquanto Waldomiro Diniz “ajudaria na renovação do contrato da Gtech com a Caixa”. Não há dúvida de que o governo Lula criou obstáculos à atuação da dupla “Gtech-Cachoeira” – primeiro o governo vetou o decreto dos bingos e depois rompeu o contrato da multinacional com a Caixa em 2005. E é certo que ao então senador tucano Antero Paes de Barros Neto, natural de Cuiabá, Carlinhos entregou o vídeo provando a corrupção que o envolvia com Diniz.

É certo também o fato de que, em fevereiro de 2004, o semanário Época publicou o conteúdo daquele vídeo depois que Paes de Barros o entregou ao Ministério Público Federal, provocando o que a mídia local batizou como “o primeiro escândalo do governo Lula”. Provavelmente casual, mas com certeza macabro, enfim, é o fato de que Luiz França de Moura Neto, o primo do político mato-grossense, foi encontrado morto, com o rosto e as mãos queimadas, no começo de março de 2004. Certo ainda é que, em menos de dois meses, o mediador Diniz e o “bicheiro” Carlinhos foram condenados pela Justiça carioca, respectivamente, a 12 e 10 anos e meio por corrupção.

A Lottomatica comprou a Gtech em agosto de 2006 e isso, com certeza, é casualidade, mas tem outro fator relevante que interessa ao Brasil e que, uma vez mais, chega da Itália: a lavagem bilionária de dinheiro das máfias italianas em nosso país.

Para indagar sobre o tema, CartaCapital entrou em contato com o atual procurador-geral de Catânia, na Sicília, Giovanni Salvi. Há 14 anos ele era uns dos promotores mais ativos em Roma. Com a coordenação do Departamento de Investigação Antimáfia Italiano (DIA), juntamente com o colega recém-falecido Pietro Saviotti e, graças à colaboração do FBI, Salvi conseguiu documentos probatórios que mostravam como o Brasil havia se transformado na meta preferida dos mafiosos para lavar o dinheiro do tráfico internacional de drogas.

Fácil imaginar o instrumento escolhido para tanto. Os bingos eletrônicos, as máquinas caça-níqueis e, no Panamá e na Argentina, os cassinos. A operação, que na Itália levou em 1998 à prisão de 46 criminosos, passou à história como Operazione Malocchio, ou seja, Mau-Olhado, referência aos Cachoeiras do mundo. “A operação fundou-se sobre o tráfico para a Itália de várias centenas de quilos de cocaína” conta Salvi a CartaCapital. “Na chefia dessa organização estava o foragido romano Fausto Pellegrinetti, que usava o pseudônimo de Franco e trabalhava para Cosa Nostra. O Brasil foi uns dos principais países onde os lucros da droga foram aplicados, através de mediadores da Córsega, principalmente no jogo e nas máquinas caça-níqueis. Nossa fonte principal, Lillo Rosario Lauricella, mafioso de Palermo e braço direito de Pellegrinetti, abandonou nossa proteção e foi morto na Venezuela em 2002”.

Foram 17 milhões de dólares que, em 1997, a dupla Pellegrinetti-Lauricella lavou, comprando e instalando milhares e milhares de máquinas nas salas de bingo brasileiras. O mafioso siciliano Lauricella contatou a empresa ibérica Recreativos Franco por meio de Alejandro Ortiz, um brasileiro que hoje é considerado referência no mercado do jogo ibérico. Pelo menos quatro empresas nacionais entraram em parceria com o até hoje foragido Pellegrinetti, escreve Marco Lillo: a Bmt Brasil Máquinas e Tecnologia Ltda., a Dimares Distribuidora de Máquinas Recreativas Ltda., a Bingo Matic Produtos Eletrônicos Ltda. e a Startec. “Das investigações sobre essa frente”, comenta Salvi, “nada sei. A única coisa que posso dizer é que nós passamos todas as informações às autoridades brasileiras”.


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“Assusta-me que FHC assuma a bandeira da regulação da mídia”

Entrevista de Venício Lima
Por Vinicius Mansur
Para o Carta Maior 


A bagagem do Principe

Brasília - Durante o seminário “Meios de comunicação e democracia na América Latina”, realizado no último dia 15 pelo Instituto Fernando Henrique Cardoso (FHC), o ex-presidente defendeu a regulação da mídia como condição da democracia . O evento marcou também o lançamento de uma publicação conjunta do iFHC, Centro Edelstein de Pesquisas Sociais e da Plataforma Democrática apresentando reflexões e propostas para mudanças na legislação do setor.

As declarações aparentemente inusitadas de FHC - historicamente alinhado aos setores da mídia que abortam qualquer discussão sobre o tema taxando-o como tentativa de censura e ataque a liberdade de imprensa -, entretanto, não surpreendem o professor aposentado de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) Venício de Lima. O pesquisador aponta indícios de mudança na estratégia dos grandes grupos de mídia e teme que eles assumam a bandeira da regulação para fazê-la entre aspas: “Ou seja, muda para não mudar.”

Confira a entrevista.

O senhor se surpreendeu com a posição de Fernando Henrique Cardoso?

Não me surpreende, mas me preocupa. Tenho a impressão de que os setores historicamente avessos até ao debate sobre a questão da regulação estão se apropriando de um certo vocabulário de regulação da mídia, o que não necessariamente significa um avanço democrático. Há várias sinalizações disto.

Quais?

Em 2003, se não me engano, quando o Conselho de Comunicação Social [órgão auxiliar do Congresso previsto no artigo 224 da Constituição] ainda funcionava - porque desde dezembro de 2006 ele não funciona mais - criou-se uma subcomissão para discutir concentração da mídia no Brasil, por iniciativa do à época conselheiro Alberto Dines. Eu fui um dos convidados e apresentei um texto tratando da concentração histórica, não só, mas sobretudo, na radiodifusão do país. A última pessoa convidada foi um filósofo gaúcho chamado Denis Rosenfield, que não é da área, mas é um expoente do pensamento liberal conservador no Brasil. Sua participação foi sugerida e apoiada pelos grandes grupos de mídia que tem representação no Conselho. Ele criticou todas as apresentações anteriores, muito particularmente a minha, reafirmando todas as posições tradicionais dos grandes grupos de mídia, por exemplo, contrário a qualquer tipo de controle da propriedade cruzada dos meios e coisas desse tipo.

Recentemente, este ano, esse mesmo professor publicou um texto, destes que são publicados em vários jornais, defendendo a regulação do setor. Ele comete alguns erros bastante primários, mas pelo fato de ter publicado este texto e de ter defendido há menos de dez anos atrás posições totalmente opostas, passei a suspeitar de que os grandes proprietários da mídia começaram a se apropriar da necessidade de uma certa atualização da regulação, o que me preocupa porque isso pode significar que algum tipo de costura de bastidores pode estar sendo feita para que haja alguma coisa que se apresente como regulação e que não chegue nem ao que já está na Constituição há 23 anos. Então, tenho medo disso. Como acontece no Brasil, na maioria das vezes, as mudanças são para continuar onde estamos.

Há outras sinalizações?


Quando da aprovação da Lei 12.485, no final do ano passado, unificando a regulação da televisão paga, o jornal O Globo fez um editorial falando “precisamos mesmo atualizar a legislação da área e um bom exemplo do que precisa ser feito é essa lei, que foi feita sem contaminação ideológica, sem viés populista”, etc.

Além disso, o professor Bernardo Sorj, que é o representante do Centro Edelstein, que inclusive publica o livro lançado no seminário promovido pelo Instituto FHC, é o organizador de outro livro publicado há uns dois anos pela Paz e Terra, junto com a organização Plataforma Democrática. Esse livro não deixa qualquer dúvida sobre a posição desses centros de estudo sobre as questões que tem sido levantadas em relação aos marcos regulatórios que estão sendo implementados na América Latina. O próprio Bernardo Sorj, em outro texto, defende explicitamente a manutenção da propriedade cruzada dos meios, argumentado que a concentração talvez fosse uma forma de garantir a permanência dos veículos impressos, ameaçados pelas novas tecnologias. Então, fico com pé atrás, a menos que ele tenha mudado de posição.

Ou seja, a mídia tradicional prevê a regulação da comunicação como inevitável no Brasil e se movimenta para garantir uma regulação que lhe seja menos prejudicial?

Seria isso, como acontece com relação à bandeira da liberdade de expressão. Você vê setores que apoiaram o golpe de 1964, que patrocinaram a última expressão institucionalizada da censura no Brasil, assumindo indevidamente, de forma totalmente absurda, a bandeira da liberdade de expressão. Os mesmos grupos que apoiaram um governo que institucionalizou a censura e que, inclusive, afetou a eles próprios! O risco que se corre agora é que com esse movimento, certamente articulado com os próprios grandes grupos de mídia, eles assumam a bandeira da regulação e façam a regulação entre aspas. Ou seja, muda para não mudar.

Entre as propostas tiradas neste seminário, eles falam em combater a concentração da propriedade dos meios privados.

Eles precisam explicar melhor. Muita gente fala que combater a concentração é finalmente cumprir o que está naquele decreto 236, de 1967, da ditadura. Aquilo ali não tem nada a ver com propriedade cruzada. Limitam o número de concessões por região geográfica e um parágrafo poderia ser aplicado na formação de redes. Não há qualquer controle na formação de redes de rádio e televisão como a Globo. Do ponto de vista jurídico, inclusive da ação do Cade [Conselho Administrativo de Defesa Econômica] em relação a formação de cartéis e controle de oligopolização, esses grupos são aceitos como rede.
Mas eu ainda não vi a publicação lançada neste seminário e prefiro fazer um estudo do documento. Estou falando com base nas coisas que eu já vinha observando e sobre algumas já escrevi.

Seria importante ter um aliado como FHC nesta luta?

Ao contrário, me assusta que FHC e o grupo em torno dessa promoção assumam a bandeira da regulação, eu jamais diria que ele é aliado. Se fosse teria promovido a regulação nos anos que foi presidente da República ou, então, o PSDB estaria apoiando alguma coisa nesse sentido.

18 maio, 2012

Vaccarezza e Dias blindam governadores e CPMI perde credibilidade

Por Wálter Maierovitch
Dica de @Marandrea e @Maramandrea




Se a ética fosse levada a sério no Parlamento, um novo processo, junto à Comissão de Ética da Câmara, deveria ser iniciado contra Cândido Vaccarezza. Ele deixou a liderança do governo pelas trapalhadas e ganhou fama de ser pouco brilhante intelectualmente.

Ontem, durante a sessão da CPMI, Vaccarezza foi surpreendido ao mandar, com recursos telemáticos que consegue operar, mensagens ao governador Sérgio Cabral, do Rio de Janeiro.

Cabral, apavorado com a ameaça de depor na CPMI e depois de implorar socorro ao vice-presidente Michel Temer que antes ignorava, restou confortado pelas mensagens on-line de Vaccarezza.

Não se sabe nada a respeito do comprometimento de estoques de fraldões geriátricos no Rio de Janeiro, mas Cabral ontem, enquanto se desenvolvia a sessão da CPMI, movia-se entre o desespero e o pavor de ser convidado a comparecer a Brasília.

Na principal mensagem, Vaccarezza, flagrado pelo pessoal do SBT, digitou a respeito da não convocação de Cabral: “Você é nosso”.

Como Vaccarezza pertence ao Partido dos Trabalhadores e Cabral ao PMDB, a mensagem aponta para um acordo que, evidentemente, contraria o interesse público.

Na verdade, Vaccarezza premia, em nome de seu partido político, o sabujismo de Cabral para com Lula. Afinal, nos mandatos de Lula, Cabral foi o governador que mais bajulou e se curvou às vontades do então presidente. E nem sempre as vontades de Lula atendiam ao interesse do estado fluminense.

Com efeito. Muitos podem concluir, com relação ao escândalo Cachoeira-Demóstenes, que se a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) acabar em pizza teremos a ação do Ministério Público.

Um Ministério Público, pelo nosso sistema constitucional, sem qualquer obrigação de acatar o relatório final da CPMI: muitas vezes, as investigações parlamentares terminam sem consenso e, portanto, sem aprovação da peça de encerramento.

O grande problema é que na outra ponta da outra linha está, por força dessa excrescência chamada “foro privilegiado”, o procurador Roberto Gurgel e a sua esposa Cláudia Sampaio, na condição de subprocuradora.

Esses consortes, Gurgel e Cláudia, já engavetaram o inquérito iniciado pela Operação Vegas, conduzida pela Polícia Federal que revelava a participação do senador Demóstenes Torres na organização criminosa chefiada por Carlinhos Cachoeira.

No Parlamento, quando da recondução a novo mandato de procurador-geral e com a Operação Vegas no “freezer” do seu gabinete, Gurgel disse que poderia ser acusado de tudo, menos de omissão. Não se sabe se Gurgel, com a afirmação feita, chegou a corar ou manteve um caradurismo hipócrita.

Não bastasse, Gurgel soltou a seguinte frase: “O Ministério Público tem de ser um exemplo de transparência”.

Essa frase de Gurgel está publicada hoje no jornal O Estado de S.Paulo. E Gurgel não explica convincentemente o inexplicável engavetamento, de 2009 a 2012, do inquérito da Operação Vegas.

Só para lembrar, Gurgel tinha, segundo estabelecido no Código de Processo Penal, o prazo de 15 dias para se manifestar nos autos do inquérito da Operação Vegas.

No momento, para Gurgel escapar, a subprocuradora e esposa Cláudia apresentou-se como biombo protetor. E ela já foi desmentida pelo delegado responsável pela Operação Vegas e por nota divulgada pela direção da Polícia Federal.

Ontem, a CPMI não convocou o ex-presidente da Delta, Fernando Cavendish, nem os governadores de Goiás, Distrito Federal e Rio de Janeiro. A subprocuradora Cláudia também não foi convidada a comparecer.

Para blindar Cavendish, a CPMI quer focar a apuração exclusivamente nos negócios da Construtora Delta na região Centro-Oeste, sob responsabilidade de Cláudio Abreu, diretor defenestrado que está preso preventivamente.

Quanto à tentativa de convocação de Marconi Perillo, governador de Goiás, o novo Varão de Plutarco do Senado Federal Álvaro Dias avisou, bravo, que se mexessem com Perillo iria encrespar e os outros governadores seriam convocados.

Álvaro Dias é aquele que abriu mão da aposentadoria de governador do estado do Paraná. Depois de ter explorado politicamente essa sua liberalidade, voltou, “na moita”, a pedir a aposentadoria. Atenção: pediu que voltassem a pagar a aposentadoria e colocassem no seu bolso, retroativamente, as importâncias que havia renunciado.

O senador Álvaro Dias, do PSDB, passou a representar o papel de Varão de Plutarco que antes era interpretado por Demóstenes Torres.

Requião: Passividade não! CPI deve investigar Veja e Delta

Do Viomundo



17 maio, 2012

Tucanos investiram R$ 208 milhões a menos no metrô

Do Blog do Zé Dirceu

Metrô de Sampa

Neste momento em que todos ainda vivemos o rescaldo do primeiro grande acidente entre dois trens na história de 36 anos do metrô de São Paulo - que levou 103 pessoas a buscarem atendimento em hospitais e postos da região - não há como não fazer uma triste constatação: os tucanos deixaram de investir nada menos que R$ 208 milhões na manutenção, ampliação e modernização enfim, do metrô só no ano passado.

Os números foram levantados pela assessoria técnico-econômica da bancada do PT na Assembleia Legislativa, com base numa comparação entre o balanço do Metrô e o Orçamento do Estado, que inclui os investimentos nas empresas públicas e/ou mistas.

O levantamento aponta que estes R$ 208 milhões representam 31% do orçado inicialmente para investimento no Metrô paulistano em 2011. Só na Linha 3 – Vermelha, onde ocorreu o acidente nesta 4ª feira (ontem) o governo tucano de Geraldo Alckmin deixou de investir mais de R$ 65 milhões, o equivalente a 25% do programado no orçamento para o sistema metroviário.

Dos R$ 4,5 bi orçados para 2011, só R$ 1,16 bi foi executado

Conforme balanço feito na liderança da bancada na Assembleia, se forem levados em consideração os investimentos na rede atual e os relativos a obras de ampliação, o resultado é ainda mais assustador: dos R$ 4,5 bi orçados para 2011, só foi executado R$ 1,16 bi, ou seja, houve um corte de quase 74%.

De 1999 a 2011 deixaram de ser investidos R$ 10,3 bi no Metrô de São Paulo, suficientes para ampliar sua rede em 25,8 km (preços do próprio metrô estabelecem um custo de R$ 400 milhões/km do sistema).

O estudo indica, ainda, ser absolutamente improcedente a informação - passada em nota oficial à Folha de S.Paulo pela Secretaria de Transportes do Estado -, segundo a qual não há repasses do governo federal para investimentos no metrô da capital paulista.

Governos Lula e Dilma investiram muito mais no metrô paulistano

O Governo Federal, com os presidentes Lula (2003-2010) e Dilma Rousseff (2011/2012) à frente, investiu em média o suficiente para a construção de 3,24 km de metrô por ano em São Paulo, enquanto o Governo Federal tucano do presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) investiu apenas o equivalente 0,5 km por ano.

Para tanto, os governos Lula e Dilma autorizaram cerca de R$ 15 bi para a rede metroferroviária junto ao BNDES, Caixa Econômica Federal (CEF), Banco Japonês para Cooperação Internacional (JBIC), Banco Mundial (BIRD) e Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Em comparação, FHC autorizou em oito anos pouco mais de R$ 4 bi.

Ou seja, o PT à frente do Governo Federal emprestou e autorizou empréstimos em volume 226% superior ao autorizado pelos dois governos tucanos de FHC para obras de expansão do Metrô e da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). Os presidentes Lula e Dilma incluíram, ainda, R$ 167 milhões para a CPTM e o Metrô nos orçamentos anuais, e mais R$ 40 milhões para a linha 18 – Bronze do sistema metropolitano.

Vejam e comparem esses investimentos. Chegarão à mesma constatação a que cheguei: quem deixou mesmo de investir no Metrô de São Paulo e na CPTM foram os governos do PSDB, há 30 anos à frente do Executivo do Estado, se contarmos desde o primeiro, de Franco Montoro (a partir de 1983). Faltou investimento em ampliação das redes, manutenção, modernização e na prevenção e controle de acidentes. Só poderia ter dado neste espetáculo lamentável que temos tetemunhado cotidianamente.


16 maio, 2012

Delegado da 'guerra suja' sofre atentado no ES

Do Brasil247
Dica do @roteirodecinema


O senador Paulo Paim (PT-RS) subiu à tribuna da tarde desta quarta-feira 16 para denunciar um atentado ocorrido nesta madrugada contra o ex-delegado do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) Cláudio Guerra. Segundo Paim, três homens cercaram a casa de idosos no interior do Espírito Santo, onde o delegado estava, e um deles ameaçou atirar.

O ataque ocorre no mesmo dia em que foram empossados os sete membros da Comissão da Verdade, instalada para investigar os crimes contra os direitos humanos cometidos durante a ditadura militar, e semanas depois do lançamento do livro "Memórias de uma guerra suja", dos jornalistas Marcelo Netto e Rogério Medeiros, no qual Guerra confessa o assassinato e a incineração de presos políticos – e a participação em atentados a bomba como o do Riocentro, denunciando, inclusive, os nomes de comparsas.

À coluna Poder Online, do Portal IG, Paim destacou a "tentativa de homicídio" (assista ao vídeo abaixo). "Achei da maior gravidade. Ele tinha sido convocado para fazer um depoimento na Comissão de Direitos Humanos amanhã (quinta-feira) pela manhã, assim como os autores do livro. Provavelmente eles não virão amanhã", disse.

"Fiz o registro na tribuna do Senado para que o Ministério da Justiça e o nosso ministro deem toda a segurança. Os crimes cometidos são fatos, são reais, ele reconhece. Agora, ele pode ser um instrumento fundamental para a Comissão da Verdade, que foi instalada hoje. No livro ele diz que se dispõe a depor na Comissão da Verdade. É um arquivo vivo dos crimes da ditadura, por isso tem de haver segurança", completou.





A morte tuítica de Lucy


Quando abri o twitter hoje encontrei mensagem direta do Sergio Pecci me informando que a @Lucy_in_sky_ apagou seu perfil  no Twitter e no Face. Embora o perfil não exista mais, pode-se acompanhar a conversa tuítica de ontem à noite que, pelo visto, resultou nessa decisão.

Entendo todos os argumentos. Ter seu nome (embora fictício) exposto e usado como referência difamatória,  da forma como foi pela revista essa,  e toda a repercussão, não deve ser fácil de digerir. Mas daí a apagar o perfil? Por que não dar um tempo? Que tipo de ameaças ela teria recebido (subentende-se que recebeu) e de quem?  Com o perfil apagado, como poderemos ajudá-la, se a maioria de nós só tinha contato pelo Twitter e pelo face?

Lamento demais por que o episódio serviu para desmarcarar de vez o sujeito  esse do chapéu que se diz jornalista (a revista dele já vem sendo desmascarada por conta das gravações), e creio que a maioria dos companheiros me acompanha nesse lamento.  

E agradeço se alguém puder explicar que tática é essa de, em vez de aconselhar afastamento momentaneo, aconselha o tuitcídio.

lepanto.com.br

15 maio, 2012

Proposta para depois do veto ao #códigoflorestal

Da página do Bohn Gass
por João Manoel de Oliveira 


futuro sem o veto


O deputado Elvino Bohn Gass (PT/RS), em conjunto com o deputado e Sibá Machado (PT/AC) protocolaram, na quarta-feira 9 de maio, na Câmara Federal, um projeto de lei sobre a recomposição das matas nas margens de rios (ciliares) que, segundo eles, ficaram completamente desprotegidas no Código Florestal aprovado pela Câmara. O principal argumento dos deputados petistas é que a desproteção dos rios é um atentado à agricultura. “Um rio sem mata ciliar é um rio condenado à morte. E com rios mortos, não há produção agrícola,” afirma Bohn Gass.


Segundo o parlamentar gaúcho, o projeto que a presidenta Dilma recebeu da Câmara foi tão violentamente recortado que a única recomposição de mata ciliar prevista é de 15 metros para rios de até 10 metros de largura (parágrafo 4º do artigo 62 do texto do Senado, inicialmente retirado pelo relator na Câmara, deputado Paulo Piau, mas reposto no texto por exigência do regimento). “Ou seja, ao retirar as demais regras de proteção previstas nos parágrafos 5º, 6º e 7º do artigo 62, a maioria dos deputados deixou as margens dos grandes rios totalmente desprotegidas no texto final. Isto, de certo modo, obriga a presidenta Dilma a apresentar alguma alternativa se optar pelo veto parcial. Assim, nosso projeto tem, também, a intenção de ser esta alternativa à presidenta”.


com a proposta 

Logo depois de protolocar o projeto, Bohn Gass foi ao Palácio do Planalto onde entregou a proposta à Ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Ideli Salvatti que, conforme o deputado, celebrou a iniciativa como subsídio para a análise do governo.

Para corrigir isto, a nova proposta de Bohn Gass cria uma escala de proteção de acordo com o tamanho dos cursos d`água. “Não é justo obrigar o agricultor familiar, que tem uma pequena propriedade, a recuperar mata ciliar numa proporção que pode inviabilizar sua produção – 15 metros - e, ao mesmo tempo, permitir que os donos de grandes extensões de terra, onde geralmente passam os grandes rios, não recuperem nada.”


Veja a proposta de gradação para a Recuperação de APPs dos deputados do PT para a agricultura familiar (áreas de até quatro módulos fiscais):


largura do rio......................................recomposição
até 5m..............................................................5m
+ de 5m até 10m................................................7,5m
+ de 10m até 30m...............................................15m
+ de 30m até 199m...................metade da largura do rio
200m ou +.........................................................100m
Bohn Gass explica que, como está, o texto do Código Florestal só prevê recomposição de áreas para rios com largura inferior a 10 metros. Nestes casos, a exigência é de 15 metros de recuperação.
SEM ANISTIA – O deputado chama a atenção para o fato de que seu projeto resolve o debate sobre anistia a desmatadores. “Não tem anistia pra ninguém. Quem desmatou deve replantar. Mas apresentamos uma alternativa bastante razoável. Primeiro, a União implanta o PRA, Programa de Regularização Ambiental e traça as normais gerais, exigências básicas para a recomposição da vegetação. Depois, com base nestas diretrizes, cada Estado, de acordo com suas pecualiaridades territoriais, climáticas, culturais, econômicas, etc... detalha o seu próprio programa, mas legislando apenas restritivamente. O próximo passo é a assinatura de um termo de conduta que cada proprietário rural que tem área desmatada, deve assinar. “Quem cumprir estes regramentos, não será multado, ou seja, todos os que desmataram terão de recompor”, resume Bohn Gass.


Murdoch, corrupção e gastos em publicidade na campanha eleitoral

Por Amy Goodman * 
Do  Esquerda.net 


As eleições deste ano serão, sem dúvida, as mais caras da história do país; algumas projeções calculam que superarão os 5.000 milhões de dólares. Mas não aumentaram só as despesas: a natureza das mesmas também aumentou após o fracasso de 2010 do Supremo Tribunal dos Estados Unidos no caso Citizens United, que permite o gasto ilimitado de empresas, sindicatos e dos denominados super PACs (ou comités de ação política) na campanha eleitoral, tudo sob o lema da “liberdade de expressão”. Esta campanha eleitoral vai-se desenvolver no meio do ressurgimento do movimento Occupy Wall Street, que foi relançado a nível mundial no 1º de Maio, no mesmo dia em que o Parlamento britânico publicou um informe sobre o império mediático de Rupert Murdoch, no qual ele é acusado de não ser “uma pessoa idónea para dirigir uma grande empresa multinacional”. Agora, mais do que nunca, as pessoas deveriam seguir o conselho do Garganta Funda, a famosa fonte do caso Watergate: “Segue o rasto do dinheiro”.

A maior parte do dinheiro das eleições vai para os cofres dos canais de televisão, que emitem os anúncios de campanha. Segundo Robert McChesney e John Nichols, da revista Monthly Review, os gastos com propaganda política na televisão estão a disparar, tanto que “tendo em conta a inflação. Na campanha eleitoral de 1972 gastou-se menos de 3% do que se gastará em publicidade política na televisão na campanha de 2012”.

Por ocasião de uma disputa eleitoral relativamente pequena, a recente eleição primária democrata na Pensilvânia para definir candidatos ao Congresso, o jornalista Ken Knelly fez uma análise exaustiva da cobertura das eleições nos noticiários da televisão local e da quantidade de publicidade política que foi transmitida nos mesmos canais de televisão. O título do artigo de Knelly diz tudo: “28 horas de anúncios políticos (e alguns poucos minutos de notícias)”. Os canais que transmitem neste estado predominantemente democrata emitiram durante a campanha mais de 3.300 anúncios publicitários políticos. Knelly diz que “de vez em quando aparecia nos noticiários informação sobre a campanha”, que ficava perdida entre horas de publicidade e afirma que o conteúdo da informação deixava muito a desejar.

O modo como Knelly conseguiu investigar estes dados é fundamental. A Comissão Federal de Comunicações (FCC, na sigla em inglês) exige aos canais de televisão que disponham de um arquivo de consulta pública acessível a qualquer cidadão. Parte da informação contida no arquivo são os detalhes da venda de espaço publicitário para a campanha política, o montante pago e a entidade que o comprou. Recentemente tentou-se obrigar estas emissoras, que obtêm enormes lucros com a publicidade política, a publicarem estes arquivos na Internet. Os canais opuseram-se firmemente a estas tentativas e, apesar de habitualmente saírem vitoriosos das disputas que travam nos salões da amigável FCC, perderam esta batalha. Na sexta feira 27 de abril, a FCC decidiu por dois votos a favor e um contra exigir aos canais de televisão que, num período não superior a dois anos, deixem de levar o arquivo em papel e comecem a publicá-lo na Internet. O jornalista da ProPublica Justin Elliot assinalou que os arquivos não ficarão em formato padrão e provavelmente não conterão a opção “procurar”.

A ProPublica lançou uma campanha denominada “Libertem os arquivos”, que é coordenada por Justin Elliot: “Os meus companheiros da ProPublica estão a pedir às pessoas, a outros jornalistas, a estudantes de jornalismo e aos leitores que vão aos canais, especialmente quando esta norma entrar em vigor, que está previsto que seja mais tarde durante a campanha. No início a norma só se aplicará aos canais dos cinquenta mercados principais. Então, pede-se-lhes que vão aos canais, não é necessário ter senha prévia, e solicitem o arquivo político, que façam cópias, digitalizem-nas, as enviem para nós, que as publicaremos na Internet no site ProPublica.org”.

A maioria das grandes cadeias de televisão norte-americanas fizeram lóbi contra as novas normas de divulgação de informação, entre elas a cadeia Fox, uma das joias mais apreciadas da empresa News Corp, o império mediático de Rupert Murdoch. Murdoch recebeu um duro golpe nesta semana, após a publicação de um informe do parlamento britânico sobre o escândalo das escutas telefónicas que abalou os seus jornais na Grã-Bretanha. O escândalo explodiu em 2011 quando o jornal “The Guardian” noticiou que jornalistas do jornal sensacionalista “News of the World” tinham invadido, em 2002, a caixa de mensagens de voz do telemóvel de Milly Dowler, uma vítima de homicídio de 13 anos. Enquanto Dowler estava desaparecida, os jornalistas apagaram algumas das suas mensagens de voz, o que deu aos familiares da jovem a falsa esperança de que podia estar viva.

Os jornalistas, juntamente com uma investigação judicial e audiências no parlamento, revelaram uma cultura de criminalidade por detrás da fachada de recolha de informações do agora defunto “News of the World”. A comissão parlamentar publicou o informe esta semana. O deputado britânico Tom Watson declarou: “Gente com muito poder esteve envolvida no encobrimento e ainda não assumiram a responsabilidade. Esta gente corrompeu o nosso país, envergonhou as nossas forças policiais e o nosso parlamento. Utilizou mentiras e enganos, chantagem e intimidação e todos deveríamos envergonhar-nos ao pensar como nos acobardámos perante eles durante tanto tempo. Se na verdade queremos pôr fim a isto, são precisos mais do que castigos simbólicos. São necessárias acusações concludentes. O pilar da justiça consiste justamente em que os culpados sejam responsabilizados”.

O escândalo também levou a que se descobrisse que oficiais de polícia britânicos tinham sido subornados, delito que, devido a que a News Corp é uma empresa norte-americana, poderia ser investigado no quadro da lei federal norte-americana de Práticas Corruptas no Estrangeiro, que proíbe que as empresas norte-americanas cometam suborno no estrangeiro. Em resposta a isto, o grupo independente “Citizens for Responsability and Ethics in Washington” (Cidadãos pela Responsabilidade e a Ética em Washington) solicitou à FCC que revogue as 27 licenças de emissão televisiva que Murdoch controla nos Estados Unidos.

Se é um delito subornar um oficial de polícia em Londres, é perfeitamente legal que se gastem 5.000 milhões de dólares para influenciar o curso das eleições norte-americanas e que os canais poderosos obtenham, em consequência, enormes lucros. Há que aplaudir a FCC pelas suas novas regras de transparência. Em última instância, os candidatos políticos deveriam ter tempo grátis nos média para apresentar o seu programa aos eleitores. Até que isso suceda será tarefa dos jornalistas, dos ativistas e dos cidadãos comuns seguir o rasto do dinheiro.

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* Amy Goodman é Co-fundadora da rádio Democracy Now, jornalista norte-americana e escritora.
Artigo publicado em "Democracy Now" em 3 de maio de 2012. Denis Moynihan colaborou na produção jornalística desta coluna. Texto em inglês traduzido por Mercedes Camps para espanhol. Texto em espanholtraduzido para português por Carlos Santos para Esquerda.net


O temor da velha mídia

Pra quem ainda não entendeu a raivinha da velha mídia, vai aqui foto da tela do @FFrajola, com tuíte do @caique_ramos e abaixo o vídeo, dica do  @mariocaporicci .










A face nazista da ditadura brasileira

por  Frei Betto 


A notícia é estarrecedora: militantes políticos envolvidos no combate à ditadura militar tiveram seus corpos incinerados no forno de uma usina de cana de açúcar em Campos dos Goytacazes, no norte do estado do Rio de Janeiro, entre 1970 e 1980.



O regime militar, que governou o Brasil entre 1964 e 1985, merece, agora, ser comparado ao nazismo.

A revelação é do ex-delegado do DOPS (polícia política) do Espírito Santo, Cláudio Guerra, hoje com 71 anos.

Segundo seu depoimento aos jornalistas Marcelo Netto e Rogério Medeiros, no livro “Memórias de uma guerra suja” (Topbooks), no forno da usina Cambahyba - de propriedade de Heli Ribeiro Gomes, ex-vice-governador do Rio de Janeiro entre 1967 e 1971, já falecido -, foram incinerados Davi Capistrano, o casal Ana Rosa Kucinski Silva e Wilson Silva, João Batista Rita, Joaquim Pires Cerveira, João Massena Melo, José Roman, Luiz Ignácio Maranhão Filho, Eduardo Collier Filho e Fernando Augusto Santa Cruz Oliveira.

Os militantes teriam sido retirados de órgãos de repressão de São Paulo – DEOPS e DOI-CODI – e do centro clandestino de tortura e assassinato conhecido como Casa da Morte, em Petrópolis.

Cláudio Guerra acrescenta às suas denúncias que o coronel Carlos Alberto Brilhante Ulstra, um dos mais notórios torturadores de São Paulo, teria participado, em 1981, do atentado no Riocentro, na capital carioca, na véspera do feriado de 1º. de Maio.

Se a bomba levada pelos oficiais do Exército não tivesse estourado no colo do sargento Guilherme Pereira do Rosário, ceifando-lhe a vida, centenas de pessoas que assistiam a um show de música popular teriam sido mortas ou feridas.

O objetivo da repressão era culpar os “terroristas” pelo hediondo crime e, assim, justificar a ação perversa da ditadura.

Guerra aponta ainda os agentes que teriam participado, em 1979, da Chacina da Lapa, na capital paulista, quando três dirigentes do PCdoB foram executados. Acrescenta que a “comunidade de informação”, como eram conhecidos os serviços secretos da ditadura, espalhou panfletos da candidatura Lula à Presidência da República no local em que ficou retido o empresário Abílio Diniz, vítima de um seqüestro em 1989, em São Paulo, de modo a tentar envolver o PT.

Uma das revelações mais bombásticas de Cláudio Guerra é sobre o delegado Sérgio Paranhos Fleury, o mais impiedoso torturador e assassino da regime militar, morto em 1979 por afogamento. Tido até agora como um acidente, segundo o ex-delegado, teria sido “queima de arquivo”, crime praticado pelo CENIMAR, o serviço secreto da Marinha.

Guerra assume ter assassinado o militante Nestor Veras, em 1975, alegando que apenas deu “o tiro de misericórdia” porque ele havia sido “muito torturado e estava moribundo”.

Das notícias da repressão há sempre que desconfiar. Guerra fala a verdade ou mente? Tudo indica que o ex-delegado, agora travestido de pastor adventista, não se limitou, na prática de crimes, à repressão política. Em 1982, a Justiça o condenou a 42 anos de prisão pela morte de um bicheiro, dos quais cumpriu 10 anos. Em seguida mereceu 18 anos de condenação por assassinar sua mulher, Rosa Maria Cleto, com 19 tiros, e a cunhada, no lixão de Cariacica, em 1980.

Ele alega inocência nos três casos, embora admita que matou o tenente Odilon Carlos de Souza, a quem acusa de ter liquidado sua mulher Rosa.

O Brasil é o único país da América Latina que se recusa a punir aqueles que cometeram crimes em nome do Estado, entre 1964 e 1985. O pretexto é a esdrúxula Lei da Anistia, consagrada pelo STF, que pretende tornar inimputáveis algozes do regime militar.

Ora, como anistiar quem nunca foi julgado e punido? Nós, as vítimas, sofremos prisões, torturas, exílios, banimentos, assassinatos e desaparecimentos. E os que provocaram tudo isso merecem o prêmio de uma lei injusta e permanecer imunes e impunes como se nada houvessem feito?

O nazismo foi derrotado há quase 70 anos, e ainda hoje novas revelações vêm à tona. Enganam-se os que julgam que a Lei da Anistia, o silêncio das Forças Armadas e a leniência dos três poderes da República haverão de transformar a anistia em amnésia. Como afirmou Walter Benjamin, a memória das vítimas jamais se apaga.

Frei Betto é escritor, autor de “Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” (Rocco), entre outros livros.
Página e Twitter do autor: http://www.freibetto.org - Twitter:@freibetto.

14 maio, 2012

Pela desapropriação da usina de Cambahyba



Por José Coutinho Junior
Do Correio do Brasil

“O local foi aprovado. O forno da usina era enorme. Ideal para transformar em cinzas qualquer vestígio humano. A usina passou, em contrapartida, a receber benefícios dos militares pelos bons serviços prestados. Era um período de dificuldade econômica e os usineiros da região estavam pendurados em dívidas. Mas o pessoal da Cambahyba, não. Eles tinham acesso fácil a financiamentos e outros benefícios que o Estado poderia prestar.” (Cláudio Guerra, ex-delegado do DOPS)

“A título de sugestão, optando pela retirada forçada, deve-se agir sem aviso prévio, compartimentada, mais cedo possível, despejando-se imediatamente, com o mínimo de diálogo, todos aqueles que estiverem nas construções, bem como os seus pertences, prendendo se necessário e na seqüência, destruir as casas.” (Adriano Dias Teixeira Amorim do Vale – Delegado Federal – Dezembro de 2005)

Em 1997, a área no município de Campos dos Goytacazes (RJ) onde as usinas de açúcar Cambahyba, Santa Maria, Carapebus e Quissamã se localizam, composta por sete fazendas que totalizam 3500 hectares, foi considerada improdutiva. Mas o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), com exceção de uma área de 550 hectares – que deu origem ao assentamento Via Lopes -, até hoje não foi capaz de realizar as desapropriações em toda a área, pois o Poder Judiciário acatou liminares dos proprietários.

Para Fernando Moura, da coordenação do MST, “essa morosidade revela o poder dos fazendeiros. Vale lembrar que as áreas têm dívidas grandes com a União, além do fato de ter sido encontrado trabalhadores em condições análogas à escravidão na região”.

Violência interminável

Um fato até então desconhecido sobre a usina de Cambahyba chocou a sociedade brasileira. A usina foi palco, no período da Ditadura Militar, de um crime bárbaro. O ex-delegado do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), Cláudio Guerra, conta no livro Memórias de uma Guerra Suja que a usina de Cambahyba foi usada pelos militares para incinerar corpos de militantes de esquerda que haviam sido mortos devido às torturas praticadas pelo regime em órgãos como o próprio DOPS. Guerra conta que ele mesmo incinerou dez corpos, dentre os quais estavam os de David Capistrano, João Massena Mello, José Roman e Luiz Ignácio Maranhão Filho, dirigentes históricos do Partido Comunista Brasileiro (PCB).

“Em determinado momento da guerra contra os adversários do regime passamos a discutir o que fazer com os corpos dos eliminados na luta clandestina. Estávamos no final de 1973. Precisávamos ter um plano. Embora a imprensa estivesse sob censura, havia resistência interna e no exterior contra os atos clandestinos, a tortura e as mortes”, relata Guerra.

A solução encontrada foi utilizar os fornos da usina e queimar os corpos, de forma a não deixar vestígios. A usina, à época, era propriedade do ex-vice-governador do estado do Rio, Heli Ribeiro, que topou o acordo, pois ele “faria o que fosse preciso para evitar que o comunismo tomasse o poder no Brasil”. Além disso, o regime militar oferecia armas a Heli para que ele combatesse os sem terra da região.

Passados décadas desse trágico episódio, a violência na região de Cambahyba continua. Em 2006, o acampamento Oziel Alves, que abrigava 150 famílias sem terra há mais de seis anos, foi destruído em uma operação pelas polícias militar e federal, com aval da Justiça do Estado e acompanhados do dono usina, Cristóvão Lisandro.

Não houve diálogo nem negociação com a população, que além de habitar a área, produzia hortifrutigranjeiros e gado de leite: as pessoas foram retiradas à força de seus lares, sem poder salvar seus pertences. As estradas próximas ao acampamento foram trancadas, o que impediu que a imprensa pudesse cobrir os fatos quando a operação começou – ela só teve acesso ao acampamento cinco horas após o início da operação policial -, e os policiais entraram nas casas sem apresentar ordem judicial, destruindo pertences dos moradores.

Os Sem Terra que tentaram negociar foram presos, agredidos física e moralmente, e só saíram da delegacia após assinarem declaração de que portavam “armas brancas”, que eram na verdade as ferramentas de trabalho dos produtores. Após a revista nas casas pelos policiais, elas foram derrubadas por máquinas, deixando os moradores sem qualquer amparo.

Desapropriação

Francisco conta que, desde outubro do ano passado, a decisão de desapropriar as áreas está na 2ª Vara de Justiça do Estado. O MST pretende pressionar para que a decisão seja favorável à Reforma Agrária. Segundo Francisco, após saber do passado trágico da usina, diz que “a violência da Ditadura e do latifúndio tem uma relação grande. Agora, a luta se intensifica, para tornar esta terra produtiva com a Reforma Agrária e denunciar a postura de um Judiciário que favorece os proprietários”.

Gurgel também parece “morrer de medo"

Por Wálter Fanganiello Maierovitch
Do Terra
Dica do @turquim5

Fear

No Brasil, durante esta semana, não sopraram desejados ventos democráticos. Aqueles ventos que refrescam memórias sobre como funciona um verdadeiro Estado Democrático de Direito. Por isso, os cemitérios estiveram agitados, com juristas eméritos a revirar nas campas.

Por partes.

1. O procurador-geral Roberto Gurgel entendeu em não aceitar o convite para prestar esclarecimentos aos membros da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito que apuram o chamado “Escândalo Cachoeira”.

Ao declinar do convite, Gurgel disse que não pode atuar como titular da ação penal e como uma espécie de testemunha na CPMI ao mesmo tempo. Logo depois, disse à mídia que segurou o inquérito Vegas para aguardar as apurações que estavam em curso, numa referência à Operação Monte Carlo.

Desde logo, frise-se, Gurgel não seria chamado para testemunhar, mas para explicar uma desídia, com violação ao determinado no vigente Código de Processo Penal, ou seja, o fato de ter, desde 2009 e a descumprir prazo legal para devolução com pronunciamento, colocado no freezer os autos de inquérito policial sobre a chamada Operação Vegas.

Nos Estados de Direito, os poderes são independentes e existe, entre eles, além da harmonia, um sistema de freios e contrapesos. Por isso, existe o dever de fiscalizações recíprocas. Isso obriga Gurgel, como chefe do Ministério Público, de prestar esclarecimentos a uma comissão parlamentar. Aliás, uma comissão mista voltada a apurar crimes graves como, por exemplo, corrupção, lavagem de dinheiro, tráfico de influência, licitações forjadas.

Da mesma forma que Gurgel, os chefes dos executivos estaduais, os governadores de Goiás, Distrito Federal e Rio de Janeiro, têm o dever de atender às convocações da CPMI instaurada.

Apenas teriam motivos para não comparecer, no caso, os ministros do Supremo Tribunal Federal em condições de julgar futuras ações penais contra Demóstenes, Cachoeira et caterva.

Além disso, depois de atender à convocação da CPMI, o procurador-geral, caso se sinta impedido, poderá deixar o caso Cachoeira para seu substituto legal.

Como regra, portanto, ninguém pode deixar de atender à convocação de uma CPMI. Assim sendo, Gurgel poderá, ainda e por haver declinado do convite formulado, ser convocado. Terá o dever de comparecer, salvo se obtiver liminar de dispensa do Supremo Tribunal Federal: Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa estarão impedidos por terem adiantado suas teses fora dos autos, ou seja, intempestivamente.

2. Depois da canhestra explicação dada para declinar do convite formulado pela CPMI, o procurador-geral da República resolveu apelar para o diversionismo sem a coragem de dar nomes. E para um acusador de ofício pega muito mal omitir nomes. Fosse em juízo, sua denúncia seria inepta.

A propósito, Gurgel disse estar está sendo criticado por pessoas que “estão morrendo de medo do Mensalão”.

Gurgel deve explicações aos cidadãos brasileiros e aos parlamentares que o representam. Em outras palavras, deve esclarecimentos à CPMI sobre ter transformado o seu gabinete de trabalho em freezer para congelar e não dar andamento, ou solução, a inquérito policial.

O procurador-geral, frise-se mais uma vez, disse que segurou o inquérito Vegas para aguardar as apurações que estavam em curso, numa referência à Operação Monte Carlo.

Esqueceu Gurgel que o inquérito Vegas estava concluído em 2009 e a Monte Carlo é recentíssima. Nem se cogitava a Monte Carlo quando a Vegas já estava concluída.

Fora isso, diz a lei processual penal que o representante do Ministério Público, ao receber o inquérito, deve, dentro de 30 dias no caso de indiciado solto, denunciar (propor a ação penal), requerer diligências ou solicitar o arquivamento do inquérito.

Nada disso fez Gurgel. Ou melhor, colocou no freezer o inquérito. Talvez por possuir bola de cristal e enxergar que, passados alguns anos, aconteceria a Operação Monte Carlo.

3. Não se deve esquecer, ainda, ter o delegado de polícia responsável pelo inquérito decorrente da Operação Vegas, Raul Alexandre Marques de Souza, contado, na primeira sessão da CPMI, haver Gurgel incumbido a sua esposa, a subprocuradora Cláudia Sampaio, de transmitir, isso em 2009, a inexistência de indícios do envolvimento do senador Demóstenes Torres. Ora, pela lei processual penal, Gurgel deveria, no mesmo ano, ter pedido novas diligências ou o arquivamento do inquérito. Não fez isso e, de quebra, teve o voto de Demóstenes, que antes o atacava, na sabatina para sua recondução ao cargo de procurador-geral.

Pano rápido. A conduta de Gurgel ao tentar fugir da CPMI mostra, na verdade, que não somente petistas estão com medo do Mensalão como insinuou. Gurgel, também treme de medo de explicar o inexplicável.


Cúpula dos Povos rejeita conceito de economia verde da Rio+20





Do Terra
dica da @zildaeducom
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As lideranças responsáveis pela organização da Cúpula dos Povos, reunião de movimentos populares paralela à Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), divulgaram neste domingo um documento condenando o conceito de economia verde, defendido por integrantes de governos que participarão da Rio+20, que ocorrerá em junho, no Rio.

O documento critica, em três páginas, o foco das discussões em torno da Rio+20, que não estaria tocando na questão fundamental da crise global, que na visão dos participantes da Cúpula dos Povos, "é o capitalismo, com suas formas clássicas e renovadas de dominação, que concentra a riqueza e produz desigualdades sociais".

Os organizadores elaboraram o texto durante encontro internacional no Rio e divulgaram o conteúdo em coletiva de imprensa. A mexicana Silvia Ribeiro, diretora da organização ETC, dedicada a temas agroalimentares, disse que a economia verde é um nome enganoso.

"Muitos creem que é algo positivo, mas é um disfarce para mais negócios e mais exploração dos ecossistemas. O outro aspecto é que eles querem se apropriar da natureza usando tecnologias perigosas, como os transgênicos e a biologia sintética. É uma solução falsa dizer que vai se resolver tudo com tecnologia, em vez de se ir às causas para baixar as emissões do efeito estufa, os padrões de produção e o consumo", criticou Silvia.

A canadense Nettie Wiebe, produtora de alimentos orgânicos e ligada à Via Campesina, alertou para o perigo de se liberar as sementes de tecnologia terminator, que geram plantas modificadas geneticamente para serem inférteis, forçando agricultores a comprarem novas sementes a cada safra. Segundo ela, apesar de haver embargo internacional contra esse tipo de semente, grupos internacionais do agronegócio estão interessados em patrocinar sua liberação.

A norte-americana Cindy Wiesner, dirigente da organização Grassroots Global Justice Alliance, criticou a provável ausência do presidente Barack Obama na Rio+20. "Historicamente, somos o país que mais destrói o planeta e temos uma responsabilidade muito grande de oferecer outras práticas. Mas o que vemos, com a ausência do presidente Obama, é que ele não se importa com isso. É uma pena que não venha, pois seria uma oportunidade para ouvir milhões de pessoas que querem uma alternativa", disse a americana.

Outro ponto destacado no documento da Cúpula dos Povos é a luta contra a sanção do projeto original do Código Florestal brasileiro, conforme aprovado pelo Congresso e que agora depende da decisão da presidente Dilma Rousseff em modificar ou não a matéria através de veto. "Conclamamos todos os povos do mundo a apoiarem a luta do povo brasileiro contra a destruição de um dos mais importantes quadros legais de proteção às florestas (Código Florestal), o que abre caminhos para mais desmatamentos em favor dos interesses do agronegócio e da ampliação da monocultura", assinala trecho do documento.



13 maio, 2012

Tuiteira de 59 anos é acusada de ser robô programado pelo governo para atingir Veja

Do pastebin
dica da compa @Lucy_in_sky_

Foto do perfil de @Lucy_in_sky_

Para justificar campanha contra Veja no Twitter, Reinaldo Azevedo acusa tuiteira de ser um robô programado pelo governo para atingir alvos políticos. Blogueiro também censurou comentário da acusada rebatendo denúncia.

Em "Como Fraudar a Internet", Reinaldo Azevedo afirma que o perfil @lucy_in_sky_ “foi programado para identificar mensagens de outros usuários que contivessem os termos-chave dos tuitaços, replicando-as”. Seria perfeito para explicar mais um protesto contra a revista, se a dona do perfil não fosse uma pacata carioca de 59 anos, estudiosa do comportamento humano, amante dos animais e profissional da saúde. “Foi como tomar um tapa na cara”, conta ela.

Lucy (sua identidade será preservada), soube por amigos, no sábado que seu perfil era acusado de operar um esquema fraudulento para atacar a revista Veja com hashtags como #VejaTemMedo e #VejaBandida. “Trabalho e estudo. Não tenho muito para dar minha opinião, mas acho importante fazê-la. Por isso tantos retuítes”.

O perfil de Lucy tem exatos 3 anos. “Entrei no twitter, a princípio, por curiosidade, mas depois percebi todo o alcance social e político. Procuro participar de vários tuitaços que mostrem minha opinião política. Participei do #ForçaLula e sempre que posso faço campanha contra crueldade com animais”.

A conta de Reinaldo Azevedo é simples, mas não fecha. Ele usa o exemplo da China, que recruta jovens com tempo disponível para lançar mensagens de apoio ao governo na internet. Na cabeça da Veja, o regime chinês é muito parecido com o brasileiro. Nada faria mais sentido se o governo também pagasse militantes para detonar inimigos políticos.

Afinal, quem fica na frente de um computador, num final de semana, sem ser pago? Só para fazer política? “Quando eu vejo algum tweet que expresse minhas opiniões e posições, eu retuíto”. Diante de tantos RTs contra Veja, Reinaldo Azevedo criou uma fantasia: Lucy era um programa criado por petistas com a única intenção de detonar Veja “O que me impressionou na reportagem da Veja foi a história detalhada que eles inventaram, dizendo como é que eu "funcionava" como robô. Teve até infográfico”

Na noite de ontem, Lucy acessou o blog de Reinaldo Azevedo e deixou uma mensagem, afirmando ser dona do perfil acusado de ser robô. Seu comentário foi censurado e Azevedo continua afirmando que Lucy não passa de uma ficção virtual.

Pergunta: Você já deu RT na Mariana Godoy e na Real Morte elogiando a Regina Casé. Não é propriamente um RT anti-Veja, não é?
Claro que não!!!! rs Não sei por que cismaram com isso!

P: Como reagiu quando viu seu perfil na Veja?
R: Foi muito ruim ver na Veja meu perfil exposto daquela maneira, e ainda mais, "provando" que sou um robô. Foi um tapa na cara.

P: Quem é você, o que gosta de fazer?
R: @lucy_in_sky_: Sou profissional da saúde e que tenho 59 anos. Adoro ler, ir ao cinema (recentemente vi "Medianeras", um filme argentino sobre a nossa contemporaneidade virtual). Não tenho filhos, não gosto de futebol. Faço caminhadas no calçadão, sempre que tenho tempo.

P: Como usa o twitter?
Me interesso muito por tudo o que diga respeito ao nosso mal-estar contemporâneo, que faz, muitas vezes, que só possamos fazer política pela internet. Sou partidária dos direitos humanos e também dos animais, não suporto injustiça contra os mais fracos.

A revista Veja foi ao inferno e voltou queimada

Por Mauricio Dias
Do CartaCapital

Faust de Murnau























Argumenta a direção de Veja, apoiada por um grupo de acólitos furibundos e direitistas desnorteados, que os repórteres da revista, em razão da natureza da reportagem, mantiveram relações perigosas com Carlinhos Cachoeira como, às vezes, exige a insalubridade da missão do profissional em busca de informações importantes para conhecimento da sociedade.

Há registro de mais de 200 telefonemas trocados entre os repórteres e Cachoeira, uma fonte de onde jorraram algumas das principais “investigações” daquela revista semanal.

O princípio defendido é correto. E o número de ligações telefônicas, por si só, não significa nada além do fato de se falarem muito. Mas as conversas travadas pelo repórter e o contraventor Cachoeira são de preocupante intimidade, como mostram algumas transcrições já publicadas.

“Fala pra ele que é de confiança o homem”, diz o senador Demóstenes Torres para Carlinhos Cachoeira ao se referir ao repórter de Veja.

O repórter é sempre o elo mais fraco nesse processo, conforme deixa entender Eurípedes Alcântara, diretor de redação de Veja. Ele tentou explicar assim o envolvimento da revista com um contraventor que agora já pode ser carimbado como criminoso: “… casos assim jamais são decididos individualmente por um jornalista, mas pela direção da revista”.

A frase de Alcântara protege o pé e descobre a cabeça. Talvez ele tenha tentado preservar o repórter dos longos braços da CPI, mas certamente expôs os donos da revista. Ele próprio ocupa um “cargo de confiança” pelas mesmas razões que o repórter de Veja era da confiança do senador Demóstenes.

Confiança no Brasil traduz a confiança “pessoal” e não a “profissional”.

Esse processo confirma, em última instância, que o repórter de confiança do editor e de Cachoeira é também de confiança do dono. Assim fica claro que o acordo liga Cachoeira diretamente a Roberto Civita, dono da Veja.

Nesse caso, portanto, a tese correta sobre a insalubridade do trabalho do repórter desvirtuou-se na prática.

A crítica que se faz é ao desvio de conduta, comprovada por uma série histórica de erros intencionalmente cometidos. O elenco é grande e aponta uma tendência política. São geralmente denúncias, ao longo dos governos de Lula e Dilma, notadamente apontando suspeitas de focos de corrupção em setores específicos da administração federal.

A base do acordo entre o contraventor e Veja foi firmado assim: ele entregou as informações e ela silenciou sobre os crimes cometidos para obtê-las.

Repórter conversar com demônios faz parte da rotina do trabalho. A questão está no pacto que se firma. O repórter só pactua com o aval do editor.

Adrian Leverkun, pianista, personagem de Thomas Mann (Montanha Mágica) entregou a alma ao demônio para obter sucesso. Antes, o Fausto de Goethe fez o mesmo.

Além de poder assumir aparência humana, há quem diga que o diabo seja o inspirador do neoliberalismo. Há mesmo quem sustente hipótese de a “mão invisível” de Adam Smith ser a própria mão do diabo.

Nos anos 1940, o jovem estudante Raymundo Faoro, ao mudar de Vacaria para Porto Alegre, tentou um pacto para sobreviver à fome.

“O diabo não me deu nenhuma importância”, conta Faoro nos inéditos Manuscritos Perdidos, ainda em preparo.

O silêncio diante da proposta de Faoro sugere que o diabo sabe com quem faz acordo.

Veja mete a mão em vespeiro e sai ferida

Do 247
dica do @stanleyburburin
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13 de May de 2012 às 07:22

Ao rotular como insetos ou robôs internautas que criticam a publicação, revista da Abril é alvo de um protesto gigantesco no Twitter; arrogância distancia leitores e mostra despreparo para lidar com crises de imagem nas redes sociais.  



Não se espere de qualquer grande veículo de comunicação qualquer tipo de autocrítica. Todos eles têm sempre razão. Na história do jornalismo brasileiro, o único que reconheceu um erro de informação dando o mesmo destaque na primeira página foi o Correio Braziliense, quando comandado por Ricardo Noblat. Na época, a ousadia rendeu um Prêmio Esso ao jornal.

Veja vem sendo criticada há várias semanas por internautas do Brasil inteiro. Sofre aquilo que os especialistas definiriam como uma crise de imagem nas redes sociais. Algo que pode acontecer com qualquer empresa. Recentemente, por exemplo, ocorreu com a Claro e com seu garoto-propaganda Ronaldo, que não cumpriram uma promoção anunciada na Páscoa.

Em casos desse tipo, os consultores recomendam humildade, cautela e, sobretudo, diálogo com os internautas. Veja preferiu adotar o caminho oposto. Optou pela arrogância, pela prepotência e pelo desprezo pelos internautas (grifo meu). Numa reportagem deste fim de semana, rotulou como “insetos”, “robôs” ou “petralhas amestrados” os internautas que têm participado de seguidos tuitaços contra a publicação, desde que se evidenciou a proximidade entre a revista e o bicheiro Carlinhos Cachoeira.

O resultado foi devastador. Neste sábado, Veja liderou os trending topics durante praticamente todo o sábado. Começou ao meio-dia e ainda agora estava lá, seja com #VejaComMEDO, seja com #VejaTemMEDO. Muitos internautas alteraram até as fotos dos seus perfis e passaram a utilizar imagens de robôs ou insetos. Na grande maioria, são jovens, potenciais leitores de Veja, mas que vêm disseminando uma mensagem que ninguém consegue calar e que pode ser devastadora: a de que a maior revista do Brasil tinha algum tipo de associação com um esquema criminoso. Nesse tom, mais de 25 mil mensagens foram postadas no Twitter.

Corrosão de imagem

Num caso semelhante de crise de imagem, o magnata australiado Rupert Murdoch publicou anúncios em diversos jornais, pedindo desculpas pelo comportamento do tabloide News of the World, que se valia de grampos ilegais em suas reportagens. Assim, pôde preservar a credibilidade de sua publicação mais valiosa, que é o jornal americano The Wall Street Journal.

Veja, naturalmente, tem todo o direito de menosprezar as manifestações dos leitores, atribuindo-as à “manipulação criminosa”, como definiu o blogueiro Reinaldo Azevedo. Mas cupins, quando começam a roer uma madeira, raramente são percebidos. E, quando menos se espera, toda a estrutura desaba.

Num poema clássico, o pernambucano Ascenso Ferreira fala de uma “madeira que o cupim não rói”. Será Veja tão sólida para resistir ao ataque dos insetos, que começam a se transformar nos verdadeiros formadores de opinião? (grifo meu)

10 maio, 2012

Querido amigo Sócrates

Do CartaCapital
Por Afonsinho

Querido amigo Sócrates,

vamos continuar conversando. Não há de ser uma simples partida que pode interromper o nosso campeonato e o verso diz que a morte é a contingência do esporte da vida. Além do mais, “aqui na Terra estão jogando futebol (na Espanha? na Alemanha?), tem pouco samba, muito funk e rock’n’roll”. Mas o que me incomoda mesmo é a sensação de voltar no tempo, retroceder. No fim das contas, estão aí o Passe Livre e a Democracia Corintiana.




Foto: Sergio Goncalves Chicago/Flickr

O primeiro ainda que solapado pelos espertalhões de plantão e pela “bancada da bola” (como se pode admitir um bando de cartolas inescrupulosos ser chamado assim?). A segunda é um avanço, com a diferença de ser incontestável, porque ganhou também dentro do campo, nas famosas quatro linhas, e não existe argumento a ser invocado. Está aí um tema que podemos continuar comentando: concentração é cárcere privado?

Das suas preocupações, muitas continuam nos castigando: Fifas, CBFs etc. A Copa do Mundo, com todos os seus problemas, nos aperta contra a parede do tempo. Agora a boa-nova. Ganhamos um guerrilheiro da área. O baixinho Romário tem aproveitado bem as brechas e marcado golaços no Congresso. Temos estimulado os esportistas, não só do futebol, que detêm mandatos políticos a se unir a favor do esporte (aí sim uma bancada da bola). Lembra da nossa campanha na Constituinte?

Uma inédita. Por estes lados volta-se a “discutir” as Malvinas. Na cabeça de quem pode caber em nossos dias, se é que algum dia coube na cabeça de alguém, algum direito da Inglaterra sobre a região? O argumento final para se advogar esse absurdo, imagine, é o fato de as Malvinas terem sido colonizadas pelos ingleses. É um escárnio. Se a ONU não é capaz de decidir uma questão dessas, vamos mal. Nada de bravatas, militarismo desnecessário, no máximo uma indenização por benfeitorias e tchau.

Em matéria de futebol, a temperatura anda nas alturas, decisões por todo o Brasil e final da temporada europeia. De uma tacada só foram para o espaço Palmeiras e Corinthians. Perderam para a dupla campineira Ponte Preta e Guarani. Logo depois, o Santos derrotou o São Paulo e vai encarar o Guarani, que venceu a Ponte. No Rio, o Botafogo desbancou o Vasco, ganhou a Taça Rio e vai para a final contra o Fluminense.

No Velho Mundo, o Barcelona perdeu melancolicamente para o Chelsea, depois de estar vencendo por 2 a 0 num jogo feio de ataque e defesa típicos de time grande contra pequeno, em que às vezes ganha o Davi. Nesse jogo, o Barça sofreu um gol “messiano” do nosso Ramires. Já o argentino perdeu um pênalti e outro gol de pelada que mostrou um Barça desintegrado.

Ramires lembra a todo o momento o grande Moacir, que rivalizava com Didi a camisa 8 do Brasil antes da Copa de 1958. Jogava no Flamengo com arte e, em seguida, foi para o Equador, onde vive. Anda muito doente. Sempre trabalhou modestamente naquele país, a ensinar o maravilhoso futebol da geração de ouro.

Parece que estamos pela gota d’água. Na ânsia de “fazer dinheiro”, o futebol realiza vários torneios ao mesmo tempo, as datas se atropelam e grandes clássicos, a exemplo do Fla-Flu de tanta tradição, às vezes acabam esvaziados porque os treinadores dão prioridade à Libertadores e usam times reservas.

Onde há alguma organização de classe ainda existem férias respeitadas e tudo o mais. No futebol, os jogadores têm o descanso encurtado e começam a jogar antes da hora, em pré-temporadas mal organizadas.

No campo e fora dele, a violência. Os jogos lembram A Noite dos Desesperados: correria desenfreada, bolas perdidas a cada 5 metros e muitas vezes choques entre atletas do mesmo time.

Meu prezado, lembro-me da sua crônica explicando a sempre presente discussão sobre o crucial pênalti. É pior para o goleiro ou para o batedor? É falta de treinamento?
É justo ou correto decidir-se um título mundial por um único jogador? Mais um papo bom para a roda de amigos

E por falar em papo de amigos, todos andam preocupados com a Seleção. Acho que podemos ter um bom time em 2014, mas é uma irresponsabilidade o Brasil não ter um time-base a dois anos da disputa e com uma Copa das Confederações no meio. Enterrar a mágoa da Copa de 1950 será difícil. A CBF continua a apostar em um projeto formalista, engessado, que deu muito errado no último Mundial.

Amigo, as coisas vão acontecendo sempre e de vez em quando eu contarei as novas. Pois como insiste o poeta, “eu continuo aqui mesmo…”

Um abração e saudades,
Afonsinho

P.S. Obrigado, muito obrigado, Chico Anysio, quando no auge da pressão que eu sofria no Botafogo (impedido de receber material para treinar), numa de suas passagens por General Severiano em companhia do grande Nilton Santos, ter sido carinhoso comigo e aberto meus olhos para a maldade dos dirigentes. Suas palavras amigas muito me ampararam e foram lições de vida para o jovem que eu era então.

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